O Namorado

Capitulo 8
Os dias estavam cada vez mais corridos. Tudo na vida dos falcões, girava em torno deste casamento duplo que aconteceria no próximo mês. Era a primeira vez que teriam algo assim. O Medeiros e seus próximos já tinham feito todo tipo de casamento. No jardim de casa, num castelo, numa cabana, na praia, num hotel luxuoso, numa cobertura, num restaurante, mas nunca tinham participado de uma ocasião tão especial dentro de um iate. Isso realmente era uma novidade, e ainda com duas noivas. Ben e Jorge simplesmente amaram quando as meninas disseram que queriam que eles as levassem para o altar ao mesmo tempo, no mesmo lugar no mesmo dia. As mães, ambas bailarinas, se debulharam em lágrimas. Cisco era o único que parecia meio inconformado de ter que esperar três meses para se casar. Foi o tempo que Lia e as outras pediram para organizar todos os detalhes que a ocasião tão especial pedia. Rody, que sugeriu a ideia para começo de conversa, logo trouxe a outra novidade do casamento no iate. Vovô Rodolfo completou o momento pedindo que todos tirassem 15 dias de férias no cruzeiro. Assim, assistiriam ao casamento e aproveitariam as férias no navio juntos. Algo que nem todos já tinham feito. Rody conseguiu pacotes bem interessantes com a companhia para qual tinha trabalhado. E os Medeiros começaram com sua costumeira forma de trabalho em equipe. Menos de um mês e as férias pelas ilhas gregas no cruzeiro de 20 dias estava organizada. Todos os falcões iriam. Até Vincenzo que conseguiu com Sylvie adiantar suas tão merecidas férias. As primas de Alex precisaram da ajuda dos poderosos falcões para conseguir folgas. Tanto Eliana precisou de ajuda com o diretor do Hospital, como Gláucia no escritório de contabilidade. Já Laila, trabalhando na empresa junto com Alex, teve tudo acertado pelo primo antes mesmo de falar com o diretor. O cruzeiro foi escolhido com base no calendário das escolas. Clara e Rody, optaram por fazer umas pequenas reformas e a pintura do Medeiros, fechando o restaurante nestas 3 semanas. Para Jorge, foi preciso esquematizar tudo muito bem. Ele mandou vir a mesma equipe que sempre cuidava do orfanato, quando a família tirava férias junto. Mas era a primeira vez que ficaria três semanas fora e nem Ritinha, nem Diana, nem Alana estariam no seu lugar. Já para Nina, o problema maior era programar as apresentações e o retorno dos bailarinos sem causar estresse para a Companhia e seu cronograma. Como era próprio desta família, todos esses detalhes foram resolvidos eficazmente. Assim focaram no casamento com todas as forças. Escolheram os cardápios, toda a decoração, as roupas, lembrancinhas, músicas, convites, modelos de fotografia, penteados, arranjos e tudo mais que pudessem se pensar em menos de dois meses. Aos noivos, ainda coube escolher a suíte que ocupariam. Restando o último mês de solteiros pela frente, com tudo tão bem encaminhado, Rody achou que era a hora de escolher um lugar para morar.
__Você prefere que tipo de casa? – Disse enquanto dirigia para a construtora de Giu.- Ou prefere um apartamento?
__Eu nunca tinha pensado nisso.- Disse Alana em libras.- Acho que tinha esquecido que depois de casar não vou mais morar lá em casa.- Riu.-
__Então prefere casa? Uma chácara parecida com a do seu pai, talvez?
__Não sei. Será que Giu tem algo assim para vender? Pensei que a construtora só tivesse apartamentos?
__Não sei. Talvez tenha uma cobertura parecida com a do Ruivo, lá é bem legal também.
__E você? Em que tipo de lugar quer morar?- Ele sorriu.
__Qualquer lugar, desde que você esteja lá.- Alana se sentiu ainda mais amada.- Assim que entraram na Fazzano e Filhos, a construtora dos primos italianos, Giulliano , o pai, veio recebe-los.
__Então cugino, que tipo de imóvel vocês preferem?- Eles se olharam e riram.- Giu e Gigio entraram neste momento.
__Parecem que nossos caríssimos cuginos, não sabem onde querem morar, papa.- Disse o ponderado Giu.- Rody assentiu.
__Mas isso pode ser resolvido facilmente, picolo.- Disse Giulliano. Mostrou para eles apartamentos amplos em um dos seus edifícios, depois mostrou um condomínio horizontal e por último, casas magnificas de vários metros quadrados, muito elegantes. Alana achava tudo muito bonito, mas nada lhe chamava muito a atenção.
__Alana.- Disse Gigio, o primo arquiteto.- O que me mais gosta numa casa?- Ela respondeu rápido.
__O jardim.- Giu e Gigio se olharam.
__E o que mais gosta na casa que mora com seus pais?- Perguntou Giu o engenheiro. Ela pensou, pensou e sorriu.
__O balanço.- Giu sorriu para ela e disse:
__Sabe Alana, acabamos de reformar uma casinha muito charmosa, que acho que pode te interessar. A proprietária não disse nada sobre o que vai fazer com o imóvel. Pode ser que queira alugar ou vender. A casa tem dois quartos médios, com banheiros bem bonitos em estilo colonial. Uma cozinha americana funcional, que está sem os utensílios, mas aconchegante e arejada. Um lavabo bem elegante. A sala de estar é bem grande e tem vista para um jardim lindíssimo nos fundos da casa. Coincidentemente, neste jardim no fundo do quintal que é bem grande, tem uma Resedá branca com um balanço. – Os olhos de Alana brilharam. Giulliano tentou dizer alguma coisa, mas Gigio o impediu. E Giu continuou:- A casa não é muito grande. Tem muros baixos quase nostálgicos. Como disse, os quartos e a cozinha são de tamanho médio, os banheiros são confortáveis e foram recém reformados, tem uma graciosa e pequena varanda na fachada da frente,onde fica abrigada uma grande porta de madeira antiga, a entrada que da acesso primeiro a cozinha. Grande mesmo é só a sala e o quintal. Mas fica bem localizada perto da Prestes de Medeiros.- Alana já estava apaixonada pela casa.
__Eu gostaria muito de conhecer! Será que a dona quer vender?- Perguntou aos primos. Rody sorrindo respondeu.
__Você já conhece, linda.- Ela o olhou confusa.
__Fomos lá muitas vezes. Mamãe costumava ler para nós no jardim.- Alana parecia não se lembrar, então abriu mais os olhos.
__A casinha azul!- Sorriu feliz. Sim, a casinha azul. Essa casa era do Professor Carlos Carvalho, avô de Alana. Na verdade, tinha pertencido a mãe dele. Aquela de quem Alana recebera a caixa de prendas no noivado surpresa. Assim como a caixa, essa casa era parte da herança de Nina. Durantes anos, tinha sido usada como biblioteca auxiliar da Prestes de Medeiros, a escola da família. Sempre funcionou muito bem porque a escola que ficava no quarteirão de trás da casa tinha um pequeno portão no muro do fundo que levava para a casinha dos sonhos das crianças. No último ano porem, Ruivo, o Diretor da escola, com a aprovação do conselho, resolveu mudar a biblioteca para um espaço dentro dos muros da escola, para maior segurança dos pequenos. Para isso foi preciso mudar o ginásio para terreno do lado leste da escola. Ficou muito mais funcional, e ganhou um vestiário muito mais eficiente. Foi construído um espaço muito alegre e aconchegante e mais amplo que a casinha azul. E Ruivo devolveu assim, a casinha azul para sua mãe. Uma reforma foi feita para a casa voltar as formas antigas da casa onde Nina viveu a infância, onde deu suas primeiras aulas de dança e onde morou com Lia até que ela se casasse com Rick. Também morou uns meses com Beto lá, depois do casamento durante uma reforma na cobertura deles. A casa de pedra, com muro baixo no estilo chalé era muito charmosa. Tinha o apelido de casinha azul, porque era pintada por dentro com vários tons desta cor, a preferida da avó de Nina. Durante todos aqueles anos o jardim continuou o mesmo. O primeiro jardim que Lia havia projetado quando ainda era uma menina com pouco mais que 17 anos. O jardim da casinha azul. Como quando eram crianças. Alana olhou para Rody e ele já sorria. Estava com o celular na mão.
__Tia Nina.- Disse no aparelho.
__Oi querido. Tudo bem?- Nina sempre sorridente, como seus filhos.
__Sim, tia. A senhora está ocupada? Eu gostaria de passar ai para falar com a senhora?
__Sempre estou ocupada, querido. Mas isso nunca me impediu de atender a família. Aconteceu algum problema? Alana está bem? Deus, e Lia?- Rody sorriu. Sua tia era toda coração.
__Não tia. Está tudo bem. Estou na construtora dos primos Fazzanos, estávamos procurando um lugar para comprar, para ser nossa casa. Acontece que nada que tinham pareceu encantar Alana. Então Giu mencionou que a casinha azul está desocupada. Eu gostaria de compra-la. Ou se a senhora não quiser se desfazer dela, eu posso aluga-la. Alana quer muito morar lá. – Nina ficou em silêncio, algo nada comum para ela.- Tia a senhora ouviu? O que a senhora prefere, vender ou alugar? Queremos morar lá.
__Vão precisar de móveis.- Ela disse.- Não tem mais nada dos antigos lá. Acho que nem na cozinha. Será que os primos conseguem providenciar pelo menos a cozinha até vocês voltarem da lua de mel? As outras coisas acho que podem comprar prontas, fica mais fácil.
__Acho que tem razão. Mas a senhora concorda em vender?
__Ah, querido. Não posso vender a casa da minha avó. Sei que me entende. Mas faço questão que morem lá. Vai me fazer muito feliz.
__Posso dizer para Alana escolher as cortinas, então?
__Sim. É claro. Venham almoçar comigo no domingo, por favor. Não sei nada de leis e como temos que fazer isso, mas Ben e Beto podem conversar direito com vocês.
__Ok, Tia. Obrigado. Alana está radiante.
__Ela está sempre radiante desde que você voltou.- Aquilo encheu o coração de Rody de amor. Era mesmo verdade, Alana brilhava ao lado dele.
__Bem, a casinha azul está nos esperando, segundo tia Nina.- Todos bateram palmas.- Ela vai alugar, não quer se desfazer da casa da avó. Disse para vocês providenciarem a cozinha até voltarmos de viagem e para nós escolhermos os outros móveis prontos.
__Quanto a cozinha, escolha o modelo.- Disse Gigio estendendo o catálogo para Alana. Ela olhou Rody sorriu, empurrou o catálogo para ele.
__A cozinha é território seu. Eu escolho os móveis dos quartos e da sala.- Todos riram.
__Ela tem razão.- Disse Gigio.- Você quer que tipo de móveis Alana?
__Para a sala, quero sofás e cadeiras confortáveis. Será o lugar que receberemos a família, quero que tenha lugar para muitos, mas que seja aconchegante, como sempre foi a casinha azul. Aliás, quero os móveis nestes tons. No quarto de hospede também. Azul sobre azul. E no nosso quarto, quero tudo branco.
__Branco?- Perguntou Giu.
__Sim, a cor preferida de Rody.- Sorriu para ele, seu amado noivo e eterno namorado. – Ficaram várias horas ali. Escolheram todos os móveis e toda a decoração nos catálogos de Gigio. Saíram satisfeitos direto para a loja de decoração que Gigio indicou. Lá encontraram desde as cortinas, até os enfeites do lavabo. Gigio prometeu montar toda a casa antes da viagem 3 dias antes do casamento, para que eles pudessem aprovar tudo antes da lua de mel. Alana quis passar na frente da casa só para dar uma olhadinha por fora, visto não estarem com as chaves.
__Estou tão feliz! Não acredito que vou morar aqui! Onde a história de nossa família de fato começou.- Rody a abraçou.
__Eu estou ainda mais feliz, amor. Hoje, eu deveria estar embarcando de volta para o mar. Estaria arrasado e muito triste. No entanto, tenho você nos braços, ouvi você dizer que me ama, vou casar com você e ainda vou morar no lugar que meu pai beijou minha mãe pela primeira vez.- Encostou a testa na dela.- Obrigado.
__Porque?
__Por correr para mim aquele dia na casa do Ben. Meu coração voltou a bater naquele momento.- Ela sorriu e beijou-o.
__Obrigada.
__Porque?
__Por me deixar gastar todo o seu dinheiro comprando coisas para nossa casa.- Riram loucamente.
__Não se preocupe. Sou um bom Chef. Ganho razoavelmente bem. E tenho economizado o chiclete nos últimos dias.- Riram.- Acho que posso pagar o aluguel, sem problemas.- Riram muito como sempre fora costume enquanto estavam juntos, como Nina já tinha apontado neste dia.
No domingo, antes do almoço, Beto levou o casal para seu escritório. Ben já estava lá com alguns papéis em cima da mesa.
__Então.- Disse Ben.- A documentação está toda aqui. Já foi tudo registrado e juramentado, basta você e mamãe assinarem. Papai e Rody servirão como testemunhas. E nós poderemos comer. Estou morrendo de fome.- Alana pegou os papéis para ler, algo na primeira frase a confundiu. Mas sabia que seu primo advogado era especialista em transações imobiliárias, então assinou. Quando foi A vez de Rody assinar, ele franziu a testa, encarou seu tio e seu primo com uma pergunta no olhar. Nina entrou intempestiva como sempre:
__Então, onde é que eu assino? Preciso voltar logo para a cozinha, estamos numa discussão interessante sobre a cor dos sapatos das madrinhas.
__Eu não entendi?- Disse Rody.- Pensei que fosse alugar a casa para nós, Tia?
__Claro que não, né Rody. Não posso alugar a casa da nosso avó para Alana.
__Mas se não vai alugar e não vai vender, o que foi que eu assinei então?- Perguntou Alana, confusa.
__Alana. A casa da vovó, é do papai. Papai passou ela para mim quando casou com Aline a mãe de Alice. Eu herdei a casa, antes de Alice nascer. Para ser justo, papai também doou em vida o apartamento que ele mora para sua mãe. A casinha azul foi muito importante na minha vida, mas eu não tenho mais planos para ela. Então, já que eu não vou precisar dela, eu vou dá-la a você. Já dei, não é Ben?- Ben sorriu.
__Sim. E você aceitou. Já assinou. Papai viu, é testemunha. Rody também.
__Vai me dar a casinha azul?
__Sim. É um presente de casamento.- Disse Nina sorrindo.- Tenho certeza que será tão feliz lá quanto eu fui. Convivi lá com todas as pessoas que amei e que amo até hoje. Naquela sala, dancei desde menina. Ensinei sua mãe a dançar lá. Morei com minha melhor amiga, minha irmã.- Olhou Rody.- Será um privilégio para mim ver vocês construindo a vida de vocês lá também.
__Mas, você já me deu a caixa de joias da sua avó, agora vai me dar a casa dela também, não é justo. Ela deixou essas coisas para você.
__Não querida. Ela deixou para nós.- Pegou as mãos de Alana.- Ela é sua parente também. É a mãe do seu avô. Eu estou muito feliz em te dar a casa da vovó. Olhe para mim Alana, eu sou exatamente igual a ela. Depois que falei com Rody eu encontrei essa foto.- Pegou entre os documentos da mesa um envelope. Mostrou uma foto antiga, com uma mulher ruiva de uns 50 anos, bonita, sorrindo sentada em frente a uma máquina de costura bem antiga.- Essa era ela. Consegui uma cópia com papai quando era menina. Mandei fazer uma para você. Eu não preciso de coisas materiais para me lembrar dela, ela me deixou o meu hobby e a minha aparência. Sim, gostava da caixinha e amava a casinha azul. Agora as duas peças estarão juntas, e terão uma moradora com o sangue da vovó correndo nas veias, vivendo feliz com seu amor lá. Certo?
__É bom aceitar.- Disse Ben.- Se não terei que entrar com pedido de anulação do documento. Vai me dar o maior trabalho. Sem contar ter que convencer mamãe, vai levar um tempão. E estou com fome.
__Novidade, esse garoto está sempre com fome.- disse Beto, como se falasse de uma criança. E assim, Alana ficou ainda mais encantada. Olhou sua tia nos olhos, simplesmente sorriu e correu para abraça-la. Todas as manhãs, ia a casinha azul para acompanhar a montagem dos móveis, a instalação das cortinas, a pintura. Viu tudo chegar e ser colocado nos lugares que estabeleceu. Inclusive o porta retrato de prata, que ficaria num nicho na sala, com a foto da bisavó ruiva. Duas semanas, foi o tempo que os italianos levaram para montar tudo na casinha azul. Só o que ainda não estava pronto, foi a garagem que não existia e foi projetada para não mudar as linhas da construção e nem do magnífico jardim. Mas que era muito necessária para Rody guardar seu carro. Os primos prometeram que tudo estaria pronto quando voltassem de viagem.

Lú estava um pouco preocupada. Todos os detalhes do casamento estavam prontos ou bem adiantados. Sua mãe e sua avó nunca deixavam um detalhe esquecido ou descuidado. O namorado carinhoso, que se transformou no noivo aborrecido por ter que esperar três meses para se casar, tinha dado lugar ao bailarino ocupado. Aquele que precisava ensaiar e se apresentar todo dia. Alias, igual a ela. Mas ela não podia reclamar. Todas as noites ganhava um beijo apaixonado antes dele ir para casa e todas as manhãs ele a recebia com um beijo igual, quando vinha pega-la para a faculdade. Só podiam namorar de verdade no domingo á tarde. Era tão pouco tempo que não queria chateá-lo com pequenas coisas como por exemplo, onde iriam morar. Será que ele estava pensando em leva-la para a casa de Jorge? Alana falava o tempo todo dos preparativos da casinha azul. Lú não sabia como dizer a Cisco que também queria escolher a cor das cortinas de sua casa. Ela poderia ajudar no aluguel se fosse preciso. Tinha sua remuneração de bailarina e recebeu sua parte da herança que seu pai lhe deu quando completou 18 anos. Era uma boa grana que seu pai cuidava na bolsa de valores. Não sabia se tinha liquidez naquele momento, mas Ben poderia lhe fazer um empréstimo para comprar um apartamento pequeno e mobília-lo. Depois poderia devolver o dinheiro para o pai, ele saberia o momento certo para acessar seus recursos. Afinal esse era o trabalho de Ben. Mas primeiro precisava falar com Cisco. Não podia mais perder tempo, viajariam em duas semanas, e o casamento seria três dias depois. Estava brincando com Caio no jardim de inverno.
__Lú, quando você e Cisco voltarem da viagem, vão vir dormir aqui em casa no seu quarto?
__Não, fofo. Mari dorme naquele quarto.
__Então vão ficar no quarto de hóspedes?- Lú não sabia o que responder, não sabia para onde iriam.
__Porque você está perguntando isso?
__Porque não quero que vá morar em outro lugar. Calebe disse que é assim quando as irmãs se casam, elas vão morar com os maridos em outra casa. Mas Cisco podia vir morar aqui, então você ficaria.- Lú abraçou o irmãozinho.
__Ah. Meu lindinho. Olhe, eu não sei onde vou morar, mas não importa aonde seja, sempre serei sua irmã. Sempre virei quando precisar de mim. Sempre que quiser, pode me ligar e falar comigo. E você pode me visitar.
__Mas ia ser mais fácil se Cisco quisesse morar aqui.
__Caio, eu não sei onde Cisco quer morar. Mas quando as pessoas casam, quase sempre querem um lugar só delas.
__Igual Alana e Rody?
__Sim. Eles vão para a casinha azul. É normal. Mas isso não muda nossa amizade, nem o amor. Você entende?
__Sim. Mas vou sentir sua falta.- Ela beijou a cabecinha dele.
__Eu também, amor. Mas nós vamos nos acostumar, e nunca vamos deixar de ser os melhores amigos. Certo?
__Tá.- Olhou sua irmã.- Tomara que você não vá morar muito longe. Estou com sede, vou pegar um suco, você quer?- Ela balançou a cabeça e Caio contornou a casa correndo.
__Você tem muito jeito com ele.- O coração de Lú disparou. Sempre acontecia quando ouvia a voz dele.
__Ele é um menino muito doce.- Cisco sentou-se atrás dela abraçando-a e beijando seu rosto. Lú virou-se e um longo e delicioso beijo se seguiu.
__Estou louco de saudade.- Disse acariciando o rosto dela.- Quanto tempo faz que não te beijo, uma semana, um mês…
__Menos de um dia. Me beijou quando me deixou em casa ontem depois do espetáculo.
__Não pode ser? Deve fazer uns 6 anos mais ou menos.- Beijou-a de novo, mais profundo ainda que o primeiro.- Ah, Lú. Quanto tempo falta para esse casamento chegar?– Ela riu
__Duas semanas.
__Não aguento mais essa vida. Preciso estar com você todo o tempo, tem que ser logo.- Riram.
__Então, você já pensou, onde vamos estar juntos todo o tempo?
__Na nossa casa, claro.
__Nós temos uma casa?- Perguntou olhando para ele. Cisco sorriu matreiro, pegou a mão dela e a levantou, caminhou pelo jardim e se encostou no portãozinho que dava acesso a areia da praia. Apontou para a casa branca do terreno do lado do mirante. Duas casas a esquerda.
__Não queria que ficasse longe de seus irmãos. Assim, Caio pode ir até lá sozinho quando quiser.- Lú olhou para ele sem poder acreditar.
__Mas aquela casa pertence a um argentino. Ele vem passar o verão aqui. Não estava a venda.- Cisco sorriu.
__Eu sei. Ele me disse tudo isso quando liguei para compra-la. Mas eu consegui convence-lo que ele poderia conseguir uma casa maior em outra praia mais ao norte. Até mandei algumas opções muito interessantes e me ofereci para intermediar a compra da que ele gostou mais.
__Não acredito.
__Acredite, amor.- Riu.- Também sou neto de Rodolfo Medeiros. No começo ele não estava muito a fim, mas disse para ele fazer o preço dele. Ele fez e eu ofereci 50% a mais. Ele fechou na hora.- Sorriu satisfeito.
__Você comprou uma casa a cima do valor de mercado? Está feliz com isso, porque? Você perdeu dinheiro.- Ela também era neta do grande empresário do ramo imobiliário, o falcão, como era chamado Rodolfo Medeiros. Cisco a abraçou.
__Não acho que perdi, eu investi. Sim, paguei mais caro que o valor do mercado. Mas eu tinha os recursos para isso. Sabe que recebi minha herança quando fiz 18 anos. Seu pai cuida dos meus investimentos. Também tenho meu ordenado como bailarino, e sabe que não sou muito de gastar. Meu único veículo é Judite. Quando começamos a namorar eu sabia que precisávamos de uma casa. Sei que ficamos pouco tempo em casa, mas eu não gosto muito de apartamentos e você sempre morou aqui, eu achei que você iria gostar. E eu achei que você seria mais feliz se fosse perto dos seus irmãozinhos. Ele são pequenos ainda. Principalmente, Caio. A casa mais indicada era a do argentino. Até pensei em tentar o senhor Orlando, o pescador de tubarões aqui do lado.- Disse apontando o senhorzinho sentado a beira do mar com suas varas de pescar, que morava na casa a direita de casa de Ben. Eles riram.- Mas achei que aí, seria perto de mais. E ele não iria querer vender. Já o argentino ficaria feliz em dar suas festas numa varanda maior. Então procurei casas maiores que a dele com o estilo parecido e ofereci o mesmo valor. Não foi tão difícil. E você pode morar perto de sua antiga casa.- Ele tinha feito por ela.
__Quando disse que comprou a casa?
__ Faz quase três meses. A documentação só chegou a quatro dias. Porque precisou passar pelo consulado. Um negócio bem chato e demorado….- Ela segurou o rosto dele.
__Você comprou a casa na primeira semana que começamos namorar?
__Foi.- Olhou profundamente nos olhos dela.- Lú, soube que me casaria com você naquele primeiro beijo no seu quarto. Saí daqui naquele dia já atrás do argentino. Mesmo que você não quisesse casar agora, íamos precisar da casa.
__Porque não me falou antes?
__Porque eu não tinha a chave.- Tirou um molho de chaves com uma bailarina no chaveiro.- Essa é sua? Quer olhar?- Sorriu. Lú pegou a chave da mão dele e saiu correndo pela areia da praia. A casa tinha linhas retas e impessoais. Grandes vidraças, uma piscina sinuosa com jardim de showroom. Tudo muito elegante, incluindo o muro e o portão de vidro que dava acesso a praia. Mas parecia uma casa de aluguel na praia. Não a casa de um casal apaixonado que construiria sua família, sua vida ali.
__Não consegui terminar o jardim ainda, mas até voltamos da viagem vai estar tudo pronto.
__Terminar? Está reformando? Mas não disso que não tinha chave?
__Sim. Mas eu escolhi os projetos para as reformas. Estava em boas condições, na verdade só precisou de pintura e mudar os móveis. Então assim que o consulado me avisou, mandei trazer tudo e começar a arrumar. Na área esterna vai demorar mais por causa do jardim, mas lá dentro já está bem bonito. Vamos entrar?
__A sala era ampla e podia ser ligada ao quintal por uma porta deslizante de vidro. O piso parecia madeira e era bem bonito e moderno. As paredes eram palha e tinha um espelho bisotê muito bonito já na primeira parede que se via. Os móveis eram em tons pasteis e muito confortáveis. Uma mesa de centro enorme de madeira maciça muito elegante. Mesinhas de canto charmosas com abajur e porta retratos da família. Alguma plantas e vasinhos de flores coloridas completavam a decoração. Um balcão de madeira parecido com a mesa de centro estava em uma parede logo abaixo de uma foto de um metro por um. Uma foto artística, em preto e branco. Uma bailarina amarando suas sapatilhas, sentada do chão com um bailarino sentado atras dela. Seus braços e pernas fortes aparecendo em volta dela. As mãos na cintura pareciam protege-la. Seus rostos não podiam ser vistos, mas não tinha dúvida de quem eram.
__Que linda! Eu não tinha visto essa foto. Foi Clara que fez?
__Na verdade, essa foi mamãe. Ela disse que foi de um ensaio no ano passado. Mas foi Clara que tratou e revelou para nós.- Sorriu. Lú olhou a foto novamente. Eram bailarinos se arrumando, uma rotina comum entre eles, mas as mãos dele na sua cintura, a posição de proteção que todo o corpo dele exprimia. Parte do sorriso de ambos que aparecia, mostravam uma cumplicidade, uma certeza, um elo, o amor. A foto era linda, mas o sentimento estampado ali, era ainda mais.- Tem outras, vem ver.- Ele a levou pelo corredor claro pintado de amarelo, haviam 4 portas de vidro fosco duas de cada lado. Todo o corredor estava coberto por porta retratos brancos iguais, como se fossem uma grande moldura quadriculada. Minuciosamente espalhados neles em uma das paredes, fotos de toda vida deles. Juntos, separados, com a família, com amigos, em espetáculos, nas férias, dançando, descansando,no noivado, nas mais variadas poses e situações. Na parede em frente os porta retratos estavam vazios.
__São ótimas. Amei! E esses, ainda vai colocar?- Ele sorriu.
__Estes colocaremos juntos, são para a vida que ainda vamos viver.- Aquilo foi muito lindo.- Venha ver o lavabo, diz se gostou, de verdade tá?- Era lindo torneiras de latão e um espelho com flores pequeninas jateadas do lado. Um vaso de rosas completava a decoração que tinha peças brancas e revestimento bege. Dois quartos, tinham móveis brancos iguais. Um com roupa de cama, cortinas e utensílios azul marinho, neste um poster com uma foto muito bem feita em preto e branco de Judite, seu amado fusquinha vermelho. No outro, a roupa de cama era vermelha e todos os detalhes também, e na parede uma foto da bicicleta toda bonitinha com cestinha e flores de Lú. Também em preto e branco. Os dois quartos tinham banheiros pequenos, mas funcionais e arejados. Todos revestidos de branco, um com pastilhas vermelhas e o outro azul, com as bancadas combinando. Os box incolores e os espelhos imensos, exatamente iguais. Ele havia escolhido até os vasinhos de mini orquídeas para os banheiros. Lú se voltou para a foto de sua bicicleta dizendo:
__Que bonito. Quem fez essas, foi Gigio?-
__Sim. Ele é bom com esse tipo de imagem, né? Quanto as cores fortes dos quartos, bem eu queria trazer comigo um pouco das cores da minha casa. Sempre morei no meio das cores, coisas do meu pai.- Riu.- Eu também gosto, é claro. Mas se quiser trocar alguma coisa, tudo bem.
__Achei tudo lindo, e de muito bom gosto. Não sabia que era decorador?- Ele riu.
__Não sou. Mas venho de uma família de artistas sabe como é.- Riram mais.- Então agora e sua vez de mostrar sua veia.- Abriu a porta do quarto do casal. As paredes num tom coral meio rosa envelhecido estava totalmente vazio.- Eu quis decorar esse quarto muitas vezes. Pensei em tudo, todos os detalhes. Mas achei que você iria preferir decorar esse lugar do seu jeito, que iria querer escolher cortinas e tudo mais. Fiz umas pré encomendas, pensando no seu gosto e no seu quarto, assim que escolher eles entregam. Só trouxe para cá uma coisa.- Descobriu uma pintura em tela, de quase um metro por 80 centímetros, de uma linda bailarina se alongando na barra. A pintura era do Ruivo, sem dúvida. E a modelo, era ela.- Então, quando tirei essa foto pedi para o Ruivo fazer essa pintura, minha ideia era coloca-la na sala, para que todos vissem você como eu vejo. Mas quando ficou pronta, ficou tão linda, e eu fiquei tão apaixonado por ela que acabei levando para meu quarto. Já que teria que esperar para dormir com você, eu fiquei dormindo com ela. Me acostumei. Gostaria que ela ficasse aqui. Assim eu sempre posso te ver linda na barra, e me apaixonar de novo. E você pode ver como eu vejo você._ Lú ficou nas pontas e beijou seu noivo apaixonado, seu namorado lindo, seu futuro marido desejando que o casamento fosse ainda naquela tarde.
__Onde estão suas pré encomendas. Quero escolher tudo já. – Ele riu.
__Porque a pressa, só casamos daqui duas semanas .- Suspirou como se fosse levar anos. Lú riu ainda mais.
__Vou escolher tudo agora. O banheiro é aqui?- Abriu uma porta e tinha um closed lindo, cheio de nichos muito bem planejado. As paredes verde água e o mdf branco. Muitos cabides e sapateiras. Um chaise branco com estofado verde água. Um espelho de 2 metros por 2, e uma penteadeira também branca com um espelho iluminado. Tudo muito elegante. Ao lado, uma porta de vidro, atrás dela um banheiro com revestimento em rosa chá. Com torneiras bronze rosê e peças brancas. Box incolor aredondado para o chuveiro e um banheira de latão. Um vaso imenso de rosas e um espelho recobrindo uma das paredes. Todos os adereços na bancada com detalhes rosados. O banheiro de uma princesa. Lú olhou Cisco, ele parecia meio receoso ao perguntar:
__Então, gostou? Não sei se….- Ele não pode terminar, ela se jogou nos braços dele chorando.- Ei! O que foi? Não gostou? Está tudo bem, podemos refazer. Eu só ….. O que foi amor, porque está chorando? Está me deixando agoniado. – Ela tentou se acalmar. Sentaram na chaise do closed.
__Desculpe.- Disse soluçando.- Eu pensei que você estava emburrado por ter que esperar o casamento chegar, por isso estava sempre tão ocupado, mas era isso que estava fazendo. Criando um mundo de sonhos para mim. Uma casa linda com uma sala alegre e aconchegante. Quartos coloridos para os amigos. Um corredor que revela nossa história. Depois um banheiro de princesa feito este. Você pensou em todos os detalhes para me agradar. Obrigada meu lindo namorado. Acho que não serei capaz de escolher nada mais bonito e harmonioso do que você já escolheu para mim. Nem sei se quero eu mesma escolher, você é tão maravilhoso nisso.- Ele sorriu.
__Então gostou do banheiro?- Suspirou.- Graças a Deus, aquela banheira me custou os olhos da cara.- Riram.- Estou brincando. Olhe, se não gostar de algo, pode trocar. Eu tentei pensar em coisas bonitas e funcionais. Tentei agradar você, mas eu gostei de tudo também. E não, não é o banheiro de uma princesa, é o banheiro da minha rainha.- Beijou-a.- Quer ver a cozinha? Foi onde demorei mais para escolher?- Foram de volta para a sala. A porta de entrada da casa era grande de vidro fosco e um puxador escovado bem grande. Na parede ao lado desta porta tinha uma bancada e de travertino e quatro cadeiras altas com estofado num bege médio. Umas taças e outros apetrechos ficavam suspensos em um aramado bem elegante. Ao lado desta bancada tinha uma entrada larga que Lú não tinha reparado. A cozinha estava disposta ali. Era tão grande como a sala. Uma ilha revestida de pedra rústica com tampo de travertino, com fogão, fornos, pia, um balcão multiuso e uma pequena mesinha para duas cadeiras. Em cima um coifa e muitos utensílios pendurados. Na parede que dividia a cozinha da sala, o armários de cerejeira embutidos com nichos de diferentes tamanhos, geladeira, máquina de lavar e secar, micro-ondas, todos os eletrodomésticos, temperos e outros enfeites organizados como numa foto de revista. Uma mesa grande com 12 cadeiras perto da janela da frente, com vista para o mar. Era uma cozinha para uma grande cozinheira. Para alguém que gostava de reunir a família neste ambiente. A parede do fundo também era de vidro deslizante permitindo uma integração com a churrasqueira. E mais para o lado a garagem e o portão para a rua de acesso a rodovia. Tudo em volta da casa era gramado, ao voltar-se para a cozinha percebeu que todos poderiam ver dentro da casa.
__Não se preocupe com a privacidade. Veja.- Apertou um botão perto da porta e uma cortina tipo persiana de madeira desceu suavemente e cobriu todo o vidro livrando apenas a porta de vidro propositalmente fosco. Ele tinha pensado em tudo. Disse meio encabulado:- Então, nos jardins, vovó Lia e Tio Ruivo, me mandaram vários projetos. Vou te mostrar os que mais gostei, então você vê se gosta ou se quer algo diferente. Os jardineiros disseram que terminam tudo até voltarmos. Abriu uma gaveta na ilha e tirou os projetos e os catálogos para ela escolher.- Ah, eu já falei com Alex, ele vai mandar a equipe dele amanhã para instalar a segurança.- Lú ficou olhando para aqueles olhos incomuns tão lindos. Meses antes, ele parecia um garoto tão descompromissado que nunca seria dela, agora era um homem apaixonado, disposto a tudo pela felicidade, conforto e segurança dela. Caminhou devagar para ele.
__A casa é toda linda, parece meu anel de noivado.- Encostou a cabeça no peito dele.- Eu te amo.- Ouviu o coração dele acelerar. Sorriu.- Eu não sei como agradecer todo esse carinho que está me dando.- Acariciou o peito forte por cima da camisa branca e sentiu o coração bater ainda mais forte. Beijou em cima do retumbar. Ele gemeu.-
__Lú, pelo amor de Deus, está me torturando. Sabe que estou louco por você. Sim dancei feito um maluco esses dias. E me mantive muito ocupado com pouco tempo para namorar. Mas era por isso, tenho que esperar mais duas semanas para ter você, e não consigo esperar mais um minuto.- Apertou a bailarina no seu corpo.- Eu te quero muito, nunca quis ninguém assim. – Suspirou.- Certo. Tudo bem. Duas semanas.- Olhou para ela com os olhos cor de uísque em chamas.- Tenha piedade de mim. Tente não ser tão… Tão…Deliciosa. Tão….Você… Ai meu Deus, estou perdido.- Riu.- Vamos ocupar a minha cabeça, diga, como quer o quarto?- Lú sorriu maliciosa.
__Se está tão doloroso assim, tem certeza que quer começar pela cama?- A boca dele se abriu em espanto, ele engoliu em seco, a pequena doce bailarina, estava seduzindo ele. E sem nenhum esforço, nem escrúpulo. Respirou fundo.
__Não sabia que era tão malvada assim?- Disse com um olhar felino.
__ Tem mais coisas que não sabe.- Desviou-o os olhos para os catálogos sorrindo.
__Venha aqui.- Puxou-a rindo para seu colo e beijou-a.- Você vai me pagar. Espere até nos casarmos.
__Estou confiando nisso.- Lú sorriu apaixonada, depois atentou-se aos catálogos escolheu uma cama de ferro com uma pintura bronze rosê parecida com a de sua mãe. Criados de latão, uma poltrona rosê bem rococó. Cortinas brancas de renda. Os adereços todos combinando. A tela ficaria diante da cama e na parede lateral um espelho. As roupas de cama branca com umas rosinhas delicadas. Nos jardins, só fez uma mudança no projeto, em todas as janelas, queria floreiras, em todas as portas um vaso grande com flores. Canteiros coloridos em volta dos muros e uma cerejeira no jardim perto da churrasqueira.
__Não vai querer uma sala de dança, como a de sua mãe? Tem espaço no terreno.
__Faria uma para mim?- Ele nem precisou responder.- Você é um fofo. Mas não precisa. A casa já está maravilhosa. E quando as flores, e a cama.- Riu.- Chegarem, ficará perfeito. Meu pai sabe que comprou essa casa?
__Sim. Ele me ajudou com a documentação. Tio Ruivo, Alex e os primos também. E vovó Lia, e Clara e mamãe.
__Certo. Resumindo, só eu que não, então.- Riu.
__Não, Caio não sabia.- Riu.
__É, e foi por causa dele que comprou essa casa, né?
__Por causa de você. Quero que fique onde se sente feliz. Sempre gostou daqui. Então eu comprei para nós.- Ela acariciou o rosto dele.
__Você é um amor, namorado, digo, noivo.
__Deus, pode dizer marido, por favor?- Riram.
__Logo logo.- Suspirou. Olhou em seus olhos.- Cisco, você tem certeza de tudo isso? Quer dizer, está feliz? Quer mesmo deixar sua casa, seus pais, sua vida de solteiro para casar comigo?- Ele a olhou indignado.
__Que pergunta é essa? Está de brincadeira comigo?- O olhar dela entristeceu. Baixou os olhos para os catálogos virando as folhas e mordendo o lado do lábio inferior.- Lú, o que está acontecendo? Não me diga que aquela sem graça da Vânia andou te chateando?
__Não. Nem falo com ela.
__Então me diga o que está acontecendo?
__Não é nada.- Ele pegou a com cuidado e trouxe para seu colo.
__Lú. Eu amo você. Estou desesperado para nos casarmos logo. Tenho tentado, me esforçado em ser apenas um cavalheiro com você e esperar nosso casamento chegar respeitosamente, como deve ser. Para isso fiquei um pouco distante, se é que se pode dizer isso se dançamos juntos quase todo dia, e vamos juntos para todo lugar. Mas tentei não ficar muito tempo sozinho contigo, por razões muito evidentes.- Sorriu.- Como pode ver, mesmo assim continuei pensando em você todo tempo. Porque acha que tenho dúvidas sobre o que quero com você? Você tem dúvidas sobre o que quer comigo?- A voz pareceu um pouco fraca nas últimas palavras. Ele estava com medo da resposta dela.- Olha, se você não quiser casar agora… Se quiser terminar a faculdade primeiro….- Suspirou. Respirou fundo e foi falando tudo de uma vez, mais rápido que o normal dele.- Eu posso esperar. Vai ser difícil para mim. Você me conhece, sabe do meu temperamento impaciente, mas por você amor, eu espero todo tempo do mundo. Se for isso que está chateando você, tudo bem, podemos esperar. Só me diz que não quer terminar, pelo amor de Deus!
__Não! Não é nada disso. Eu te amo, quero me casar com você. Não quero esperar nem até o fim da tarde. Não vejo a hora de cozinhar aqui para você, de ver nossas roupas juntas no closed, de namorar na piscina, molhar nossas flores, ver Judite na garagem.- Riram.- O fato é que tudo aconteceu muito rápido. Você tem sido maravilhoso, o namorado perfeito. Eu não tenho nada que reclamar. Meu medo apenas é que você vai se unir a mim e não poderá aproveitar sua juventude, não estará livre para…- Ele segurou o rosto dela.
__Livre de quê? De ser feliz? Você me trouxe a felicidade, amor.- Beijou-a.- Lú, me escute. Sei que foi tudo muito rápido, mas você acha que algum dia pode vir a deixar de me amar?
__Nunca.- Disse firme, como um falcão. Cisco não conseguiu evitar o sorriso apaixonado.
__Então, amor. Eu também não vou conseguir deixar de te amar. Não tem porque adiar a felicidade. Se você preferir esperar por causa da correria que vai ser nossa vida até o fim da faculdade, eu entendo e aceito. Vai me enlouquecer, mas aceito. Mas se você estiver disposta a subir neste barco comigo, eu prometo fazer de tudo para facilitar sua vida, para você ter tempo para você, para seus irmãos, para descansar, tudo o que quiser. Não vou deixar as coisas bagunçadas, ajudo a arrumar a casa. Se quiser contrato uma funcionária para cuidar da casa. Podemos pedir referencias a sua mãe.- Ela riu. Entendeu que ele achou que ela pensou que ia ter muito trabalho para cuidar de tudo aquilo.
__Meu doce noivo. Eu gosto de cuidar da casa. Sim, você vai me ajudar e vamos precisar de uma ajuda profissional também, mas não precisa ser todos os dias. Pode ser uma diarista como a da mamãe. No jardim também, mas pode ser uma vez no mês. Para cuidar da piscina também. Mamãe tem uma lista destes profissionais, todos checados por Alex. Mas não é por isso que te perguntei. Cisco, você nunca teve uma namorada de verdade. Você saía com as garotas, uma no máximo duas vezes. Teve algumas meninas com as quais você saiu de novo depois de um tempo, mas namoro mesmo, não. Eu também não tive um namorado propriamente dito antes de você. Mas eu já estava apaixonada por você a bastante tempo. Eu não tinha dúvida do que sinto por você.- Ele já ia retrucar.- Sei que você já disse que não tem nenhuma dúvida do seu amor. Sei que é um falcão. Sei que me ama.- Sorriu.- Vejo nos seus lindos olhos esse amor. Entendi que não tem porque esperar já que me ama e eu te amo. O que quero dizer é você não teve tempo de amadurecer esse sentimento. Nós passamos de primos bailarinos, para noivos apaixonados em menos de 30 dias. Olha tudo o que fez para mim.- Mostrou em volta.- Eu estou ainda mais apaixonada por você. O que estou dizendo, é que você, de um minuto para o outro, deixou de ser o rapaz despreocupado para ser o noivo maduro, aflito. Não quero que pense que não gostei. Eu gostei muito de tudo, de sua atitude, de seu carinho, da casa, dos móveis, de beijar você, de ver você tão maduro, tão forte. Mas não quero que deixe de ser o Cisco de sempre. Aquele que me jogou na piscina no último almoço de família lá em casa.- Sorriu.- Você entende, amor?- Cisco até então calado ouvindo sua amada derramar a maior expressão de seu profundo amor por ele. Ela não queria que ele deixasse de ser quem era. Tinha medo que a responsabilidade transformasse ele em alguém que ele não era, e que isso, futuramente o fizesse infeliz. Segurou o rosto dela com muito carinho.
__Você não existe de verdade , né? Não pode existir uma menina tão doce.- Ela sorriu tímida.- E ainda tem esse sorriso lindo.- Beijou-a.- Eu não mereço você. Como consegui esse presente tão valioso? Ah, minha linda. Eu nunca fui tão feliz. E olha que sempre fui feliz.- Riu.- Não se preocupe. Mesmo que quisesse nunca conseguiria deixar de ser o velho Cisco arteiro de sempre, mas não posso evitar estar preocupado de vez em quando de agora em diante. Tenho um tesouro muito grande, muito valioso para cuidar. Mas essa responsabilidade só me dá alegria.- Passou o nariz no rosto dela. Beijou entre as sobrancelhas.- Vou me casar com minha única namorada de verdade, a única mulher que realmente amei. Não importa que nosso namoro durou poucos dias, e o noivado menos de dois meses. Eu sempre fui seu, desde que você nasceu. Papai disse que a primeira vez que peguei você no colo, meus olhos brilhavam tanto que pareciam dourados. Eu tinha pouco menos de 2 anos. Demorei entender o que ele queria me dizer, mas no dia que provei seus lábios entendi. Você nasceu para mim. Você sempre soube disso, não é?- Não esperou pela resposta, beijou-a com todo seu amor. Ouviram alguém limpar a garganta. Era Calebe segurando a mão de Caio.
__Desculpem irmos entrando sem avisar. É que quando Caio soube que a casa era de vocês, saiu correndo, eu só consegui alcança-lo aqui dentro.- O ruivinho estava um pouco vermelho, envergonhado e Caio sorria sapeca de cabeça baixa.- Eu não devia ter contado, né?
__Não, querido.- Disse Lú se abaixando perto dos meninos.- Está tudo bem.- Olhou Caio.- Não contei antes porque não sabia. Vocês gostaram da casa?

__Sim!- Disse Caio sorridente.- A piscina é maior que a nossa!- Cisco olhou seus pequenos cunhados, viu a satisfação de saberem que Lú estaria perto deles. Sentiu seu peito se aquecer.
__Eu gostei dessas paredes de vidro.- Disse Calebe.- E daquela foto lá na sala, é muito linda.- O ruivo olhou Cisco.- Obrigado, Cisco. Papai disse que você comprou essa casa para que Lú pudesse ficar perto da gente. Ele disse que você pagou bem caro. – Caio correu até Cisco e o abraçou bem apertado.
__Obrigado, Cisco. Eu estava preocupado, não sabia onde eu ia ter que ir para falar com Lú. Ela sempre fala comigo, sabe? Eu pensei que ia ser difícil depois do casamento, mas agora eu posso vir aqui, né?- Fez uma cara de culpado.- Calebe disse para não ficar vindo toda hora, porque você também vai querer conversar com ela e beijar..- Sorriu sapeca. – Mas eu posso vir quando precisar contar alguma coisa importante, né?- Cisco beijou a cabecinha dele dizendo:
__Você pode vir quando quiser.- Olhou Calebe.- Vocês dois vão precisar me ajudar a cuidar dela. E quando quiserem, podem contar para mim também os seus problemas. E se quiserem fazer alguma traquinagem, eu tenho experiência, posso ajudar.- Riram.
__Pondo meus filhos no mau caminho, Cisco?- Disse Ben rindo as costas deles. Cisco arregalou os olhos para os meninos.
__Fomos pegos!- Riram mais. Cisco olhou sua linda bailarina sorrindo para eles. Trocaria qualquer coisa por aquele sorriso. E ela sabia.

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O Namorado

Capitulo 7
Passara-se um mês. Alana nunca mais viu Antonio. Na segunda depois do reencontro com Rody, mandou entregar no apartamento dele tudo o que lhe pertencia, todos os presentes e coisas que ele tinha deixado com ela. Os mimos não eram muitos, ele não era dado a esse tipo de delicadeza, mas sempre esquecia alguma coisa com Alana. Escreveu uma carta de despedida, muito clara e mandou reconhecer firma em cartório. Ficou com o original e mandou uma cópia autenticada para ele. Queria o fim legalmente documentado, depois da tentativa de agressão dele. Antonio não deu nem sinal de vida. Já Rody, vinha vê-la todos os dias antes do trabalho. O jeito alegre e apaixonado como corriam um para o outro quando se viam era contagiante. Os beijos embaixo do Flamboaiã vermelho eram cinematográficos. E as despedidas demoradas, dolorosas faziam Alana partir para o Medeiros todas as noites para jantar com seu amado Chefe namorado. Ninguém tinha dúvida que isso seria exatamente assim. Desde o instante que ela correu para ele no gramado da casa de Ben.
Já com Cisco e Lú, apesar de o único Medeiros que não tinha conhecimento dos olhares apaixonado da mocinha ser o namorado em questão, ninguém poderia imaginar um namoro assim, tão entusiasmado. Cisco vinha busca-la para a faculdade todas as manhãs. Ele estava um ano na frente dela, mas se encontravam nas matérias de artes e danças e no intervalo. Já na primeira segunda-feira, quando Cisco a viu na mesa de sempre com a irmã, Elis, Carol e Marcelo, sorriu encantado para ela e desceu as escadas correndo, atravessou todo o refeitório e inclinando-se sobre ela beijou-a apaixonadamente.
__Tá! Já Entendi!- Disse Mari rindo.- Estão apaixonados. Podem parar de dar show agora.- Eles a olharam. Cisco sorria, o mais iluminado universitário do recinto e Lú, corada, tímida se aninhava em seu peito.
__Gente! Só eu que não sabia que estavam a fim um do outro?- Perguntou Marcelo.
__Não, amigo.- Disse Cisco sentando na cadeira dela e colocando a pequena em seu colo. Olhou na bandeja dela, pegou a maçã.- Na verdade, pelo que entendi, eu e você somos os únicos.- Ofereceu a fruta para ela, que negou. Ela sabia que ele viria logo, por isso pegou a maçã, para ele, e Cisco sabia. Mordeu e a trouxe para perto do seu peito. Sempre foram cuidadosos um com o outro, mas o carinho agora ultrapassava todas as instâncias.
__Mas e agora? Vou perder meu amigo de solteirice?- Cisco olhou o amigo e as garotas em volta, sorriu para a ruiva, sua querida prima.
__Não, Marcelo, não vai perder, já perdeu.- Sorriu. Moveu Lú com cuidado para mirar nos olhos negros de cigana que o encantavam e continuou:- Jamais beijarei outra boca.- Passou o nariz no dela.- Onde mais poderia encontrar esse cheiro, esse sabor, essa felicidade. Sinto muito, Marcelo. Terá que badalar sem mim. Já encontrei o que procurava. E ainda fui idiota o bastante para demorar anos para entender que meu coração sempre teve dona.
__Que coisa mais bonita. Também quero!- Disse A ruiva.- Marcelo, não quer descobrir que sempre me amou também?- Eles riram.
__Desculpe, Ruiva. Mas acho que não vai rolar. Não que você não seja a gata mais linda que já vi na vida, mas não tenho as costas quentes como esse aí.- Apontou Cisco.- Imagine o que o Grande Benjamin Medeiros, o guerreiro ruivo dos tribunais, faria com esse pobre negrinho.- Riram mais.
__Não seja bobo! Meu pai é um doce.
__Com vocês. Eu não vou arriscar meu pescoço. Ok, meu pai é um ex policial, minha tia é uma juíza, tem o Alex que me defenderia, mas para correr o risco de ficar sem meus documentos, se é que me entende.- Riram.- Então, para arriscar tanto assim, tem que ser por puro amor. Igual o garoto das malhas apertadas.- Cisco jogou umas granolas nele.- Ei!- Voltou-se para Mari.- Você é muito gata, mas não te amo a ponto de enfrentar seu pai. E nem mencionei seus avós.- Riram mais.
__Desculpe, mas vocês estão namorando?- Disse Vânia. “A popular” da faculdade. A loira magérrima era a melhor amiga de Carol. Estava ladeada por duas outras garotas, todas altas e elegantes.- Quando Carol me contou achei que fosse brincadeira. Você e ela? Não tem nada haver.- Parecia mesmo indignada.
__Ei!- Disse Marcelo fechando a cara. Era alto, magro, mas forte, negro como o pai, de sorriso fácil e muito branco. Sempre fora como um irmão para Cisco. Ele também gostava da meninas bailarinas, tinha crescido com elas. Para Marcelo eram da mesma família. Não conseguia entender, porque Carol e Gláucia, suas primas preferiam aquelas esnobes as meninas Medeiros.- O que querem aqui, suas folgadas? Semear a discórdia?
__Ninguém falou com você enfermeiro. Estou falando com Cisco. Pensei que você não quisesse namorar sério. E agora me aparece com a …- Cisco cerrou os olhos âmbar para ela.- A bailarina, assim aos beijos no refeitório? O que isso quer dizer?
__Exatamente o que disse, Vânia. Eu não queria namorar sério, você.- Ela abriu um pouco os olhos, parecia escorrer fel deles.- Não quero ser grosso contigo, mas não vejo outra forma de responder uma pergunta tão tosca como essa.
__Como pode dizer isso assim?- Ela olhou em volta.- Está todo mundo olhando. Você está me envergonhando!
__Não. Você está se envergonhando. Eu estava aqui, na mesa com meus amigos, minha família, minha namorada. Você chegou rudemente exigindo explicações de algo que não lhe é devido. Destratou meu amigo e criou uma situação vexatória. E pior, tentou chatear minha namorada.- Olhou bem nos olhos dela.- Deixe-me dizer uma coisa Vânia. Não tenho nada contra você. Você é toda cheia de preconceitos e manias, tem suas exigências seu jeito de enxergar a vida. Tudo bem. Desde que não me envolva nas suas loucuras. Saímos algumas vezes, mas nunca quis namorar, como você bem disse. Nem você, nem ninguém. Agora estou comprometido. Eu fiz minha escolha. Espero que como uma mulher inteligente, que sei que é, não vai mais me procurar.- Olhou em volta e viu o pátio todo de olho neles.- Nem você que é tão bem educada e estilosa, nem mais ninguém.- Olhou Carol, entendo tudo o que Lú não tinha lhe contado ainda.- Não desejo nada de ruim para você, ou qualquer pessoa ligada a você. Então por favor retribua assim também. E seja muito feliz. -Foi voltando a posição anterior de frente para Marcelo. A loira tentou segurar a ponta do cabelo de Lú.
__Como você pode….- Ela nem terminou a frase, nem tocou no cabelo dela. Cisco olhou para ela com sangue nos olhos.
__Nem tente.- Disse baixo, ameaçador. Ninguém tinha visto ele usar aquele tom antes.- Não me faça perder o respeito que fui ensinado a ter por todas as mulheres. Vânia, entenda. Se tentar magoa-la, independente do jeito que for, fará de mim seu inimigo para sempre. Venho de uma família, em que os homens amam suas mulheres por toda vida, morrem por elas. Essa é a mulher da minha vida. Por favor, para o bem e a paz de todos nós, fique fora do caminho dela.- Palavras fortes, que assustaram até os seus. Vânia ficou branca feito cera. Lú segurou o rosto dele com carinho.
__Cisco, está tudo bem. Fique calmo.- Disse doce.- Não foi nada de mais. Ela só queria saber se estamos mesmo namorando. Toda a faculdade estava curiosa. A notícia correu veloz pelos corredores. Eu disse que isso aconteceria. Não fique tão bravo. Será ainda muito pior na Companhia.- Sorriu tímida.- Não pode querer brigar com todo mundo que segurar no meu cabelo. Ela não ia me machucar.- Olhou Vânia, depois Carol que também estava um pouco pálida. Em seguida sua irmã sorridente, Marcelo e Elis, ambos com a boca aberta.- Você está assustando as pessoas. Elas não conhecem esse seu lado tão protetor. Tudo o que elas viram você fazer até hoje, foi sorrir e dançar.- Olhou de novo nos olhos cor de uísque.- Obrigada por me defender, namorado.- Beijou-o.- Mas está tudo bem, não precisava ficar nervoso. Não é mesmo Vânia?- Olhou corajosa para Vânia e Carol e as outras aguadas com ela. As garotas ficaram vermelhas. Em seu doce e pequeno discurso, Lú havia mostrado a futilidade delas, a frivolidade de suas ações, a força da proteção dele, a certeza de seu amor por ela e a coragem que ela encararia tudo o que poderia sobrevir contra eles.
__Claro.- Foi Carol que respondeu. Inventando uma desculpa para arrastar a loira para outra mesa.- Você trouxe o lenço que ia me emprestar? Aquele para a apresentação de literatura?- Mari olhou Marcelo.
__Marcelo, quer por favor fechar essa boca?- Riu.
__Gente! O que foi isso? – Eles riram.- Alguém me explica? Primeiro, uma tropa de magricelas chegam pondo fogo em tudo, depois, um guerreiro de armadura toma o lugar do bailarino, em seguida, a Tia Lia, 40 anos mais nova, aparece e acalma todo mundo, sem contar na lição de moral.- Riram ainda mais.
__Sabe, você devia tentar escrever, vovô Rick pode te dar umas dicas.- Disse Cisco.
__Eu só vi pena voando para todo lado.- Disse Mari rindo. Depois olhou Elis.- Desculpe, Elis. Sei que Carol é sua prima, mas essas amigas são muito malas.
__Eu sei. Também não gosto delas. E acho que você se saiu muito bem, Lú. Para a garota tímida, soube muito bem o que dizer.
__Eu não sei.- Disse sorrindo.- Acho que vão ficar com mais raiva. Mas pelo menos entenderam que não tenho medo delas.
__Não tem?- Perguntou Mari.
__Não.- Olhou seu lindo bailarino.- Não preciso, não é?- Ele sorriu, beijou seu rosto dizendo.
__Não, minha linda. Não tem. O máximo que elas vão conseguir, e me fazer ser expulso da faculdade se elas provocarem você outra vez.
__Você não vai ser expulso. Você vai se controlar. É um bailarino, sabe se controlar. Deixe elas.- Disse acariciando o peito dele. Como sua mãe fazia com seu pai.
__Deus! Acho que estou mesmo com problemas. Tenho certeza que estou vendo Tia Liv acalmando Tio Ben depois do trabalho.- Disse Marcelo.
__O que você queria, Marcelo? Lógico que ela vai se parecer com minha mãe e com minha avó.- Disse Mari.- Sempre foi parecida com elas.
__ Eu sei. Só não é justo. Os Medeiros deveriam fazer essas mulheres linda e inteligentes para o resto da humanidade. Mas eles insistem em ficar com elas!- Mais risadas. Desde daquele dia, o casal sempre era visto junto no refeitório, nos corredores e no estacionamento da faculdade. Nunca mais as meninas tentaram provocar Lu. Embora quase a fulminasse com os olhos. Na companhia de dança foi diferente. As bailarinas não pareciam surpresas, desapontadas talvez. Um olhar de inveja de vez em quando. Eles sempre chegavam juntos, e nunca se separavam. Os duetos passaram a ser ainda mais fabulosos. Toda vez que Cisco sentia o olhar das bailarinas sobre eles, beijava Lú. E assim, mantinha sua bailarina protegida com seu amor. A felicidade reinava de novo no clã dos falcões. E chegou o almoço em família que acontecia em todos os terceiros domingos dos meses há muitos anos. Era uma das doces tradições da família Medeiros e seus agregados. Segundo o rodízio seria a vez do Ruivo, o Diretor, oferecer a sua casa para a ocasião, mas ele e Jorge haviam trocado de lugar por causa da dedetização do orfanato que Jorge dirigia, o Francesca Fazzano. Ruivo já havia recebido os parentes na vez do primo, e agora seria a vez de Jorge na casinha alegre que ele morava com a família ao lado do orfanato. A cerca viva toda florida, o gramado bem cuidado, os canteiros de flores vistosos. Jorge espalhou mesas pela varanda, debaixo do frondoso e florido Flamboiã vermelho. As mulheres chegaram sorridentes com seu famosos quitutes. Clara, Rody e Tia Lia ficaram na cozinha com Alice. As crianças corriam felizes, brincando no balanço que um dia foi de Alana. O Patriarca Vovô Rodolfo, bem idoso, estava sentado ao lado de sua carinhosa e sorridente esposa. Dona Elisa, se divertia com as travessuras dos pequenos. Vovô Carlos, andava bem adoentado, o coração já lhe falhara algumas vezes, mas hoje estava feliz com sua índia de olhos cor uísque. Os dois casais sempre foram amigos, e enfrentavam a velhice juntos. Também estavam na varanda, os primos italianos com seus pequenos. Giu, o marido de Ritinha, não tirava os olhos do mais velho Pietro que por toda lei queria subir na grande árvore, seguido pelos filhos de Vincenzo e Sofia, Marco e Sasha. O mais novo Giordano, mal sabia andar e se encantava com a bengala do Vovô Giulliano. Os 3 meninos de Clara e Alex, os 2 de Diana e Ruivo mais os 2 de Liv e Ben, eram dos que corriam em volta da casa, parando só para olhar a pequena Anelise, bebê sorridente de Diana. Cisco, Marcelo e Gigio o único primo italiano solteiro, se juntaram para jogar bola com o meninos. Logo. o Ruivo, Ben, Jorge, Giu, Beto e até Rick estavam correndo atrás da bola também. As irmãs de Marcelo Elis e Laila, e suas primas Eliana, Gláucia e Carol assistiam a partida junto com suas mães, Liv e as meninas e Nina. Que gritava toda vez que Cisco era tocado.
__Ai meu Deus se machucarem meu primeiro bailarino, mato quem fez!- Tudo era só risadas.
__Não se preocupe, Tia Nina.- Disse Eliana.- Sou médica, agora. Se ele se machucar, posso concertar ele.- Riu.
__Vire essa boca para lá, menina! Deus me livre! Se ele se machucar estou frita!- Virou para o campo.- Não vão machuca-lo, né?
__Lógico que não mamãe.- Disse Ruivo.- Sou um educador.- Todos riram.
__Não ligue para ele, mamãe.- Disse Ben. – Não vamos machucar ninguém, temos crianças nos times.
__Quem é criança aqui?!- Gritou Beto. O avô mais divertido do mundo. Seus netos o seguiram.
__É, quem é criança aqui?!- Voltaram a correr e rir feitos uns loucos atrás da bola.- Alex e seus tios chegaram trazendo uma encomenda de Clara. Quando saíram da cozinha prontos para o futebol, trouxeram Rody com eles. Ele beijou Alana antes de ser escalado para um dos times. A partida estava animada, no pleno sentido da palavra.
__Jesus Cristo!- Disse Lia na beira do campo improvisado. Tanto as crianças, como os adultos estavam cobertos de grama e lama. Não se sabia nem quem era do time de quem. Conforme iam pisoteando a grama não preparada para o jogo, foram descobrindo uma nascente natural e massando o barro em volta dela.
__Meu Deus, nunca pensei que não reconheceria meus filhos.- Disse Clara morrendo de rir.
__Eles estão aí?- Disse Alice. Olhou Lú.- Então Cisco também está?- Lú apontou como olhos.- Francesco Carvalho de Medeiros, vá para o chuveiro agora! Não tem vergonha? É assim que se comporta com visitas em casa? Que exemplo dá para seus primos? E olha só este gramado, sabe quanto tempo seu pai….- Parou olhando para as sombras de homens cobertos de lama segurando o riso de cabeça baixa como se recebessem um bom pito. Parou em um dos mais alto e forte, perto de duas crianças que a olhavam com os olhos esbugalhados.- Jorge? – Suspirou deixando os ombros cair.- Não acredito que destruíram o jardim deste lado da casa sem nem perceberem. Estava tão divertido assim? E você Cisco, poderia se machucar, esqueceu que seu novo espetáculo começa em duas semanas?- Jorge caminhou para ela.
__Minha flor. Não fique tão brava. Estávamos brincando. Foi divertido, sim. Destruímos a grama, mas farei um jardim de margaridas na cabeceira, drenarei a nascente e planarei uma grama mais resistente para um campinho de futebol.
__EEEEHHH!!!!!!- Os meninos gritaram juntos.- Depois se calaram rapidamente.- Alice olhou todos, puro barro. Depois olhou Lia.
__Querida.- Disse Lia carinhosa.- É melhor colocarmos essas crianças no banho, se não essa sujeira toda nunca vai sair.- Sorriu.- Está tudo bem, deixe as crianças se divertirem, mas quero todo mundo bem limpinho para o almoço.
__Certo. Tia Lia tem razão. Já bagunçaram tudo mesmo. Mas, quero o banheiro limpo quando terminarem. Se não, não tem sobremesa. – Disse Alice.
__E, se tirar a sujeira na toalha, também não tem doce. Entendido?- Disse Clara rindo.
__Sim.- Responderam todos juntos.
__Alice? Onde quer que eles se banhem?- Perguntou Lia.
__Deixem comigo.- Disse Jorge.- Rapazes, vamos ao vestiário do orfanato. Assim, podemos tirar o mais grosso primeiro no chuveiro de fora. As mamães levam as roupas para vocês.- Jorge se voltou para sua esposa.- Desculpe, amor? Vou deixar tudo limpo, prometo.- Ela sorriu.
__Não fiquei brava porque brincaram, foi porque destruíram o gramado. Mas tudo bem, sua mãe tem razão, estejam limpos e prontos para o almoço. Já está tudo pronto, só vamos esperar vocês.- Voltou-se para os times de lama.- Vou levar roupas suas e do Cisco para os outros, imagino que não trouxeram roupas para os adultos, né?- Perguntou olhando as outras. Todos caíram na risada.
__Alice.- Disse Ruivo.- Farei um lindo canteiro de margaridas para você. No meio plantarei rosas vermelhas, para que quando florirem o perfume se misture, igual o ramalhete que Jorge lhe deu quando estava grávida de Cisco. Sim?- Beijou sua tia com cuidado para não sujar o rosto dela. Pegou as mãos de seus meninos e partiu para o orfanato. Ben chegou perto dela.
__Alice, desculpe? Tinha me esquecido como era divertido brincar na lama, me empolguei. Eu e os meninos vamos ajudar Ruivo a fazer um lindo canteiro para você. – Também beijou sua tia com cuidado para não suja-la, pegou seus filhos e se foi. Vincenzo e Giu vieram juntos segurando seus meninos. Também se desculparam pelo gramado e prometeram ajudar a refaze-lo. Giu disse que ia estudar o solo, para uma drenagem eficaz. Então Alex se aproximou com seus três meninos.
__Alice, desculpe.- Disse sorrindo.- Cuidarei que tudo esteja em ordem quando saírmos, do vestiário, prometo.
__Quase não acredito que até você também está neste estado, Alex.
__É que somos homens, tia Alice. – Disse Libe o mais velho.- Amamos futebol.- Todos riram.
__Esses é mesmo seu neto, Beto.- Beto se aproximou acompanhado pelo irmão e pelos tios de Alex, cobertos de lama.
__Minha linda indiazinha, desculpe. Mas Libe tem razão.- Riu ainda mais.
__Olhe pelo lado bom.-_Disse Rick.- Você minha linda norinha, vai ganhar um canteiro novo. Talvez consiga até outras reformas, lembre-se, o arquiteto também estava no jogo.- Disse apontando Gigiu e rindo.
__Certo, prima.- Disse ele tirando o lama do rosto.- Diga o que quer, e faremos.- Riu seguindo os outros para o banho. Cisco, Rody e Jorge ficaram por último. Rody beijou Alana rindo e correu para alcançar seu pai. Cisco beijou Lú dizendo;
__Você me delatou! – Riram.
__Ela perguntou onde você estava. É a sua mãe, né?- Como se explicasse tudo a doce bailarina sorriu, tentando encontrar um lugarzinho limpo no rosto dele para beijar. Jorge e Alice viam tudo muito emocionados com o carinho evidente entre eles.
__Minha linda.- Disse Jorge.- Prometo que você terá um jardim lindo. E nós não vamos mais aprontar, hoje. Tudo bem?- Sorriu todo sujo, mas lindo para ela. Depois de um beijinho cuidadoso, foi se banhar.Quando voltaram, todos cheirosos e limpinhos usando as roupas de Jorge e Cisco, e os meninos a roupa extra que as mamães trouxeram, fizeram questão de dizer que lavaram as roupas e limparam o vestiário direitinho.
__Quero me desculpar com vocês.- Disse Alice.- Estou um pouco nervosa hoje, mas não é por causa do jardim. E também, não tem importância que acabaram com a grama.- Todos riram.- Estou muito feliz que tenham se divertido. Além do mais, se conheço meu filho, aposto que essa loucura toda é culpa dele.
__Mamãe!- Disse Cisco todo dramático.
__Bem. Acabo de ter a confirmação.- Riu.- Seja como for, quero dizer que eu não tive a intenção de ser estraga prazeres. Estava mesmo preocupada que se machucassem, mas Libe tem razão, são homens e precisam se divertir. Todos vocês são muito diligentes e esforçados, precisam desestressar de vez em quando.
__O que é diligente, Tia Alice?- Perguntou Sasha.
__Quer dizer que trabalham muito, querido.
__Ah! Eu não trabalho, quer dizer eu limpo o quarto, dá bastante trabalho.- Todos riram.
__Não.- Disse Luca, o mais novo de Clara.- Ela quer dizer que somos ocupados. Na escola, no trabalho, em tudo. Que temos pouco tempo para nos divertir.- Era exatamente igual a seu pai.
__Ah. Entendi.
__Muito bem.- Disse Alice.- Podem me perdoar por ter sido tão exagerada? – Todos responderam juntos como se fossem uma classe escolar.
_Sim!! – E riram.
__É, mas agora já lavei o banheiro.- Esse era o Cisco de sempre.
__Você não fez mais que sua obrigação.- Disse para o filho.- Agora vamos comer a lasanha do Rody.
__EEEHHH!!!- O almoço foi delicioso. Após a famosa mousse de Chocolate de Clara, todos descansavam pelo jardim da frente da casa. Rody levou Alana para o balanço. Ele sempre a balançava ali, desde menino, desde que Jorge se casou com Alice e vieram morar naquela casa. A casa que tinha pertencido aos ancestrais de Lia e Nina. Alana só conheceu a felicidade ali, naquele balanço. Agora, a corda grossa estava coberta por uma trepadeira que dava umas flores brancas pequeninas. Ela sentiu a emoção de estar de volta onde toda sua alegria teve início. Ela sentou-se, mas diferente de todas as outras vezes, Rody não caminhou para trás dela, em vez disso, ajoelhou-se na sua frente:
__Meu amor. Me apaixonei por você no dia que entrou na sala de pintura da escola de artes. Eu nunca tinha vista uma menina tão linda, seus olhos me fascinaram. Eu que venho de uma família de homens totalmente apaixonados, compreendi naquele instante que pertenceria a você por toda a minha vida. Quando conheci você, seu silêncio me encantou. Como você podia dizer tanto sem falar nada? Não pude resistir. Desde então, sou seu. Durante todo tempo que estive longe de você, tentava encontrar um meio de convencer meu coração, que eu poderia sobreviver sem seu calor, sem seu cheiro, sem seus olhos. Mas eu não posso. Por isso, estou aqui, diante de você, na frente da nossa família, no lugar que nos beijamos pela primeira vez, para implorar que me livre deste fim. Por favor meu amor, case-se comigo?- Abriu uma caixinha vermelha e dentro o anel. O aro do anel em ouro todo cravejado de pequenos diamante e em cima uma pedra de corte quadrado torneada pelo mesmo desenho. Um topázio da mesma cor que os olhos dela. Os olhos marejaram na mesma hora.- Esse é o anel que pedi para Vovô desenhar para você, quando fiz 17 anos. Mamãe o guardou para mim todos esses anos. Ela sempre disse você usaria esse anel.- Alana olhou Tia Lia, tão querida.Ela estava emocionada vendo seu filho fazer seu pedido. Toda a família estava. Alana amava essa família, e amava muito mais esse menino sorridente, que se transformou num homem magnifico.- O que me diz amor? Quer se casar comigo?_ Alana se concentrou, precisava pensar e canalizar suas energias como a fonoaudióloga tinha ensinado. Tomou o queixo dele com uma mão e estendeu a outra, respirou fundo e disse sonoramente:
_Sim.- Olhou alegremente para ele.- Mas Rody ficou imóvel. Percebeu um certo espanto e um longo silêncio da família. Pensou que não tinha dito a palavra correta. Se concentrou outras vez e repetiu.- Sim.- Ele olhou sua mãe, parecia confuso. Alana achou que não tinha saído direito. Droga! Devia ter treinado um pouco mais. Olhou sua mãe pálida e com lágrimas escorrendo pela face e até Jorge um pouco espantado. Resolveu usar sua língua habitual. Voltou o rosto dele para ela dizendo em libras.- Amor, eu disse sim. Você não entendeu? Ficou muito estranho? – Ele a abraçou chorando.
__Não.- Disse emocionado.- Sua voz é linda.- Beijou-a com lágrimas caindo dos olhos de todos os presentes.- Eu não sabia que você podia falar.
__Eu comecei a fazer aulas a muito tempo, quando ainda namorávamos. Diana me incentivou para entender melhor as crianças com problemas de dicção. Um dia a minha fisioterapeuta quis fazer um teste. Ela concluiu que eu posso falar. Meu aparelho fonador não foi prejudicado. Então comecei a fazer aulas. Mas como não posso ouvir, não sei como e se estou fazendo direito. Não sei como é minha voz.- Baixou os olhos. Ele ergueu o rosto dela sorrindo.-
__Sua voz é linda. Parece a voz de sua mãe, mas é um pouco mais abafada. Eu achei muito sensual, se me permite o comentário.- Riu.- Se sente bem fazendo isso? Quero dizer, você quer falar?
__Quero. É estranho. E trabalhoso. Mas quero ser como as outras pessoas. Pelo menos um pouco mais parecida.
__Sinto muito amor, nunca será igual as outras pessoas. Sempre será muito mais linda, muito mais doce, muito mais deliciosa. Sempre será o amor da minha vida. Mesmo que nunca ouça a sua voz. Não precisa usa-la se não quiser. Mas estou muito orgulhoso que tenha escolhido hoje, para me mostrar sua voz. – Ela sorriu.
__Tem outra coisa que quero lhe dizer. Por favor, tenha paciência.- Respirou fundo e começou, falava devagar, respeitando as vibrações de sua garganta. O sim para ele era o mais bonito do mundo. Não podia imaginar o que ela iria lhe dizer, nem a imensa emoção que iria sentir a seguir.- Eu…amo…você… Rody.- Foi lindo. Muito, muito, muito lindo. Rody deslizou o anel no dedo dela chorando, suas mãos tremiam. Não sabia o quanto ouvi-la dizer que o amava iria eleva-lo. Neste momento todos os parentes, um a um, foi até eles e entregou um ramo de margaridas brancas, a flor preferida dela. Todos beijaram e abraçaram o casal. Sua mãe e Jorge começaram e Cisco e Lú terminaram a homenagem deixando para trás um casal rodeado de margaridas brancas no balanço. Uma cena de filme. Quando Lú e Cisco chegaram a cadeira de jardim que ocupavam, ela esperou que ele se sentasse para se aninhar no colo dele, como estavam antes, mas ele não o fez. Olhou- a profundamente e sorriu lindo para ela.
__O que…- Ela não terminou sua pergunta. Viu incrédula, Cisco se ajoelhar em sua frente como Rody havia feito a pouco.
__Lucélia. Minha Lú.- Sorriu.- Sei que dirá que sou maluco, que não deveria fazer isso agora, que estamos namorando a apenas um mês, que só tenho dezenove anos, que você só tem 18, que falta muito para terminar a faculdade, que devemos fazer as coisas com calma. Essa é você. A menina linda, meiga, centrada, inteligente com insuperável aptidão para a dança e para me fazer feliz. Sei que você, igual Vovó Lia, está sempre certa. E neste caso também. Deveríamos esperar. Mas este não sou eu. Não quero esperar. Eu quero você! Eu quero acordar com você, ir para faculdade com você, almoçar com você, ensaiar com você, dançar a noite com você, jantar e dormir com você todos os dias da minha vida.- Os olhos dela derramaram as primeiras lágrimas.- Não suporto a ideia de ficar longe de você, seja para o que for. Eu quero você para sempre. Quero terminar a faculdade com você, construir minha vida, ter filhos com você. Vi todos os falcões amarem suas mulheres com essa mesma força, mas não fazia ideia do que essa força era capaz de fazer dentro de mim. Enfrento qualquer dificuldade, qualquer problema, qualquer dor, desde que você, minha pequena, esteja comigo. Em contra partida, sou um fraco, totalmente perdido sem você. Sei que talvez você prefira esperar, eu entendo, aceito e continuarei seu do mesmo jeito. Mas você me disse que não queria correr o risco de me ver sofrer. Se é assim….- Tirou do bolso uma caixinha em forma de cereja. Dentro um anel de ouro rosê, nas laterais, na metade do aro começavam umas fileira de pequenos brilhantes que se contorciam e se multiplicavam em cima se misturando com pequenas esmeraldas, formando o bulbo de uma flor. Um lindo rubi. O anel que ele escolheu para ela, era a junção dos desenhos dos anéis das mães deles. Rosê com brilhantes como o anel de Liv, e um rubi vermelho como o de Alice. Lú levou a mão a boca assim que o viu. Ela entendeu. Ela sempre entendia todas as ações dele. Sempre conseguia antecipar seus movimentos. Como quando dançavam. Porque então não desconfiou de nada? Como ele conseguiu mandar fazer aquele anel tão lindo? Olhou seu avozinho idoso, sorrindo para ela. Claro Vovô Rodolfo. Olhou sua família que esperava ansiosa pela resposta dela. Mari parecia nem respirar. Seu pai tão carinhoso segurava a mão de sua mãe. Os olhares delas se cruzaram. E Lú soube imediatamente o que deveria fazer. Voltou seus olhos para o príncipe ajoelhado em sua frente. Ele sempre confiante, neste momento parecia um pouco apreensivo. Cisco sabia que ela o amava, que o queria, mas estava com medo que ela preferisse esperar.
__Se preferir esperar até terminar a faculdade, mesmo assim será meu noivo e poderei ficar com o anel, certo?- Perguntou muito séria. Cisco baixou um pouco o rosto, soltou o ar dos pulmões, sorriu, voltou a olha-la e disse:
__Claro que sim. Este é o seu anel, só seu. – Suspirou.- Bem, não pode me censurar. Sou louco por você, tinha que tentar.- Foi colocando o anel no dedo dela e dizendo:- Mas já vou logo avisando, não desisti. Vou tentar convence-la até que me deixe leva-la ao cartório.- Todos riram.
__Não será preciso.- Ele parou, parecia não ter entendido, mas continuou olhando nos olhos dela. Ela sorriu de leve. Os olhos cor de Uísque dele se encheram de lágrimas.
__Jura?- Disse num fio de voz. Ela balançou a cabeça deixando mais lágrimas cair. Cisco se levantou imponente, seu gestos poderosos nada combinavam com as lágrimas que lavavam seu rosto agora. Aconchegou a pequena com cuidado nos braços, encostou o queixo na cabeça dela.- Gosta de me assustar, né? Depois eu que levo fama de travesso.Você vai acabar me matando, sabia?
__Só se for de carinho. Eu te amo, bailarino.- Cisco chorou ainda mais. Neste momento, todos os presente trouxeram para Lú um ramo de cerejeira. Ela entendeu que era isso que Alex e os tios tinham ido buscar para Clara. Essa delicadeza tinha a mão dela. Trouxe para suas primas suas flores preferidas no dia de seu noivado. Então isso queria dizer, que todos sabiam das intenções dos noivos, menos ela e Alana. Logo, tudo em volta de Lú cheirava a cerejeira.
__Meus amados.- Disse Alice.- Agora todos entendem porque estava tão nervosa. Não é todo dia que todos os seus filhos ficam noivos ao mesmo tempo.- Todos riram.- Pois bem, eu quero dar um presente para a minha filha querida, para que ela use no dia do seu casamento.- Estendeu uma caixinha.- Para combinar com seus olhos.- Alana abriu a caixinha, dentro brincos ear cuff com uma pequena pedra de topázio e asas de borboletas de ouro, muito delicado rodeando toda a orelha.- Asas para você que me ensinou a ter coragem. Seja muito feliz, minha filha.- Alana só chorava. Alice virou-se para Lú, caminhou para ela com outra caixinha na mão. __Ninguém seria melhor escolha para amar meu filho que você. Você é a bailarina mais doce e mais talentosa que já conheci em toda a minha vida. E olhe que dancei com sua mãe.- Sorriu.- Se existe alguém capaz de faze-lo feliz é você. Muitas vezes tive dúvidas na minha vida, mas sobre isso, sempre tive toda certeza. Vocês sempre se pertenceram.- Lú abriu a caixinha. Um par de brincos ear cuff com pequenas flores de cerejeira com o miolinho de rubi, bem delicado. No mesmo desenho do anel de noivado. Elas se abraçaram.
__Cuidarei dele. Juro.- Disse baixinho.
__Eu sei querida. Você sempre cuidou dele.
__Bem.- Disse Vovô Rodolfo, o idoso patriarca.- Venham aqui meus netos.- Eles foram e se sentaram aos pés da cadeiras onde seus avós estavam sentados.- Sabem que está família amorosa foi uma benção que pedi muito a Deus e ele me concedeu. Também sabem, que como todo bom velho, sou cheio de histórias.- Todos riram.- Não vou chateá-los. Gostaria de lhes fazer um pedido. Na verdade, dois. Nunca pensei que fosse durar tanto a minha vida. Não estou reclamando. Tive alguns sofrimentos, mas inúmeras alegrias. Todas ligadas a vocês. Gostaria de pedir que se for possível, não demorem muito para se casar. Não quero parecer funesto, mas estou mesmo muito velho.- Riram de novo.- O segundo pedido, é que me permitam dar a vocês, como dei a seus pais, a lua de mel de presente.- Os netos sorriram para seu querido vovô.- Muito bem. É chegada a hora do juramento de gêmeos.- Cisco olhou Rody sorrindo, colocou a mão sobre o ombro daquele que sempre fora seu tio, seu amigo, seu irmão.
__ Rodolfo. Eu juro estar ao seu lado, defender você e protege-lo como sempre fiz e sempre farei com minha irmã. Alana e eu não somos gêmeos, mas nos amamos exatamente assim. Você sempre foi meu sangue e agora será ainda mais. Seus filhos, serão meus filhos. Meus filhos serão seus, e os seus, meus. Seremos a mesma família, a mesma casa, o mesmo clã. Como minha irmã sempre será minha família, você também será. Como todos os falcões. Eu juro.- Rody sorriu com lágrimas de emoção. Então Mari se aproximou muito solene. Olhou Cisco nos olhos, disse com voz limpa e forte dos falcões.
__Francesco. Esse é o juramento de gêmeos. Quando um gêmeo se casa, ele não perde a ligação que tem com seu irmão. Pelo contrário, ela cresce e se expandi para a nova família. Você sabe disso, conhece nosso gêmeos. Todos lutam uns pelos outros. Você sempre foi meu primo, meu amigo, agora será meu irmão. Lutarei,por você. Defenderei você. Como faço com minha irmã. Seus filhos serão meus filhos, os meus serão seus. Seremos a mesma família, a mesma casa, o mesmo clã. Como minha irmã sempre será minha família, você também será. Como todos os falcões. Eu juro.- Neste momento, Calebe e Caio, os irmãos mais novos de Mari e Lú caminharam até eles carregando uma caixinha cada um. A que estava com Calebe era oval de prata com brocados requintados e suaves na base e em volta da tampa. Tinha pezinhos como uma banheira antiga e em fecho com cadeado em forma de um gota.
__Está era a caixa de joias da mãe do vovô Carlos. Aquela que era irlandesa e ruiva como eu.- Sorriu.- Ela estava com a vovó Nina. Mas a vovó quer que fique com você, Alana. – Alana olhou Nina que chorava muito emocionada. Rodolfo falou.
__Minha linda. Você conhece a tradição dos falcões. Dentro da caixa de prendas, encontrará um presente de seu irmão, e um presente meu. Encontrará também mimos dos parentes e amigos aqui. Nunca saberá quem deu o que. E nunca poderá devolver nada. São suas lembranças da família que já é sua.- Alana sorriu para seu avô se concentrou e disse em alto e bom som.
__Obrigada, vovô.- Rodolfo chorou.
__Não faz isso com seu velho avô, querida. – Sorriu entre lágrimas. Então o pequeno Caio, se adiantou com a caixa de Lú, que estava envolta em um tecido. Sorriu para ela, colocou a caixa no degrau e disse:
__ Está pesada.- Ela fez um gesto de pegar a caixa. Caio estendeu a mãozinha sobre a caixa.- Não. Preciso falar umas coisas antes. Né, Vovô?- Olhou seu bisavô que sorriu apaixonado pelo pequenino. Sem dúvida ele era um falcão corajoso e determinado.- Então, sempre que uma de vocês vai se casar, ganha de presente dos falcões a caixa de prendas. Vovô disse que é sempre uma caixinha bem velha, quer dizer antiga.-Riram todos.- Que era de uma das vovó.Mas a sua é diferente. Porque você é a primeira bisneta a se casar. Sua caixa não foi de ninguém antes de você, mas foi feita por todos os falcões para você.-Ele ia descobrindo a caixinha.Parou olhou para ela.- Você pode fazer aquele pose que eu gosto? Aquela que Cisco segura sua mão e sua cintura?- Lú sorriu para o irmãozinho, pôs-se na posição de balé que ele pediu.
_Assim?- Ele sorriu descobriu a caixa, todos viram em cima da tampa plana da caixa, um casal de bailarinos de uns 8 centímetros esculpidos na mesma pose. Eram eles.A caixa redonda em prata paladium, tinha brocados interessantes em toda a volta, arabescos, flores,filigranas. Estilos diferentes misturados se completando com muito bom gosto. Um desenho clássico, rebuscado por vários artesões. O casal de bailarinos parecia dançar em um lago de gelo rodeados por uma floresta. Uma peça única. Os olhos dela se encheram de lágrimas e voltaram-se para seu avô.
__Minha linda bisneta. Você veio ao mundo com os olhos do anjo que Deus me deu para libertar meu coração.- Olhou Lia.- E ainda veio junto com uma ruiva linda que só me deu alegrias.- Olhou Mari.- Pensei que não alcançaria a graça de vê-la se casar. Mas Deus é sempre muito bom comigo. Desenhei esta joia para você no dia que seu noivo, me pediu o desenho do seu anel de noivado. Ele me disse o que queria para você. Algo que você achasse belo, mas que lhe fosse confortável e representativo para você. Falou das formas e de alguns detalhes. Ele sabia que você ia gostar, te conhece bem, sempre esteve ao lado, é seu primo. Como aconteceu com sua mãe e seu pai. Achei o anel muito bonito e significativo. Então criei a caixa. As formas são parecidas, como pode ver. Achei que tinha ficado bonita, mas parecia que faltava algo. Foi quando pensei em chamar os outros artesões da família, o último deles, nosso jovem falcão aqui.- Apontou Caio, que sorriu apertando os olhinhos. – Sugeriu o casal dançando no lago de gelo.- O avô sorriu orgulhoso do belo trabalho.- Esta caixa deve ficar com você, as prendas dentro serão sempre suas, mas diferente da joia de sua gêmea, a minha, e todas as prendas dos falcões, ela deve ficar com você, ou com seus descendente, até que outro casal de primos se casem nesta família. Com vocês, nós instituímos uma nova tradição. Está é a caixa dos primos. Sempre que o amor, unir dois falcões primos, eles receberão esta caixa de prendas. Promete cumprir essa tradição?
__Sim.- Disse chorando.- Prometo, vovô. Obrigada.- Foi muito emocionante.

O Namorado

Capitulo 6
Depois de um tempo brincando na piscina, todos foram convocados para a hora do lanche. Se reuniram sentados no chão, nos pufes e os mais velhos nas cabeiras da sala de dança de Liv. Outros, com os menores no colo, ficaram no jardim de inverno que tinha uma visão privilegiada da sala de dança pela parede de vidro. Jorge já não dançava mais, mas ainda tinha o coração de um bailarino. Ver seu filho em ação, era sempre uma alegria. E Alice, Liv e Nina, faziam questão da opinião masculina para as produções da Companhia. Elis, Carol, Lu e Mari já estavam com suas malhas e se alongando quando Cisco entrou.
__Que demora! – Disse Marcelo, primo mais novo de Alex. O irmão de Elis era tão gozador quanto Cisco. Por isso sempre foram amigos, desde meninos. Marcelo nunca perdia a chance de implicar com as malhas de Cisco.- Pensei que uma de suas meias tivesse rasgado na sua unha sem lixar.- E riu. Cisco mostrou língua como se tivesse 3 anos arrancando risadas de todos.
__Eu só sei que estou no lucro.- Disse Vincenzo, o primo chefe do Aimê.- Vou assistir o espetáculo antes de Sylvie.- Riram.- Graças a Alana, é claro.- Piscou e jogou um beijo para ela. Alana se aconchegou nos braços de Rody que sorria, lindo como sempre. Nina explicou alguns detalhes para os bailarinos. Liv entrou vestida para ensaiar. Continuava a talentosa bailarina que virou a talentosa professora. Ben, sentou na frente.
__Vou ficar bem quietinho, mas quero ficar na frente para ver as minhas lindas dançando.- Seus dois meninos correram para ele.
__Podemos ficar aqui, papai? Também vamos ficar quietos, né Caio?- Disse Calebe. Ben olhou sorrindo para sua cópia e os aconchegou entre suas pernas. Liv começou a contar:
__Cinco, seis, sete, oito, Pliê, Tendê, Jetê….Os bailarinos seguiam seu comando com perfeição. Em seguida Lú Mari e Cisco mostraram os passos da nova rotina. Carol e Elis logo os seguiram. Então Os três mostraram uma parte da coreografia em que eles dançariam juntos. Depois Nina posicionou Cisco e Lú para o dueto. O corpo de Cisco era o perfeito corpo de bailarino. Alto, totalmente definido, braços poderosos e panturrilha gigante, porém um homem magro, como sua profissão exigia. As roupas facilmente escondiam toda sua musculatura completamente trabalhada por anos de dança. Apenas eram denunciados pela postura sempre ereta. Perto do corpo pequeno da prima, ele parecia um gigante. Lú assumiu a posição que sua avó lhe indicou, e então a beleza se fez. Nem parecia que estavam ensaiando aquele dueto pela segunda vez. Eles se antecipavam, se convergiam, se iluminavam. Lú era tão ou mais delicada que Liv, seus passos pareciam leves como uma pluma. A dança a tomava. E quando dançava com o primo, a força, a energia, a potência -, e a delicadeza que ele demonstrava tornavam tudo ainda mais incrível. Ela sabia que ele sempre a protegeria, que nunca a deixaria se machucar. Então se permitia ousar ainda mais. Confiava nele, e Cisco sabia disso. Essa confiança o tornava ainda mais perfeito em seus passos em sua dança. Cisco dançaria com qualquer bailarina, dançaria com qualquer pessoa, amava dançar com Mari, mas nada se igualava a dançar com sua pequena bailarina. O prazer de faze-la voar era maravilhoso. Ao final do dueto, ele deveria fazê-la girar e ambos iriam parar no chão ajoelhados, ele deveria segurar os braços dela enquanto Lú iria assumir a posição final do dueto. A mão direita na mão dele seria seu apoio para ela firmar o pé direito na ponta e levantar a perna esquerda totalmente reta para o alto. Um espacate lateral completo, de pé. Mostrando as formas definidas da pequena donzela também. Aconteceu exatamente como Nina havia imaginado, uma perfeição.
__Isso!- Gritou Mari.- Não é lindo, mamãe?- Os dois acordaram do seu transe e Cisco voltando a ser Cisco, mexeu as duas sobrancelhas e apertou a mão dela com um pequeno puxão trazendo-a meio desengonçada para seu colo. Ele riu enquanto ouviam as parabenizações dos parentes. Nem uma bailarina no mundo poderia questionar Nina por dar o solo para Lú, não se realmente amasse dança. Ela levantou rápido do colo dele. Parecia chateada com a brincadeira. Se aproximou da mãe e da irmã enquanto recebiam avaliações de Jorge e de Alice, e algumas sugestões de todos.
__Ei!- Disse Cisco só para ela.- O que foi? Está brava comigo? Ainda por causa da piscina? Olha foi divertido, não seja chata.
__Me deixe, Cisco.- Não olhou para ele. Ele ficou intrigado. Tentou segurar a cintura dela. Ela gemeu e deu um pulo, como se sentisse dor. Mari viu.
__O que houve?- O olhar preocupado.- Está machucada?- Ela não respondeu. Ela sempre fora ponderada, mais calma que Mari e os outros primos,e sempre doce. Nunca deixava de responder a ele. O silêncio dela foi suficiente para Cisco se sentir culpado.- Machuquei você? Quando caímos na piscina, foi isso? Desculpe.- Parecia nervoso agora.- Olhe, eu sou um idiota, mesmo. Mas eu pensei ter protegido todo seu corpo, eu segurei firme e com cuidado eu…
__Está tudo bem, Cisco. Me deixe.- Foi para a cozinha de sua casa, deixando Cisco muito desconfiado para trás. Abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água. Mari logo apareceu e a abraçou por trás.
__O que fazemos com aquele bailarino tonto?- Sua voz risonha tentando alegrar sua doce e amada irmã.- Tão talentoso e tão idiota.
__Não temos nada a fazer, Mari.- Suspirou.- Nada.- Uma lágrima desceu em seu rosto triste.- Por favor, diga a Vovó Nina que estou com um pouco de dor na panturrilha, deve ser fadiga, vou descansar. Diga que se ela quiser, amanhã repasso a rotina com vocês.- Mari acariciou a irmã.
__Quer que vá com você? Posso fazer uma massagem. Podemos conversar, xingar Cisco.- Sorriu amorosa.
__Não. Eles vão querer ver mais da nova coreografia. Dance por mim, por favor, sim?- Mari assentiu. E Lú subiu para o quarto. Cisco viu ela sair da cozinha e subir as escadas, saiu de fininho da sala de dança.
__O que há com ela?- Perguntou a Mari. Ela desconversou.
__Está cansada. Com um pouco de dor. Temos dançado bastante e ela é mais delicada. Pediu para assumirmos. Você acha que se mudarmos aquele primeiro passo para…- Cisco deixou ela falando sozinha e correu escada acima.- Ei! Onde vai? Seu grosso! – A Ruiva olhou seu primo fazer apressado o mesmo caminho que sua irmã tinha feito a pouco. Sorriu esperançosa e virando-se foi para a sala de dança. Lú estava sentada na poltrona do quarto, abraçada as pernas encolhidas. Chorava baixinho. Cisco entrou silencioso, ajoelhou-se na frente dela.
__Pelo amor de Deus, minha pequenina, me diz porque está tão chateada comigo? O que foi que eu fiz? Não gostou da brincadeira da piscina, nem que fiz você cair ainda a pouco, mas não pode ser só por isso que não quer mais dançar comigo. Você tem me evitado. Porque? Por favor, minha linda? O que foi que fiz para magoa-la tanto assim?- Ela chorou mais.- Lú, não faz assim, vai me enlouquecer. Olhe para mim, por favor, minha linda?- Ela demorou um pouco, mas Cisco esperou. O coração protetor dos falcões apertado dentro do peito. Porque ela estava tão ferida? Como e quando tinha magoado sua linda bailarina? Tentou se lembrar de tudo o que tinha feito na última semana, no mês e nada parecia ser tão grave. Mas já tinha percebido há algum tempo que ela vinha se distanciando dele. Quando enfim ela olhou para ele com os lindos olhos negros molhados de lágrimas e um certo receio de o encarar, tudo se fez claro como água. Ela não precisava dizer nada. Na verdade, ela nunca precisou dizer nada para ele. Cisco sempre entendeu tudo o que a pequena bailarina queria dizer. Desde sempre. Como pode ser tão idiota? Insensível! Acusou Alana de agir assim e no entanto, era exatamente o que tinha feito.- Porque não me contou, Lú?- Ela soluçou.
__Porque não quero que sofra.- Uma frase tão pequena e tão cheia de significado. Eles conheciam as histórias de todos os falcões e tinham visto Rody sofrer desesperadamente por Alana. Ela não queria que ele passasse por aquilo. Não queria correr o risco de fazê-lo sofrer. Queria protege-lo. O coração de Cisco explodiu com uma sensação até então desconhecida para ele. Ele enxugou o rosto dela com as mãos dizendo:
__Porque acha que tem o direito de decidir por mim?
__Cisco…- Ela tentou argumentar. Mas ele não lhe deu tempo.
__Eu te amo.- Disse olhando nos olhos dela.- E acabo de descobrir que não é nada fraternal.
__O que?- Disse incrédula.- Cisco, você não tem que fazer isso.
__Fazer o que? Isto?- Beijou-a. Começou implacável para mostrar a verdade do que dizia. Mas quando achou que era ele quem ditava o ritmo do carinho, percebeu que ela o beijava com uma voracidade de quem havia esperado aquele momento a vida toda. Seu sangue ferveu. Como aquela coisinha tão doce, tão tímida podia ser tão fogosa, tão sedutora, tão deliciosa? Se viu louco por ela. Queria continuar fazendo aquilo, beijando ela daquele jeito tão intenso para sempre. Nunca um beijo tinha sido tão bom. Então, neste instante, ela acariciou sua nuca, seu cabelo. O toque doce, delicado, mas firme fez o coração dele disparar ainda mais velozmente. Precisava parar, ou seu tio o mataria. Ofegante como nunca esteve antes na vida disse:- Desculpe, sou mesmo um idiota. Como pude perder tanto tempo? Como pude viver sem esse beijo?- Juntou as sobrancelhas.- Porque minha pequena tão linda, tão inteligente, foi tão cruel e escondeu de mim esse tesouro? – Ela sorriu tímida.
__Cisco, isso não vai dar certo.
__Só porque somos primos? Seus pais também são.- Beijou-a sorrindo.- Arrume outra desculpa. – Olhou-a em desafio, ergueu uma sobrancelha como Nina fazia.
__Cisco, olha o que houve com Rody. Achávamos que ele nunca sofreria, afinal ele e Alana sempre se amaram, sempre namoraram, e no fim..
__No fim eles se amam, e vão ficar juntos.- Beijou-a de novo, mais descarado, agora.- Outra desculpa?- Ela suspirou.
__E se for eu?- Os olhos cor de uísque dele pegaram fogo.
__Morro antes de fazê-la sofrer.- O peso da sinceridade daquelas palavras atingiram Lú bem no fundo.- Sabe que é verdade. Sempre protegerei você. Jamais faria você sofrer. Não de propósito. Lucélia, sabe que sou brincalhão, sabe que gosto de provocar vocês, mas por nada no mundo machucaria você de verdade. Já saí com outras garotas, você sabe..- Ele olhou para ela e um entendimento lhe encheu de culpa.- Você já…?- Suspirou.- Desculpe. Deus, quantas vezes já lhe pedi desculpas hoje? Que droga!- Segurou o rosto dela com carinho.- Eu não sabia que sofria. Eu… Olha, sempre te achei linda, sempre tive ciúme dos garotos dando em cima de você, sempre achei você a melhor bailarina do mundo, sempre amei esse sorriso tímido. Mas eu acreditava que tudo isso e todo o carinho que sentia por você, era porque somos primos. Eu nunca tinha pensado em….- Fez uma cara de safado.- Quer dizer, talvez uma ou outra vez, mas só porque você é muito gata e eu sou homem.- Riu.- Eu não podia imaginar que Deus tinha me preparado um presente tão grande. Eu nunca achei que mereceria o amor de uma princesa de verdade. Estive com outras garotas, mas não me apaixonei por nenhuma. Elas nunca
chegaram nem perto do meu coração.- Sorriu.- Me perdoe, meu amor? Deixe-me compensa-la? Deixe-me entregar meu coração desgovernado para você? Sabe que depois que fizer isso, ele terá que parar de bater para deixar de te amar.
__Cisco. Até 10 minutos atrás, nem sabia dos meus sentimentos por você. Muito menos que poderia vir a sentir qualquer coisa diferente por mim. Como pode dizer que me ama e que vai me entregar seu coração para sempre? Isso não é possível.
__É sim! Em qualquer outra família diriam que isso não pode ser verdadeiro e duradouro, mas não na nossa. Eu sou um falcão, Lú. E sou seu. Eu sempre fui. Eu só não sabia. E você sempre foi minha. Sempre. Lú, você me completa. Sempre completou. Somos muito diferentes, mas juntos somos um. Duas metades da mesma felicidade. A prova disso é quando dançamos juntos. Amo dançar e farei isso por toda a vida. Mas com você não é simplesmente dança, é amor. Você é a garota mais inteligente que conheço. E você me conhece, sabe que estou falando a verdade. Sempre seremos primos, mas deixa eu ser seu namorado?- Ela abriu mais os olhos em espanto, pensou por um segundo.
__Tem outras bailarinas apaixonadas por você na Companhia e outras garotas na faculdade também.- Falou um pouco triste.
__Não quero namorar as outras.
__Mas elas vão ficar chateadas. Talvez até com raiva. Quem sabe até queiram deixar a companhia.
__Não quero namorar as outras.- Repetiu.
__Vão dizer que somos primos, e que eu não sirvo para você. Que você é lindo e pode conseguir coisa muito melhor que uma bailarina tímida. Quem sabe o que podem fazer para conseguir que você entenda isso.
__Eu…Não..Quero…Namorar..As …Outras. Eu amo você.- Sorriu matreiro.- Diz que me ama?- Lú o olhou desconfiada.
__O que? Cisco você me ouviu?
__Você ainda não disse que me ama. Eu vi nos seus olhos. Como vi que não queria dançar comigo o dueto hoje. Como vi que não queria que eu te tocasse. Como vi que estava chateada comigo. Do mesmo jeito que vi que seu avião não estava quebrado quando eramos crianças e pediu para o Alex arruma-lo também, apenas para confortar sua irmã. Do mesma maneira que sei que também pode ler os lábios dos outros igual Alana faz, mas nunca diz para não constranger ninguém. Da mesma forma que sei que ama tanto sua irmã, que deixou ela ser primeira bailarina, mesmo sabendo que embora ela seja excelente, você sempre será melhor que todas as bailarinas que essa companhia já teve. Do mesmo jeito que sei que lutará por nosso amor com todas as suas forças. Eu sempre pude ler seus olhos. Desculpe se deixei passar uma coisa tão importante como seus sentimentos.
Não é desculpa, mas estive muito preocupado com Rody e Alana. E talvez não estivesse pronto para ver. Mas agora é diferente. Estou muito feliz. Você me ajudará a proteger esse tesouro, essa joia que Deus nos deu. O amor de um falcão. O meu coração agora é seu, já lhe disse. Por favor, diga que vai me entregar o seu? Sabe, eu tinha muito medo de me apaixonar por alguém como Rody ama Alana. Tinha medo de sofrer como ele. Mas isso foi antes de saber que você era o amor da minha vida. Confio totalmente em você minha linda, sei da força e da pureza dos seus sentimentos. Sei que parece frágil e indefesa, mas é forte e lutadora. Não poderia estar mais feliz com meu presente.- Ela o olhou intensamente.
__Você não ouviu uma palavra do que eu disse.
__Ouvi todas. Eu sempre ouço você, amor. Mas não me importa o que outras garotas possam dizer. Só me importa o que você vai me dizer. E você? Ouviu tudo o que eu lhe disse?- Lú sorriu tímida e Cisco já tinha sua resposta.- Vamos, diz que me ama.
__E se eu disser que está enganado? Que você é muito convencido?- Sorriu lindamente para ele colocando seus braços em volta do pescoço dele.
__Diria que você está querendo me torturar. Que quer que eu implore pelo seu amor na frente de todos os falcões. De certa forma, acho que deveria mesmo fazer isso. Fui um idiota insensível, mereço ser castigado.- Sorriu. Eles se olharam profundamente. Um entendimento passou naquele instante.
– Você não precisa fazer isso. – Disse ela sincera.- Sim, eu estou apaixonada por você. Já faz tempo. Mas quando eu entendi que o que estava acontecendo era realmente forte, não apenas o encantamento pelo lindo primeiro bailarino…-Eles sorriram juntos,tocando mutuamente os lábios.- Bem, Alana e Rody se separaram. Eu fiquei com medo. Achei que talvez fosse melhor deixar tudo como estava. Eu amo você, não suportaria ver você sofrer. E também não sei se estou livre da maldição dos falcões. Rody sempre foi tão forte, tão alegre e de repente era a agonia em vida. Tudo porque essas garotas sem coração magoaram Alana.
__ Você sabia o que tinha provocado tudo aquilo?
__Alana é minha melhor amiga, depois de Mari. Tentei dizer a ela que para Rody, só existia ela. Mas Alana estava convencida que seriam mais felizes separados. Jurei a Rody não dizer a ela como ele estava ferido. Fiquei sem saída. Mas ontem quando ela me disse que estava querendo casar com Antonio, eu decidi interferir. Eu e Mari já tínhamos combinado contar tudo para Rody quando ele voltasse. Não pudíamos deixar Alana se casar com Antonio. Ele não é tão legal quanto parece. Felizmente Alana acordou.
__O que você sabe dele, meu amor? -Ela o olhou um segundo como sua avó fazia. Estava procurando a melhor forma de dar a informação.
__Cisco. Eu vou lhe contar tudo, mas não hoje. Uma surpresa de cada vez, certo?
Prometo te contar tudo, de tudo o que vi, e o que ouvi, do que sei. Sobre Antonio, sobre as meninas que causaram todo esse transtorno. Uma história de cada vez. Está bem?- Ele fez uma cara desgostosa.
__ Lú, essas malvadas fizeram Alana e Rody sofrer. Porque tenho a impressão que são as mesmas que vão tentar tirar você de mim?
_ Cisco._ Ela o olhou apreensiva._ Por enquanto, vamos deixar como está. Eu tenho meus motivos para preferir assim. E não quero estragar um momento tão bonito, que esperei tanto para acontecer.- Sorriu tímida. O coração do jovem falcão galopou ainda mais orgulhoso no peito.
__Minha sábia bailarina, não tenha medo de dividir seus segredos comigo. Sim? E quanto a essas despeitadas, deixe elas comigo.- Ela o olhou receosa, ele riu.-
Não se preocupe. Não vou ataca-las. Só se for preciso.- Riu.- Mas podemos fazer diferente. Você olha para mim se alguém tentar magoar você, e eu beijo você.- Sorriu.- Não acha uma boa solução?_ ela riu._ Elas não podem lidar com um beijo bom como o nosso.- Riram juntos. Cisco respirou fundo, acariciou o rosto dela e disse carinhoso.- Não sou muito de esperar, você sabe, mas tudo bem. Se prometer me esclarecer tudo depois, e se nunca der ouvidos a essas monstras.- Lu teve que rir, por isso tinha se apaixonado por ele, era sempre tão alegre com tiradas engraçadas. Envolvia a todos em sua empolgação. Cisco mirou seus olhos, baixou o tom de voz suplicante. – Por favor, minha linda? Deixa eu ser seu namorado? Admito, 30 minutos atrás, você era minha prima, a linda pequena que eu sempre quis proteger. Mas agora Lú, tudo o que sou depende e pertence a você. Sei que parece loucura, e que para sua mente tão lógica, isso não faz sentido, mas eu amo você. E se não me deixar ser seu namorado, rastejarei. Virei aqui fazer serenatas, mandarei entregar caminhões de flores de cerejeiras, estenderei faixas pela estrada.- Ela riu.- Não ria, sabe que sou louco o suficiente para isso e muito mais. Vou implorar todos os dias. Me declararei a você no final de todos os espetáculos na frente de todo o público.
__Pelo amor de Deus, Cisco.- Ela ria.- Quanto drama!
__Não vou parar até que diga que sou seu namorado. Diz meu amor? Diz? Por favor. Me deixa beijar você todo dia? Tentar diminuir minha falta por ter deixado você chorar escondido de mim tantas outras vezes. -Suspirou.- Foram muitas vezes, não foi?- Ela baixou o olhar.- Ah, meu amor, como eu não percebi antes? Estou tão revoltado comigo mesmo. A cada segundo me sinto mais culpado, mais idiota.
__Não foi culpa sua. Eu tentei não demonstrar. Não queria causar nenhum mal estar. E entendi que se você nunca percebia era porque não sentia o mesmo.- Os olhos dele não podiam demostrar mais paixão agora.
__ Lú, olhe bem dentro dos meus olhos. Diga se tem alguma dúvida do estou sentindo.- Colocou a mãozinha dela em cima de seu coração enlouquecido dentro do peito.- Por favor, amor, acredita em mim? Nunca em toda a vida senti nada nem perto do que estou sentindo agora. Uma vontade louca de te beijar sem parar misturado a um pavor intenso que não me aceite, uma necessidade incontrolável de te proteger. Sou um falcão, sempre quis cuidar de você, te dar carinho e proteção, mas jamais poderia imaginar algum dia ter tanto medo de te perder. Você me entende, amor?. Faz algum sentido para você? Consegue reconhecer o que estou sentindo? – Ela afirmou.- Então me deixa ser seu namorado?-_Ela queria, mas tinha medo, ele viu. Cisco a pegou no colo e desceu as escadas num segundo. Entrou na sala de dança e disse para Nina: -Tia Nina, resolvemos mudar um pouco o dueto.- Colocou-a no chão na posição inicial, começaram os passos, pareciam os mesmos, uma e outra ocasião que ele a trouxe para junto de seu corpo, tornando a coreografia mais íntima, mais apaixonada. No final, quando ela levantou a perna segurando na mão dele, ele puxou-a devagar, delicado a fez sentar em sua perna como uma borboleta e beijou-a na frente de todos. Um silêncio se seguiu. Ele se levantou, tomando-a pela cintura, olhou seu tio firmemente;- Tio, desculpe agir tão inesperadamente assim, mas eu a amo. Lutarei por ela sempre. Contra qualquer um que queira feri-la ou afasta-la de mim. Até contra o senhor, se for preciso. Não estou querendo desrespeita-lo, nem desafia-lo só esclarecer, que nada, nem ninguém vai tira-la de mim enquanto eu viver. Enquanto ela me quiser.- Ben olhou o sobrinho, depois para a filha um pouco espantada e muito emocionada nos braços dele, em seguida para sua esposa feliz e chorosa.
__Quem poderia imaginar tantas emoções no mesmo almoço de família?- Olhou seu primo e cunhado.- Nosso parentesco fica cada vez mais confuso, Jorge.- Chegou perto deles.- Não vejo nada de inesperado, garoto. Já sei dos sentimentos de minha pequena por você a muito tempo. Ela me contou. Ela sempre me conta tudo. Por isso sei que não deve ter sido nada fácil conseguir convence-la a ficar com você. Mostrou a fibra dos falcões. Se jurar que vai cuidar dela como um falcão, dou minha benção de coração. Se magoa-la, arrebento você. Nem pense que seu pai vai ajuda-lo ou protege-lo de mim.- Sorriu, olhou nos olhos de sua filha.- E você, meu docinho, promete ser feliz?- Ela sorriu para o pai encantando-o. Mari começou a dar uns pulinhos dizendo:
__Até que enfim…Ai que bom…- Correu para a irmã.- Eu te falei. Ele é um idiota, mas não é burro. Não ia jogar fora uma joia como você.- Beijou a irmã.
__Ei! Eu estou aqui, sabia?- Disse olhando a prima ruiva. Depois olhou em volta para seus parentes. Todos sabiam. Se sentiu o cara mais idiota do mundo. Olhou seu pai, que piscou abraçando sua mãe. Então olhou Alana. Ela tinha dado inicio a isso. Foi ela que pediu para dançarem. Ela também sabia, e pelo visto, sabia a muito tempo. Disse para ela movendo os lábios, sem som, só para que Alana entendesse.
__ Foi por isso que quis nos ver dançar o novo dueto?
__Bem, você me abriu os olhos, me devolveu a felicidade. Achei que devia retribuir o favor.- Sorriu. Cisco apertou a cintura de Lú, olhou em seus olhos negros, certo de que ela também podia entender o que conversava com a irmã. Voltou-se para Alana dizendo.
__Lhe serei grato por toda a vida. Nada que faça pagará o que acaba de me dar.- O olhar de cumplicidade entre os irmãos foi tocante. Alana olhou Rody e disse;
__Eu também.

O Namorado

Capitulo 5
Alana estava no colo de Rody numa das espreguiçadeiras da piscina da casa de Ben. Dormia profundamente, enquanto ele acariciava seus cabelos. Rody inalou o perfume dos cabelos dela tentando aplacar a saudade que o consumia a quase três anos. Cheiro de jasmim e maracujá. Deus, quase enlouqueceu quando viu aquele idiota indo para cima dela. Tinha ficado com um pouco de pena do cara. Afinal, quando Alana correu para ele pelo jardim quando chegou, viu a cara desconsolada do pobre antes que ela se jogasse em seus braços. Mesmo que tentasse não conseguiria deixar de corresponder a tamanha emoção. Sentiu o coração dela batendo contra o seu. As lágrimas molhando sua camisa branca. O corpo pequeno se contraindo contra o seu. Parecia que ela queria fundir-se a ele. Como ele poderia fazer seu coração parar de bater tão loucamente como estava? Tinha passado 18 meses sem vê-la. Sem sentir seu perfume, seu calor. Se não a amasse tanto, talvez conseguisse ser um pouco mais resistente a ela, mas esse não era o caso. Amava Alana intensamente, loucamente, verdadeiramente. Amava tanto, que trocaria a felicidade dele, pela dela. Foi por isso que quando estava entregue a emoção de tê-la nos braços novamente, recobrou o juízo, ao ouvir o comentário espantado de tia Nina:
__Deus do Céu! Eles ainda se amam! Pobre Antonio.- Aquilo o fez pensar nos sentimentos de Antonio e nos dela, que apesar da emoção demonstrada, devia estar apenas confusa pela saudade. Foi tentando se afastar dela, mas a reação que teve o fez rir. Ela parecia aquela menininha que tinha medo de escuro. Mas ao olhar para ela, tão linda, tão doce. Usava a flor que escolheu para ela, queria tanto beija-la. A insistência dela em falar com ele o deixou apavorado, será que estava acontecendo alguma coisa? O beijo o pegou completamente despreparado. Ela parecia outra, vigorosa, expressiva, entregue. Mas tinha o mesmo cheiro, o mesmo toque doce, o mesmo sabor. Ele se entregou. De repente sentiu seu corpo implorando por mais, seu coração pronto para se perder. Quando ela disse que achou que ele queria outras, perdeu o resto de controle que tinha. Precisava descobrir porque ela se enganou tanto assim. Pelo visto muitas coisas estavam encobertas em seu mundo sem sons. Coisas que Antonio usou para prende-la ao seu lado. Toda compaixão que sentiu por Antonio se perdeu quando avançou sobre ela. Naquele instante quis torcer o pescoço dele. Sentiu um imenso orgulho da forma como ela falou com Antonio. Firme, segura, corajosa. Quando Ben tirou o idiota da casa, quis aperta-la em seus braços. Mas achou bonito ela se chegar ao pai dizendo:
__Desculpe, papai. Nunca pensei que o senhor precisasse me defender outra vez. Mas não se preocupe, isso não vai mais acontecer. Prometo.- Jorge sorriu.
__Está tudo bem, florzinha. Você conseguiu se virar muito bem.
__Quase.- Sorriu e olhou o irmão.- Você tem toda razão. Ainda bem que não sou psicóloga.- Cisco riu.
__Ainda bem, mas eu te amo mesmo assim.- Abraçou Alana.- Vai voltar para Rody, espero?- Ela o olhou com cara de brava.- Alana, pelo amor de Deus! Rody, por favor? Não vai deixar essa teimosa solta de novo, vai?
__Eu não sou teimosa! Sou surda.
__HA!HA!HA!- Disse Cisco.- Boa tentativa.
__Não precisa pedir a Rody para ficar comigo. Ele disse que se eu resolvesse minha situação com Antonio, voltaria para mim, não foi?- Virou-se para ele sorrindo, parecia a mesma garotinha que conheceu quando menino. Olhou seu irmão e seu sobrinho, ambos a amavam e estavam dispostos a entrega-la a ele. Os dois o viram sangrar por ela, e a protegeram na ausência dele. – O que foi?- Disse ela.- Mudou de ideia?- Um pavor invadiu os olhos cor de uísque.
__Um falcão sempre cumpre suas promessas.- Sorriu.- Sempre.- Alana pegou sua mão, depois se aninhou em seu colo na espreguiçadeira e tudo parecia voltar a ter cor, vida, paz. Embora ainda preservasse o medo de que aquilo não fosse mais que outro dos seus sonho.
__Ela ainda está dormindo?- Perguntou Alice, sentando na outra cadeira ao lado de Lia.
__Parece que Alana, estava mesmo cansada.- Disse Lia sorrindo para o filho.
__Ela vinha muito estressada, nos últimos dias.- Diana olhou carinhosa para a quase sobrinha. Cisco saiu da piscina e veio pegar sua toalha.
__Na verdade, ela não tem dormido muito bem.- Disse Cisco.- E não tem me deixado dormir também.- Riram.- Espero que agora que as coisas voltaram para seus devidos lugares, eu possa voltar ao meu sono de beleza tranquilamente.
__Cisco! Você reclama de mais.- Disse Alice.- Depois, acha ruim que os outros bailarinos invoquem com você.
__Estou falando alguma mentira? Essa teimosa nunca me ouve. Resultado, eu fico sem dormir por causa das crises dela.- Chacoalhou o cabelo jogando água para todo lado.
__Ei!- Gritou Rody colocando o braço na frente do rosto de Alana.- Pare! Vai acorda-la.- Era tarde, Alana se mexeu como um gatinho acordando devagar. Rody cerrou os olhos na direção de Cisco. Que riu.- Oi meu amor. Durma mais, não foi nada. Só Cisco sendo Cisco.- Todos riram, inclusive Alana.
__Acho que já estive dormindo por tempo suficiente. – Olhou nos olhos dele. Não é comum para um surdo usar figuras de linguagens. Eles costumam ser bem diretos. Mas Alana tinha a influência de escritores e professores de literatura na família. Isso mudou um pouco sua forma de se expressar. Neste momento, todos entenderam o que ela queria dizer. Quase três anos sem Rody eram como uma noite escura para os dois. Principalmente para Rody. Alana olhou Vovó Lia.- Quero me desculpar com a senhora também, vovó Lia. Por minha causa, seu filho sofreu, e foi para longe da senhora. Sei que a senhora sofreu muito estando longe dele. Sei que a senhora nunca quis que seus filhos fossem para o mar, como o pai da senhora. Por favor, me perdoe. Eu me enganei. A senhora tentou me dizer para não dar atenção a comentários maldosos. Eu não entendi o que queria dizer. Quando aconteceu, fiquei cega pela dor e não reagi como deveria. Fui muito tola. A senhora me disse várias vezes que as pessoas teriam inveja de mim, da minha felicidade. Mas eu não entendi como isso podia ser verdade. Eu achava que ninguém teria inveja de uma surda. Me esqueci da família maravilhosa que tenho.- Olhou Rody.- Do príncipe lindo que encontrei no corredor da escola de artes todo sujo de tinta azul.- Sorriu.- Perdoe-me, Vovó? Não serei mais enganada. Seguirei seus conselhos sempre. Juro.- Lia Sorriu.
__Não se preocupe, minha linda. Não pense que sempre acertei. Também fiquei cega de dor ao ser menosprezada por estranhos. Eu ouço, mas tinha outros motivos para me sentir em desvantagem com outras moças. Para mencionar um exemplo, um dia eu estava no banheiro da escola, e ouvi quando umas garotas muito bonitas e populares debochavam de mim. Me senti a pior pessoa do mundo. Indigna do amor de um lindo príncipe de olhos azuis.- Alana arregalou os olhos.
__Verdade?
__Sim. Aconteceu algo parecido com você, não foi? Alguém fez você acreditar que Rody não te amava de verdade. Que ele só estava com pena de você. Que porque é gentil e bondoso não conseguia se afastar de você. Foi isso, não foi?- Alana olhou rápido para Rody. Depois voltou-se para Lia.
__ Ele contou para a senhora?- Parecia encabulada.
__Não. Rody não disse nada. Ele não conseguia entender porque você quis deixa-lo. Achou que você tinha se apaixonado por outro rapaz. Quando você começou a namorar Paulo, ele pensou que estava certo. Ele nunca desconfiou que poderiam existir outras pessoas envolvidas nessa história.- Sorriu.- Já estive numa situação como a sua, querida. Também agi tolamente. Também fiz um filho lindo de uma mãe dedicada sofrer. Posso compreender você, como também compreendi sua mãe.- Olhou para Alice que retribuiu um sorriso emocionada.- Ela também teve dificuldades de entender o quanto Jorge a amava. Não pense que isso é uma anomalia das mulheres de olhos cor de uísque.- Riram.- Isso é um problema que acontece quando não nos comunicamos direito. Sim, sofri bastante com Rody longe. Gosto do mar, me lembra meu pai. Só que realmente fui bem infeliz morando num navio, não queria essa solidão para meus filhos. Mas também achei a melhor solução naquele momento. Rody não podia ficar aqui. Não até você entender seus sentimentos. Mesmo que você tivesse visto Rody sofrer, provavelmente não entenderia a profundidade do que ele sente por você. Agora, sabe. Ele viu você com outros namorados, foi para longe, e durante todo esse tempo, jamais deixou de amar você. Ele é um Medeiros, um falcão. Não importa o que algumas meninas frívolas, digam a respeito de sua surdez, ou da minha pobreza, ou da diferença de idade de Alice, ou qualquer outra coisa que possam encontrar. Esse é o amor de um Falcão. Alana, conheci Rick quando eu tinha 17 anos, era pobre, gorda, feia, tímida e nerd. Ele era lindo, rico, popular, disputado, um escritor incrivelmente inteligente. Contrariando todas as regras, nos apaixonamos. Depois de todos esses anos, não mudamos em nada. Estamos mais velhos e eu um pouco mais magra, graças a Deus.- Riram.- Mas fora isso somos exatamente os mesmos. E esse amor continua o mesmo. Durante nossa vida juntos, muitas vezes vi mulheres muito interessantes tentarem corteja-lo. Vi como elas tentavam me desvalorizar para conseguir isso. Descobri que não importava o que elas fizessem, só importava o que eu fazia. Veja, vou mostrar.- Apontou para Rick na praia com os netos. Ele estava feliz brincando com as crianças. Lia acenou para ele. Ele respondeu igual e com um sorriso apaixonado.- Entende, querida? Bastou um pequeno gesto de carinho. Ele me ama. E continuará assim enquanto viver. Porque ele só sabe amar assim, para sempre. Eu precisei aprender a confiar naquele sorriso sincero que carrega a minha felicidade. As vezes ainda mal consigo acreditar que a nerd pobretona do navio, conquistou aqueles olhos azuis tão lindos.- Sorriu.- Mas enfim, não temos dúvidas do que o Vovô sente pela Vovó, temos?- Alana balançou a cabeça rápido sorridente.- Então, Rody é filho dele. – Alana entendeu o que Lia queria lhe dizer. Rody também a amaria para sempre, porque para ele, só assim que seria amor.
__Também tenho algo a dizer sobre isso.- Disse Diana.- As vezes, as pessoas fazem comentários maldosos sem querer. Ou dizem coisas sem a intenção de ofender. Mas quando você está dentro de uma situação incomum, as coisas tendem a parecer direcionadas para nós. Também fiz um falcão sofrer pensando que era melhor para nós dois se ficássemos separados. Achei que porque ele era tão forte, tão poderoso seria fácil para ele me esquecer e encontrar outra pessoa mais adequada. Não achei que um homem tão lindo, tão cheio de possibilidades pudesse querer apenas a mim. Uma pessoa cheia de traumas de lembranças dolorosas. Veja bem, Alana. Eu me preparei como Assistente Social, como Psicóloga para lidar com firmeza diante de comentários mesquinhos, mas bastou uma oxigenada magricela me chamar de negrinha, para eu achar que não tinha direito a felicidade. Sei que acha que sou uma mulher confiante e bem resolvida. Realmente, sou. Mas no que diz respeito ao amor, senão fosse a paciência, o carinho, a disposição de conversar do Ruivo, hoje eu seria totalmente infeliz. Percebi que ele não queria alguém melhor que eu. Ele queria a mim. Simples assim. Estava disposto a enfrentar meus medos, meus traumas, minhas lutas, todas as minhas guerras ao meu lado com um olhar doce e um sorriso fácil nos lábios.- Olhou Rody, depois Alana.- Exatamente igual ao seu falcão.
__Concordo com tudo o que disseram. Fui mesmo muito boba.- Olhou Rody. Sorriu para ele. Rody acariciou o rosto dela e Alana deitou o rosto na mão dele.- Mas a culpa é dele.
__Como assim? Minha porque?- Sorriu.- Eu fiz algo que desagradou você?- A voz sorridente e doce. Rody não sinalizou para ela. Não tirou a mão que acariciava o rosto que tanto amava. Sabia que ela podia ler seus lábios, sua única dúvida era porque ela tinha deixado de ler seu coração.- Precisa me dizer o que fiz para fazer você acreditar em uma feiosa qualquer?- Riu e os outros também.
__Ela não era feiosa. Era bem linda. Todas eram. Na verdade, sempre falavam umas coisas desagradáveis, quando não estávamos muito perto. Elas não sabiam que posso ler os lábios delas. Sempre vi elas desdenhando de mim. No começo, não ligava, mas com o tempo…. Você nunca deu nenhum motivo. Mas então…..
__Então?- Rody sentou-se ereto. Então algo realmente tinha acontecido.
__Um dia me cansei, achei que merecíamos algo diferente. Achei que você tão maravilhoso, merecia alguém mais a sua altura.
__Sei como é isso.- Disse Alice.- Pura inocência. Não se pode livrar do amor de um falcão. Tentei de tudo. Namorei vários garotos, casei com um deles. Mas nada adiantou. No momento que o vi anos depois, minha vontade naquele momento, era ter feito igual você fez, filha. Correr e me jogar nos braços dele. – Riu.- Não tem jeito, não sei o que esses homens tem, mas nos deixam completamente loucas por eles.- Riram de novo.- Devia ter me dito. Talvez pudesse ter lhe contado mais detalhes da minha história com Jorge. Vovó Lia tentou me abrir os olhos várias vezes, também. Minha mãe, até Nina.
__Como assim até eu?- Fez cara de brava.- Parece que nunca sei dar um bom conselho?- Riram outra vez. Mesmo sendo um assunto tão importante, os Medeiros tinham essa leveza ao tratar de seus problemas. Principalmente quando envolvia um equívoco._ Eu também disse para você falar com Jorge porque mesmo um cego poderia ver que era louca por ele. Mas nunca me ouve mesmo.
__Exatamente igual Alana.- Disse Cisco. – Deve ser coisa de irmã mais nova.
__Mas eu sou sua irmã mais velha. -Disse ela.
__É mesmo? Tem certeza?- Fez uma cara de dúvida hilária. As risadas apareceram outra vez.
__Tenho um pedido a fazer para meu poderoso e sábio irmão mais velho.- Disse Alana toda teatral.- Você poderia aproveitar que todas as bailarinas em atividade desta família estão presentes, e que chegou do cruzeiro para mostrar para nós seu novo dueto com Lú.
__Eles tem um novo dueto?- Perguntou Elis, agora terceira bailarina da companhia. Ela dançava muito bem e estava em excelente forma, mas o dom que Mari e Lú herdaram de sua família, era mesmo desconcertante. Mari agora era tão alta quanto Nina, tinha a mesma cabeleira ruiva da avó. Suas pernas longilíneas a tornavam a bailarina perfeita. Igual aquelas da caixinha de música. Ela era a primeira bailarina da companhia. Apesar de toda a exuberante beleza de Mari e sua aptidão indiscutível para a dança, quando a pequena bailarina de cabelos e olhos muito negros, colocava seus pequenos pezinhos calçados com sapatilhas no palco, não tinha para ninguém. Nem mesmo a irmã, que dirá as outras coristas. Mas por alguma razão desconhecida, Lú não queria ser a primeira bailarina. Lú herdara o talento de sua mãe, a sagacidade de seu pai e a bondade de seu avô. Da avó Lucélia herdou além do nome e os traços, a inegável sabedoria. Nesse momento, a pequena morena brincava com o Caio, o irmãozinho mais novo. Parecia despesa, mas tinha acompanhado todo desenrolar do assunto. Quando viu Alana mencionar o novo dueto, olhou direto para as sobrinhas de Diana. Elis, a mais nova, nunca se importou em deixar de ser a primeira bailarina, mas outras pareciam guardar um pequeno rancor. Mari era alegre e apaixonada pela dança como Nina. Para ela dançar era tão natural quanto respirar. Ela jamais se preocupou com sua posição na companhia, tudo o que importava era dançar. Mas seu evidente talento só seria superado por Lú. Lógico que as bailarinas da companhia falavam de nepotismo, mas não podiam negar a qualidade de Mari. Nina era muito coerente em suas escolhas, e exames eram feitos a cada nova coreografia. Nina dizia que mesmo os primeiros bailarinos, poderiam não se adequar aos protagonistas de vez em quando. Todos podiam brilhar, e ela coreografava para isso. Lú sempre tinha um solo com Cisco. Isso irritava as outras bailarinas. Só duas das sobrinhas de Diana continuavam na companhia. Elas não eram as únicas a desgostar deste detalhe. As outras coristas também reclamavam. Mas a resposta de Nina era sempre a mesma. Eles eram perfeitos juntos. Era como se fossem moldados um para o outro. Mari era a parceira constante de Cisco, se entendiam muito bem, se conheciam, e gostavam muito de dançar juntos. Mas não tinha como não reconhecer que quando Cisco dançava com Lú, ele brilhava ainda mais. A família sempre via os duetos deles primeiro. Jorge e Liv, ficavam emocionados ao verem seus filhos tão elevados pela dança, iguais a eles em sua época de parceiros. Então ao se mencionar essa possibilidade Mari já gritou:
__O dueto ficou maravilhoso! Se vão dançar, esperem que vou chamar mamãe e tio Jorge. Eles precisam ver a nova combinação de tendè deste dueto. Ficou muito lindo! Vovó Nina realmente se superou.- Sorriu.
__Mas eu achei que só iam começar a treinar a nova rotina semana que vem?- Disse Alice.
__Sim.- Respondeu Nina.- Mas mostrei as novas combinações para Lú, Mari e Cisco ontem a tarde.
__E como sempre Lú pegou tudo muito mais rápido que eu, claro.- Disse Mari rindo.
__Não é verdade.- Disse Lú.- Só estava menos cansada que você. Não me apresentei no preludio.
__Cisco também tinha se apresentado no preludio e pegou rapidinho quando dançou com você.
__Mas Cisco….- Ficou em silêncio por uns segundo e olhou Cisco.- Bem, Cisco é Cisco. – Cisco olhou a pequena prima sentada no chão vestida com um macacão curto jeans e uma camiseta branca de margaridinhas amarelas. Os pés descalços, nos cabelos um lenço azul com desenhos geométricos brancos, amarado para mante-los fora do rosto. Era linda, parecia tão garotinha como Caio. Totalmente diferente da alta e ruiva irmã gêmea dela. Mari e Lú eram fraternas. Mari 6 minutos mais velha. Parecia que era sempre assim, Lú sempre cedia sua vez, para a linda e ruiva irmã. E fazia isso com todo gosto, com todo amor do mundo. Cisco sempre gostou de provoca-las. Viu nesse momento a desculpa ideal para isso.
__O que quer dizer com isso, mocinha?- Soltou sua toalha. Foi chegando perto dela devagar. Como uma pantera, para o ataque. Lú arregalou os olhos, já sabia o que ele queria fazer.
__Cisco, não! Estou com Caio.
__Corra Caio!- Gritou para o garotinho sorridente a cara de Rody quando pequeno. O garotinho experto correu para fora do caminho quando Cisco como um vento pegou Lú no colo e pulou na piscina com ela, espirrando água para todos os lados. A algazarra foi geral. Outros falcões resolveram imitar Cisco, entrando com suas mulheres na água.
__Quer nadar, amor?- Disse Rody.- Alana sorriu para ele, e saiu tirando o vestidinho de saída de praia esvoaçante, que vestira de manhã, sem a menor intenção de entrar na água. Mas agora, tudo estava diferente. Estava feliz e queria se divertir com seu amor. Rody tirou a calça e a camisa, mostrando uma sunga preta moderna, que pouco escondia do corpo bem malhado.
__Você está mais forte.- Disse ela.
__Eu precisava ocupar minha cabeça nas horas de folga.- Sorriu.
__Já ouviu falar em livros? Seu pai não é escritor?- Disse sorrindo e cutucando o músculo do braço esquerdo dele.
__Sim. Li todos os livros do iate. Eram vários.- Riu.- Verdade. Mas ler não me dá sono, então..
__Perdeu muito o sono?- Ele acariciou o rosto dela.
__Não pude evitar. Estava muito longe de você.
__Não vai mais malhar tanto agora, então?
__Sim.- Abraçou-a.- Mas agora será para manter esse olhar de satisfação que me deu.- Sorriu safado.- Qualquer sacrifício pela sua satisfação, minha senhora,- O olhar que lhe lançou fez Alana se sentir a mulher mais desejada do mundo. Ela sorriu.- Vamos com a família. Mas antes preciso te dizer três coisas. Primeiro, você fica linda de maiô, segundo, não vou poder ficar te olhando muito senão seu pai vai querer quebrar minha cara, terceiro, vou querer saber toda essa história de garotas folgadas chateando você sobre sua surdez. -Ela ia negar.- Nem tente. Sangrei por quase três anos porque uma qualquer sem alma, fez você pensar que eu estava saindo com outras garotas. Quase se casou com Antônio. Tive que dormir 18 meses no balanço do mar. Aquele idiota quase bateu em você. Mereço saber todos os detalhes que levaram a isso. Eu amo você. Sou louco por você. Não vou correr o risco de tentarem tirar você de mim outra vez. Alana, me prometa, que se em algum momento ficar perturbada, com medo, desconfiada de mim ou de qualquer coisa, vai me contar. Nunca mais vai tirar conclusões sem antes falar comigo. Por favor, não consigo passar por isso outra vez. Eu preciso ter certeza que não vai esquecer isso. Jure, por favor?- Alana ficou na ponta dos pés e encostou os lábios na boca dele, moveu-os devagar e disse sem sons,
__Sim. Eu juro. Eu te amo. E só vou me casar com você.
__Casar?- Olhou-a espantado.
__Não agora.- respondeu rápido, envergonhada.- Quando quiser. Quero dizer se um dia quiser.
__Amei!- Riu apertando-a nos braços.- Fui pedido em casamento, não negue. Quer se casar comigo, não quer?- Ela balançou a cabeça encabulada.- Bem, mas você não pediu para meu pai e nem me deu um anel, ainda não estamos noivos.- Riu mais.
__Você está debochando de mim.- fez uma carinha triste. Rody ficou sério na hora.
__Não. Desculpe. Eu realmente gostei muito. Olhe, eu estava brincando. Não precisa de anel, só saber que me quer, me enche de uma alegria tão grande. Quando chorou na noite passada, quando nos falamos, eu larguei tudo para trás e vim. Eu precisava abraçar você. Mas eu vim preparado para sangrar ainda mais. Não tinha condições de ver você se casar com outro, mas voltei para perto de você mesmo sabendo o que essa certeza ia fazer comigo. Eu não podia imaginar ter tamanha felicidade. Num minuto eu estava apavorado que você iria entrar abraçada a ele, e no outro você estava me beijando loucamente, como nunca tinha feito antes. Passei por todas as emoções no mesmo dia. Compaixão e raiva também. Mas a única emoção que sempre sinto com você, independente de tudo, é esse amor sem controle desgovernando meu coração. Eu quero me casar com você, eu sempre quis. Seu anel de noivado está no cofre da mamãe desde que eu tinha 17 anos. Foi a primeira coisa que comprei quando comecei a trabalhar.- Ela o olhou apaixonada.
__Verdade? Como nunca me disse nada.
__Eu queria que fosse surpresa, e achei que você só iria querer falar de casar depois que se formasse. Então eu estava esperando. Nunca passou pela minha cabeça que você não percebesse meus sentimentos, todos eles. Por isso preciso saber onde eu errei. Ou melhor, quem fez você pensar que eu não te queria._ Alana pensou:
__Não foi exatamente assim.
__Como não? Você achou que eu estava traindo você.- Ele tinha razão. Merecia uma explicação.
__Rody, lembra das meninas que andam com Carol e com Gláucia? Aquelas que eram um pouco mais novas que eu? Uma delas ainda está na faculdade, ela sai com Cisco as vezes. Uma bem loirinha.
__Uma magrela, alta. Chata. Acho que chama Vânia.- Fez uma cara de susto.- O que foi que ela disse?
__Ela disse que queria ser minha amiga, estava a fim do Cisco. Bem ela não disse nada para mim, disse para Carol e outras um dia no corredor. Disse que tinha saído com você, para “beber”. Depois vi quando Gláucia disse ter visto você no Soprano com algumas pessoas do seu curso e bem…. Algumas moças.- Baixou os olhos.- Ela estava falando com Eliana, Eliana ficou furiosa com ela, disse para não ficar dizendo essas coisas, disse que se eu soubesse poderia ficar chateada com você. Foi quando tudo começou, eu acho. Passei a prestar mais atenção nas conversas alheias. Percebi que as meninas na faculdade sempre riam de mim, diziam que era uma boba de achar que um lindo feito você não desse umas escapadinhas, que deveria ser bem fácil enganar a surda apaixonada, que eu devia ser um chiclete, que você com certeza tinha pena de mim. Um dia uma delas comentou que você nunca me tocava como homem. Até aquele momento eu não tinha essa consciência, mas então…. – Olhou para ele arrependida.- Eu devia ter conversado com você, mas fiquei com muita vergonha. Eu não sabia como perguntar para você se você me desejava. Pior, fiquei achando que você diria que sim só para não me magoar. Lú insistia que eu contasse tudo para você, mas eu não conseguia. Um dia ela me disse que se eu não falasse com você, ela falaria. Então resolvi que daria fim na minha situação. Decidi terminar, achei que seria melhor para nós dois. – Encostou a cabeça no peito dele.- Sou uma idiota. Durante todo esse tempo, Lú insistia que eu deveria falar a verdade para você, que você entenderia minha atitude, que poderíamos ser felizes, mas eu nunca acreditei nela. Ela tentou muito me convencer. Preferi dar ouvidos aquelas frívolas. Desculpe.- Rody acariciou os cabelos dela.
__Então Lú não me obedeceu também? Isso é surpreendente.- Sorriu.
__Ela obedeceu. Nunca contou como você estava sofrendo. Só tentou abrir meus olhos para o meu sofrimento. Ela tentou me ajudar, me fazer ver meu engano. Mas eu não conseguia entender, achava que ela dizia aquelas coisas bonitas só para me animar. Quando ficamos sabendo que você iria para o cruzeiro, ela insistiu para que eu não deixasse você embarcar sem te contar a verdade. Mas eu não fiz. Ela queria que eu falasse com você. Ela foi muito direta ontem, depois da aula de balé no orfanato, ela passou com Mari para dar um beijo, ficou furiosa quando eu disse que estava pensando em me casar com Antonio. Quando eu contei que tinha chamado você para ser meu padrinho, os olhos dela encheram de lágrimas. Foi a única pessoa que disse que eu não deveria me casar com Antonio. Lú sabia que eu continuava amando você. Ela sabia como eu estava sofrendo de saudade. Sabia que todas as minhas aparentes aventuras, nunca tinham passado disso, apenas aparências. Doía muito ficar sem você.- Se aconchegou ainda mais nos braços dele.- Pode me perdoar? Na verdade, a culpa é só minha. Eu é que deveria ter falado com você.
__Promete que fará isso de agora em diante?
__Sim.
__Então, está tudo bem. Afinal, sou um falcão, é normal sofrer por amor na minha família.- Sorriu.- Já passou, amor. Vamos ser felizes agora. Mas devo dizer que estou mesmo surpreso com a pequena bailarina. Não por ela ter sido discreta e sua confidente, mas por ter sido tão dura e forte ao te dizer que deveria deixar Antonio.
__Você é tio dela. Ela te ama. Viu você sofrer. Me viu sofrer também. Estava impotente diante dos juramentos de silêncio que fez para nós dois. Sabia que eu não deveria aceitar me casar nessas condições, mas não podia me explicar porque eu podia ter esperanças. Na hora fiquei chateada, mas depois quando pensei melhor em tudo, vi que ela estava certa.- Olharam dentro da piscina. Cisco ria de sua traquinagem, Lú tentava, sem sucesso sair de dentro da água muito brava com seu primo. Mesmo assim o carinho entre os bailarinos era evidente. E a família se divertia dentro da água. – Ela tentou me ajudar, me mostrar que eu não seria feliz sem você. Lutou muito para isso. Foi realmente uma verdadeira amiga.- Sorriu.- Por isso farei o mesmo por ela.
__Não sei se entendi direito o que vai fazer.- Disse ele sorrindo.- Mas vou deixar isso por sua conta. E não vou brigar nem com Lú, nem com Cisco, estou feliz demais para isso. Ainda quer nadar?- Perguntou o lindo namorado.

Alana sorriu, e entrou na piscina com ele. Sim, nunca mais esconderia nada dele.

O Namorado

Capitulo 4
Alana acordou tarde no domingo. Se arrumou desanimada para ir a casa de Ben e Liv. Gostava muito dos almoços de família. E muito da casa de Ben, na praia sempre convidativa. Amava muito seus priminhos e toda a sua família. Mas hoje estava muito triste. Quase não queria ir. Antonio ficaria implicando com tudo, Vovó Lia a versão feminina de Rody estaria lá,e ela não poderia ouvir nada como sempre. E ainda tinha o mar, que levara Rody para longe, e o levaria outra vez. Como será que era essa tal tenente portuguesa? Muitas dúvidas apertavam seu coração. Mas uma certeza já havia se desenhado, ela não poderia se casar com Antonio. Depois de tudo que conversou com Vincenzo, com seu pai e seu irmão, percebeu que sua doce prima bailarina, tinha razão. Ela não poderia se casar com Antonio sem ama-lo devidamente. Mesmo que tivesse perdido para sempre o lindo príncipe sorridente. Alana não quis ir sozinha com Antonio no carro dele, precisava pensar bem em como dizer a ele. Não cometeria o mesmo erro que cometera com Rody. Ele estranhou, mas não queria puxar briga logo cedo. Percebeu que ela estava diferente. Cisco foi com eles. Embora ele estivesse muito sonolento, sua presença impedia Antonio de perguntar o que estava acontecendo. Quando chegaram na casa de Ben, todos os carros estavam no estacionamento. Menos o do Vovô Rick, no lugar dele, viu Jeep branco de Rody. Claro, ele chegaria logo, o pai bondoso quis testar o carro do filho que estava guardado há tanto tempo. Alana se lembrou de tudo que viveu naquele carro, as risadas, os carinhos, os beijos singelos de despedidas, o dia que ele a deixou pela última vez. Ficou ainda mais triste. Antonio percebeu.
__Você está desaminada hoje?- Perguntou arrisco.
__Sim. Acho que estou meio resfriada.- Mentiu. Ele a olhou desconfiado, mas não disse nada. As crianças correram para eles quando entraram, em seguida seus primos adolescentes, seus tios, todos sorridentes vieram cumprimenta-los. disseram algo para Cisco que correu rapidamente para fora. Antonio os seguiu deixando Alana alguns metros para trás enquanto os meninos de Ben a beijavam. Uma pequena caixa de presente em cima da mesa de entrada, chamou a atenção dela. Parou para observa-la. Viu seu nome escrito na tampa.
_ É seu.- Disse vovô Lia chegando perto dela sempre carinhosa. Alana abraçou a avó postiça com carinho. E agradeceu o presente.- Não é meu, Rody trouxe para você da Espanha. Ele trouxe lembranças para todos, essa é sua. Ele disse que você vai gostar. Abra._ Alana olhou nos olhos dela iguais aos do filho e depois abriu a caixa. Dentro tinha uma Flor de seda, vermelha, de colocar no cabelo, delicada, linda. As lágrimas inundaram seus olhos. Seu lindo e gentil príncipe sempre era carinhoso com ela, apesar de tudo.- Gostou?- Alana balançou a cabeça fazendo as lágrimas escorrerem. Tirou a flor da caixa e trocou pela que tinha nos cabelos. Ajeitou e mostrou para Lia.- Ficou linda. Rody sempre soube escolher muito bem.- Alana ficou olhando Lia, tentando entender exatamente o que ela queria dizer. As duas caminharam para o jardim de mãos dadas, quando fizeram a curva da casa, viram todos os parentes, alguns sentados nas mesas ou em pé felizes ao redor delas. As crianças corriam sorridentes. Antonio estava perto da cerca viva com um copo de suco na mão. E de pé ao lado de Cisco, estava ele. Lindo. De camisa branca de botões e calça jeans de lavagem escura. Parecia mais alto e muito mais forte, um pouco mais bronzeado. Alana estancou na hora. Firmou os olhos para ter certeza do que via e então ele se virou, e a viu. Sorriu lindamente para ela, mostrando seus dentes perfeitos muito brancos. Alana olhou em seus olhos e um fogo a consumiu, nada poderia para-la. Correu para ele como se houvesse lava no chão, jogou-se em seus braços como se disso dependesse sua vida. Fundiu-se ao corpo de Rody como se não pudesse mais suportar viver longe dele. Soluçava de emoção sumindo entre seus braços. Alana podia sentir a emoção dele também. A vibração do coração acelerado, a respiração pesada. Ele também queria abraça-la. Também estava com saudade. Sentiu-se a mais amada das mulheres. Se apertou ainda mais ao corpo dele. Não importava quem estava em volta, seus pais, seus avós, Antonio. Sabia que Antonio estava ali, mas nada podia fazer com a emoção, com o amor que a invadiu. Provavelmente a tal tenente estaria bufando de raiva. Mas para Alana, só o que importava, era a força deste amor que explodiu em seu peito. Resolveria sua situação com Antonio depois, mas não podia ignorar o que seu coração gritava para ela agora. Mesmo que Rody nunca mais a quisesse, mesmo que tivesse que ficar sozinha para sempre, não tinha mais como se enganar com seus sentimentos. Era esse o abraço que queria. Esse cheiro que sentiu tanta falta. Esse era seu verdadeiro amor. Era Rody. Sempre ele. Cisco tinha mesmo razão, ela era muito idiota mesmo. Rody começou afrouxar o abraço. Ela colou seu corpo ainda mais, não queria deixa-lo. Um medo que quando aquele momento mágico acabasse, ela o perderia para sempre, agora consciente do que isso significava. Sentiu o peito dele vibrar num riso, olhou para o rosto dele entre suas lágrimas e leu aqueles lindos lábios sorridentes dizendo:
__Parece que estava mesmo com saudade, amor.- Ele passou os dedos com cuidado no rosto dela enxugando as lágrimas.- Você prometeu que não ia mais chorar?- Alana olhou profundamente naqueles olhos, viu uma lágrima solitária escorrer por um deles, estendeu a mão e acariciou o rosto dele, tomando-a para si. Rody olhou a flor no cabelo dela, sorriu e perguntou:- Gostou?- Alana balançou rápido a cabeça e sorriu charmosa, fazendo uma pose de perfil para que ele olhasse melhor e perguntou:
__Ficou bonito?- Rody suspirou, soltando o corpo dela devagar, respondeu em sinais.
__Você está linda. Você é sempre linda.- Alana respirou fundo e usando libras.
__Rody, eu preciso falar com você. Preciso muito. Por favor, pode vir comigo, por uns instantes?
__Alana, sei que temos muito assunto para por em dia.- Sorriu.- Mas podemos deixar para outra hora? Antonio está conosco, não acho que ele vai gostar muito disso e…- Ela o cortou.
__Me entendo com ele depois. É muito importante Rody. Por favor? Quer que peça para sua namorada antes? Eu falo com ela, onde ela está?- Rody sorriu e respondeu soltando o ar devagar.
__Maria João está no iate. Não recebeu permissão para deixar a embarcação ainda. E ela não é minha dona, falo com quem quiser. Porque quer tanto falar comigo, agora? Tem alguma coisa a ver com a nossa última conversa?
__Sim e não. Por favor, venha comigo? Eu vou explicar tudo. – Rody olhou em volta para seus parentes, parou nos olhos de sua mãe. Lia sorriu para o filho como se soubesse de algo que ninguém mais sabia. Afirmou com a cabeça devagar. Rody olhou de novo para Alana, dois segundos depois, revirou os olhos como fazia quando ela o convencia a fazer algo que ele supostamente não queria. Ela sorriu e agarrou sua mão para puxa-lo em direção do portão que ligava o quintal com a praia. Antonio entrou na frente deles com cara de poucos amigos.
__Aonde pensam que vão?- Alana respirou fundo. Sinalizou devagar e com firmeza:
__Antonio, pedi para falar com Rody. Preciso explicar uma coisa muito importante para ele. Depois, eu falarei com você. Não vou demorar muito. Por favor, entenda e espere aqui.
__ Acha que pode sair com seu ex assim sem nenhum problema?
__Acho. Porque ele não é só um ex namorado. Ele é uma das pessoas mais importantes da minha vida, meu melhor amigo. Já te expliquei isso antes. Também já disse as consequências de não aceitar isso.- Foi firme como Antonio nunca tinha visto.
__Alana.- Disse Rody.- Não quero causar problemas entre vocês. Vamos deixar para outro dia. Ficarei aqui quase dois meses, teremos tempo. Fique com Antonio.
__Não! Preciso falar com você agora. Tem que ser agora! Não pode esperar. Por favor, Rody?- A urgência nos olhos dela, o deixou preocupado. Ele afirmou uma vez e tomou a frente de Antonio segurando a mão dela. Desceram os degraus para a areia. Alana os guiou para o Mirante, uns 500 metros, em silêncio. Subiram para o parapeito de madeira. Rody sentou-se de frente para a vista. Alana parecia nervosa, mas o olhou decidida.
__Certo. Estamos aqui, amor. O que você quer tanto me dizer?- Ela puxou o ar com força, olhou nos olhos dele. Colocou as mãos no pescoço grosso de Rody e beijou-o. Um beijo inflamado cheio de saudade, de paixão, de amor. O coração martelando o peito. Nunca tinha beijado ele assim, nunca tinha sentido aquele sabor tão intensamente. O cheiro amadeirado do perfume dele enchendo seus sentidos. O calor daquele corpo tão grande, tão forte. Rody parecia um gladiador. Nunca tinha pensado nele assim antes. Ele sempre fora o doce príncipe, não podia imaginar como ele poderia ser tão selvagem, tão poderoso. O beijo foi ficando ainda mais quente, mais perigoso. Alana se viu caindo de um penhasco sem volta. Nenhum outro homem a beijou assim. Nem sabia que um beijo pudesse despertar emoções tão poderosas, tão vitais, tão primitivas. Como pode imaginar que pudesse ter qualquer tipo de sensação desse nível que não fosse com Rody? Estava mesmo perdida. Nunca mais poderia beijar outra boca. Nunca mais. Rody se afastou ofegante. Os olhos intensamente negros em chamas. Disse deixando que ela lesse seus lábios.
__Porque fez isso? – Alana respondeu movendo os lábios, sem som, mantendo as mãos sobre o peito dele para sentir o coração dele batendo.Disse:
__Porque amo você. Porque sou louca por você. Porque não consigo mais ficar sem beijar você.- O pobre coração de Rody batia tão forte que parecia que ia sair de dentro do peito.- Você não me quer mais?- Ele fechou os olhos. Alana sentiu uma dor imensa cortando seu peito. De repente uma vergonha invadiu sua alma. Ele não a queria mais. Tinha reagido fervorosamente a um beijo, porque era um homem, mas não a queria mais. Foi se afastando devagar, as lágrimas já tomando seu rosto. Rody segurou suas mãos com mais força do que precisava.
__Porque está fazendo isso comigo? Já não me feriu o bastante? Você quis me deixar. Você disse que precisava de novas experiências. Eu fiz tudo o que você queria. Porque quer me fazer sangrar mais? Quer me ver chorar? Ter certeza que o idiota bonzinho ainda é louco por você?- Alana arregalou os olhos, nunca tinha visto Rody falar assim com ela. Ele parecia com raiva, dela.
__Tem razão. Eu fui uma idiota. Fiz você sofrer. Você está certo. Eu deveria ter falado com você antes de tomar uma decisão tão radical. Mas eu fiquei com vergonha.
__Alana, conheço você desde os 6 anos, sempre soube de tudo em sua vida, porque você ficaria com vergonha de me falar alguma coisa?
__Porque eu te amo. Fiquei com vergonha de perguntar se você me queria. Se me desejava. Achei que estava comigo só porque tinha pena de mim. Porque não queria desapontar a família, porque não queria me magoar.
__Como assim? Foi você que me deixou! Você que não me queria!
Como pode dizer que achou que eu não desejava você?
__Porque você era sempre tão delicado, tão gentil, era como se achasse que eu fosse quebrar. Como se lidasse com uma criança. Eu achei que você não me via como mulher.- Ela baixou os olhos envergonhada.- Eu achei que você quisesse outras mulheres. Foi por isso que achei melhor… Achei que seria bom para você também…. Eu…- Rody ergueu o rosto dela devagar. Respirando com força.
__Está me dizendo, que me deixou porque achou que eu queria dormir com outras garotas?- Ela o olhou desconsolada. Rody abriu mais os olhos numa fúria que Alana não conhecia. – Achou que eu já estava saindo com outras? Como pode sequer imaginar que eu trairia você? Você era a minha namorada! Eu sou um falcão!- Alana começou a chorar.
__Eu sei. Desculpe? Sou uma idiota. Perdi você porque acreditei em comentários maldosos e não fui capaz de falar com você. Fiz você sofrer. Mas eu não sabia que sofria. Eu nunca vi nada que mostrasse que eu tinha me enganado, até a história do padrinho.
__Se isso é verdade, se ainda me amava, como é que poucas semanas depois você já tinha outro namorado, e ainda foi esfrega-lo na minha cara no Medeiros?
__Eu queria que você achasse que eu estava bem! Que estava tudo certo, que você podia levar sua vida como achasse melhor. Que eu já tinha outra pessoa e você estava livre de mim.
__Livre de você? Isso só pode ser brincadeira.- Ele bufava. Alana nem podia imaginar ver Rody tão bravo assim. Ele estava indignado.- E Antonio? Aquele que você deixou lá na casa do Ben, dizendo que voltaria logo? O seu noivo.
__Ele não é meu noivo!- Disse energicamente.- Ele me pediu para casar comigo. Eu disse que seria uma boa ideia. Fiquei encantada em ser a princesa de alguém novamente. Mas ele nunca me deu um anel. Nunca fez o pedido para meu pai. Ele não é meu noivo.- Rody olhou as mãos dela, realmente não tinha o anel de noivado. Só o anel de formatura. E ela usava um outro anelzinho, de ouro com uma rosa aberta e um pequeno rubi no meio. Um anel que ele havia lhe dado há muitos anos.- Eu não vou mais me casar com Antonio. Já não poderia antes, agora é mesmo impossível.
__O que quer dizer?- Alana suspirou.
__Quando pedi para você ser meu padrinho, era porque eu precisava de você lá para me dar força nessa nova etapa. Como sempre fez, quando eu precisava vencer um novo desafio. Eu gosto do Antonio. Acho que até amo um pouco, mas não tanto quanto deveria. Mesmo assim achei que ele era o ideal para mim. Nós dois não ouvimos, temos problemas, soluções, amigos e assuntos em comum. Ele é rabugento ás vezes, mas é divertido. Eu queria um amor maravilhoso igual ao da minha mãe para mim, mas eu não escuto, não posso oferecer tudo que um homem igual ao Jorge merece. Um homem como você merece. Me conformei. Ou quase. Sem você no altar não conseguiria fazer isso. Precisava da sua força de sua coragem. Mas você se recusou. Minha certeza tão frágil que era isso que deveria fazer, perdeu a força de vez. Depois eu me dei conta que tinha que dar fim nisso tudo de qualquer jeito mesmo. Não podia me casar com ele pensando em você, ainda apaixonada por você. Antonio não é bobo, percebeu. Ele está meio ressabiado, desconfiado, por isso foi tão idiota ainda a pouco.- Respirou fundo.- Desculpe agarrar você assim. Sei que há muito tempo não tenho esse direito. Imagino que sua namorada vai ficar bem chateada comigo. Mas eu queria saber…- Ficou quieta, olhando suas mãos.
__Saber o que? Que ainda pode me fazer sofrer?
__Eu nunca quis te fazer sofrer, já disse. Não entende? Pensei que era o que você queria. Eu achei que você tinha pena de mim. Você merecia ser livre para escolher quem realmente quisesse. Porque um lindo príncipe ficaria com a surda? Uma garota incapaz de dizer seu nome, nem o quanto o ama? Incapaz de ouvi-lo chorar de dor ou gemer de prazer. Você poderia ter quem quisesse. Qualquer uma. Porque ficaria comigo?
__Porque te amo! – Alana ficou olhando Rody na sua frente, a expressão de raiva torcendo suas feições tão bonitas. Desde menina, quando aprendeu libras, nunca mais se enganou com um sinal. Logo aprendeu a ler lábios, sempre compreendia todos sem problemas, mas Rody, podia compreender mesmo antes dele lhe falar. Só pelo que via nos olhos dele. Mas agora, pela primeira vez, achou não ter entendido o que ele lhe disse.
__O que disse?- Perguntou tremendo. Ele se calou olhando o mar. Estava nervoso, a mandíbula travada era marca disso. Alana chegou mais perto dele, colocou as duas mãos no peito dele e sentiu o coração de Rody galopando furiosamente. Ele fechou os olhos bem apertado. Alana esperou respirando pesado, até que ele os abrisse e disse sem som.- Por favor, repita o que disse, por favor? Nem que essa seja a última vez que vai dizer isso. – As lágrimas rolaram no rosto dela com força.- Por favor, só dessa vez? Deixarei você em paz. Eu juro. Mas eu preciso….Só dessa vez, Rody. Por favor?- Rody chacoalhou a cabeça negativamente bem devagar, puxou-a com força para si e tomou os lábios dela com a mesma paixão do beijo anterior. Com ainda mais força, mais fúria, mais necessidade. Um beijo agoniado cheio de dor, de saudade. Um beijo longo apaixonado. Alana pode sentir o coração enlouquecido dele sob suas mãos. As mãos grandes mais delicadas dele acariciando sua nuca, apertando o corpo dela contra o dele. Sentiu seu próprio corpo pegar fogo refletindo o calor da paixão dele. Depois Rody encostou a testa na dela tentando recuperar o fôlego e dizendo.
__Eu amo você. Eu sempre amei você. Eu só amei você. Eu não posso repetir isso pela última vez. Porque sempre vou amar você. Quase morri de dor neste mesmo lugar no dia que me deixou. Depois quase morri várias outras vezes. Meu coração batia muito fraco, em algumas vezes parava. Como pode imaginar que eu não desejava você? Como pode supor que eu saía com outras garotas? Como pode achar que eu conseguiria tirar você de dentro de mim? Jamais poderia estar no seu casamento. Não sairia vivo da cerimônia. Porque não me contou sobre seus receios? Alana, prometeu sempre me contar tudo, porque me jogou no inferno sem nem me explicar porque? Eu achei que você estava apaixonada por outro. Não vi você por 3 semanas angustiante. Nunca tinha ficado tanto tempo sem te ver, sem te tocar. Fiquei doente de saudade, tentando descobrir em que momento tinha perdido você. Quando você entrou em casa aquele domingo, linda, meu pobre coração disparou dentro peito, tudo o que que eu queria era beija-la, abraçar você, sentir seu cheiro, ouvir seu coração contra o meu, para parar aquela agonia sem fim. Precisei segurar no braço do meu pai para conseguir ficar de pé, quando beijou meu rosto e depois simplesmente se afastou para ficar com as crianças me deixando em pedaços para trás. Lutei para suportar aquelas horas de tormento sem poder te tocar. Depois quando foi se despedir eu… Ah, Alana…Não faz ideia do esforço que tive que fazer para deixar você sair do meu quarto. Chorei o resto do dia e da noite até que adormeci. Uma semana depois meu coração quase saiu pela boca quando você entrou com aquele chatinho do Paulo na minha cozinha. Senti as pernas bambearem. Todo o ar deixar meus pulmões. Era por ele que você havia me trocado. As mãos dele na sua cintura, você sorrindo para ele. Como eu ia conseguir sobreviver aquilo? E tudo só piorava. De repente eu não só não podia mais toca-la, mas tinha que me controlar quando outros caras te tocavam e se quisesse ficar um pouco com você para sentir seu cheiro para tentar acalmar aquela dor lancinante dentro do peito, eu tinha que ouvi-la falar deles. Quando pensei que já estava no inferno, veio Antonio. Ele percebeu meus sentimentos. Sabia como me fazer sofrer. Pior, fazia questão de me ferir. Deus! Toda vez que ele te beijava eu queria mata-lo, mas aí você retribuía e meu coração parava. Eu implorava para ele não voltar a bater, implorava a Deus pela morte, mas você sorria para mim e então ele ressurgia disposto a sangrar de novo por você. Era um tormento. Doeu muito entrar naquele navio. Acordar toda manhã com a certeza que eu não ia te ver me fazia sangrar de saudade todo dia. Mas foi o único jeito. Eu não conseguia mais esconder de você meu desespero. As dores só aumentavam. Eu ficava sem folego toda vez que via vocês chegando. Apavorado com a dimensão que as dores tomariam daquela vez. Meu corpo tremia inteiro quando você me tocava. A necessidade de te tocar me sufocava. Precisava usar todas as minhas forças para não ceder. Então ficava completamente desprotegido contras as feridas abertas no meu peito. Porque me deixou sangrar assim? Quem convenceu você que eu conseguia enxergar outra garota? Olhe para mim, Alana. Passei 18 meses me preparando para reencontrar você. Treinando a postura, a respiração. Construindo barreiras para me manter controlado diante de vocês. Bastou você dizer que estava chorando para destruir toda a minha resistência, todas as minhas defesas e me fazer correr para casa para te abraçar. Certo de que ia te encontrar nos braços do seu noivo e que eu iria enlouquecer de dor de novo. Quando ele entrou no jardim, sem você, eu já agradeci imensamente a Deus. Mas me preparei para hora que ele te tocasse, ia doer exatamente como antes.- Passou o nariz no rosto dela, beijou a boca delicadamente, com todo amor.- Eu passei os últimos 32 meses, louco para te beijar assim de novo. Sentir seus lábios macios, o sabor dessa língua na minha arrepiando meu corpo inteiro. Chorei todas as noites de saudade do seu cheiro. Eu trocaria 10 anos de vida, para ter você nos braços, para beija-la assim só mais uma vez. Fui seu desde sempre. Como pode achar que eu seria capaz de trair você? _Alana aos prantos respondeu.
__Fui burra. Medrosa. Tudo o que você me ensinou a não ser. Não confiei no seu amor, nem no meu amor. Errei! Errei muito. Perdoe-me. Mas você tem uma namorada agora. Então, não pode dizer essas coisas.
__Maria João não existe.
__Como?
__Quer dizer, existe e quer mesmo ser minha namorada. Mas não estamos juntos. Nunca ficamos. Eu falei dela para que acreditasse que não poderia ser seu padrinho.
__Então não tem namorada?
__Alana. Eu sempre disse que você seria minha única namorada. Isso não mudou porque você não me quis mais. Eu nunca quis mais ninguém. – Alana se aninhou no colo dele chorando.
__Cisco tem mesmo razão. Eu sou muito idiota. Me perdoe, Rody. Por favor. Volte para mim. Por favor. Não suporto mais ficar sem você. Eu tentei amar outros rapazes, mas eu não conseguia. Você não saía de dentro de mim. Tentei me convencer que era o certo ficar sem você, mas não posso mais. Eu te amo tanto. Tanto. Olhe, eu posso embarcar com você. Posso encontrar alguma coisa que possa fazer lá, ou posso escrever um livro, sempre quis fazer isso. Tenho certeza que papai entenderá. Por favor,deixe eu ficar com você?- Soluçava no peito dele.
__E Antonio?
__Falarei com ele. Não é tolo, não vai querer uma mulher que não o ama.
__Acho que não será tão simples assim. Ele é muito diferente de mim.
__Eu sei.- Olhou-o um tanto curiosa.- O que quer dizer?
__Eu sei que ele também te ama, do jeito dele, mas ama. É grosseiro e ciumento as vezes. Mas nunca se sentiu ameaçado de verdade por mim. Embora ele pudesse ver que eu te amava, era muito claro que eu achava que você não me queria e que eu não tentaria tira-la dele. Agora, vai ser diferente. Não vai reagir calmamente.
__ Mas ele vai ter que entender, não posso me casar com ele desejando você.- Rody sorriu torto, perigoso. Alana não conhecia esse olhar, mas gostou.- Rody, mesmo que ele não soubesse da nossa história, seria impossível negar o amor que vazou por todos os meus poros quando te vi no jardim. Mesmo que não me queira, que não me aceite de volta, vou terminar com ele. Não é justo com ele. Além disso, estive traindo meu amor por você por muito tempo. Fiz isso porque achei que era o certo, mas não fui feliz. Não realmente. Se não me quiser, vou sofrer, mas posso entender você, magoei muito você, por muito tempo sem nem te dar a chance de se defender. Tenho a esperança que seu coração generoso de falcão, possa me perdoar e me aceitar de volta. Mas mesmo que não for assim, não vou mais trair meu amor. Nem com Antonio, nem com ninguém. Eu quero só você. Se não puder tê-lo, não quero mais ninguém.
__ Está certa disso? Que me quer? Se realmente tem certeza disso, luto a seu lado contra tudo e contra todos para ficarmos juntos, mas já sangrei muito Alana, não vou suportar passar por isso de novo. Precisa ter certeza de seus sentimentos, não vou arriscar meu coração outra vez sem sua certeza.- Ela olhou profundamente naqueles olhos de cigano e sorriu. Os olhos cor de uísque derramaram seu amor. O coração de Rody falhou uma batida, em seguida acelerou, ele conhecia essa expressão dela. Era a mesma de quando a beijou pela primeira vez. Ele sorriu e ela sabia que ele reconheceu a emoção que ela lhe mostrou.- Então temos uma tarefa bem dura, melhor irmos.
__Irmos?
__Claro. Alana, se realmente me ama, se me quer de volta, terá que falar com Antonio agora. Sempre serei seu, como ficou muito óbvio. Mas só será minha de novo quando terminar com ele. Amo você, preciso de você, mas não voltarei a beija-la e nem deixar que me beije enquanto não resolver sua situação com ele. Os falcões não traem e nem roubam a parceira de outro. Eu sou livre, mas você ainda tem um compromisso com ele.- Ela olhou poderosa nos olhos dele, começou a se levantar. Parecia ainda mais decidida que quando enfrentou Antonio antes.- Espere. Vou com você. Não vou deixar você sozinha com ele. Não confio nele. – Alana sorriu. Abraçou Rody bem gostoso, depois ficou na ponta dos pés para encostar os lábios no rosto dele.
__Obrigada. É muito bom ter meu príncipe protetor de novo. Mas acho justo falar com ele sozinha. Fui eu que me meti nessa confusão. Tenho que resolver o problema agora. Peço apenas que espere, que não desista de mim. Eu vou falar com ele agora, e depois vou poder beijar você para sempre. Promete?
__Que vai poder me beijar, sim. Que vou deixar você sozinha com ele, não. Deixo vocês conversarem em paz, mas estarei por perto. Algo me diz que isso não vai acabar tão bem como imagina.- Alana viu que ele não seria convencido. Resolveu se calar. Voltaram para a casa de Ben. Assim que entraram pelo portão de acesso ao jardim, Antônio avançou sobre eles como um leão, tomou a mão de Alana muito agressivo, e saiu puxando a garota para a lateral da casa. Passaram pelas entradas e foram parar no jardim de inverno.
__O que você queria falar com o cozinheiro grandalhão? Posso saber?- Disse ríspido. Sinalizava com fúria.
__Sim, pode saber. Na verdade deve saber.- Isso o pegou um pouco desprevenido.- Antônio, fui me aconselhar com Rody. Perguntei a ele se era justo uma mulher se casar com um homem desejando outro. Perguntei se seria correto se unir a um homem bom mesmo sem ama-lo o bastante para isso. Rody sempre foi meu melhor amigo. Me ensinou a não ter medo da verdade. A ter coragem de enfrentar as consequências de um erro. Eu gosto muito de você Antônio, mas não o suficiente para casarmos. Na verdade, quero terminar nosso namoro. Podemos continuar amigos, mas não vou mais ficar com você.- Disse firme, calma e direta.
__Está brincando comigo?
__Não. Estou sendo sincera. Não vou me casar com você. Não vou mais namorar com você.
__É por causa do tal anel, do pedido para seu padrasto?-Alana riu.
__Não. É porque não amo você para casar.
__Mas até semana passada me queria. Foi só o cozinheiro voltar que não está mais a fim?- Alana suspirou.
__Antônio, eu já vinha pensando bastante nisso. Já tinha resolvido falar com você sobre isso, antes de Rody chegar. Tenho certeza que você já vinha percebendo que as coisas não estavam bem. Mas acredito que ficou evidente para você também que ainda amo Rody. – Ele se enfureceu.
__Está me dizendo que vai me largar por causa do cozinheiro que acabou de chegar e que vai voltar para o navio em dois meses?
__Antônio, acalme-se. Respeite a casa do meu primo. Estou te dizendo, que não posso me casar com você apaixonada por Rody. Não seria justo com você. Você merece alguém capaz de se dar a você por inteira.- Antônio avançou na direção dela furioso, quando ia toca-la, Rody surgiu em sua frente e segurou seu braço.
__Se somente sonhar em machuca-la, eu quebro seu braço.- Os dois se encararam.
__O que você fez com ela para ela mudar de ideia assim tão rápido, hein? Ela ia se casar comigo e agora não me ama o suficiente? Ou será que sua volumosa herança tem algo haver com isso.- Antônio nem viu quando o soco poderoso de Rody o acertou. Caiu no chão segurando o queixo ferido.
__Nunca mais se atreva a caluniar Alana, seu mesquinho. O que você sabe de amor? Para você amor é se esfregar numa garota enquanto convence outra a se casar contigo. Para seu governo, Alana é herdeira do meu irmão, não precisaria de mim para ficar rica, mas você já sabe disso, não é? Engenheiro.
__Você me paga!-Antonio se levantou com sangue nos olhos. Jorge e Cisco chegaram.
__O que está acontecendo aqui?
__Simples, professor. Alana me trocou pelo cozinheiro. Parece que troca de namorado como troca de flor no cabelo.
__Veja como fala da minha irmã, Antonio._ Cisco já estava bravo.
__O que foi bailarino? Você melhor que ninguém viu ela namorar metade da faculdade.
__Cisco!_ Jorge Entrou na frente do filho. Cisco parou bufando._ Antonio, é melhor você ir. Não é mais bem vindo nesta casa, nem nesta família. Saia e não nos procure mais. Nenhum de nós. Principalmente minha filha que acaba de ofender. Levarei em consideração que estava nervoso e por isso não vou processa_lo por calúnia e difamação.
__Me processar, seu irmão acabou de me quebrar um dente!
__Porque você tentou bater em Alana.- Disse Rody. Jorge virou se para Antonio soltando fogo pelas íris azuis.
__Você ia bater na minha filha?- Disse baixo sem usar libras. Antonio não podia ouvir o tom, mas mesmo assim percebeu a gravidade de sua pergunta. Antes daquele segundo acabar, Alana se pôs na frente dos três homens, seus protetores. Falou firme e calma como nunca antes. Seus sinais foram claros e vigorosos. Era assim que se portava no trabalho. Poderosa, sábia, dona da situação. Disse:
__Antonio. Quero retirar o que disse antes. Não poderemos nunca mais ser amigos. Não me importo com as bobagens que disse de mim. Os homens mais importantes de minha vida estão aqui, e não tem dúvida do meu caráter. Eu sei o que fiz nos últimos anos, e só me envergonho de não ter confiado mais na força do meu amor por Rody. Nunca fiz nada para magoar você, pelo contrário. Mas você sempre insistiu em desmerecer meus esforços e minhas escolhas. Estava disposta a relevar tudo isso, porque achava que você realmente me amava. Mas nunca, por nada nesse mundo, me submeteria a sofrer agressões físicas de um homem. A muito tempo aprendi que está é uma prova vital de desrespeito, de desamor. Você não conhece toda a minha história, Antonio. Não faz ideia de tudo que já passei. Só o que viu foi uma surda feliz, sendo mimada por homens gigantes e protetores. Mas essa não foi sempre minha vida. Nunca quis saber porque escolhi minha profissão? Foi para ensinar crianças que nunca podem deixar alguém maior, mais forte, abusar delas. Eu aprendi isso com meu pai, Jorge. E com meu namorado, Rodolfo. E ensinei a meu irmão Francesco. Estes são os nomes deles. São homens fortes, de caráter, independente de suas profissões. Dão valor as pessoas e não simplesmente ao trabalho delas. Esta casa que acaba de desrespeitar, é do meu primo Benjamin, não apenas do advogado. Você vai sair daqui, e nunca mais vai me dirigir a palavra.- Antonio tentou retruca-la.- Não perca seu tempo. Sou Assistente Social, minha profissão me faz uma agente da Lei, posso mandar prender você por atentar contra minha integridade física.
__Eu nem toquei você.
__Porque Rody impediu. Mas ele ainda não lavou a mão. Podemos ir direto para delegacia de mulheres. Fica a 7 quarteirões a esquerda. A delegada de plantão é uma velha amiga de escola, se chama Rogéria. Mas se preferir que fique tudo em família, Cisco pode ir ao jardim, chamar Tia Dalia, a juíza da vara da família e Ben o advogado.- Suas palavras ácidas deixaram Antonio, bufando. Neste momento Ben apareceu na porta.
__Está tudo bem por aqui?- O advogado experto percorreu o ambiente com os olhos e parou em Antonio.- Parece que estamos expulsando alguém da minha casa?- Alana olhou para Ben e disse:
__Desculpe atrapalhar o almoço, Ben. Pode por favor, acompanhar Antonio até a porta, ele está de saída, para sempre.- Ben olhou Antonio com suas safiras afiadas.
__Ele machucou você, lindinha?
__Não. – Olhou Rody.- Mas Rody quebrou o queixo dele. Pode orienta-lo sobre como proceder para fazer uma queixa, por favor?- Antonio a olhou rápido.- É seu direito. Mas já sabe que eu irei testemunhar a favor dele, e acredito que qualquer juiz vai acreditar em meu testemunho. Você pode sair do tribunal direto para a prisão. Lei Maria da Penha, já ouviu falar? Não tem fiança.
–Ela tem razão.- Disse Ben, formal como advogado que era.- O senhor me acompanhe, por favor.- Antonio não podia acreditar.
__Vai me deixar assim, sem mais nem menos, me expulsando como um cachorro?
__Já tinha explicado para você que não ficaríamos mais juntos. Tinha a intenção de ser amigável e compassiva contigo. Estava disposta a suportar seu luto com carinho, mas você destruiu todas essas minhas intenções no momento que ergueu o braço para mim como meu pai mau fazia com minha mãe. Nunca, nem que Rody nunca mais me queira, nem que fique sozinha para sempre, eu me unirei a um homem capaz de bater em mim. Nunca! – O ódio nos olhos dela assustou Antonio. Ele deu dois passos para trás como se ela o tivesse empurrado. Ben segurou de leve o braço dele.
__Venha, Antonio. Nada no mundo vai mudar o que aconteceu aqui. Acabou.- Antes de passar pela porta, Antonio olhou Alana uma última vez, os olhos dela ainda estavam em chamas, mas não havia nenhuma lágrima, nenhum medo, só força.

O Namorado

Capitulo 3
O sábado nunca chegava ao fim. Alana estava cansada. Não dormira quase nada. Era seu dia de ficar até mais tarde. No meio da tarde as meninas de Ben chegaram junto com Liv para as aulas de balé das crianças. Tudo o que tinha conversado com Cisco e seus pais ainda rodava sua mente. Antes de saírem para seu ensaio do espetáculo daquele sábado, Mari e Lú vieram se despedir dela. Quando Mari se escapuliu em direção da biblioteca, segundo ela para pegar um livro, Alana contou sobre seu pedido para Rody ser seu padrinho. Antes mesmo de Alana explicar tudo o que tinha acontecido Lú já estava furiosa.
__Não pode fazer isso!- Usou os sinais com muita enfase.- Alana, você não ama Antonio assim. Casamento é muito sério. E Rody… Bem o que importa é que não pode se casar com alguém só porque essa pessoa quer. Você não vai ser feliz. E não vai fazer Antonio feliz. Por favor Alana, pense bem. Espere Rody chegar. Fale com ele.
__Porque não me contou que Rody sofreu quando nos separamos?- Lú baixou o olhar.
__ Foi Cisco que te contou, né? Eu queria contar, mas Rody me fez prometer que não diria.
__Mas você devia ter me dito. As coisas seriam diferentes…
__Seriam diferentes se você tivesse me escutado! Eu disse para você falar com ele antes, Alana. Disse que ele sempre te amou. Disse que nunca tinha visto ele se quer olhar para outra garota. Mesmo depois que você começou a sair com outros caras eu nunca vi ele sair com nenhuma garota. Você meteu na cabeça essa ideia que ele ….- Lú se calou, Cisco chegava ao estacionamento junto com Mari.- Olhe, eu tenho que ir, mas por favor, dessa vez me escute. Fale com Rody. Não se case com Antonio, você vai se arrepender. Não repita a história de sua mãe, Alana.- Alana arregalou os olhos. Lú nunca tinha sido assim tão dura com ela.- Desculpe.- Beijou o rosto dela.- Nos falamos amanhã lá em casa, ok?- Ela se foi. Alana primeiro ficou bem chateada com as palavras dela. Depois ficou pensando em todas as vezes que sua doce prima tentou faze-la entender que Rody estava sofrendo. Que ele a amava. Sua cabeça começou a doer. Já eram quase 8 horas da noite. Suas últimas obrigações do dia estavam quase acabando. Um dos órfãos adultos que estudavam e por isso tinham permissão de continuar no orfanato, ia viajar a trabalho. Fazia parte de suas atribuições providenciar as autorizações para ele.
__Parece cansada, Alana.- Disse Joaquim assinando os papéis e pegando seus documentos.- Está tudo bem?
__Estou mesmo cansada.- Disse sorrindo para o rapaz sempre prestativo. O garoto bonzinho que estava no último ano de sua pós graduação. Alana já estava acostumada a lhe dar as autorizações, seu trabalho na empresa de Beto exigia que de vez em quando ele viajasse. Era um menino estudioso, muito trabalhador, que nunca dera nenhum trabalho desde que chegou a instituição, quando Alana ainda era uma menina.- Não se preocupe. Faça uma boa viagem. Quando retorna?
__Essa vai ser curtinha. Vou ficar só uns 5 dias. Preciso entregar minha tese esse mês. Depois farei uma viagem mais longa. O treinamento vai durar uns dois meses. Eu te aviso quando voltar. Até, mais. Obrigado Alana. Ah! E procure descansar. Ouvi falar que tem uma virose chegando, louca para pegar mocinhas cansadas.- Sorriu amistoso. Alana também.
__Ok, Joaquim. Entendido.- As crianças começavam a se arrumar para o recolher e Alana não via a hora de poder fazer o mesmo seguindo o conselho do bondoso Joaquim. O sinal de mensagem deu alerta. Era Antonio. Ele queria pega-la para jantarem com uns amigos. Alana explicou que estava cansada, mas ele insistiu. Ela acabou concordando. Antonio chegou as 9 em ponto. Era sempre muito pontual. Detestava esperar. Atrasos, só em caso de vida ou morte, ou de um pneu furado, como tinha acontecido quando se conheceram. A chateação dele pelos 15 minutos de atraso dela nesse momento, levou ao primeiro estresse da noite. Depois chegaram ao Aimê, o restaurante francês de Sylvie, um amigo da família, onde trabalhava também chefe Vincenzo, marido de Sofia, professora da Preste de Medeiros e prima de Alex, o marido de Clara e filho de Diana. Vincenzo veio da cozinha para cumprimenta-los sorrindo. Apesar de não se parecer em nada com Rody, a doma e o sorriso bonito, a fizeram se lembrar dele. Vincenzo sempre fora um homem bonito, mas Rody era mais alto, 1,83, 1,84 mais ou menos. Vincenzo tinha os cabelos castanhos claros, parecia os de Alex, quase igual aos de Alana, Rody tinha cabelos muito negros, iguais aos seus olhos. A doma branca fazia o contraste ficar ainda maior. Naquele momento porém, sentiu-se como se estivesse levando Antonio para dentro do Medeiros, como fizera com Paulo. Um mau estar tomou conta de seu estomago.
__Que foi pequenina?- Perguntou Vincenzo.- Não se sente bem?
__Estou um pouco cansada, trabalhei muito hoje. Não se preocupe. Não é nada.
__Se é assim, devia ter ficado namorando em casa.- Sorriu.- Era só me dizer o que queria comer, eu teria mandado para você, florzinha. Sabe que seu pai é um cara muito grande. Não gostaria de enfrenta-lo furioso e preocupado com você. Eu sou só um cozinheiro, não sei nada de luta livre.- Riu e Alana também. Antonio não gostou. Primeiro porque insistiu para sair, depois porque o cozinheiro não era exatamente parente de Alana, como fazia parecer. Então Alana deu o golpe final na paz com Antonio ao perguntar a Vincenzo:
__Falou com Alex? Já sabe que Rody não virá amanhã no almoço de família?
__Não estará aqui ainda? Mas não ia voltar da capital com Tia Lia e Tio Rick?
__Vai precisar resolver alguns assuntos.
__Que pena? Estava louco para vê-lo. Estou curioso com a experiência que teve.
__Deve ter gostado muito, me disse que vai voltar para o mar, em breve.
__Verdade?- Antonio os interrompeu.
__Desculpe. Eu gostaria de fazer meu pedido, estou com fome, e meus amigos também.- Vincenzo o mediu de cima embaixo, olhou Alana que ficou vermelha de vergonha.
__Pode ficar a vontade, Antonio. Esse é Jonas, o garçom que tomará seu pedido quando desejar.- Tomou Alana pela mão dizendo:- Vou levar Alana, por uns minutos. Vou dar um remédio e um chá que Sofia serve para os meninos quando estão indispostos. Já devolvo-a para você.- Saiu levando Alana e deixando Antonio com cara de tacho e seus amigos surdos sem entender direito o que se passava. Na sala dos fundos reservada para a equipe. Serviu um chá de melissa com um analgésico fraco e uns biscoitinhos de chocolate com coco.
__Obrigada. Como sabia que gosto desse biscoito e que esse é meu chá favorito?- Sorriu.
__Rody me disse. Tenho péssima memória, mas quando se trata de comida, nunca esqueço nada.- Sorriu.- O que está acontecendo, pequenina? Porque está assim tão triste?- Ele também tinha aprendido muita coisa com a vida, e com a convivência com os Medeiros. Vincenzo tinha errado e ferido muito Alex e Clara no passado, mas mudou e se tornou um amigo maravilhoso. Alana achou que talvez ele pudesse entende-la.
__Eu magoei Rody. Muito. Mas eu não sabia que isso pudesse acontecer. Eu achei que ele tinha se acostumado comigo, que não me amava de verdade.- Olhou Vincenzo um pouco encabulada.- Não sei se você me entende.
__Você quer dizer, que achou que Rody te amava como uma irmã e não como homem. Achou que ele sempre namorou você como criança, não percebeu quando ele passou a deseja-la como mulher.
__Sim. Na verdade eu nunca senti esse tipo de sentimento nele. Eu achei que ele não me quisesse assim. Eu achei que nós dois merecíamos encontrar um amor que fosse mais completo. Eu não entendi que nossa separação pudesse machuca-lo tanto. Sou uma idiota.- Vincenzo riu.
__Não. Você não é uma idiota. É uma menina linda, com dúvidas normais da sua idade. Você cometeu um erro de julgamento. Achou que porque Rody sempre te tratou com todo o respeito do mundo, ele não desejava você como homem. Esqueceu que os falcões protegem a mulher que amam até de seus próprios desejos.- Sorriu. E Alana entendeu. Foi isso que Rody fez. Protegeu ela dos desejos dele.
__Eu não sou como as outras garotas. Eu não ouço. Algumas coisas são mais difíceis para mim saber, e entender. Rody me conhece desde pequena, ele sabe disso, porque não deixou claro isso para mim.
__Isso, querida, terá de perguntar a ele. Mas uma coisa posso te dizer como homem, Rody amava você com a mesma força que eu amo Sofia, ou Alex ama Clara, ou Ben ama Liv, e Ruivo a Diana. Para não citar seus pais e avós. E os outros italianos na família.- Riu e Alana também.- Alana, sua surdez nunca te impediu antes. Eu sempre achei você uma garota tão corajosa e decidida. Porque ficou com medo de falar com Rody sobre isso?- Ela baixou os olhos e sinalizou:
__Fiquei com medo da reposta. Não queria que ele estivesse comigo apenas por pena ou por hábito. Preferi terminar.
__Não levou em consideração a possibilidade dele estar tentando cuidar de você até que se sentisse forte o suficiente para procurar esse tipo de carinho dele? Você acabou de dizer que ele, conhece você. Talvez, ele pensou que você não estivesse pronta para um beijo mais ousado, ou um carinho mais quente. Não acha muito provável ele ter pensado que você não queria isso ainda, porque quando estivesse pronta, quando quisesse diria a ele? Ele me parece um rapaz bem saudável.- Sorriu.-Talvez ele estivesse esperando ansiosamente por um sinal seu.- Aquilo tudo fazia sentido. Vincenzo suspirou.- Minha querida, parece que você tem um problema sério agora. Tem um cara lá fora, muito irritado achando que eu roubei a noiva dele. Tem um outro muito apaixonado que foi obrigado a arranca-la de dentro do coração, chegando na semana que vem. Os dois amam você, cada um do seu jeito. Antonio é estourado, briguento e muito ciumento, mas te ama é um fato. Rody, bem Rody não preciso relacionar para você as qualidades dele, basta dizer que é o príncipe dos Falcões, mas sofreu muito como você já se deu conta, embarcou desesperado de dor. Dizem que o tempo cura tudo. Talvez ele tenha conseguido te esquecer. Ou pior, talvez tenha medo de se entregar de novo a você. O seu problema é decidir qual deles seu coração ama, e quem você realmente quer. Uma coisa é certa, um deles vai sangrar. Você não terá como evitar isso. Por isso, escolha bem, e com calma, sem pressão. Mas saiba que se escolher o príncipe, terá que lutar por ele, diferente do sapo lá fora, ele não pertence mais a você. Seja como for, deve se lembrar, que só poderá fazer um homem feliz se realmente ama-lo. Mesmo o mais durão dos homens precisa saber que sua mulher é louca por ele.- Vincenzo piscou para ela sorrindo. Tudo parecia fazer muito sentido, e Alana se sentia começando a enxergar um pouco de coerência em toda aquela situação. Levantou-se, beijou o rosto de Vincenzo, Voltou para o salão.
__Onde estava? Pensei que fosse comer lá dentro.- Os olhos de Antonio estavam preocupados, mas era muito torrão para admitir. Como disse Vincenzo era um sapo, mas a amava.
__Estava tomando o chá com um analgésico. Já pediram?
__Há horas.- Alana riu.
__Tão exagerado!- Os outros também riram. Emendaram numa conversa divertida. Em menos de 10 minutos seus pratos estavam prontos. O de Alana Boeurf Bourguighom com batatas assadas. Ela não havia pedido, mas Vincenzo sabia seu preferido no Aimê, era o mesmo que Rody preparava para ela no Medeiros, quando ela queria comer uma comida francesa.
__Você fez seu pedido para seu tio, Alana?- Perguntou Joelma, uma das amigas do grupo.
__Meu tio conhece meu gosto.- Respondeu bem simples. E sorriu para Vincenzo na cozinha.- Quando chegaram em casa, Alana percebeu a impaciência de Antonio.
__Eu quero saber o que aquele falso tio queria falar com você sobre seu ex? – O sapo não era bobo.
__Antonio. Eu estou cansada. Vamos deixar isso para outra hora.- Tentou beija-lo, ele se esquivou.
__Senão me disser o que falaram, não vou amanhã no almoço na casa do Advogado.- Era sempre assim, ele nunca chamava seus parentes pelo nome, apenas por suas profissões. No começo achou engraçadinho, agora estava irritando.
__Ben. O nome do meu primo advogado é Ben. Ele é casado com a irmã do meu padrasto, Liv. Eles tem duas meninas, Marina e Lucélia, dois meninos Calebe e Caio. Porque você nunca os chama pelos nomes deles?
__Porque são muitos. E alguns são iguais.
__Não são iguais,são gêmeos. Ben e Carlos, ou o Ruivo, são gêmeos idênticos, mas não são iguais, são duas pessoas com vidas e famílias e profissões diferentes. E mesmo os outros, você diz, o empresário, a cozinheira, a professora, é como se eles só existissem para você por causa do ofício que tem. Uma carreira é bom, mas não é o mais importante para uma pessoa.
__Está tentando defender o seu ex que deixou o restaurante dele, e toda a fortuna dos pais para se dedicar a um sonho de menino de velejar?
__Chega! Cansei. Eu preciso dormir. Boa noite Antonio, ou devo dizer engenheiro?- Foi entrando. – Até amanhã, talvez. Não estou em condições de discutir mais.- Antonio segurou sua cintura.
__Ei espere.- Bufou.- Ok, desculpe. Estou com ciúme. Mas a culpa é sua. É só falar desse cozinheiro.- Parou.- É só falar desse Rody que você fica assim toda estranha.
__Não está sendo justo. Rody é meu melhor amigo. Devo muito a ele. Jamais seria quem sou sem ele. Estou com saudade. Não o vejo a muito tempo. Antonio, Rody não quis ser meu padrinho.- Os olhos de Antonio brilharam de contentamento.- Na verdade, talvez nem vá ao casamento. Disse que terá que embarcar logo, novamente. E que a namorada dele não está a fim de ser madrinha de alguém que não conhece. Mas eu sei que ele está fazendo isso para não chatear você. Não quer estragar seu dia. Ele sempre fez tudo para agradar você. Não tem nenhum motivo para ser rude com ele.
__Como não? O cara ficava babando em você o tempo todo!- Alana viu que Cisco tinha razão. Até mesmo Antonio percebeu o amor de Rody. Se sentiu ainda pior. Suspirou.
__Antonio, Rody é uma pessoa muito importante para mim. Ele sempre lutou pela minha felicidade. Ele me ensinou a ter coragem para enfrentar os desafios que a minha surdez me impunha. Nunca me tratou diferente das outras crianças porque eu era surda. Me ensinou a me defender apesar dela. Me ensinou a ver minha surdez como arma. Minha felicidade está diretamente ligada a dele. Nunca poderia ser feliz se ele estivesse sofrendo. Terei pouco tempo com ele. Quero aproveitar cada segundo que ele puder me dar enquanto estiver aqui. Se você em algum momento, for inconveniente, truculento, deselegante, ou mesmo chatear Rody de qualquer jeito, nosso compromisso estará desfeito. E sem chance de volta. Se você não é capaz de amar e respeitar minha família, e nem uma pessoa tão importante na minha vida, não fará parte dela. Fui clara?
__O que? Ficou louca? Estamos noivos.
__Não. Não estamos noivos. Você não me deu um anel, e nem pediu a meu pai. Todos os falcões pediram suas esposas. E escolheram para elas um anel que representava seu amor. Nunca precisou ser algo caro, mas sempre algo que representava o quanto tinham esperado por aquela mulher. Minha família e feita de tradições, o anel de noivado é uma delas.- Beijou o rosto dele.- Boa noite.- Antonio estava meio atordoado, mas segurou o rosto dela e beijou-a muito apaixonado, como sempre fazia. Ela sorriu antes de entrar no gramado que levava a sua casa. Antonio foi embora com mais um problema. Primeiro, iria ter que suportar o cozinheiro grandalhão babando sobre Alana de novo. Segundo, teria que arrumar esse tal anel. Onde encontrar esse anel que tinha que ter esse negócio de representar alguma coisa? Essa garota lhe dava muito trabalho, mas era linda. E ele amava beija-la. Era mesmo louco por ela. E viu que ela estava mesmo falando sério sobre larga-lo de vez. Droga!
Alana entrou em casa, foi direto para seu quarto. Todos estavam dormindo. Menos Cisco que saia do banho. Ela foi até o quarto dele meio sem jeito:
__ Oi. Posso te perguntar uma coisa?-
__Outra?- disse secando os cabelos muito negros, iguais aos do tio, Rody.- Vai me chamar de fofoqueiro de novo?- Ela fez cara feia.- Ok. Desde que não terei que ficar horas para responder, estou morrendo de sono. Tive três apresentações hoje. Estou morto.
__E correu tudo bem?
__Sim. As meninas estavam ótimas como sempre. Uma das coristas parece que estava com uma das panturrilhas machucada, e o Claudio, o segundo bailarino, lembra? Então parece que fraturou um dedo do pé direito.
__Coitado! Como?
__Estava jogando futebol com os primos.- Riu.- Mas agora temos duas semanas para descansar um pouco. Se bem que tia Nina já mostrou uns passos da nova coreografia. A rotina não está toda pronta, mas o meu dueto com a Lú já está.
Ficou muito bonito. Ela dança cada vez melhor, é incrível.
__Ela é boa mesmo. Tia Nina diz que ela é melhor que tia Liv, e tia Liv, sabe né, é sem precedentes. – Riram os dois.- Ela devia ser a primeira bailarina. Mari é maravilhosa, mas quando você dança com a Lú vocês trancedem a arte. Até Mari concorda com isso, mas Lú não quer ser primeira bailarina. É estranho, não acha?
— Ela diz que é muito tímida e que prefere assim. Eu já cansei de dizer que nunca dancei com ninguém melhor que ela. Amo dançar com Mari, ela é talentosa, vigorosa, disciplinada, linda, divertida, mas não tem dúvida que Lú é…Não sei ela tem uma delicadeza, uma….- Olhou sua irmã e riu.- Ah, não sei. Não sou professor de dança. Mas o fato é que ela não quer. Acho que na verdade não quer tirar o lugar da irmã.
–Será? Mas Mari não se importaria. Será que não tem outro motivo?
-.- Não vejo nenhum. A não ser que não quisesse dançar comigo todo tempo, mas todas as bailarinas da companhia querem dançar comigo.- Disse rindo, debochado.
–Seu convencido.- Disse ela também rindo, mas era mesmo verdade, ou quase. Seja como for, ele era mesmo um talento, e dançaria maravilhosamente com qualquer bailarina.

__ Agora você, maninha.- Sorriu.- O que quer saber?
__Cisco, você acha que Rody me desejava?- Ele fechou a cara na hora.
__O que? Ficou doida? Eu sou seu irmão, acha que ele falaria disso comigo?- Alana ficou muito brava, colocou a mão na cintura ergueu o queixo depois continuou.
__Não sou só sua irmã. Sou também uma mulher. E Rody era seu amigo. Pensei que ele tivesse te dito algo. Mas tudo bem, não quer me ajudar, ok. Não me ajudou antes também. Se você tivesse me contado que ele estava sofrendo, eu teria ido procura-lo, iria entender que tinha me enganado, que ele ainda me amava, que me queria como mulher, que não estava comigo só por pena da pobre surda.
__Do que está falando? Porque Rody teria pena de você? Ele sempre te amou. Porque achou que ele não te queria como mulher?
__Porque ele nunca me beijava. Não de verdade. Quero dizer, era carinhoso, doce, mas nunca com paixão. Sempre parecia estar tocando uma garotinha. Ele é um homem lindo, vigoroso, atlético, porque sempre agia como se eu fosse quebrar? Achei que ele não me desejava, que não tinha coragem de se separar por causa da família, da nossa história junto, do carinho que sentia por mim. Se você tivesse contado da reação dele eu teria entendido que ele estava esperando que eu demonstrasse minha paixão, que ele não queria me assustar. Mas você não disse nada. E eu sou surda! Não ouvi ele chorando no carro, nem ouvi o coração dele descompassado. Eu não tinha como saber!- Quando terminou, Alana estava tremendo. Cisco sempre sorridente com uma resposta para tudo, pasmo, em silêncio.- Agora tenho um problema gigante para resolver. Amo Antonio, que é o sapo, as vezes chato e irritadiço, rabugento, mas me ama e quer se casar comigo. E amo muito, muito Rody, que é um príncipe doce e gentil e que eu feri profundamente e que não quer nem chegar perto de um altar, nem para assistir um casamento, que dirá para casar com alguém. Independente do que eu fizer, vou magoar um dos dois. Eu fui uma idiota por não ter conversado com ele antes de resolver deixa-lo, mas você podia ter me ajudado, me avisado… Agora…- Começou a chorar.- Eu não sei o que fazer…. Eu estou perdida.- Cisco a abraçou.
__Florzinha, porque não me falou isso antes? Porque não disse que ainda o amava? Porque não explicou que era por isso que quis deixar Rody? Você é mesmo muito idiota. Rody sempre foi louco por você. Alana, até embarcar no cruzeiro, Rody era virgem. Ele nunca quis tocar outra mulher. Ele só queria você.
__ O que? Porque você nunca me disse isso antes?
__Porque eu nunca poderia imaginar que você pudesse acreditar que Rody não quisesse você. Eu sei que sua surdez deixa você insegura as vezes, mas isso foi muita burrice sua.
__Não é burrice. Eu não posso ouvi-lo. Nenhum som, nem de dor, nem de prazer. Não entende? Eu não sei se ele estava gostando de verdade de um toque, de um carinho. Ele pode ouvir tudo, todos, menos eu. Eu nunca pude dizer nem o nome dele, nem que o amava.
__Se olhasse para ele, saberia que isso não importava. Todos nós sabíamos. Você foi a única garota que ele beijou durante todos aqueles anos. Ele viu você namorar outros caras, perdia a cor, suava frio de tanta dor, mas nunca quis tentar sair com outra garota. Alana ele ficou quase um ano aqui, tentei várias vezes fazê-lo sair para dançar, encontrar uma garota sem compromisso, só para se distrair, dar uns beijos sei lá. Ele ficava furioso quando eu dizia isso. Para ele era o mesmo que trair você. Você estava com outro, mas ele jamais teria coragem de trair o amor que sentia por você. Dizia que enquanto amasse você não tocaria em outra mulher. – Alana olhava Cisco surpresa e encantada, mas muito arrependida.- Devo te dizer que isso não é tudo sua tonta. Como você mesmo disse, Rody é um cara saudável, viril, imagine o que acontecia com ele, louco de saudade, desesperadamente apaixonado, necessitado de carinho, todas as vezes que você displicentemente, beijava o rosto dele? Talvez um pouco perto da boca ou do ouvido, ou tocava a pele do peito enquanto fazia isso? – Ela arregalou os olhos.- Isso mesmo minha querida. Vi o pobre Rody tremendo de desejo por você muitas vezes. Eu e todos os homens desta família. E Antonio também via. Por isso era sempre tão hostil com Rody. Ninguém gosta de saber que tem um concorrente tão apaixonado. Rody se afastava, ia curar seu desespero sem te causar nenhum embaraço. Ele nunca me falou do quanto te desejava, mas evidentemente não era necessário.
__Estou perdida, Cisco. O que foi que eu fiz? O que faço agora?- Chorou, Jorge passou no corredor e os viu juntos.
__Ei, o que houve?- Alana olhou seu padrasto tão amado, seu irmão tão querido. Os dois com cabelos muito negros e os mesmos traços, os traços de Rody. A diferença maior estava na cor dos olhos. Jorge tinha olhos azuis cor de cobalto, Cisco tinha olhos âmbar, cor de uísque e Rody, olhos muito negros, quase não se podia ver a divisão da íris. Os dois falcões ao seu lado estavam dispostos a lhe dar seu apoio, seu carinho, mas neste momento Alana só queria seu príncipe. Olhando seu pai tão compassivo, só pode imaginar que nunca teria Rody assim de novo. Chorou ainda mais.- O que está acontecendo?
__Pensei que Rody não me queria como mulher, que ele não conseguia se separar por causa da nossa história e da família. Ele sempre foi carinhoso, mas muito puro todo o tempo. Eu achei que ele não tinha esse tipo de desejo por mim.
__Foi por isso que se separou dele? Porque não conversou com ele antes?
__Porque fiquei com vergonha e com medo que ele dissesse que era verdade.
__Oh, minha linda florzinha.- Abraçou Alana.- Ainda ama Rody?
__Eu não sei. Amo. Mas também amo Antonio. Estou confusa.Papai.Não sei o que fazer.
__Está cansada. Tome um banho. Durma.- Sorriu para a filha de seu coração.- Amanhã as coisas vão estar mais claras. Vá para cama. Precisa descansar. Há muitos anos minha mãe me disse que o amor encontra um jeito de resolver as coisas. Confie no seu amor, minha florzinha. Ele vai te mostrar o que deve fazer e te dará coragem para fazê-lo. Seja lá o que for. Vá dormir e deixe seu amor te guiar.- Alana obedeceu. Assim que ela saiu, Jorge agarrou o pescoço do filho em uma gravata dizendo: Tenho duas coisas para lhe dizer, garoto. A primeira é que eu avisei que isso tudo a faria sofrer. Olhe só o que fez com sua indiscrição? Sua irmã está sofrendo. Ela está chorando o tempo todo. Quando Rody souber o quanto ela tem chorado, você estará com sérios problemas, prepare-se! A segunda coisa é:- Abraçou o rapaz com muito amor.- Da próxima vez que tiver certeza que precisa fazer uma coisa, mesmo que todo mundo, ou mesmo eu, ou sua mãe diga que você não deve, faça! Se tivéssemos deixado você seguir seus instintos, e contado tudo a ela no primeiro dia, ou todas as outras vezes que quis fazer isso, todo esse sofrimento teria sido evitado. Alana ainda ama Rody. Por isso está tão confusa e sofrendo tanto. Só que agora terá que reconquista-lo. Fazê-lo acreditar que o ama. Convence-lo a arriscar o coração novamente por ela. Ou seja começar tudo do zero. Vai ser complicado.
__O senhor acha que ele ainda vai querer ficar com ela, depois de tudo, Papai? Acha que ele estaria disposto a esquecer tudo o que passou? Deixar a tal tenente? Tudo por Alana novamente?- Jorge só sorriu como um falcão experiente e apaixonado que era.

O Namorado

Capitulo 2

 
Alana ficou rolando na cama. Como nunca tinha percebido que fizera Rody sofrer assim. Refez mentalmente tudo o que tinha acontecido naquele dia. Tentou se lembrar de todos os detalhes. Realmente, ele se mantivera muito austero, nada condizente com sua personalidade. Quando ele a abraçou teve a impressão que ele dizia algo. Mas ele simplesmente disse que a deixaria em casa. Alana disse que preferia pegar um táxi, não queria atrasa-lo para o trabalho, mas ele insistiu, disse que seria pela última vez. E assim foi. Nunca mais Rody foi busca-la. O primeiro mês pareceu coisa de sonho. Todos os rapazes se aproximaram. Ela se tornou a garota mais popular da escola. Aquilo ajudou a recuperar um pouco seu ego. Todos queriam sair com ela. Diziam nunca ter se aproximado, por causa do namorado. Depois pode notar quais eram os interessantes e os realmente interessados nela, e não em sua família. Fez as contas e percebeu que Cisco tinha razão, ficou três semanas sem ver Rody. Isso só aconteceu no almoço de família do terceiro domingo do mês. Um almoço tradicional que acontecia em rodízio de casa uma vez por mês. Daquela vez o almoço seria na casa dele. Ele estava um pouco pálido e alegou estar gripado. No meio da tarde, Tia Lia o levara para o quarto dizendo que Rody estava febril. Alana não ficou preocupada, Rody era forte como um touro, mas podia ver certa angústia na expressão de todos. Agora entendia, ele não estava gripado, estava sofrendo por ela. Mesmo assim, foi tão gentil com ela, como sempre era. Com exceção do beijo doce que sempre lhe dava quando a encontrava, agiu exatamente como sempre. Antes de sair, quis se despedir dele. Quando roçou os lábios na testa dele num beijo fraternal, notou que ele estava gelado, muito gelado, e teve a impressão que ele teve um tremor. Pensou que ele realmente estivesse gripado, mas agora entendia, ele lutou para que ela não visse sua dor, a necessidade de carinho, do toque dela. A saudade que devia estar cortando o peito dele. Se sentiu a pior pessoa do mundo. E se sentiu ainda pior quando se lembrou que poucos dias depois foi jantar com seu novo namorado Paulo, no Medeiros. Viu que Clara perdeu a cor quando a viu chegar abraçada a Paulo. O restaurante deles estava bem cheio, mas Clara conseguiu uma mesa no reservado para eles. Disse que faria questão de cozinhar especialmente para eles. Claro, como Alana se sentia uma idiota agora. Clara fez isso para tentar evitar que Rody, que estava na cozinha os visse. Quase deu certo. Não fosse o fato dela querer apresentar Paulo para Rody depois do jantar. Quando entrou na cozinha, Rody estava em frente a sua ilha com uma frigideira e um garfo grande na mão, preparando um bife. Os olhos inteligentes primeiro ficaram surpresos, depois notaram a intimidade do casal e voaram para Clara. Foi interessante que Alana naquele instante tenha percebido o agradecimento nos olhos dele para a prima, mas não tenha visto a agonia que identificava agora depois de todo esse tempo. Ele havia entendido que Clara tentara ajuda-lo. E tinha feito tudo certo. Não fosse sua ignorância. Ele deixou sua ilha, pediu que um ajudante terminasse o prato. Lavou as mãos, enxugou e caminhou para eles. Foi gentil com Paulo e carinhoso com ela como sempre. Agora conseguia entender o que realmente aconteceu. E compreender o horror nos olhos de Lú, sua prima, quando contou que tinha levado Paulo para Rody conhecer. Tudo começava a fazer sentido. O namoro com Paulo durou pouco mais de um mês, mas com certeza feriu muito o lindo chefe com olhos de cigano. A maneira como apertava o chaveiro de prata, em forma de falcão que seu avô Rodolfo fizera para ele, sempre que Alana queria uma opinião masculina sobre outros garotos. Ele sempre a respondia, ajudava com toda delicadeza. Era como se sempre tivesse sido seu tio, o irmão de seu pai adotivo. Mas a respiração era diferente, e os nós dos dedos ficavam sem cor em volta do falcão de prata. Depois veio Antonio. Teve outros mas todos sem importância, já o engenheiro mecânico que veio dar um curso na faculdade, literalmente esbarrou nela no corredor. Ele foi rude, estava atrasado e culpou a distraída aluna que derrubou suas pastas por atrapalha-lo ainda mais. No começo brigaram, depois se acertaram, depois começaram a sair, então a namorar. Alguns meses depois Rody embarcou. Antonio e Rody se encontraram várias vezes. E em todas elas, Rody era gentil e amigável embora parecesse sempre um pouco pálido. Antonio sempre dizia que não ia com a cara dele. Que era muito educado, que a olhava estranho, que não tirava os olhos dela. Um dia Alana lhe disse que eles tinham namorado, Antonio ferveu de ciúme, eles brigaram e se separaram. Depois voltaram. Logo Antonio encontrou outro motivo para ter ciúme e brigaram outra vez, de novo se separaram para algumas semanas depois, voltarem. Essa rotina se repetiu por todo aqueles meses que Rody esteve fora. E quando ele propôs se casarem, quase se separaram outra vez quando Alana exigiu Rody como padrinho. Pelo menos esse problema ela não teria mais. Chorou quando pensou nisso. Tinha ferido seu primeiro amor. E pelo visto, estava magoando ele de novo. Então mandou outra mensagem para Rody:
__Rody, sei que deve estar dormindo, mas eu preciso me desculpar. Por tudo. Eu não respeitei seus sentimentos, nem antes e nem agora. Não fui honesta com você. Fui bruta, insensível. Você merecia muito mais consideração. Desculpe-me, por favor. Você sempre foi e sempre será muito importante para mim. Você sempre esteve ao meu lado. Acho que pensei que era lógico que você sempre estaria. Você não é obrigado a fazer algo que não queira. Sempre foi o mais gentil dos amigos, o mais carinhoso dos tios, o mais doce dos namorado. Eu sou uma ingrata. Desculpe. Não tenho o direito de exigir nada de você. Mas se me permitir um último favor, quero te fazer um pedido. Por favor, volte logo. Preciso muito te ver, estou morrendo de saudade.- Enviou e chorou com o celular na mão. Não conseguia acreditar que fora tão insensível, tão egoísta, tão idiota. Segundos depois chegou a mensagem resposta:
__Criança, você não deveria estar dormindo? 😉 Minha linda e eterna namorada, está tudo bem. A vida prega umas peças na gente. Achei que você seria minha por toda a vida, mas você me amava como um amigo. Estou agradecido. Ser seu amigo me permitiu pensar na minha vida, no que eu realmente quero para mim. Entre as coisas que descobri, é que não quero mais ficar em terra. Quero seguir os passos de meu avô Jorge. Este é um dos motivos pelos quais não estarei em seu casamento. Outro motivo é que minha atual namorada, sabe como fui apaixonado por você e ela é muito ciumenta. Eu mudei em muitas coisas, mas ainda amo a paz e detesto discussões.
__Você tem uma namorada? Como ela se chama? É bonita?
__Na verdade ela acha que é minha noiva, mas eu não dei nenhum anel.:D!! Se chama Maria João é portuguesa, e Capitã- Tenente do Iate. Sim, é bem bonita e sabe atirar.:o!! Melhor não provoca-la, né?
__Pode me perdoar por ter sido tão insensível com você? Estava tão preocupada hein.. Ah Rody, eu não percebi sua dor…Desculpe?
__Isso é passado, amor. Esqueça.
__ Não posso. Você sofreu. Eu te fiz sofrer, e você só me fez feliz por toda a vida. Eu magoei você que só me amou. Estou me sentindo péssima.
__Alana. Não fique pensando nisso. Pense no seu casamento, nos planos que tem, em Antonio. Isso tudo ficou para trás, amor. Não quero que fique triste pensando no passado. Temos muitas lembranças felizes, não é? Pense nelas. Não quero que perca o sono por mim.
__Mas tudo me deixou muito triste. Me sinto uma idiota. Como pude ser tão insensível?
__Alana? Você esteve chorando?
__Sim. Muito. Não consigo me conter pensando no quanto mau eu fiz a você. Mas não não está adiantando, não estou mais calma como vovô Rick diz que chorar faz.- Ele levou uns minutos para responder. Alana achou que ele não responderia mais, então:
__Alana, ligue seu computador, por favor?- Ela fez, e em seguida ele estava lá, lindo de camiseta branca e shorts azul escuro. Os cabelos um pouco mais compridos que da última vez que o vira, os olhos profundamente negros emoldurados por uma cortina de cílios longos. Parecia mais bronzeado, um pouco mais forte. Estava no quarto do hotel, sozinho. Começou a fazer os sinais que ela havia lhe ensinado, disse: Porque está chorando?
__Porque você sofreu e eu nem percebi. Conheço você toda a vida. Como não vi você sofrer? Sou uma pessoa muito ruim.- Suas lágrimas desceram de novo.
__Alana, pelo amor de Deus! Não chore, por favor, amor. Isso tudo já passou. Você vai se casar com Antonio, será feliz. Você conseguiu encontrar seu verdadeiro amor. Valeu a pena. Não chore, amor.
__Não posso ser feliz sabendo que magoei você.
__Ai meu Deus! Foi Cisco, né? Eu mato ele. Disse para não te contar nada.- estava bravo. Alana não tinha como não se sentir mais culpada.
__Cisco não tem culpa. Ele não disse nada.- Ele fez uma cara de deboche.- Não antes de você. Quando disse que não queria ser meu padrinho eu fiquei sem chão, fui chorar para meu pai. Cisco viu sua mensagem e ficou sorrindo todo contente. Eu apertei ele. Ele não disse muito. Só o suficiente.
__Desculpe. Não quis ser rude com você. Mas preciso que entenda, estarei de volta ao mar dentro de dois meses. Tem também Maria João que de forma alguma aceitaria ser sua madrinha. Alias, Antonio concordou assim fácil com isso? Sempre me pareceu tão ciumento.- Alana sorriu.- Ok. Já entendi. Você o convenceu.- Ele sorriu.
__Ele sempre teve muito ciúme de você. Mesmo antes de saber de nós.- Eles se olharam por um minuto inteiro. Foi ele que desviou o olhar primeiro.
__Certo. Vamos combinar assim, eu não mato seu irmão boca aberta quando chegar ai semana que vem, e você para de chorar e vai dormir direitinho, ok?
__Semana que vem? Não vai chegar amanhã?
__Terei que ficar aqui na capital para resolver uns problemas com meu passaporte.- Ela o olhou muito triste, totalmente desapontada. Não precisou de nenhum sinal para dizer que a notícia tinha ferido seu coração. A reação dela tão sincera, tão dolorosa comoveu Rody. – Ah, meu amor, não fique assim. Eu tentei resolver antes, mas parece que realmente preciso assinar uns papéis e… – Rody olhou profundamente nos olhos que tanto amara, ela estava realmente sofrendo, ia matar o bailarino bocudo.- Por favor, meu amor, não fique assim. Eu não posso voltar junto com papai e mamãe, desculpe. Vou tentar resolver tudo o mais rápido possível, ok?- Ela soluçou.- Alana, não faz assim, vai destruir o resto de coração que me sobrou, olhe eu tenho que resolver meu passaporte essa semana, senão não estarei apto para embarcar no cruzeiro na próxima viagem.
__Tudo bem.- Sinalizou, mas as lágrimas continuavam a cair.- Eu entendo. Você deve fazer o que for melhor para você, para sua carreira. Não se preocupe, estarei esperando.- Foi enxugando as lágrimas e sinalizando rápido.- Volte quando puder. Estou ansiosa para conhecer a tenente. Rody, será que ela me deixaria abraçar você, só uma vez?- Rody perdeu a capacidade de responder, ficou imóvel olhando para ela sem acreditar no que ela tinha dito. Alana sentiu seu rosto queimar. Sinalizou mais rápido ainda, sem olhar nos olhos dele.- Deixa para lá, foi bobagem. Desculpe. Bem, é melhor dormirmos. Até mais Rody.
__Alana! Preste muita atenção!- Ela parou.- Olhe para mim.- Ela o fez, meio envergonhada.- Você pode me abraçar sempre que quiser. Isso nunca vai mudar, meu amor.- O queixo dela tremeu, os olhos cor de uísque derramaram lágrimas de gratidão, de amor. Alana tocou a tela precisando urgentemente tocar no rosto dele. O menino que sempre a amou e que ela descartou sem ao menos perguntar se era isso que ele queria. Ou como ele se sentia. E ele continuou;_ Mas precisa parar de chorar assim. Quero que durma tranquila. E não fique mais triste pelo que aconteceu. Não vou negar, sofri muito. Mas sofreria de novo se fosse para você ser feliz. Sabe disso. Os falcões lutam pela felicidade de sua amada. Eu sou um falcão. E embora prefira o mar, continuarei sendo um Medeiros. Preciso que seja muito feliz, do contrario, não poderei mais respirar. Promete que vai parar de chorar?- Alana respirou fundo e sorriu para ele.- Muito bem, meu amor. Agora durma. Logo nos veremos, e trocaremos um abraço bem gostoso, prometo.- Alana balançou a cabeça sorrindo. Em menos de dois minutos falando com ele e Rody tinha transformado a moça séria, formada, que lidava com múltiplos problemas alheios, em uma menininha sorridente, que só sabia chorar e concordar com tudo o que ele dizia. Ele desligou e Alana tentou fazer o que tinha prometido. Mas não conseguia dormir. Todas as lembranças de uma infância feliz ao lado dos Medeiros e de Rody a invadiu. Todos os momentos que passaram namorando também. Todo o carinho que ele demonstrava, os sorrisos que lhe dava, a coragem que lhe passava. Rody era um líder nato. Daqueles que não precisam gritar. Deus sabe porque, tinha se apaixonado por ela, uma garota que não podia ouvir e em consequência, não falava. Talvez fosse a empatia, uma qualidade comum entre os Medeiros. Ou o instinto de proteção, latente em todos os falcões. Vovô Rodolfo, o patriarca da família, chamava todos os seus descendentes de falcões. Como os pássaros, sua prole era formada por excelentes caçadores, com visão aguçada, força e incrível rapidez de ataque. Mas apesar disso, não eram agressivos, sabiam ser delicados, amorosos e muito sábios. Todos os Medeiros partilhavam dessas qualidades. E principalmente, todos permaneciam fiéis a sua companheira por toda vida. Exatamente como os falcões. Rody era um falcão. Tinha agido exatamente assim quando ela quis se separar dele. Deixou-a livre para fazer suas escolhas, suportou sua dor sem demonstrar nada para ela. Mas os outros falcões viram. Levantou-se rápido. Correu para o quarto de Cisco. Ele estava deitado na cama dormindo com um livro sobre o peito. Ela chacoalhou ele com força para acorda-lo.
__Ei! O que foi? A casa está pegando fogo?- Olhou para ela e viu os olhos dela queimando.- Ok. Você está com raiva. Porque? O que foi que fiz agora?- Estava sonolento.
__Cisco. Quero que me diga onde vocês encontraram Rody depois que nos separamos?
__Depois que chutou ele, quer dizer, né?- Os olhos dela derramaram dor. Cisco se arrependeu de ter usado essa frase.- Ok, desculpe? Olhe, esqueça isso. Rody nunca quis que você soubesse de nada disso. Vamos deixar assim. Amanhã você fala com ele.
__Ela não virá amanhã. Precisa arrumar o passaporte para voltar para o mar. Não vai mais ficar em terra. Só estará aqui na outra semana. E vai embarcar de volta daqui a dois meses.
__Você falou com ele?- Cisco estava mais atento agora.
__Sim. Ele respondeu minha mensagem. Eu tentei me desculpar. Ele falou comigo pela webcam, está muito bravo com você.- Sorriu triste. – Mas eu expliquei que não disse nada de mais.- Cisco estava mais compassivo agora.- Você só disse a verdade, né? Eu sou uma egoísta, idiota e não sei ler as pessoas.
__Ah, florzinha.- Abraçou sua irmã que tanto amava.- Desculpe. Eu não quis magoar você.- Suspirou.- Você é maravilhosa.
__Mas você tinha razão. Eu magoei muito Rody, que só me amou. Eu preciso saber exatamente o que houve para poder me desculpar direito. Preciso entender o que aconteceu. Por favor me conte? Eu não posso ouvir, não sei se ele gritou, se chamou, se…
__Certo, já entendi.- Balançou a cabeça.- Rody não vai gostar nada disso.
__Por favor, Cisco. Eu sei que os outros falcões também o viram sofrer, mas ninguém vai me contar. Nem Lú que durante todo esse tempo, tentou me fazer conversar com ele. Ela nunca nem sequer mencionou como ficou sabendo do fim do nosso namoro. Quando soube que ele ia embarcar no cruzeiro, ela tentou de toda forma me fazer falar com ele, não queria que ele fosse embora sem que conversássemos, mas ela nunca explicou que era porque ele estava sofrendo. Dizia que ele ainda não tinha namorado mais ninguém, que eu precisava esclarecer bem as coisas, que tinha sido muito precipitada, que ele ficaria fora muito tempo. Lú é minha melhor amiga, Cisco. E mesmo assim, não me disse nada. Por favor, Cisco? Só você vai me contar.- Ele sabia que era verdade. Nenhum dos falcões desconsideraria as instruções de Rody. Nem as crianças. E muito menos as meninas.-
__Naquele dia, eu não tinha a primeira aula na Escola de Dança, porque o conselho da Prestes de Medeiros estava reunido. Tia Nina, Mamãe e Tia Liv, já tinham voltado para a escola. Vovô Rick, tinha levado Vovó Lia para a biblioteca e estava voltando para acertarem algum detalhe da segurança com Alex. Passei por lá atrás de carona. De repente, Alex ficou com a expressão muito séria e começou a digitar rapidamente no note. Em seguida olhou para nós dizendo que alguma coisa estava acontecendo com Rody. Ele deveria estar no Medeiros, mas não tinha chegado. O carro estava parado no Mirante perto da casa do Ben, mas ele não estava dentro. Vovô Rick já estava indo para aquela direção e dirigia muito rápido, isso não é comum para ele.- Alana arregalou os olhos.- Alex disse que Rody deveria estar na praia, o rastreador da pulseira dele indicava um local lá. Mas ele não estava conseguindo as imagens. E ele estava sem o celular e o coração estava perigosamente muito fraco. Corremos todos para lá. Quando chegamos….- Ele parou e olhou sua irmã atenta. Ela queria saber, nunca foi um garoto de dúvidas, Cisco decidiu que ela saberia de tudo o que ele viu naquele dia e depois.- Quando chegamos, Rody estava sentado na escada do mirante todo encolhido nos braços do Vovô Rick, chorava desesperado, estava pálido, muito pálido. Os falcões entenderam imediatamente o que estava acontecendo, mas eu não. Nunca tinha visto aquilo. Tanta dor numa mesma pessoa. Tanta agonia. Uma certeza absurda que a dor nunca ia passar. Papai acariciou as costas dele com lágrimas nos olhos, era como se reconhecesse aquela dor. Tio Ruivo começou a chorar na mesma hora,nos braços do tio Beto, nem parecia o diretor tão sorridente e altivo. Ben chegou perto deles e disse com a voz meio embargada, para Rody contar o que aconteceu. Ele tentou falar duas vezes, mas a voz não saía. Então ele sinalizou. Disse que você não o amava de verdade. Queria encontrar seu amor verdadeiro. Que para você, o que tinham era infantil, tinha passado, perdido o valor. Você achava que seria mais feliz sendo amiga dele e não mais a namorada. As mãos dele tremiam e as lágrimas não paravam de cair. Ele olhou Ben, e perguntou o que ele deveria fazer. Os olhos verdes de Ben se encheram de lágrimas. Rody olhou para o Vovô Rick e disse que não conseguia respirar, o peso no peito era muito maior que tudo que já tinha sentido. Disse que não sabia se poderia suportar. Ele olhou o mar por um longo minuto. E nesse momento, Vovó Lia chegou com Tia Diana e chamou por ele. Quando Rody olhou para ela, Alana, eu pensei que ele já tinha chorado tudo que uma pessoa poderia chorar, achei que tudo que tinha visto até então, era o máximo de angústia e tristeza que uma pessoa podia mostrar. Mas então ele derramou toda a sua dor para a mãe dele. Foi muito triste, muito doloroso. Todos choramos. Vovó Lia acariciava os cabelos deles com carinho e ele tremia, tremia, os soluços involuntários convulsionavam o corpo todo. Era como se ele tivesse tentando controlar todo aquele tsunami de desespero até que ela chegasse para romper toda aquela devastação. As palavras dela foram assim:
” – Meu lindo menino sorridente, sabíamos que um dia essa hora ia chegar. Seu amor sempre foi verdadeiro, puro e forte, mas precisava ser provado. Alana é uma boa menina. Seja forte, mostre o falcão que é. O tempo resolverá tudo.”- Então ele respondeu, com a voz limpa e forte de sempre.
“- Não poderei suportar muito tempo.”
“_ Poderá sim. Você é filho de Ricardo Medeiros, neto de Rodolfo Medeiros, é o mais poderoso dos falcões. Herdou todas as qualidades deles. E o coração mais valente. Vai enfrentar tudo com amor, como seu pai. E com sabedoria, como seu avô. E quando não conseguir mais controlar sua agonia, terá o mar. O meu refúgio, o nosso refúgio.” Ela sorriu para ele. E foi enxugando o rosto dele com as mãos, se levantando e dizendo.- ” Vamos para casa. Alex, avise Clara que Rody não irá trabalhar por uns dias, por favor. Beto, você explique o que está acontecendo para Nina e para o Vovô Rodolfo..”
__”Eu não quero que ela saiba.”- Vovó Lia olhou para ele.-” Não é por orgulho. Ela disse que quer ter novas experiências, quer conhecer outras pessoas, Se ficar sabendo como estou ela… De que vale todo meu desespero se ela não vai ser feliz de qualquer jeito? Não quero que ela saiba.”- Vovó Lia sorriu meio triste e olhou todos os falcões dizendo:
__Cabe a vocês controlar suas crianças. É melhor contar tudo, e dizer porque Rody não quer que digam a Alana que viram Rody triste. São pequenos, mas expertos.”- Então Rody olhou para mim.- Os olhos do bailarino se encheram de lágrimas. – Ele me pediu para não contar a você. Eu não queria. Eu não podia esconder aquilo, eu tinha que fazer alguma coisa. Mas ele segurou meus ombros com força, como um naufrago, e me fez jurar. Depois disso me fez repetir esse juramento muitas vezes. Eu amo muito você Alana, mas algumas vezes você era tão inconsequente com ele. Levar Paulo para jantar no Medeiros e depois leva-lo para cozinha? O que foi aquilo? E ficar aos beijos com ele na casa da árvore do Tio Ruivo? E aquela cena ridícula de ciúme de Antonio na escola de dança, que terminou em amasso no meio da minha apresentação? E aquela vez da premiação do Medeiros, primeiro abraça Rody toda amorosa, depois beija Antonio na frente dele sem a menor cerimônia. O que aconteceu, deixou toda sua sensibilidade com Rody quando se separaram? Rody todo preocupado em poupar você, e você arrastando o coração dele no asfalto. Eu não podia suportar. Mas Rody, bem. Você já sabe. Então, um dia Rody ligou para o papai, queria vir aqui, mas precisava ter certeza que não ia te encontrar. Papai disse que você estava toda enrolada com seu trabalho que ele podia vir. Não sei porque, mas alguma coisa dentro do meu coração me fez ficar aqui e não ir a escola aquele dia. Ficamos esperando por ele. Ele deixou o carro lá fora para não correr nenhum risco, entrou pelo portãozinho. Não sabíamos porque ele queria estar aqui, mas ele foi direto até o balanço e chorou lá sozinho, chorou muito, muito. Antes de entrar ele ainda olhou o balanço com tanta dor. Só entendi depois que ele explicou nos braços do papai, que era o aniversário do primeiro beijo de vocês. Ele disse que tinha preparado todos os detalhes daquele momento, tinha sonhado com aquilo por tanto tempo, e que quando te beijou de verdade pela primeira vez, tinha sido um momento mágico. Como nos sonhos. No seu balanço.- Os olhos de Alana eram pura tristeza. Ela se lembrava daquele momento tão bonito deles.- Ele não conseguia entender como ele continuava desesperadamente apaixonado por você e você não sentia nada por ele. Como ele precisava sentir seu cheiro para conseguir encher os pulmões de ar, e para você ele era apenas o amigo de traquinagens da infância. Já faziam nove meses que ele não beijava você e ele disse que não estava mais suportando essa agonia. O papai tentou acalma-lo, consola-lo, encoraja-lo, mas eu não sabia o que dizer diante de uma dor tão grande, tão crua. Foi quando a coisa ferrou de vez. Ele se levantou para colocar a xícara de chá na pia e olhou pela janela da cozinha. Não sei por qual maldição do destino, você e Antonio estavam se beijando ali no jardim do lado do balanço. Ele perdeu todas as forças. Não conseguia respirar. Pensei que ele fosse desmaiar. Mas em vez disso ele percebeu que vocês caminhavam para dentro. Ficou desesperado para ir embora, não queria que você o visse naquele estado. Eu o ajudei a chegar ao Jeep, mas ele não conseguia dirigir. Ele tremia demais. Então eu dirigi, sem carteira mesmo, com um pavor de encontrar uma viatura no caminho, mas o levei até o Medeiros. Alex já estava esperando no estacionamento e o levou para cima. Logo Vovó e Vovô chegaram. Foi quando ele disse que não podia mais ficar aqui. Não tinha mais condições de ver vocês juntos sem ….- Olhou Alana.- Sem sangrar na sua frente. Não demorou para conseguir um lugar no cruzeiro. Foi bem recomendado, é claro. Mas não foi simples. O Medeiros precisava dele, foi complicado para Clara, ela precisou improvisar. Vovó Lia nunca quis que nenhum de seus filhos fosse para o mar como seus pais, mas precisou se adaptar. Ele odiava dormir no barco, mas este foi o menor dos problemas de Rody, não é mesmo?- A expressão de culpa nos olhos de Alana era comovente.- Foi por isso que fiquei contente com a resposta que ele te deu na história do padrinho. Foi a primeira vez que vi Rody preservar o coração dele em primeiro lugar. Ele sempre estufou o peito e deixou você esquarteja-lo. Isso foi um progresso e tanto. Eu não tenho nada contra Antonio. Não somos amigos, mas tudo bem. Ele fica invocando quando me vê de figurino ou de malha, mas Marcelo também e conheço Marcelo toda a vida. Se gosta mesmo dele a ponto de se casar, ok. Desejo que seja muito feliz. Mas ninguém vai amar você como Rody amou. Espero sinceramente que ele esteja livre desse amor. Que tenha se apaixonado pela namorada tenente. Ele já sofreu muito. Tenho feito a Deus dois pedidos todas as noites desde que vi Rody chorando naquele balanço. O primeiro, que ele encontre e se apaixone por uma garota que o ame intensamente como ele merece. E o segundo, que Deus me livre de amar alguém como ele amou você, Alana. Não quero essa dor para mim. Na verdade, não desejo essa dor nem para um inimigo. Se essa é a condição para um falcão amar, prefiro nunca amar ninguém.- Alana olhou seu irmão com um misto de arrependimento, tristeza, vergonha, raiva, até ciúme da garota que Rody amava agora e pena de ter causado essa impressão tão ruim sobre o amor para querido irmão. Mas o maior de todos os sentimentos que tinha e estava totalmente nu era a culpa.- Sei que não tinha a intenção de magoa-lo, mas fez, fez de verdade. Acho que está certa, ele merece um pedido de perdão, mas isso não vai mudar o que houve e nem as consequências. Você perdeu o homem que mais te amou na vida. E ele não te amava como um garoto como você alegou tantas vezes. – Ela tentou retrucar.- Nem tente se defender. Se tinha dúvidas da natureza do que ele sentia por você, devia ter perguntado a ele, já que nunca confiou em sua melhor amiga, nem nos olhos do Rody e nem em seus próprios instintos. Agora isso tudo é passado. Rody tem outra garota e você está noiva de Antonio. – Cisco notou um brilho nos olhos da irmã. Algo que ele disse despertou algum sentimento bom dentro dela. Alana se levantou agradecendo seu irmão pela sinceridade.
__Eu sabia que era você que poderia me esclarecer tudo. Obrigada.- Sorriu.- Rody também sabia que você acabaria me contando tudo, né? Tome cuidado com sua fama de fofoqueiro, bailarino.
__Ei! Eu não sou fofoqueiro. Só que neste caso, sempre achei que você tinha que saber. Achei que você não compreendia o que estava fazendo com ele.- Alana beijou a testa dele.
__Eu sei. Obrigada, te devo essa. Vou compensa-lo, eu juro.
__Se me deixar dormir, já me dou por satisfeito. Alana, cuidado com o que vai fazer. Rody já sofreu muito.- Ela balançou a cabeça entendendo o que seu irmão queria dizer. O seu lindo príncipe não iria querer mexer numa ferida tão grande novamente. Foi para seu quarto, com tudo o que Cisco contou girando em sua mente. Cada detalhe que lembrava a atingia mais.