Falcão por opção

Capítulo 8

O primeiro lugar que pararam era lindo. Um restaurante nas montanhas com vista para um lago e vales verdes cheios de flores pequeninas. O lugar era muito pitoresco, as mesas e cadeiras entalhadas em madeira maciças, grandes janelas de madeira e vidros. Muitas flores por todo o lugar. Um fogão de lenha muito antigo e outros detalhes pintados com umas flores típicas completavam a decoração rústica, mas muito bonita. Enquanto as crianças corriam pelos jardins, e os mais velhos se aconchegavam nos bancos, Clara quis conhecer a cozinha. Os cozinheiros, Ritinha e Alex, lógico, foram com ela.

__Não sabia que gostava de cozinhar, Ritinha?- Perguntou Leninha .

__Não sei nada de cozinha.- Disse tristemente.- Só comer, claro.- Sorriu meio de lado.- Nunca tive tempo para aprender. Desde pequena levei jeito com os números, muito cedo comecei a trabalhar e … Bem, nunca cozinhei. Não sozinha. – Sorriu para Alex. Clara por algum motivo se sentiu incomodada com aquilo. E Ritinha continuou.- No orfanato, as crianças tem aula de culinária básica, sem falar nas de Clara aos  sábados, mas eu nunca tenho tempo de ir. Mas eu gostaria muito de aprender, pelo menos o suficiente para não por fogo no apartamento de Alex.

__Você mora no apartamento dele?- Perguntou Leninha surpresa.

__Sim. – Pensou.- Não com Alex. Morro no apartamento que ele e Dona Diana moravam antes dela se casar com o Diretor Carlos. Dr Benjamin me ofereceu para aluga-lo por um valor legal. E o apartamento é ótimo e eu precisava desocupar meu antigo quarto no lar.- Vincenzo a olhou.

__Você morou em um orfanato? Quanta coincidência.

__Na verdade não é muito. Eu cresci num dos lares que a Família Medeiros ajudava. Quando demonstrei vocação para matemática, Sr Medeiros me ofereceu uma bolsa de estudos na Prestes de Medeiros. Com o tempo Sr Roberto me propôs um estágio remunerado no Grupo Medeiros & Medeiros. Comecei a trabalhar primeiro como menor aprendiz, depois Dr Benjamin mudou meu contrato e passei a fazer parte da equipe. Quando Professor Jorge precisou de ajuda, fui para o orfanato.

__Então não teve escolha, né?- Vincenzo gostava mesmo de provocar.

__Para ser sincera, tive sim.- A garota tímida o encarou. Ela era valente. Empurrou seus óculos com o dedo médio ajeitando-o no lugar.-  Sr Medeiros me perguntou se eu gostaria de ir.  Disse que se eu não me sentisse bem, Dr Benjamin encontraria um outro funcionário qualificado, e eu continuaria no financeiro da empresa. Sr Roberto disse que na verdade, mexer no meu contrato novamente daria trabalho para Dr Benjamin, mas que mesmo assim eles estavam me oferecendo esta oportunidade de promoção porque acreditavam que seria bom para mim também. Eu estava no segundo  ano da faculdade, poderia colocar todos  os conhecimentos em prática. Dr Benjamin me disse para visitar o orfanato antes, conhecer o Professor Jorge e tudo mais, então tomar minha decisão.- Leninha percebendo o mau estar, tentou contornar.

__Então você ficou encantada com tudo, feito eu? – Riu. Ritinha sorriu lindamente.

__Sim. Tudo era tão claro, tão limpo, tão arejado. Minha sala era tão bonita, tão feminina.- Baixou os olhos com um sorrisinho encabulado.- Minha antiga sala era ótima, mas eu era a única menina. O Professor Jorge, Dona Diana e eu trabalhamos na sala da diretoria quase todo o tempo juntos, mas todos temos nossas salas. Eu realmente achei tudo muito alegre. E também gostei muito do contato com as crianças. Eu continuo a fazer o mesmo trabalho no financeiro, mas progredi para outros campos da logística e do secretariado. Isso me possibilitou uma pós bem interessante, e uma remuneração melhor. Foi uma boa escolha.- Encarou Vincenzo corajosa. Vincenzo viu que desagradou muito a doce órfã dos números. Riu divertido.- Só que tenho pouco tempo livre.- Olhou Clara se desculpando.- Gostaria muito de ter aprendido fazer aquele pão de queijo. As vezes até sinto o cheiro dele pela casa.- Clara riu.

__Ah! Querida!- Abraçou Ritinha.- Eu vou lhe mandar a receita. Melhor, vou até seu apartamento para fazermos juntas. Assim mato um pouco a saudade do jardim.- Olhou Alex.- E do quarto de Alex.- Alex sorriu tímido.

__Agora parece mais o quarto das gêmeas de Ben. É todo rosa e tem uns brilhinhos…

__Como sabe?- Perguntou Clara de supetão. Alex pegou-a pela mão, e trouxe para seu peito.

__Fui com Ben para ajustar o contrato antes de vir para o intercâmbio. O jardim que o Ruivo fez estava igual, mas o meu antigo quarto parecia mais o quarto das minhas primas.- Riu baixo. Ritinha também riu.

__Não zombe de mim. Eu sou menina, não queria um quarto de garoto. Estou errada Clara?

__Acho que ela tem direito de escolher a decoração do quarto dela.- Disse sorrindo para Ritinha, mas Alex sabia que não era um sorriso completo.- O que aconteceu com os móveis da casa? Achei que tinha alugado de porteira fechada.

__Os móveis que Alex deixou no quarto, eu guardei no quarto da Dona Diana, guardei também algumas coisas que não iria usar. Embalei tudo direitinho, claro. Deixei só as coisas que realmente uso, e algumas coisas que são minhas.

__Então, mudou a decoração também? Que legal! Deixou mais parecida com você? Isso quer dizer que gosta de morar lá.- Clara gostava de Ritinha, embora nesse momento sentisse uma pontadinha de ciúme dela.

__Eu gosto sim. Dona Diana também disse  que é bom eu colocar as coisas que gosto. Arrumar do meu jeito. Segundo ela, os órfãos tem dificuldades de construir um lugar próprio. Principalmente os que sempre viveram em um lar. Eu só saí quando terminei a pós. Mas eu gosto muito do apartamento,  tem o jardim, e as meninas dançando no corredor.- Sorriu. -Eu gosto.- Clara sentiu um aperto no coração. Ritinha não tinha família e era tão querida. Como ela pode ter tido aqueles sentimentos ruins a instantes atrás. Virou-se nos braços de Alex, estendeu as mãos para ela e segurando as mãos de Ritinha  disse sincera.

__ Você está certa, querida. Não tinha lógica dormir num quarto de menino. Se quiser mudar mais alguma coisa no apartamento, me avise. Irei escolher junto com você e te ajudo a montar se for preciso. Conheço umas lojas ótimas e com preço bem em conta. E melhor, que atendem em horário de shopping.- Riu.- Não se preocupe com seu senhorio. Se ele invocar com alguma mudança que fizer no apartamento, manda ele falar comigo. Acho que posso convence-lo rapidinho – Alex e as meninas riram.- E quanto as suas aulas de culinária, estão de pé. Podemos encontrar um horário que seja bom para você.

__Porque não fala com Jorge?- Disse Alex.- Ele pode encontrar um horário que Clara possa dar aulas para as crianças mais velhas. Talvez uma vez por semana de noite.Quem sabe neste horário você também possa assistir.

__Mas Clara não pode chegar tarde em casa?- Disse Vincenzo caçoando.- Ela tem que esperar uma certa chamada.- Riu. Alex apertou de leve o corpo de Clara contra seu peito, beijou o rosto dela e disse:

__Será por uma boa causa. Posso esperar um pouco mais.- Pensou um segundo.- Poderiam  falar com Jorge se ele não concorda com um curso básico com um rodízio de professores. Alice, Liv, mamãe, Tia Lia cozinham muito bem. E até Jorge gosta de cozinhar. Assim vocês dividem as aulas, não fica pesado para ninguém, nem cansativo para os alunos.

__É uma ideia ótima, amor. Podemos até criar um menu para ser trabalhado no mês. E no último fim de semana juntamos tudo e todos e fazemos um almoço para todas as crianças. Assim as crianças e Ritinha treinam o que aprenderam, aproveitamos tudo o que cozinharmos e ainda ficamos um tempo todos juntos. Vai ser muito bom. O que acha Ritinha? Falamos com Jorge?

__Eu acho muito bom. Acho que ele vai gostar. Para mim pelo menos será ótimo. Não sei se vou me sair bem, mas pelo menos paro de comer comida de microondas.- Sorriu para a amiga.

_ Eu que saio no lucro.- Disse Alex.- Menos risco de ver meu apartamento ir pelos ares.- Sorriu tímido. Clara e Ritinha riram mais.

— Quer dizer que é tão ruim assim? Não acredito que a menina dos números não consiga calcular o tempo de cozimento.- Vincenzo estava mesmo a fim de briga. Clara olhou feio para ele e Leninha também. – O que foi? É estranho. Sempre achei que cozinha tivesse tudo haver com matemática. Não acredito que…- Olhou para Alex, e pela primeira vez o viu como um homem seguro, um guerreiro protetor. Alex passou um braço em volta de Clara e a movimentou devagar para o lado esquerdo, com a outra mão trouxe Ritinha para debaixo de seu braço direito. Ela era uns 10 centímetros menor que Clara, os traços indianos ficaram apenas nos longos cabelos negros e nos olhos de Sherazade. Os cabelos com a franja longa, sempre trançados, os óculos com armação de gatinho eram muito bonitinhos. Ela parecia mais nova ao lado de Alex. As duas pareciam. Talvez porque ele fosse tão alto, ou porque agora olhava para Vincenzo como um guardião, protegendo um tesouro. Vincenzo olhou para Ritinha, e percebeu que aquela história devia ter um significado mais profundo, algum problema que ele não deveria mexer.-Ah! Que nada!- Disse.- Isso é bobagem! Todo mundo pode se distrair e queimar um arroz de vez em quando. Até Clara.- Riu. Clara e Leninha começaram a discutir de brincadeira com ele. Ritinha soltou o ar preso no pulmão devagar. Vincenzo viu. Alex olhou para ele e num pequeno gesto com os olhos agradeceu por ele ter mudado o rumo da conversa. Chegaram a cozinha. O Chefe  Hanz, muito alto, muito loiro, muito alemão, foi bem gentil. Mostrou tudo. Inclusive as máquinas e fornos antigos de barro e outros modernos eletrônicos para Alex.  Comeram como reis. Após o almoço voltaram para a estrada linda com vistas maravilhosas, passando por Estugarda. Chegaram no Castelo de Eltz as 3:00 da tarde. O lugar era maravilhoso. As crianças enlouqueceram. Leninha e Ritinha pareciam encantadas, nunca tinham visto algo daquele jeito e tamanho. O próprio Conde de Eltz veio recebe-los. Ele era um fã de tio Rick. Mostrou todos os livros dele na sua biblioteca que parecia tão grande quanto a municipal. Ele separou um quarto para cada casal e seus filhos. E dois quartos para os solteiros. Todos os quartos eram suítes espaçosas totalmente medievais. Paredes de pedras largas, cortinas de tecido estampado em vermelho e dourado, camas, cadeiras e mesas de madeira maciças. Lareiras, castiçais, armaduras, grandes escudos e armas medievais em todos os lugares. Os vasos e os candelabros pareciam de filme. No térreo e nos primeiros andares, o castelo estava aberto para visitação. Nos andares superiores ficavam os aposentos da família do Conde e de seus visitantes. Como todo bom castelo tinha torres, calabouços, correntes, pórticos, vielas, poços e tudo mais. Sem contar a vista, coisa de cinema. Como era de se esperar o Conde e sua família também desfrutavam das modernidades, por isso assim que Alex foi apresentado, se tornou o centro das atenções. O Conde, seus seguranças, seus filhos e outros interessados em ouvir o gênio da eletrônica que o Instituto de Munique vinha alardeando como prodígio. Quando enfim conseguiu chegar ao quarto que dividiria com Vincenzo, este estava no banho. Alex viu a cama que Vincenzo tinha escolhido e o armário que colocara suas coisas. Colocou-se na cama oposta e utilizou os móveis deste lado. Quando terminou de guardar tudo, trancou com uma chave e depois conferiu todas as travas de segurança de seus aparelhos eletrônicos.  Não duvidava da honestidade de Vincenzo, mas era óbvio o interesse por Clara. Ele era o tipo de homem que lutava com todas as armas pelo que queria. Isso ficou muito claro para Alex quando o viu provocar a pobre Ritinha. Mas também percebeu que ele não era um cara mau. Simplesmente, Vincenzo estava apaixonado por Clara e diferente dele, tinha total confiança em si mesmo. Alex separou o que precisava para seu banho. Assim que Vincenzo saiu, ainda enrolado na toalha, viu Alex na janela olhando o vale. Vincenzo não podia negar, o rapaz era grande. Tinha braços e pernas bem fortes, numa briga não seria fácil vence-lo. Mas pelo que Vincenzo tinha visto mais cedo, o garoto era muito dócil. Ele nem soltou fogo pelas ventas quando o viu com as malas de Clara. Se fosse ele, haveria sangue. Alex se virou e amigavelmente disse:

__Já terminou? Posso tomar meu banho agora?

__Vai lá, garoto.- Virou-se para o banheiro.- Espere só pegar isso aqui.- Pegou suas roupas e enrolou uma trouxa trazendo consigo.- Prontinho. A água está ótima.- Alex sorriu de canto, pegou suas coisas e entrou. Vincenzo sentou-se em sua cama, olhou a cama de Alex, estava tudo muito arrumado. O criado mudo e a escrivaninha também.

__Ele é um nerd mesmo. Clara tinha razão. Tão arrumadinho! Nem parece homem.- Riu sozinho. Ouviu o chuveiro.- Certo. Ele está ocupado. – Abriu o notebook de Alex.- Só uma olhadinha.- Na tela de descanso, tinham fotos se sucedendo simultaneamente. Da família, das crianças do orfanato, Ritinha, alguns rapazes tão nerds quanto ele, Vincenzo achou que deviam ser colegas da escolas, muitas fotos da mãe e do padrasto e muitas, muitas fotos de Clara. Ela era mesmo linda. Vincenzo tentou entrar, mas lógico que o mestre da eletrônica teria senhas. Ele não conseguiria. Mas já pode perceber  que Alex dava muita importância as pessoas. Um gênio da eletrônica deveria ter como descanso de tela máquinas, carros talvez até motos como ele, mas Alex tinha pessoas. Sua família para ser exato. E Clara. O chuveiro parou. Vincenzo fechou o note e apressou-se para sua cama. Não faziam nem 10 minutos ele não podia ter acabado. Vincenzo colocou a calça, os tênis e pegou uma camisa azul marinho com bolinhas bem pequenas. Quando ia vesti-la, Alex saiu do banheiro vestido com um jeans, uma camiseta branca, os cabelos molhados penteados para trás, com a barba feita, com suas roupas e toalha dentro de um saco para lavagem. Vincenzo olhou dentro do banheiro e não pode acreditar quando viu tudo em ordem.

__Cara, você é o Flash?- Riu e Alex também.- Como conseguiu?- Alex caminhou para seu armário, guardou uma pequena bolsa com coisas de banho, pegou um par de tênis e um de meias e uma camisa xadrez de manga comprida. Sentou-se em sua cama.

__Eu fui muito bem treinado. Nasci em um orfanato.- Vincenzo parou de pentear os longos cabelos molhados.

__Como? Mas e sua mãe?

__Minha mãe e minhas tias estavam vivendo no orfanato quando nasci.- Terminou de calçar o tênis olhou Vincenzo e disse tranquilo.- Não conhece minha história?

__Não. Só o que sei de você é que é um gênio da eletrônica. E que namora sua tia pelo computador toda noite.- Riu. Alex Também.

__Nem tudo é o que parece. Sim gosto de eletrônica e de robótica, sou bom nisso, e namoro Clara, a irmã do meu padrasto, mas tem bem mais coisas na minha vida que uma linda loira sorridente e componentes de transmissores. Você também, não é? Sei que você é um excelente cozinheiro, mas não é só isso, certo? Gosta de motos envenenadas, de bagunçar o banheiro.- Riram.- De  usar o cabelo comprido, tem primos com restaurantes na Alemanha, percebeu que Ritinha tem problemas em calcular o tempo.- Olhou-o nos olhos.- Obrigado por mudar o assunto. Ritinha é uma moça muito inteligente, tem uma aptidão para os números invejável. É muito organizada e eficiente. Para o trabalho no orfanato ela é ideal. Também é doce com as crianças. Quando era pequena foi encontrada em um bote salva-vidas no litoral sul. Os médicos avaliaram que ela tinha uns 4 anos. Não sabem direito o que aconteceu, ela estava com um ferimento na cabeça, desacordada, desnutrida e desidratada. Não tinha nenhum pedido de socorro registrado na guarda costeira para aquela área. Ela não tinha nenhum documento, nem remos  só o colete que era de um adulto amarrado no corpo dela. Quando ela acordou, não sabia dizer quanto tempo tinha ficado no mar, nem como tinha ido parar lá. Até hoje, não se sabe direito sua origem, mas quando a acharam ela falava português, inglês e hindi. E os traços indianos dela são bem visíveis. Eu, Ben e tio Rick cruzamos algumas informações. Encontramos uma embarcação desaparecida que saiu dos Estados Unidos e deveria chegar a Portugal. Nela estavam turistas e dentre eles um casal de Matemáticos. O homem que era Inglês teve um infarto fulminante no terceiro dia de viagem. O capitão avisou o ocorrido a companhia dona do navio. Explicou que a mulher que era indiana fez questão que colocassem o marido na câmara fria para que o funeral fosse feito em Portugal. Segundo ela,  ele tinha apenas ela e uma filha de 4 anos como família. A embarcação desapareceu numa tempestade. Foi encontrado pedaços do casco meses depois em Cabo Verde. Todos os 35 turistas e os 10 tripulantes foram dados como mortos. A companhia indenizou as famílias, menos a dos Matemáticos. Ben entrou com um recurso tentando comprovar a identidade dela e o direito a indenização, mas é um processo demorado. Tudo se baseia em suposições. Principalmente, porque se Ritinha era a filha dos Matemáticos, ela ficou a deriva por mais de 3 semanas, e fez um trajeto totalmente diferente que os restos do barco.

__Que história!- Vincenzo estava pasmo.

__Concordo. Ela não sabe sua origem e não se lembra de nada de antes de acordar no hospital. Depois foi para o orfanato. No primeiro que ficou, era muito maltratada. A instituição foi fechada. Depois ficou em uma que era mais limpa, mas algumas  meninas foram abusadas por um funcionário.

__Deus! Que horror!

__Pois é.  Ela era muito pequena, e logo foi transferida, não foi uma das vítimas. Neste ponto já demostrava sua vocação pela matemática. A instituição que a acolheu desta vez era ajudada pelos Medeiros. Um dia, Vovó Elisa e Tia Lia foram visitar o local e bem, ela já contou essa parte.

__Pobrezinha. – O Italiano demostrou toda a sua compaixão.- Como uma criança pode sofrer tanto? Coitadinha.- Vincenzo parecia mesmo arrasado.

__É mesmo muito triste. Mas Ritinha é muito valente. Já venceu. É uma profissional valorizada. Uma mulher de caráter. Tem dificuldade em se situar no tempo, mas isso não a impede nem atrapalha em nada. Quer dizer, só cozinhar. Já queimou todo tipo de alimento.- Riu.- Minhas primas dizem que toda vez que sentem cheiro de queimado, correm para porta dela. Mesmo se for nos horários que ela está no trabalho. – Os dois riram. Ouviram uma batida na porta larga.

__Amor? Posso entrar?- E Leninha gritou.

__Estão vestidos!- Alex estava pronto, e Vincenzo fechando a camisa.

__Sim. Estamos.- A porta se abriu com Leninha dizendo.

_Ah! Que pena.- Riram. Clara caminhou para Alex, se pôs em seus braços dando um beijinho casto em seus lábios.

__Que cheiroso. Fez a barba?- Acariciou o queixo dele.- Que delícia.- Ele sorriu. Vincenzo viu que o garoto não era nada bobo. Ele mantinha a barba assim tão bem feita, porque Clara gostava. Notou que Clara colocou o braço na cintura dele entre a camisa xadrez e a camiseta branca de algodão. Eles se conheciam bem.

__Você é que é sempre cheirosa e linda.- Olhou para ela intensamente. E sorriu, como só fazia para ela.

__Quer ir ver sua mãe e o Ruivo, ou quer explorar o castelo?

__Quero muito explorar o castelo, mas primeiro quero ver mamãe e o Ruivo, sabe onde eles estão?- Clara o puxou para a janela.

__Lá.- Riu. Alex e os outros olharam pelas janelas. Diana e o Ruivo estavam se beijando no jardim florido.

__Bem. Talvez seja melhor explorar o castelo primeiro, então.- Riram.

__Garoto! Como você deixa aquele cara agarrar sua mãe daquele jeito?

__Ei!- Disse Clara.- Aquele cara, é meu irmão. Ok?

__Vai bobo!- Disse Leninha.- Porque não aprende a ficar quieto!

__ Dona Diana é adulta, e o Diretor é marido dela.- Disse Ritinha.

__E tem outro porém, meu caro amigo, Vincenzo.- Disse Alex calmo e gentil.- Aquele cara ali, é meu melhor amigo. Confio minha vida a ele. É o pai do meu coração. Sem contar que acho que  é ela que está agarrando ele.- Riu junto com os outros. E foram para a exploração. Não demoraram a encontrar as crianças e vários falcões atrás delas pelo Castelo.

 

 

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Falcão por opção

Capítulo 7

__Caros Alunos.- Disse Chefe Maximo. -Teremos um premio para a equipe que ficar em primeiro lugar na pontuação deste semestre. Estamos muito contentes com o desempenho desta turma, e como a prova desta penúltima semana de aula será sobre o menu de voo, uma companhia aérea forneceu o premio. Uma viajem de férias de 15 dias no nordeste para os três vencedores da equipe.-Todos ficaram muito animados. – Não se esqueçam do mais importante, sua nota do semestre será somada ao da nota deste menu. Todos podem conseguir boas notas. Esforcem-se e tenham capricho em tudo. – Todos estavam esperançosos de conseguir o Premio. E ainda viajar nas férias.- Entendido?

__Sim Chefe!- Responderam. Os alunos ficaram ainda mais motivados quando Clara disse que nunca comia no avião e Leninha que nunca tinha viajado de avião. O terceiro membro dessa equipe, Vincenzo, até queria vencer, mas já tinha programado trabalhar no restaurante de um de seus primos na europa durante a férias. Não poderia aproveitar o premio.

__Já lavei e cortei todos os legumes para as saladas.- Disse Leninha.- Acho melhor cortar tudo pequeno, para facilitar para comer, não acham?

__Concordo.- Disse Clara. – O frango e o bife também. Vou prepara-lo com temperos leves, depois faço uns cortes bem bonitos para valorizar. Então escolhemos os melhores.

__É, porque bife cortado parece coisa de mãe com criancinhas.- Riram.- A massa que foi pedido,  eu acho que vou fazer ravioli de ricota e brócolis, assim serve também para os vegetarianos, e vai na mesma linha dos fáceis de comer.

__Legal.- Disse Leninha. -E de sobremesa.

__Deixa comigo.-Disse Clara, sorrindo.

__Salta uma musse deliciosa aí gente!- Disse Vincenzo.

Foi uma sexta feira muito produtiva para Alex também, entregou todos os trabalhos, foi a uma entrevista para mostrar seu projeto e fez sua primeira prova de alemão e tirou uma nota muito boa. Os preparativos para a chegada de sua mãe seu padrasto e Clara, estavam todos prontos. Inclusive seu presente para sua amada. Vovô Carlos só estava misterioso quanto as duas primeiras semanas de turismo que fariam em Hamburgo e em outras cidades famosas. Segundo ele, essa parte das férias era uma surpresa para Alex também. As últimas semanas passariam em Munique e nas proximidades.

Enfim no dia do embarque, Alex não conseguia falar com Clara. Isso o deixou muito agoniado. Poucas horas antes do voo, conseguiu contato com o Ruivo.

__Pai, vocês estão no aeroporto?

__Sim, filho. Parece preocupado. Fique calmo, sim? Está tudo bem. Mas o voo está um pouco atrasado.

__Vou tentar.

__A ligação está bem ruim, Alex. Acho que o sinal vai cair.

__Eu sei. Mamãe está aí perto?

__Ela foi no banheiro. Ela tentou te ligar, mas parece que teve um problema na operadora.

__Houve um problema com um satélite de comunicações. Mas já foi resolvido. Pai, e Clara, está com você.

__Não, ela…- Ele ficou em silêncio. Alex não sabia se era problema na ligação, ou se seu amado padrasto estava tentando poupa-lo de uma notícia ruim.- Alex você está ouvindo?

__Não, eu não ouvi.

__Está chiando muito. Logo estaremos aí, filho. Estão chamando para o embarque. Vou chamar sua mãe. Até mais, fique calmo, filho. Está tudo bem. -O sinal caiu de vez. Alex entendeu que eles tinham desligado os aparelhos. Olhou então seu anel no polegar, o de Clara não estava no dedo dela, o chip não estava medindo os batimentos cardiácos.  Ela devia te-lo guardado na caixinha de proteção que ele mesmo havia projetado, para que o anel  não atrapalhasse os mecanismos e controles do avião. A última leitura, indicava que ela estava em casa. Ruivo disse que eles estavam embarcando, seriam 12 horas de espera e aflição. Não devia estar assim. Devia estar contente, sua mãe, seu pai do coração e sua amada estavam chegando. Mas não conseguia evitar. Seu coração estava apertado. Um medo assombrando seus pensamentos, e se por alguma razão ela não viesse mais?

__Alex?_ Ouviu baterem a porta.- E a vovó, posso entrar? – Ele riu, Dona Aline agora só o chamava assim, como Vovô Carlos.

__Claro, Vovó Aline. – Ela entrou.

__Oi, menino bonito. Seu avô quer saber se vai descer para jantar conosco.- Olhou Alex.- Você parece nervoso. Aconteceu alguma coisa?

__Não, só que não consegui falar com mamãe e com Clara antes de embarcarem.

__Oh!- Sorriu compassiva.- Não se preocupe bonitinho. Elas estão bem. Ruivo está lá, ele não deixaria nada machuca-las. Você sabe. E se alguma coisa errada estivesse atrapalhando a viagem, ele lhe diria. O Ruivo ama você como um filho de verdade, ele não permitirá que nada magoe você. Vai te proteger sempre.- Beijou o rosto dele.- Fique calmo.

__Tudo bem, Vovó Aline. A senhora está certa. Obrigado.- Devolveu o beijo de sua bisavó postiça, e desceu para jantar com ela e o marido, mas não podia controlar o medo crescendo dentro do peito, principalmente depois que ela lhe lembrou que o Ruivo sempre o protegeria. Havia alguma coisa errada. Alguma mudança de planos. Algum problema de última hora. Sem dúvida, Ruivo estava escondendo algo dele. Algo que  ele não diria por telefone. De todas as possíveis variantes que Alex supunha existir, a mais dolorosa era que Clara não estivesse dentro daquele avião. Quando enfim conseguiu pegar no sono, já de madrugada, sonhou que Clara não tinha embarcado, tinha mandado o Ruivo lhe devolver o anel dentro da caixinha que neutralizava seu sinal. Dentro da caixinha tinha também um bilhete, nele uma mensagem de despedida. Ela estava terminando o namoro, pelas razões que ele já conhecia. Acordou assustado, todo suado e com medo que aquilo não fosse só um sonho ruim. As 8:00 horas Vovô Carlos veio busca-lo para irem ao aeroporto, o avião deles deveria chegar as 9:00 horas. Já se passavam mais de meia hora quando o pouso foi anunciado pelo sistema de som do aeroporto. Alex andava de um lado para o outro muito nervoso no desembarque. Quando os primeiros passageiros passaram pela porta, ele ficou ainda mais nervoso. Então viu sua mãe e o Ruivo. Os dois sorriram para ele com muito amor. Caminharam alegres para seu filho, beijaram e abraçaram ele ao mesmo tempo.

__Ah, meu tesouro. Que saudade. – Disse Diana. Olhou nos olhos dele.- Você cresceu, meu amor. Está tão lindo.- Alex riu.

__Cresci dois centímetros, e estou pesando um quilo a mais. Minha saúde está ótima, juro.- Olhou Ruivo.- Tenho malhado todo dia, pode perguntar ao vovô Carlos.- Ruivo bagunçou o cabelo dele e rindo disse:

__Acho bom mesmo.- Vovô Carlos e Vovó Aline se aproximaram mais beijos risadas e abraços se seguiram. Alex entregou um ramalhete enorme de flores do campo coloridas para a mãe.

__São lindas, filho. Olhe Ruivo, que surpresa linda.-

__São lindas mesmo.- Olhou seu enteado e sorrindo disse: – Temos uma surpresa para você também, olhe.- O Ruivo apontou para a portão de desembarque. Todos os Medeiros estavam enfileirados e os Vogelmann também. Rick e Lia, Beto e Nina, Vô Rodolfo e Vó Elisa, Jorge e Alice, Ben e Liv. E de mãos dadas com os adultos, todos os pequenos falcões Rody, Alana, Cisco, Lú e Mari. Viu também Ritinha, a secretária do orfanato. Ao lado destes, igualmente sorridentes, estavam suas tias, Deise com o marido Cunha, Dalia com o marido Xande. E quando sua priminha Elis o viu, soltou a mão de seu pai e correu para ele gritando o nome de Alex toda feliz. Atrás dela foram sua irmã Laila, seu irmãozinho Marcelo e suas três primas Eliana, Gláucia e Carol. Alex se abaixou para beijar e abraçar seus primos, e logo todos os outros pequenos também o estavam abraçando e apertando. Quando enfim conseguiu se levantar, os adultos já estavam em volta dele esperando para ganhar abraços e beijos como as crianças. A algazarra no corredor espaçoso e movimentado chamou a atenção das pessoas em volta, mas Alex estava tão contente de ver sua família que nem se importou.

__Desculpe seu bisavô, meu querido.- Disse Vovô Rodolfo.- Mas o casamento de seus pais no ano passado me proporcionou as férias mais divertidas que já tive. Então, aproveitei que queria muito vir te ver, e ver como Carlos está se comportando longe de mim.- Todos riram.- E convidei todos para vir. Alguns precisaram fazer alguns ajustes, mas pelo menos vamos ficar juntos por duas semanas. Não será um mês como eu queria, mas podemos nos divertir todos juntos de novo. E todos podem matar um pouco a saudade de você. Está chateado comigo?- Alex olhou dentro dos olhos azuis de seu Bisavô postiço, ele tivera todo o trabalho de organizar uma excursão para que seus parentes pudessem vê-lo. Provavelmente, porque Vovô Carlos disse que ele andava muito sozinho, trancado no quarto. Alex abraçou seu avozinho com muito carinho.

__Obrigado, Vovô.- Beijou seu rosto.- Não vou esquecer esse presente nunca.- Sorriu. Foi então que viu Ritinha ao seu lado.

__Ritinha! – Abraçou a menina.-Tudo bem? Dessa vez não ficou para trás de castigo, né?

__Não, você viu que ótimo? Nem acredito que vou conhecer a Alemanha.- Riu.- E viajei de primeira classe, garoto.- riram.

__Verdade?

__Sim, eu vim com a passagem de Clara.- O coração de Alex parou. Ele olhou em volta procurando por um segundo e parou nos olhos do Ruivo. Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Deus, ela não tinha embarcado. Ritinha tinha vindo no lugar dela. Sentiu a dor amortecer suas pernas. Se endireitou devagar e lentamente caminhou até o Ruivo. Não ia chorar, todas as pessoas que o amavam estavam ali. Todos com certeza tiveram que fazer muito esforço, arranjos e ajustes para vê-lo. Não podia desmerecer a presença deles. Mas ver seu pesadelo se realizar, estava consumindo todas as suas forças, tirando seu fôlego. Os olhos compassivos de seu padrasto lhe diziam que estava tudo bem, mas ela não tinha embarcado. Seu peito estava devastado. A voz saiu baixa, dolorida:

__Ruivo… Ela…- Os olhos do Ruivo sorriram e num movimento imperceptível indicou um ponto atrás dele. Alex acompanhou o movimento dele e parada  no corredor dois portões a frente, estava ela. Linda. Os cabelos longos e loiros soltos, caindo sobre a camisa branca dela. Usava uma calça jeans e um par sapatos de saltos tipo boneca rosa escuro. Lágrimas descendo por seu rosto delicado e parando em seu lindo sorriso branco, emoldurado pelo batom vermelho. Alex nem pensou, saltou a proteção de acrílico que dividia os corredores e correu para ela. Em segundos a tinha em seus braços. O coração desesperado dentro do peito não dava sinais de que ia começar  a voltar a bater direito outra vez. Alex nem soube quanto tempo a teve assim antes de enfim, tocar seu rosto, olhar seus maravilhosos olhos negros e beija-la com todo seu amor, sua saudade, seu pavor de perde-la. Haviam muitas pessoas passando, seus parentes estavam todos ali, mas nada importava para o tímido rapaz agora. Ele estava explodindo de alegria, sua linda namorada estava novamente com ele. Ergueu Clara nos braços e rodopiou com ela rindo pelo saguão. A alegria deles compartilhada por seus parentes foi emocionante. Quando a colocou de volta no chão, Clara disse sorrindo:

__Ei! Quem é você? O que fez com meu tímido namorado?- Alex encostou a testa na dela e disse:

__Pensei que você não tinha vindo. Ritinha disse que tinha viajado com sua passagem eu…- Suspirou.

__Entendi.- Ela também suspirou.- Eu nunca deixaria de vir. Estava morrendo de saudade de você. Foi tão intenso ver você ali tão perto,  foi tão forte que fiquei paralisada. Queria correr para te abraçar, te beijar, mas não conseguia me mover. – Riu.- Parece que a emoção nos faz trocar de identidade, amor. Você precisou fazer o que normalmente eu faria.- Ela olhou nos olhos verdes dele e enxugou a lágrima solitária que descia pelo lindo rosto de sorriso tímido. Sorriu ainda mais  dizendo:- Acho que estou estragando você, amor. Mesmo á distância.

__Não duvido, você é mesmo muito poderosa.- Alex beijou-a de novo.

__Chega de espetáculo no aeroporto!- Disse Leninha.- Eu estou ficando deprimida. Porque eu não tenho um príncipe igual a você, Alex? Isso não é justo?- O casal se virou e Alex viu Leninha  e Vincenzo no corredor com as malas de Clara.

__ Leninha! Que bom vê-la. Está linda.- Caminharam de mãos dadas para eles. Alex se curvou para dar um beijo no rosto dela e estendeu a mão livre para Vincenzo.- É bom conhece-lo, Vincenzo. Viajaram juntos?

__Foi por isso que não viajei junto com a família. Nossa equipe ganhou um premio fazendo menu para uma companhia aérea. Eles nos deram uma viajem para o nordeste, mas Vincenzo já tinha combinado  ajudar  um dos primos dele, no restaurante durante as férias. E eu viria te ver. Então demos nosso premio para Leninha. Ela conversou com a companhia e trocou as três passagens e o valor das acomodações para nós duas, para cá. E Jorge conseguiu um substituto para Ritinha no escritório do vovô. Ela ficou com minha passagem  e eu viajei com eles, em outro voo.

__E chegaram juntos?- Ele mesmo respondeu.- O voo da família atrasou e o seu adiantou.

__Foi isso.- Sorriu.- Vincenzo falou com o primo dele que arrumou um bico de três semanas para Leninha durante as férias em outro restaurante. Ela vai cobrir uma subchefe que vai se casar.- Alex olhou para Leninha.

__Oh!- Pensou.- Ok. Estou em dúvida. Devo ficar feliz por você trabalhar como subchefe substituta, ou ficar triste por você não poder passear pelos castelos conosco e encontrar seu príncipe?- Elas riram. Vincenzo viu que o garoto da robótica era mesmo inteligente, e sabia conversar com as mulheres como um verdadeiro cavalheiro. Embora todos dissessem que ele era muito tímido, o rompante de paixão que exibiu ao correr para Clara e beija-la daquele jeito, mostrou que era um romântico fervoroso. Além disso toda a família, inclusive quase uma dúzia de crianças, parecia encantada com ele. E desde o momento que tocou Clara, não soltou mais a mão dela. Sem dúvida era um competidor muito forte. Mas Vincenzo não se sentiu desmotivado, na verdade isso apenas aguçou seu desafio. Estava ainda mais convencido que devia conquistar Clara. Afinal, ele a queria. Queria muito. Não iria perde-la para um rapazote. Não se sentiu jogando sujo, porque  apesar do garoto ser bem jovem, Vincenzo viu nos olhos de Alex, que ele sabia das intenções dele.  Mesmo assim o rapaz lhe estendeu a mão e foi amigável. Não conseguiu entender porque. Seu sangue italiano, passional, jamais permitiria um homem interessado em sua mulher por perto dela. Mas Alex, que aos poucos começava a se parecer com o rapaz tímido e gentil descrito por Leninha e Clara, simplesmente segurava a mão dela com carinho enquanto Leninha ria da pequena questão que ele lhe propusera.

__Ai Alex. Príncipes são raros.

__Não concordo.- Disse Clara.- Está vendo aqueles homens ali.- Apontou sua família.- São todos gentis e cavalheiros. Desde o mais velho até o pequeno Cisco. Todos tratam suas mulheres como rainhas. Mesmo os mais robustos ou mais extrovertidos, são delicados e carinhosos com suas parceiras. E todos as respeitam e valorizam.

__Você faz parte da família. -Disse Vincenzo debochando.- Não vê como eles são de verdade.- Riu.- Não concorda Alex?- Alex o olhou tranquilo, sorriu com o canto da boca e respondeu:

__Desculpe, amigo. Terei que discordar. Todos os Medeiros tratam as mulheres como princesas e as suas mulheres como rainhas. Foi  só por isso que deixei que aquele grandalhão Ruivo se casasse com minha mãe.- Olhou Clara nos olhos.- Concordo com Clara, Leninha. Acho que existem príncipes por aí. Mesmo que eles mesmos não saibam. Na verdade, acho que eles precisam de uma linda princesa para desperta-los.- Ponto para ele de novo. Vincenzo achou melhor tentar outra tática.

__Está dizendo que o problema então é a falta de princesas?

__Não. Todas são.- Vincenzo riu satisfeito, achando que conseguira seu pontinho.Mas…-  Verdade. Minha mãe me ensinou que todas as garotas são princesas. Elas são diferentes fisicamente, tem habilidades diferentes, gostos, hábitos e criações distintas. Mesmo assim, amam com a mesma intensidade. O amor delas  as faz  especiais. Princesas.

__Puxa! Que lindo. – Disse Leninha.- Alex, você não tem um irmão?- Riram. – É que ia facilitar tanto?

__Não tenho, desculpe?

__O que você não tem, filho?- Disse o Ruivo. A família chegava cheia de malas e alegria perto deles. Alex o olhou cúmplice e disse:

__Irmãos. – Sorriu.- Não tenho, né?. – O Ruivo rindo completou.

__Qual é? Acabei de me casar. Porque quer acabar com minha lua de mel, garoto? Olhe para Ben. Duvido que tem tempo para beijar a bailarina.- Ben rindo empurrou o irmão dizendo:

__Você “acha” que não tenho tempo. Eu sou advogado, sei muito bem regulamentar meu tempo.- Riu mais. Dona Aline entregou para Alex um ramalhete imenso de tulipas coloridas, dizendo.

__Esqueceu isso comigo, querido.- Beijou o rosto de Clara com carinho.- Ainda bem que chegou, esse moço bonito aqui estava quase tendo um treco. –  Riu. Clara olhou Alex com suas flores preferidas na mão.

__São para mim?- Ele apenas sorriu tímido e estendeu as flores para ela.- Vou aceitar apenas porque são as minhas preferidas. Alias, Vovó Aline diga-me. Esse moço bonito, lembrou-se disso, ou foi a senhora que disse a ele?

__Minha querida neta. Eu não me lembro direito nem quantos anos Alana tem. No que dependesse de mim, Alex estaria perdido para escolher suas flores. E para vovô Carlos então, toda flor branca é margarida. – Todos riram.

__Ok. Acho que devo entender que você se lembrou então, amor. Ou teve um bom chute.- Clara riu mais. Estava de volta a seu comportamento habitual, sorridente, espirituosa, inteligente e bem humorada. Alex tocou seu queixo com carinho.

__Que bom que gostou, amor. Foi um chute certeiro. Concorda?- O olhar cheio de carinho de ambos era tocante.

__Muito bem. _Disse a voz doce e firme de Tia Lia.- Tudo está muito bom. Mas as crianças precisam descansar.- Beto gritou.

__E os vovôs também.- E riu acompanhado de todos.

__Certo. Todos nós também. É melhor desocuparmos os corredores ou seremos jogados fora do aeroporto.

__Está certa, meu anjo.- Disse Vovô Rodolfo.- Ben, o carros transporte já chegou?- Ben pegou seu telefone em dois toques respondeu.

__Sim, Vovô. Nosso ônibus está nos esperando.- Olhou Alex e seu avô Carlos.- Vocês trouxeram a bagagem de vocês?

__Sim, filho. – Respondeu Vovô Carlos.- Podemos ir.

__Para onde vamos?- Perguntou Alex.

__Eles não te contaram mesmo, né?- Disse Clara.- Vamos ficar no castelo de um amigo do Tio Rick, em Eltz. Vovô contratou uma excursão para visitarmos uns lugares lindos pelo país durantes essas duas semanas. Poderemos ver vários castelos. Depois voltamos para cá. Alguns terão que voltar, né Jorge? Mas nós vamos ficar juntinhos visitando vários lugares aqui em Munique.- Balançou as sobrancelhas animada. Alex riu. Essa era sua linda Clara.

__Bem acho que devemos ir logo, então._ Disse Vovô Rodolfo.-  Caminharam para a porta de saída, para encontrar seu transporte. Alex e Clara sempre juntos. Todos se assentaram e Vincenzo não tirava os olhos do casalzinho feliz.

__São lindos juntos, né?- Disse Leninha sentada ao lado de Vincenzo. Ele não tinha como escapar, precisava fazer um comentário simpático. Afinal, ganhou um fim de semana num castelo e ainda poderia encontra-los nos dias de folga. Isso claro, porque Leninha viajara com eles. Se ela não tivesse tido a luz de trocar as passagens, ele agora estaria amargando uma dor de cotovelo á distância. Ou melhor, a uma distância ainda maior. Não teria nenhuma desculpa para rondar Clara. Rondar não era uma palavra que lhe agradava, mas precisava conhecer seu adversário para poder vencê-lo. Alex parecia ser um bom rapaz, mas não era digno de uma mulher como Clara, tão exuberante, cheia de vida, tão linda.

__Clara é linda. Qualquer um perto dela fica bonito também.

__Não seja invejoso, Vincenzo.- Ela riu.- Alex é lindo.

__Ah! É um menino.- Riu.- Quando ele crescer será um homem apanhado. Mas ainda falta muito.- Leninha  riu de novo.

__Mas é muito arrogante mesmo. Verdade que ele é novinho, mas é muito gato. Alto, um corpo bem cuidado, aqueles olhos maravilhosos.- Sorriu.- E a boca…. Quando ele beijou Clara, não me pareceu coisa de menino.- Vincenzo não gostou do comentário, mas não disse nada.- Além do mais, Clara também é novinha. Na verdade, é mais nova que ele, quase um ano.

__É mais Clara tem alma de mulherão. Alex sempre será um garotinho assustado.- Leninha o olhou por um segundo. Pareceu perder um pouco de brilho no sorriso, mesmo assim o sustentou quando disse:

__Tome cuidado, Vincenzo. Clara é uma amiga valiosa. Os Medeiros são todos assim. Eles gostam de ser amigo. Não vale a pena perder a amizade deles por um capricho.- Olhou o casal de novo.- Eles são loucos um pelo outro. São diferentes, as vezes parecem que não combinam, mas são muito apaixonados. Se ela, por um instante….- Voltou-se para ele. Olhou nos olhos dele. E não terminou sua frase.

__O que quer dizer Leninha?- Disse sorrindo, como se não entendesse o que ela estava dizendo.- Acha que Clara deixaria de ser minha amiga só porque acho o namorado dela um garotinho?- Leninha mostrou um olhar triste, depois balançou a cabeça como se jogasse um pensamento ruim fora. Sorriu e disse:

__Acho que Clara, como todo Chefe, é muito temperamental. Não se deve menosprezar nada deles. E vamos e convenhamos que um homem de 1,85 de altura, 85 quilos muito bem malhados, olhos verdes de felino, uma boca muito, muito linda e um Ql muito acima da média não é nada desprezável.- Riu alto como Clara fazia.

O ônibus seguiu seu caminho para dentro do país. Agora além da alegria, do amor e de uma pitada de desafio, carregava também um coração partido. Leninha viu claramente as intenções de Vincenzo. Ele tinha se esforçado para que ela viesse para Alemanhã com eles, mas para poder se aproximar de Clara. Sentiu-se uma tola por achar que todo aquele empenho era por ela. Doeu mais ainda perceber que ele estava disposto a lutar por Clara que já tinha outro dono, mas nem mesmo a olhava como mulher. Sentiu-se triste também por Vincenzo. Ele não tinha como ganhar o coração de Clara, mas poderia magoar muito Alex, Clara e ele mesmo. E de quebra acabara de ferir o coração dela e nem via isso. Ou talvez visse, mas não se importava o bastante com isso. Alex tinha mesmo razão. Era uma pena que ela estaria trabalhando a maior parte do tempo e não poderia encontrar um príncipe carinhoso e gentil como Alex para ela.

Falcão por opção

Capítulo 6

Quando Clara chegou em casa domingo á tarde, estava exausta da maratona do fim de semana. Tudo o que tinha planejado de relaxamento para ela, tinha ido por água a baixo no momento que Diana entrou no estacionamento da escola. Mas não se arrependia de nada. Foi maravilhoso ver a alegria nos olhinhos das crianças cozinhando sexta á noite. E depois a surpresa com o pátio enfeitado, ainda o encantamento assistindo as apresentações no sábado de manhã. Primeiro o balé do orfanato, depois uma apresentação de Nina e Liv, com suas gêmeas,  as sobrinhas de Diana e Alana filha de Alice. Tudo muito delicado, bem lindo. A seguir, Jorge dançou com Alice. Por mais que o tempo passasse, Jorge continuava um bailarino maravilhoso. Para concluir as apresentações de dança, o pequeno Francesco, ou Cisco para a família, o sorridente filho de Jorge e Alice, dançou para um público pela primeira vez. Quando ele terminou seu solo, todos os bailarinos da família Medeiros tinham lágrimas nos olhos. O garotinho alegre que tinha os olhos cor de uísque incomuns de sua mãe, herdara sem dúvida o talento para dança do pai.

Então começaram as outras surpresas. Primeiro Ben cantou com seu violão Alecrim Dourado. A voz rouca e suave encheu o pátio, depois  foi entrando no coração dos presentes. Foi mágico. Bolhas de sabão surgiram aos montes fazendo o clima ainda mais fabuloso. Neste momento Tio Rick e tia Lia foram para o meio do pátio. Contaram juntos para a platéia a história de um garoto que queria encontrar uma casa para todas as crianças que conhecia. Ele achava que toda as crianças tinham que uma família. Se ela não tinha um pai ou uma mãe de verdade, tinha que ter alguém que cuidasse da criança desse modo. O garoto não conseguia se conformar que uma criança crescesse sozinha. Segundo tia Lia, isso acontecia porque ele soube quando pequeno, que sua mãe não tinha pais e nem nenhum parente para cuidar dela. Foi preciso que pessoas desconhecidas, procurassem uma parente distante para ficar com ela por alguns anos. O menino não queria que nenhuma criança sofresse assim sozinha. Resolveu que quando crescesse, faria uma casa para que elas esperassem enquanto ele procurava uma família para elas. Passaram-se muitos anos, o menino cresceu envolvido com outras atividades, outros sonhos, até que um dia, num lugar bem distante, encontrou-se com seu primeiro sonho outra vez. Só que dessa vez, seu sonho o invadiu, transbordou, fez com que tudo o que ele tinha desejado fazer perdesse o valor diante de sua necessidade de ajudar crianças a encontrar um lar. Depois disso, ele lutou com todas os seus recursos. Não foi nada fácil, era muito trabalho, mas ele encontrou em seu caminhos outros que tinham um sonho parecido ao dele e conseguiu.

__ Este menino.- Disse Tio Rick.- Faz hoje exatamente o que seu coração desejou, cuida de crianças em uma linda casa, enquanto procura incansavelmente, uma família que as ame e cuide delas tanto quanto ele.

__Vocês, minhas lindas crianças.- Disse Lia com sua voz doce de contadora de histórias.- Sabem quem é este menino?- Todas as crianças gritaram sorrindo e apontando Jorge.

__Tio Jorge! – Jorge ainda vestia a roupa de príncipe que usara para dançar com Alice. Sorriu emocionado para as crianças e para seus pais. Caminhou para o centro do pátio e disse:

__Isso não é justo. Esta comemoração é de alegria, vocês não deveriam me fazer chorar.- Rick abraçou seu menino grande dizendo:

__Quando é de Alegria chorar é bom. -Lia também beijou seu filho e disse:

__Desde aquele dia, que você olhou para mim cheio de compaixão, eu sabia que você conseguiria alcançar seu sonho. Você sempre foi um príncipe com o coração de guerreiro. – Jorge chorou com sua pequena mãezinha nos braços.

__Ei! – Disse Rick.- Vamos meu campeão! Encantador de crianças, termine a história, ela é sua.- O casal foi se afastando devagar e Jorge olhou para sua família, para seus amigos e para suas crianças, sorriu e disse:

__Estou muito feliz. Sonhei em ter um lugar para proteger crianças que precisavam esperar por uma nova família, sonhei em encontrar uma família amorosa para elas, sonhei em educar as que demorassem um pouco para encontrar uma família, sonhei que essas crianças pudessem me amar como eu as amo. Todos esses sonhos se realizaram. -Olhou as crianças.- Vocês realizaram isso. Esse orfanato só é uma casa feliz de espera, por causa de vocês. Todos vocês são maravilhosos. São únicos. Na segunda feira, cinco de vocês vão morar com suas novas famílias, mas nunca deixarão de fazer parte da minha família. Eu nunca esquecerei vocês, como não esqueci nenhum dos outros que já se foram. Muitas crianças quando são adotadas querem esquecer seu passado no lar. Mas isso não tem acontecido com as crianças daqui. Olhem o que elas tem a dizer a vocês: – Naquele instante o telão exibiu imagem e mensagem de 13 crianças que moraram no orfanato e foram adotadas. Todas felizes com suas famílias e com saudade de Jorge e companhia. As mensagens tinham sido editadas, não tinham cortes, continuavam simultaneamente e no final todas as crianças falavam juntas que estavam felizes e com saudades e que gostariam de visitar o orfanato. Muitos aplausos se seguiram.- Como podem ver.- Disse Jorge.- Sou um sujeito de muita sorte.  Porque muitas crianças me amam.  E eu amo muito todas elas.- Sorriu para suas crianças, que correram para ele. No meio delas, suas sobrinhas, seu irmão, sua filha, seu filho, o sobrinho e as sobrinhas de Diana, e todos os seus órfãos. Jorge amava crianças e elas sabiam disso. Leninha e Vincenzo, que tinham ajudado na cozinha e voltado no sábado também, ficaram maravilhados. Todas as histórias de tristeza e dor que ouviam dos orfanatos pareciam mentiras agora.

__Eu nunca pensei que um orfanato pudesse guardar tanta alegria.-Leninha estava emocionada.

__Nem eu.- Vincenzo estava encantado.- Quase corri para o grandalhão vestido de príncipe junto com as crianças.- Todos riram.- É verdade. O mais louco, é que ele não disse nada de surpreendente.

__Não é o que Jorge diz.- Disse Clara.- É como ele diz. Todos os homens de minha família amam crianças. Todos tem jeito com elas. Olhe meus irmãos, os ruivos. Eles se viraram, Ruivo estava com uma das gêmeas de Ben no colo e brincava sentado no chão com umas cinco meninas de casinha. Mais adiante, Ben com sua outra gêmea sentada a sua frente cantava com uma dúzia de crianças uma música animada. – Se visse Ben no tribunal ou na empresa, ou o Ruivo no colégio regendo toda a escola, poderia imaginar que tem tanto cuidado com os pequeninos?  Olhe meu pai e meu tio.- Eles estavam jogando bets com os meninos no gramado.- E o vovô, o todo poderoso Rodolfo Medeiros desenhando com as crianças todo sorridente. As crianças  confiam e se divertem com todos eles, mas Jorge é diferente. As crianças ficam encantadas com ele. O motivo disso é que ele fala com elas como se fosse igual a elas. O tom da voz dele é diferente.

__Você parece apaixonada pelo seu primo.- Disse Vincenzo.

__E sou.- Sorriu.- Jorge é maravilhoso. Sempre foi um bailarino talentosíssimo, mas desistiu de sua carreira pelas crianças.  Adotou a filha de sua esposa, como legítima em seu coração mesmo antes de se casar com Alice. Ama tanto Alana que mesmo se dedicando a muitas crianças, sempre a tem por perto para protege-la, vejam.- Apontou Jorge comandando a gincana com Alana ao seu lado anotando os pontos toda sorridente.- E faz isso sem que ela perceba o pavor que tem de que ela se machuque. É um gigante, mas trata todos com gentileza e carinho. Desde menina me chama de…

__Ei! Loirinha! Venha brincar conosco, as meninas estão perdendo.- Jorge gritou todo provocante, riu em seguida envolvendo a todos em sua alegria. Clara olhou seus amigos.

__Tem como não amar um homem desses? E ainda é lindo.- Riu e caminhou com Leninha e Vincenzo para junto de Jorge e os outros, para brincar na gincana.

__Muito bem. – Disse Jorge.- Agora estão equilibrados. Meninos contra meninas. Mamãe não vai jogar. Se não, não tem graça.- Todos riram.-

__Mas Clara vai. – Disse Rody, irmão mais novo de Jorge, a rapinha do tacho.- Papai tinha que jogar com a gente. O time das mulheres esta muito forte. Pode ser o vovô também, só nós não teremos chance.

__Ei! Deixa de reclamar. – Clara bagunçou os cabelos negros e fartos do priminho.- Você tem uma ótima memória que eu sei.

__Pode ser, mas não chega nem perto da sua, você é quase igual mamãe, não vale. Papai ou vovô tem que jogar também. No mínimo Ben.

__Do que meu pequeno encrenqueiro está reclamando?- Disse Rick se aproximando com os outros meninos e Beto. O converseiro chamou a atenção dos demais, Vovô Rodolfo e os ruivos também chegaram.

__Papai, vamos jogar um jogo de variedades. Aquele que gostamos. Os meninos contra as meninas, mamãe não vai jogar, ainda bem, mas Clara vai, estamos em desvantagem, eu disse que você, o vovô, ou pelo menos Ben, teriam que jogar no nosso time. Se Alex estivesse aqui, estaria tudo certo, mas ele não está.

__Quem disse que não estou?- A voz veio do telão. Todos se viraram, as crianças muito surpresas. Os pequenos começaram a gritar por Alex muito contentes com a imagem dele, do Vovô Carlos e da Vovó Aline. Os avós jogaram beijos para as crianças e tudo mais.

__Alex! _ Gritou Rody.- Você joga com a gente? Assim podemos ganhar de Clara. Joga? -Os meninos todos começaram a implorar por isso. Alex sorriu tímido como sempre e olhou sua linda namorada sorrindo para ele. Piscou para ela e disse:

__Queridos amiguinhos, eu posso tentar algumas rodadas enquanto o sinal estiver bom, sabem que não posso competir com a memória de Clara, mas podemos torcer para que as nossas perguntas sejam de robótica, né?- A gritaria foi geral. O jogo começou. Muito divertido e acirrado. Logo todos estavam envolvidos, até os que oficialmente não estavam jogando. Mesmo  o Ruivo que brincava com as meninas menores, se divertia com a algazarra dos jogadores. A cada acerto muitas risadas, a cada erro mais ainda. No final, estavam empatados, então uma pergunta de eletrônica para as meninas, Clara puxou pela memória, tentando se lembrar das conversas dos meninos do clube de robótica, mas nada lhe vinha. Olhou para a tela e viu seu lindo nerd torcendo para que ela se lembrasse. Eles gostavam de jogar, e destetavam perder, mas ele queria que ela se lembrasse. Estava torcendo por ela como sempre.

__Eu duvido que Clara saiba isso.- Pensou alto Vincenzo. Alex imediatamente olhou para ele. Seu olhar mudou no mesmo instante, como se uma dor brotasse de repente. Alex baixou os olhos, respirou fundo, encarou Clara:

__Vamos amor, você sabe isso. Me ouviu falar com Cleiton várias vezes sobre esses componentes. Pense com calma, vai se lembrar.

__Ei! Você não pode ajuda-la, não é Jorge? Ele é do nosso time.

__Isso se chama fair play.- Disse Alex.- Quer dizer que quero ganhar porque nós acertamos, e não porque elas erraram.  Você entende? E Clara sabe isso, só precisa se lembrar.

__Mas e se depois nós não acertamos.- O garoto era questionador, um bom sinal.

__Bem, então elas ganham. Tudo bem. Mas acho que podemos acertar, não acha?- Sorriu. Naquele sorriso, Clara se lembrou do nome perguntado.- Gritou a resposta fazendo Alex orgulhoso do outro lado. A última pergunta para os meninos era sobre a personagem de um livro, Jorge nem tinha terminado a pergunta e Rody já estava gritando a resposta a plenos pulmões. Era mesmo filho de um escritor e uma bibliotecaria.

__Acertei! Acertei! Acertei! Viu mamãe, eu me lembrei daquele livro, que você leu pra mim. Acertei. – Todos foram contagiados pela felicidade do menino.- Você estava certo Alex, é bem melhor quando a gente acerta!

__Muito bem.- Disse Jorge,- Então terminamos empatados. Sendo assim, o que fazemos Vovô?

__Simples. – Disse o idoso sorridente.- Prendas para todos. – Alegria geral. Até que…

__Mas e o Alex? Ele não vai poder pegar o presente dele, vovô. – Os olhinhos tristes de Rody e de suas priminhas, seguidos por todas as crianças foi tocante.

__Ei!- Disse Alex.- Não tem problema. Está tudo bem.

__Mas ele ganhou com a gente, não é justo.- Disse um dos órfãos.

__Eu estou com saudade.- Disse uma das garotinha.- Você não pode vir ver a gente e pegar sua prenda?- Os olhos de Alex se entristeceram, ele buscou os olhos de sua mãe e depois os de Clara. Quando ia responder, seu socorro chegou. Seu amado padrasto disse:

__Eu tenho a solução para o problema. Já que Alex não pode vir buscar sua prenda, podemos entregar para Clara. Ela vai ve-lo nas férias e pode entregar para ele. O que acham? Ele vai poder vir buscar, mas vai demorar mais. Assim ele pode começar a brincar com seu presente antes. Depois quando ele voltar, ele pode vir com Clara brincar de novo com vocês. O que acham? Vamos dar para Clara levar para Alex?-

__Sim!- A maioria disse. Mas Vincenzo caçando confusão disse:

__Mas Clara é menina. Podem entregar a prenda de um menino para ela?- Os garotos ficaram confusos e Leninha cutucou o cabeludo com cara feia.- Ué eles são times diferentes. – Se defendeu.

__Não, bobo.  – Disse Rody.-Clara é namorada dele. Só no jogo que eram de times diferentes. Mas o jogo já acabou. – Então  Mateus, um dos órfãos disse:

__Mas ela é menina! O cozinheiro tem razão! Ela não deveria ficar com o premio de Alex, parece que não está certo.- Alana encarou Mateus com as mãos na cintura, fez uma cara bem brava e disse em libras:

__Qual o problema de Clara ser menina? Por que ela não pode  guardar o presente de Alex?- Mateus deu um passo atrás. Se não bastasse a cara nada amigável dela, nenhum dos órfãos iriam querer chatear a filhinha surda de Jorge, seu amigo benfeitor.

__Ei! Sem brigas.- Disse Alex com a voz e com gestos para Alana.- Eu não tenho nenhum problema com as meninas, na verdade elas sabem cuidar muito bem dos brinquedos.-Riu.- Pelo menos a maioria.- Clara riu também, tinha fama de destruir os brinquedos de tanto brincar.

__Eu tenho outra ideia.- Disse Ben.- Porque não dão a prenda de Alex para Diana. Ela também vai visita-lo nas férias. E Diana, sabem, é a mãe dele, né.- A saída de Ben, foi genial. Mesmo os meninos não poderiam se recusar, porque além de mãe de Alex, Diana não estava no outro time. E como assistente social do orfanato, as crianças queriam muito bem a ela. Os garotos engoliram meio seco, porque Diana é menina, que era todo o pé dessa questão levantada por Vincenzo, mas pareciam dispostos a aceitar, quando…

__Acho que tenho uma solução que agradará a todos.- Tia Lia falou doce e firme, como sempre.- Deem a prenda de Alex para o pai dele levar. Ele é menino, não jogou porque estava brincando de casinha com as pequenas, não trabalha aqui com vocês  mas todos vocês conhecem a ele, sabem que ele cuida muita bem de todos os brinquedos dele. Na verdade cuida até dos brinquedos dos outros. E tem loucura por carrinhos.- Deu uma risada suave e contagiante. Todos os falcões riram. Vincenzo não conseguiu entender direto a piada, mas riu também. E Lia continuou.-  Quando Alex estiver com sua prenda, Clara pode tirar uma daquelas fotos bem lindas que ela sabe fazer, e Jorge pode colocar no mural do corredor. Assim, todos vocês poderão matar um pouco a saudade até que ele volte. O que acham? – Reinou o silêncio mais alegre que Vincenzo e Leninha já tinham visto na vida. Rody foi até seu avô pegou o presente com ele, caminhou rapidamente até o Ruivo, virou-se para os coleguinhas pedindo permissão com os lindos olhos negros de cigano. Todos sorriram em aprovação. Ele olhou para Clara querendo a aprovação dela e de Diana também, elas riram e jogaram beijos para ele. Rody olhou nos olhos do Ruivo e disse:

__Não acho que tinha algum problema Clara ou Diana levarem para Alex, mas gostei mais que é você que vai guardar. Eu gosto quando meu pai guarda as minhas coisas, ele tem muito mais cuidado que eu. E eu não conheço ninguém que cuide melhor dos brinquedos que você Ruivo, Alex tem muita sorte.- Entregou o pacote sorrindo. O Ruivo abraçou e beijou seu priminho, olhou para Alex na tela que também sorria. Ele perguntou ao padrasto pai:

__Vai guardar para mim direitinho, né pai?- Alex aumentou o sorriso. Era evidente sua admiração, seu amor por esse pai tão jovem.

__Claro que vou.- Pensou.- Sabe, não sei se você já tem idade para brincar com este brinquedo, talvez precise guardar por uns…Digamos… 20 anos.- Caiu na gargalhada junto com Alex.

__Sabe, Amor. – Disse Alex para Clara.- Sei que os conselhos de Tia Lia são certeiros, mas será que não podemos reconsiderar e você trazer meu presente? Estou achando que não o verei nunca mais. – Todos riram.

__Ele está brincando. – Disse a Pequena Lú no colo de Ben.- Meu pai também diz que vai sumir com meus brinquedos, mas não  é  de verdade. Logo ele me devolve. Ele vai te levar sim. Né papai?- O olhar que Ben lançou para a sua pequenina foi tocante e exatamente igual ao olhar que o Ruivo, seu gêmeo, colocou sobre seu filho, do outro lado da tela. Até Vincenzo e Leninha, que não conheciam bem a família, puderam entender a força da relação de Alex e do Ruivo.

__Eu sei, lindinha.- Disse Alex.- Não se preocupe. Todos os falcões cuidam muito bem de seus filhos. Também estou brincando.- A tela piscou uma vez, depois rolou a imagem que se firmou em seguida.- Gente. O sinal está ficando fraco. Acho que teremos que nos despedir.- As crianças chiaram.- Olha,  quero dizer a vocês que vão mudar de casa, que não tenham medo, pode ser diferente no começo, mas com certeza vai ser muito bom. Além do mais, mamãe vai visitar vocês todo mês, e Tio Jorge também irá  de vez em quando. Sabem que podem confiar neles. E também podem falar comigo pelo face. E para os que vão ficar, quero dizer que não estão perdendo seus amigos, na verdade farão mais amigos ainda.- O sinal falhou de novo. Vovô Carlos e Vovó Aline vieram para se despedir. Alex e Clara não tiravam os olhos um do outro. Vincenzo reparou que ambos beijaram o anel no polegar no fim da transmissão. Parecia que a tristeza começava a beijar a todos, quando Beto gritou:

__Clarinha! E o bolo? Não vão cortar?- As crianças pegaram fogo. O bolo era redondo na forma do escudo do Capitão América. No centro da estrela, tinha uma bonequinha da Mulher Maravilha. Clara realmente caprichou. A massa era de chocolate com recheio de brigadeiro e geleia de morango. Uma delicia. Não fizeram nada com amendoim por precaução. Para os com intolerância a lactose, Clara fez  cupcakes  sem leite e os derivados, recheou com geleia de morango e brigadeiro sem lactose. Para a criança diabética, Clara fez com estévia e a massa com farinha de amêndoas para ficar mais gostoso, tudo no mesmo formato do bolo.  Tinha dado muito trabalho, mas vendo as crianças se divertindo foi maravilhoso. Leninha precisou ir embora logo depois do almoço, ela precisava trabalhar. Vincenzo ficou até terminarem de lavar tudo na cozinha e tirarem o último balão do pátio. Os dois ficaram muito entusiasmados com tudo. Clara ficou até colocarem todas as crianças para dormir. Chegou em casa e falou rapidinho com Alex, estava dormindo sentada. Ele riu e cantou para ela, uma canção que Diana cantava para ele dormir.

__Eu tenho tanto, para te falar, mas com palavras, não sei dizer, como é grande, o meu amor, por você…- Clara fechou os olhos e sonhou com a voz de Alex em seus ouvidos. Na manhã de domingo, sua mãe entrou no quarto dizendo:

__Ainda dormindo? Hoje é o terceiro domingo do mês, dia do almoço em família. Vovô Rodolfo e Vovó Elisa estão nos esperando. Vovô disse que tem uma surpresa muito especial, não quer que ninguém falte. – Parou.- Com exceção dos que não estão no país, é claro. -Riu. Clara levantou ainda cansada, mas fez o que sua mãe pediu, não poderia deixar de atender o velho e carinhoso falcão. Logo depois do almoço tradicional com toda a família Medeiros reunida á mesa, Rodolfo disse:

__Família, eu gostaria de pedir um favor para todos. Meu amigo e consogro Carlos, Aline, a linda esposa dele e nosso bisneto Alex, estão na Alemanha. Meu neto Carlinhos, o ruivo,  sua bela Diana, e minha neta Clarinha viajarão para lá no próximo mês para passar as férias. Todos já tinham conhecimento disso, o que não sabem é que …..– Clara ficou ouvindo seu avô dizer tudo o que queria explicar. A cada palavra, amava ainda mais seu vovozinho querido. Ele era doce, sério, contido, com um sorriso tímido e sincero, muito inteligente, um trabalhador diligente, muito dedicado a sua família, amava crianças e se compadecia do sofrimento delas. Por um segundo, Clara se viu descrevendo Alex. Então olhou sua querida avó, de quem puxara os cabelos loiros e os outros traços físicos. Ela era a alegria em vida, como Clara. O casal com personalidades tão diferente, tão apaixonados por todos esses anos. Era o mais profundo desejo de Clara. Que ela e Alex envelhecem juntos como o casal Medeiros. Cada um respeitando o outro e auxiliando seu parceiro. Os olhos verdes de Alex, brilharam em sua memória. Agora deitada em sua cama, ela sabia que seu amor estava em Munique sentado na cama dele, esperando pacientemente, que ela entrasse em contato com ele. Ele sabia que ela teria almoçado com a família e resignado esperava pelo chamado dela. Assim que a câmera abriu a imagem, lá estava ele  sorrindo tímido e saudoso para ela. Como amava esse homem! Seu coração até tremeu. O suspiro doloroso que soltou foi sonoro e o assustou:

__Que foi amor? Está com alguma dor?- A preocupação nos olhos dele era evidente. Os olhos de Clara marejaram.- Ai Clara! Por favor, está me assustando! O que houve? Está se sentindo mal? Fala amor? Quer que chame alguém?- Clara podia ver todo o amor que Alex sentia por ela, estava em seus lindos olhos amedrontados.

__Estou com saudades. Quero te abraçar, ouvir seu coração bater no meu ouvido. Quero sentir seu calor, seu cheiro. Quanto tempo mais terei que esperar para tocar o meu namorado? Que droga! Isso não é justo!- Estava chateada, a dor estava maltratando seu jovem coração, suas lágrimas começaram a rolar. Ao encarar Alex, percebeu que ele calado, tentava controlar o pavor que tomava conta de seu coração.- Estou cansada Alex. Não aguento mais esperar.- Ele abriu os olhos em espanto. A voz saiu apressada:

__Amor, desculpe eu….- Respirou fundo.- Eu não devia ter vindo, sou um idiota, eu…- Respirou de novo, estava apavorado.- Por favor Clara, eu não…- Fechou os olhos com força, respirou duas vezes.- Desculpe. Eu não queria magoar você. Sei que não é fácil para você esperar, mas para mim também não é. Sou completamente apaixonado por você. Saber que não posso te abraçar agora que está aí sofrendo, corta meu coração. Vim para cá porque achei que seria bom para nosso futuro, nosso futuro juntos. Porque no que depender de mim, assim será nosso futuro, sempre juntos. Clara falta só 27 dias para as férias chegarem e você vir me ver, por favor não desista de mim agora. Por favor? Eu te quero tanto. Acredite em mim, eu nem sei o que…- Respirou fundo outra, e outra e outra vez. Olhou profundamente nos olhos chorosos dela. Segurou com força o canto de sua escrivaninha, falou pausadamente.- Olha, depois das férias, teremos mais cinco meses de distância para suportar, já falamos disso muitas vezes, eu já implorei muitas vezes para que me espere, mas se …- Ele desviou dos olhos dela e continuou.- Se acha que seria melhor para você se nós…- Ele prendeu os dentes na boca, não conseguia terminar a frase, mas Clara entendeu. Se ela quisesse terminar, ele aceitaria a decisão dela.

__Alex! Olhe para mim! Agora!- Falou firme. Ele  fez o que Clara pediu. Os olhos verdes tão feridos como o coração devia estar. Mas a fúria dos Medeiros já tinha atingido Clara, neste instante ela queria briga._ Alex, você está terminando comigo? É isso, mesmo?

__Não!- Disse tão firme quanto ela.- Eu amo você. Daria qualquer coisa para te-la nos braços agora. Aqui em Munique entendi porque seu Tio Rick aprecia tanto ter Tia Lia no colo, ouvindo o coração dele. Trocaria qualquer coisa para estar aí agora. Ver você sofrer me destrói. Mas não posso mudar o que já fiz. Eu sabia que correria o risco de perder você, mesmo assim eu vim. Eu achei que…- Suspirou.- Não estou terminando com você, eu jamais faria isso, mas se você achar que é melhor para você, eu te amo de mais para prende-la. Você é um falcão, é livre.- Os olhos dele se encheram de lágrimas que não caíram.- Continuarei apaixonado por você, mas você tem direito de….

__De que? – O cortou.- De sofrer desesperadamente porque o homem que amo está longe de mim? De enlouquecer de saudade quando vejo meu avô e minha avó, um casal tão parecido conosco, felizes juntos? Morrer de tristeza porque ainda terei de esperar 27 dias para beijar sua boca?  Explodir de alegria ao escutar você dizer que faria qualquer coisa para me ter nos braços? Chorar de emoção  ao ouvi-lo dizer que me ama e que jamais terminaria comigo?- Sorriu para ele.- Somos muito diferentes Alex, mas numa coisa somos iguais. Eu amo você, jamais terminaria contigo.

__Graças a Deus!- Ele soltou o ar com força. Parecia tremer um pouco. Por algum motivo Clara achou engraçado e riu.- Acha engraçado, né?- Respirou fundo e soltou o ar devagar, estava tentando se acalmar. Clara achou mais graça ainda do repentino mau humor dele. Riu mais alto ainda.- Gosta de me torturar, não é? Vai, continue assim. Você vai me matar.

__Ah meu amorzinho. – Riu.- Desculpe. Mas é tão engraçado ver você tão apavorado com algo totalmente impossível, que não consigo evitar.

__Não é impossível. Você poderia se apaixonar por outro cara. Pelo cabeludo por exemplo.

__Não seja bobo, Alex. Vincenzo é só um amigo, um colega de profissão.

__Para você, talvez. Mas ele está interessado em você.  Ele até foi ajudar na festa do orfanato.- Alex parecia um pouco encabulado. Parecia também um pouco chateado por não poder estar presente. E parecia bastante enciumado.

__Leninha também foi ajudar na festa, será que ela também está interessada em mim?- Riu. Alex não.

__Leninha é sua amiga, queria mesmo conhecer o orfanato. Ela não me parece interessada em você para namorar, talvez esteja interessada nele.- Clara olhou para Alex, ele era mesmo inteligente, só tinha visto Vincenzo e Leninha juntos uma vez, e pela tela do note, e já percebeu o interesse de Leninha. Alex continuou: – Mas ele não deu a entender nenhum interesse nela. Já em você, só um cego não veria.

__Alex! Está com ciúme? Jura?- Riu de novo.

__Não estou dizendo que ele não queria ajudar na festa, nem que é um cara ruim. Só que ele está muito a fim de você. Você é muito esperta, Clara. Lógico que você já percebeu. Sei que você não é do tipo de garota que enganaria um namorado, confio em você. Mas é muito chato saber que tem um cara interessado na sua namorada e você está em outro país, não pode nem abraça-la para ela sentir o quanto está apaixonado por ela. – Ele tinha razão. E Clara já tinha percebido, mas nunca deu nenhuma abertura. Mas olhando agora para seu lindo e inseguro namorado, compreendeu como suas primeiras palavras no começo da conversa o atingiram tão duramente.

__Não se preocupe, amor. Vincenzo é legal, é divertido, é um bom cozinheiro e gostou mesmo das crianças. Ele nunca me disse ou fez nada além de  coisas que qualquer colega faria. Mas para mim, ele é como um dos meus parentes, meio doído.- Alex achou graça, mas só moveu um dos cantos da boca, muito tímido como sempre. Clara achou uma fofura.-  Olha, é verdade, também notei um certo interesse, mas ele nunca disse nada. Então continuamos coleguinhas de curso. Mas se em algum momento, ele disser ou fizer alguma coisa diferente, eu o colocarei a parte, não daria esperanças vãs para ele. Seja como for ele e todo mundo, sabe o que sinto por você.- Sorriu.-  Então, mesmo que ele tentasse se aproximar desse modo, o que acho que ele não fará, ele não tem chance. Nem Vincenzo, nem ninguém. Sou um falcão, meu coração é seu.- Alex olhou para boca de Clara e disse:

__Poderia repetir isso bem devagar? Por favor?- Ela riu.- Estou muito inseguro hoje, sabe? Há poucos minutos, pensei estar perdendo você. Meu coração parou de desespero.- Olhou-a com muita tristeza.- Nunca atrapalharia sua felicidade, mas não sei se posso suportar…- Suspirou.- Clara, desculpe fazer você sofrer? Eu só queria poder te dar o você está acostumada a ter. Eu queria conseguir vencer com meu talento. Estou me esforçando muito para isso, para que tenha orgulho de mim, como eu tenho de você. Perdoe-me, por favor amor? Doe tanto te ver chorar, mais ainda sabendo que eu estou causando sua dor. Se eu pudesse voltar no tempo…

__Faria exatamente o que fez.- Sorriu para ele.- Eu não permitiria que você perdesse a chance de mostrar seu talento para o mundo. Você me disse que tinha sido selecionado, me perguntou o que eu achava. Aposto que se eu tivesse feito um escândalo, um drama, você não teria ido. Mas eu nunca atrapalharia a sua felicidade. Eu também te amo. Estou muito orgulhosa de você. Sou muito orgulhosa de você. Você é um homem maravilhoso, talentoso, diligente, carinhoso, inteligente e ainda é lindo.- Sorriu. Ele também.- Hoje, enquanto meu avô conversava, eu fiquei olhando para ele e me lembrando de você. Vocês são parecidos. Tímidos e geniais, com olhos lindos e um belo sorriso. Talvez por isso eu tive a impressão que conheci você por toda a vida. E por isso que minha saudade apertou tanto. Fiquei com uma inveja da minha avó quando ele beijou a mão dela e a aconchegou em seu ombro. Eu queria tanto que fossemos nós. Eu não preciso de bens materiais. Sei que acha que não posso viver com pouco. Mas não fomos criados com todo o luxo que pensa. Meu pai e meu avô tem dinheiro, mas nunca foram deslumbrados. Somos uma família de professores. Tivemos uma boa educação, inclusive financeira, mas nada de coisas exageradas e dispensáveis. Me sinto lisonjeada que queira conquistar um mundo para mim, mas eu só quero você. Minha única condição é que você seja feliz, e para isso você precisa mostrar seu talento ao mundo. Eu sei, eu entendo. Estou fazendo o meu sacrifício pelo nosso amor, estou dando a minha oferta de valor, estou esperando, e continuarei a esperar por você, o tempo que for preciso. Vai ser doloroso, eu vou reclamar, vou chorar de vez em quando, mas vou esperar, eu juro.- Alex ficou olhando para ela com uma expressão tão forte de amor e admiração que até encabulou Clara. Ela baixou os olhos.

__Não! Olhe para mim, amor. Por favor? Você virá me ver nas férias? Vai me deixar te abraçar? Beijar sua mão? Beijar muito sua boca linda? Vai, amor?- Ela afirmou uma vez.- Você é a única mulher que amo e que amarei nesta vida.- Foi muito forte a maneira que ele disse aquilo. Como um verdadeiro falcão. Emocionou Clara, que para desanuviar  disse:

__Não minta! Ama muito Diana, e suas tias e primas, e ainda outras que eu sei.- Riu.

__Não. Amo minha mãe e minhas tias e todas as outras, como disse, como família. Você é a única que amo como mulher. A única mulher que vejo.- Aquilo foi ainda mais forte. Como ele podia fazer o corpo todo de Clara esquentar desse jeito estando tão longe?

__Você está muito romântico hoje, pensei que fosse um gênio da eletrônica, não da literatura. Tem conversado com meu avô, é isso?- Alex sorriu com o canto da boca, sabia que tinha  agradado sua amada.

__Ele é um excelente amigo. E tem uma linda esposa. Sabe como manter uma garota apaixonada. Eu preciso de ajuda neste campo, você é minha primeira namorada. E eu desejo que seja a última. A única, para sempre minha namorada.- Hoje Alex estava mesmo marcando muitos pontos.

__Está me pedindo em casamento Alex? – Riu para disfarçar os pulos que seu coração estava dando dentro do peito.

__Ainda não posso. Mas quero verdadeiramente me casar com você.

__E se eu quiser montar meu restaurante primeiro? Pode ser que demore, eu ainda nem comecei a faculdade. Vai esperar?

__Por você, toda a vida.- Clara deixou seu amor derramar-se.

__Alex, canta para mim outra vez? Aquela música que cantou ontem? Por favor?

__Eu não canto muito bem. – Disse tímido.

__Para mim, canta tão bem quanto Ben. Canta amor, só para mim?- Ele fez como sua linda namorada pediu, e sentiu o coração se acalmar ao vê-la sorrir apaixonada no fim da canção.

 

 

 

 

 

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Falcão por opção

Capítulo 5

Faltava um mês, só um mês, e  estariam de férias. Todos os alunos da Menu estavam se esforçando ao máximo para conseguir uma boa nota. Já era evidente quem terminaria o semestre em primeiro lugar, Clara era mesmo imbatível, mas o segundo e o terceiro melhores alunos, ganhariam um curso de patisserie  e bolsas na faculdade de gastronomia local.  Sem contar nas recomendações do Chefe Maximo. Todos estavam muito interessados. Leninha estava fazendo um bico numa churrascaria, trabalhava nos fins de semana e as terças. Era mesmo uma lutadora. Vincenzo, o cabeludo, mostrou-se um rapaz muito divertido, estava muito comprometido com o curso, sua família muito grande estava no ramo dos restaurantes há várias gerações. Seus parentes tinham estabelecimentos do tipo em muitos lugares do mundo. Ele, como Clara queria ter seu próprio negócio. Vincenzo tinha 25 anos, vinha trabalhando e juntando dinheiro para sua “Cantina”, como dizia, a 4 anos. O jovem descendente de italianos era muito alegre, parecia com os irmãos de Clara, ela se sentia em casa com ele. Se tornaram bons amigos. Se divertiam nas piores situações. Junto com Leninha, formavam um trio inseparável naquele tornado de panelas, fogões, sabores e especiarias. Clara continuava focada em aprender tudo sobre cozinhar com os chefes, e sobre administrar com seu pai, corria todo o tempo. Mas todos os dias, religiosamente, estava em casa as 9:00 horas. Ela esperava o dia todo por aqueles amados 30 minutos. Os preciosos minutos que via e ouvia seu lindo nerd de olhos verdes. Ele sempre o mesmo, com um sorriso tímido, contido nas expressões, carinhoso com o olhar. No meio da loucura que era seu dia, ele, organizado, centrado, equilibrado era um oasis de sobriedade e tranquilidade. Ansiava por vê-lo, por estar em seus braços.

__Clarinha!- Disse Vincenzo.- Tem aula com seu pai hoje?

__Não. Papai tem um jantar de negócios.

__Então você podia vir conhecer o Fratelli, o bar do meu primo Vitor. É bem legal. Eu levo você para casa depois.- Clara encostou na moto da Leninha e disse:

__Obrigada, pelo convite Vincenzo, mas estou muito cansada, vou aproveitar para tomar um bom banho e descansar.- Bateu com o ombro no de Leninha.- Você tem compromisso? Porque não vai com ele? Você estava louca para conhecer o Fratelli?- Leninha olhou Vincenzo esperançosa, mas em seguida disse meio sem jeito.

__Desculpe, não posso ir, motivos pessoais.- Clara rindo como sempre disse.

__Não seja boba, Leninha. Vincenzo me convidou primeiro, mas ia convidar você também, não é mesmo?- Virou-se para o rapaz que afirmou, logicamente.- Viu. Isso não era um encontro. Só amigos relaxando um pouco. Não irei por que realmente quero descansar, vou falar com Alex mais cedo hoje. Já combinamos, depois vou dormir, estou precisando.

__Vocês se falam todo dia?- Perguntou Vincenzo displicente.

__Sim. Todo dia.- Sorriu saudosa. –

__Sabe. – Disse Leninha.- É bem romântico isso de namoro á distância, mas não sei se posso com algo assim. Sou muito ciumenta. Imagine eu, com um homem lindo feito Alex solto em Munique. Não. Não sei lidar.- As duas riram.

__Verdade que é ciumenta?- Clara irônica.- Se não me contasse nunca desconfiaria.

__Você não se importa que seu namorado esteja sozinho do outro lado do mundo, Clarinha?- Vincenzo estava mesmo provocativo hoje.

__Claro que ela não liga, Vincenzo. Olhe para ela, é lindíssima. Além disso muito inteligente, sabe que se ele vacilar, tem uma fila esperando uma chance com ela.Não concorda?- Leninha pelo jeito também estava a fim de provocar.

__Concordo. Clarinha é linda e inteligente. Então me pergunto, porque esperar um garoto que acabou de sair das fraldas, que está em outro país, por um ano inteiro, sem nunca sair com os amigos para se divertir um pouco?- Ele disse debochado, mas Clara não gostou mesmo assim. Seu semblante mudou.- Ei? Não estou querendo chatear você. Só acho que sair de vez em quando não faz mau algum. Hoje é sexta, não temos aula amanhã. Leninha só vai trabalhar á noite. Vamos nos divertir um pouco? Tenho certeza que seu namorado entenderia. Ele também precisa sair de vez em quando. Aposto que ele tem colegas do curso que saem com ele. Se ele é mesmo um cara tão legal e ajeitado como vocês duas dizem, quase não deve parar no hotel.- Riu. Vincenzo achou que estava usando um bom argumento, a vingança, para convencer Clara a sair com ele, mas não imaginava que acabara de despertar um oponente invencível nos Medeiros, o instinto protetor.

__Ok.- Disse Clara aprumando o corpo e postando os dois pés no chão. Falou calma e compassada.- Diga-me uma coisa caro amigo, se você estivesse sozinho em Munique, e fosse ficar lá por um ano inteiro trabalhando num restaurante para se aprimorar, se tivesse deixado aqui não uma namoradinha, mas eu Clara, você Vincenzo, sairia para se divertir todos os dias?- Vincenzo se viu sem saída. Se dissesse que não, quebraria seu argumento, se dissesse que sim, Clara acharia que ele era um cara desapegado, que não ama verdadeiramente ninguém. Não teria chance com ela assim. E ele queria muito Clara.

__É uma resposta difícil. – Tentou sorrir. Leninha veio em seu socorro.

__Talvez dependesse do quanto ele te amasse, Clara.- Vincenzo olhou Leninha com gratidão.

__Isso! É isso mesmo. Dependeria da nossa relação. E estou falando de sair com amigos, não ficar se pegando com ninguém.- Achou que havia se safado.

__Entendo. Se fossemos só ficantes ou namorados liberais, você sairia toda noite e se encontrasse alguém, me avisaria para ser tudo bem honesto e correto. Se você me amasse, não sairia do quarto do hotel a não ser para seu curso, esperaria todas as noites até que eu chegasse em casa ás 9:00 horas aqui, meia noite lá para falar comigo. Olharia para mim completamente apaixonado e ardendo de saudade, desesperado para que as férias chegassem logo para que eu pudesse ir te encontrar. Mandaria para mim uma lista de lugares para visitar, para que eu escolhesse onde quero ir quando chegasse lá. E por mais que meus avós, que estariam hospedados no quarto ao lado do seu, pedissem vez após vez, para que você fosse passear com eles ou com seus colegas de curso de vez em quando, você diria sempre que está esperando que eu chegue, para conhecer a cidade comigo. – Vincenzo não disse nada e Leninha sorriu de leve.- Como vê caríssimo, Alex não sai todas as noites para se divertir, na verdade minha avó estava preocupada com ele, me pediu que dissesse para ele sair um pouco porque ele vinha ficando trancado no quanto todo o tempo livre. Eu perguntei para ele como era a cidade. Ele me falou como era o caminho da escola, as bibliotecas e a cantina. E sobre o restaurante do hotel. E se desculpou por não saber nada sobre os lugares turísticos, nem os teatros e restaurantes. Disse que pediria a minha avó para conseguir informações para mim, para que eu escolhesse onde quero ir com ele. Também, falou sobre os colegas e professores. Muitos gostam de sair para desestressar, mas ele prefere falar comigo antes de dormir. Segundo ele, é muito melhor que qualquer balada.

__Esse Alex é mesmo bem esperto, né? Seus avós estão no quarto ao lado?

__Lembra que disse que meu avô é um professor aposentado, ele foi convidado pela universidade de Munique para um curso especial.  Então se ofereceu para acompanhar a turma do intercâmbio junto com minha avó que é professora de artes. Meu irmão escolheu os quarto deles, fez isso para que Diana se sentisse mais segura. Alex não falava alemão, ainda.

__Ele já aprendeu?- Perguntou Leninha.- Tão rápido?

__Ele já está falando bem.- Sorriu orgulhosa.- É o que estuda a noite enquanto me espera.- Olhou Vincenzo e completou.- Ele me perguntou se eu gostaria de sair com vocês dois para passear. Ou com os colegas da Prestes de Medeiros. Entenderia se eu quisesse me divertir um pouco, ele me conhece, sabe que sempre gostei de gente e de novidades. Disse apenas para tomar cuidado e avisar quando estarei em condições de nos falarmos. Alex não quer que me sinta presa, faz questão que continue as atividades que sempre me deram alegria. Todos os sábados eu visito o orfanato do meu primo. Já fazia isso antes de conhece-lo. Um dia eu estava ensinando as meninas a fazer pão de queijo, meu irmão já tinha vindo para me buscar, mas eu tinha outros planos. Queria muito cozinhar para Alex. Ele nunca tinha comido a minha comida. Além disso queria agradar meu irmão para que ele me levasse no cinema.- Riu.- Foi naquele dia que decidi que seria Chefe de cozinha, quando vi o orgulho nos olhos dele. Todos os sábados, cozinho com as crianças, é maravilhoso. Depois, brinco com meus priminhos e sobrinhas na casa do Jorge, o dono do orfanato. Liv vem dar sua aula e dançar para as crianças. Eu cuido dos pequenos, enquanto ela, Jorge e Alice dançam para as crianças. Me divirto muito. Sábado a noite saio com meus irmãos e cunhadas. Temos gostos variados, por isso vamos a muito lugares diferentes. As vezes, tem alguns eventos em que minha família precisa comparecer. Quase sempre são lugares muito bonitos, com comida muito sofisticada e musicas bem adulta.- Riu.- Mas meus parentes não são muito silenciosos, acabamos nos divertindo mesmo assim. Alex se diverte com as fotos e as histórias malucas que sempre acontecem. Aos domingos, temos mais tempo para nos falar, mas ainda assim não diminui a saudade que sinto dele. – Olhou Vincenzo nos olhos e disse: __Sei que é meu amigo e que só quer o meu bem. Por este motivo, não levarei em consideração sua vil suposição que Alex poderia muito bem estar me traindo. Não sou boba. Sei que se ele realmente quisesse, poderia estar saindo com uma meia dúzia de garotas, mesmo com meu avô dormindo na cama com ele toda noite. Eu também poderia. Mas não estou. E pelo mesmo motivo que ele. Também não vejo a hora dessas benditas férias chegarem. Sou louca por ele, e ele sabe. Tenho medo de perde-lo, as vezes, sinto uma certa insegurança, mas basta olhar aquele par olhos verdes, para saber o quanto ele me ama. O quanto ele estaria disposto a sacrificar por mim. Não sairei com vocês hoje, porque estou mesmo cansada.  Mas devo te dizer que gosto de ficar em casa namorando á distância.

__ Certo! Certo. Não era para você ficar brava.- Disse se defendendo.

__Não era?- Perguntou Leninha, sorrateira.- Então porque insistiu?

__Ei, qual é Leninha? Pare de por mais lenha na fogueira.

__Não tem fogueira nenhuma. – Disse Clara.- Eu não estou brava. Você nunca me viu brava Vincenzo. Nem queira. Os falcões ficam irreconhecíveis quanto a fúria os toma.  Eu estava apenas explicando uma coisa muito clara para mim, que você parece não entender. Eu amo Alex. Vou esperar por ele sempre. É isso.

__Desculpe? Quem é você?- Disse Vincenzo gracejando.- Não pode ser a Clara que conheço? Minha amiga Clara detesta esperar. Não espera nem pipoca estourar.- Riu tentando aliviar a tensão nos ombros. As meninas o olharam e desataram numa gargalhada sem fim.

__Sabe Vincenzo, acho que tem mesmo razão. – Disse Leninha.- Clara é uma pessoa quando está na cozinha e outra quando se trata de Alex.

__Negativo!- Disse a Loirinha.- Odeio esperar em qualquer situação. E muito mais quando se trata de Alex. Mas neste caso não tenho escolha. É o sacrifício que farei em troca do amor dele.

__Puxa! Que lindo. Até eu que não sou muito melosa, fiquei emocionada.- Disse Leninha.

__É, foi bem bonito mesmo.- Disse Vincenzo, com uma evidente dor de cotovelo.- Mas e ele? Pelo que entendi, ele é mesmo um pouco recluso. Você mesmo o chamou de nerd, então ele gosta de estudar. Então qual o sacrifício que ele está fazendo em troca do seu amor? – Clara sorriu sonhadora, quando ia começar a falar, entrou no estacionamento o Creta branco de Diana. Clara sorriu mais e disse.

__Ele se afastou de tudo que mais amava, para conseguir um futuro para nós, para ganhar o mundo para mim. Nossa história é muito mais profunda e complicada, do que vocês sabem. Mas posso garantir que o sacrifício de Alex é muito maior que o meu.- Diana desceu sorridente, com tubinho azul claro muito elegante, os cabelos crespos e soltos caindo pelas costas. Nos pés as sapatilhas, marca registrada de Diana, tinham um acabamento em arabescos dourados.

__Oi pessoal. Vocês estão bem? – Abraçou e beijou Clara.- E você minha lindinha? Está bem? Muito cansada hoje?

__Exausta Diana.- Riu.- E você? O que houve com Senhor Praxedes?

__Bem, eu estou muito cansada, mas feliz. Conseguimos selar uma adoção de um casal de irmãos.- Sorriu ainda mais. Olhou para os outros.- Infelizmente isso é muito difícil.  Mas Jorge e Ben juntos são formidáveis. Eu vim te buscar porque Tia Lia quer fazer uma festinha de despedida para as crianças que foram adotadas e que irão embora essa semana. Conseguimos a adoção de outras duas meninas e um menino. Como sairão cinco de uma vez, concordamos que valia uma comemoração. As crianças estão animadas, querem fazer os docinhos, o bolo e tudo mais. Sabe como é sua família, Liv e Alice já estão preparando uma apresentação, sua mãe já está preparando o enxoval das crianças e o figurino da apresentação. Ben já está escolhendo músicas e  seu avô escolhendo brinquedos.- Riram.

__- Tudo é motivo para o Vovô Rodolfo escolher brinquedos para as crianças. – Disse Clara.

__Pois então. Tia Lia tinha ficado de ajudar as crianças na cozinha, mas ninguém melhor que ela para dar jeito nessa bagunça e por todo mundo para trabalhar ordenada e produtivamente. Seu pai, seu tio e o Ruivo só ficam brincando com as crianças . Os homens andam feito barata tonta sem ela por perto.

__Então veio me buscar para cozinhar com as crianças?

__Ah querida. Desculpe? Sei que está muito cansada. Não devia te pedir isso, mas se não for você, serei eu a ficar na cozinha com elas.- Riram.- Brincadeira. Eu gosto de cozinhar com elas, embora não chegue nem perto do seu talento. Na verdade Tia Lia já me escalou para outra função, eu, o Ruivo, seu pai e seu tio vamos cuidar da decoração do pátio. Alex já fez todos os cálculos e o Ruivo já está comprando tudo o que faltava. O tema serão os super heróis.

__Dona Diana, a senhora disse que o Alex fez os cálculos? Mas ele está na Alemanha.- Vincenzo parecia abismado.

__Nem me lembre, Vincenzo.- Suspirou. Chacoalhou a cabeça.- Eu pedi para ele calcular tudo o que Tia Lia pediu, comparar com o que temos no estoque e mandar uma lista do que precisaríamos.  Ritinha faria isso sem problemas…

__Mas ela está cuidando da documentação das crianças, certo?- Clara era muito esperta.

__Exato, querida. Neste minuto, seu pai e seu tio estão pendurando enfeites no teto, parte das crianças está com sua mãe escolhendo o figurino, outra parte com Alice e Liv ensaiando uma coreografia e a outra parte delas com Jorge na cozinha esperando a gente chegar. Alex me contou como estava ansiosa para descansar hoje, mas ….

__Claro que irei.- Disse sorrindo.- Já tenho umas ideias para decorar os docinhos.  E o bolo? Já escolheram como vai ser?

__Jorge disse para fazer como você quiser, só lembrando que duas crianças tem alergia de amendoim, três tem intolerância a lactose e uma é diabética.

__Eu farei os docinhos deles separados.- Virou-se para os amigos.- Vincenzo, você pode me passar aquela sua receita de geleia de morango sem açúcar, aquela que usamos mês passado.- Olhou Diana.-É fabulosa, fica docinha e muito saborosa, nem parece que não tem açucar.

__Dona Diana.- Disse Leninha.- Precisa ter alguma autorização para entrar no orfanato? Eu gostaria de ajudar Clara, teria algum problema? _ Diana abraçou Leninha.

__Oh lindinha, que bonito. Eu acho que Jorge pode abrir uma exceção hoje. Obrigada, querida.

__Na verdade, eu já queria ter ido lá antes, Clara fala tanto  e tão bem de lá. Mas não tive oportunidade, normalmente trabalho aos sábados, quando Clara vai.

__Sua ajuda será muito bem vinda.- Disse Clara.

__Também posso ir? – Perguntou Vincenzo.

__Mas e seu passeio?- Disse Leninha.

__O Bar vai estar lá amanhã.- Sorriu charmoso para Diana.-  Por favor, gostaria muito de ajudar. Se até o rapaz que está em Munique consegue ajudar na festa, acho que posso dar uma humilde contribuição. Nem que seja só fazendo geléia.- Todos riram. E foram para o orfanato deixando de lado a pequena rusga que se formara minutos antes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Falcão por opção

Capitulo 4

Mais um mês se passou. O Clima começava a esquentar. Alex já não aguentava mais  sentir frio. Sentia muita falta das flores do jardim da casa que morava com sua mãe e o Ruivo. Na verdade sentia muita falta de tudo. Sentia muita saudade de sua amada mãezinha, de quem nunca tinha se separado antes. Sentia falta até de ir para a academia com o Ruivo, e olha que detestava os exercícios. Mas  o mais dolorido de tudo, era que todas as vezes que olhava seu anel, sentia uma saudade insuportável comprimir seu coração. Saudade de sua linda Clara. Quando o coração dela acelerava, o medo apertava o dele. Ele não sabia se era a adrenalina das aulas de gastronomia, se era o trânsito ruim, se era algum problema com os falcões, se ela estava alegre ou com medo. Então a incerteza enlouquecia seus pensamentos, até a hora que podia falar com ela. O dispositivo que deveria acalentar seu coração, o dilacerava. Todas as noites, quando ela aparecia em sua tela, sorrindo para ele, Alex sentia uma dor na boca do estomago. Porque tinha vindo para tão longe dela? Podia ter terminado o colégio em casa mesmo. Tudo teria acontecido direito também. Mas agora era tarde. Estava na Alemanha, precisava estudar, desenvolver seu projeto, ganhar uma bolsa.  Tinha optado por crescer na vida. Queria dar a Clara, o mesmo conforto que ela sempre tivera. Sabia que não poderia alcançar a fortuna dos Medeiros, mas não queria privar Clara de nada que estivesse acostumada, seja lá o que fosse. Lógico que Clara diria que dinheiro não importava, ela nunca tinha passado a falta dele. Também era evidente que os falcões não permitiriam que ela passasse necessidade, provavelmente já até tinha uma herança esperando pela maioridade dela. Mas Alex não dependeria do dinheiro dela. Era para ele uma questão de honra. Cresceria por si só. Com seu talento e esforço.  Era isso que fazia todo dia. Sem dúvida era o aluno mais aplicado do intercâmbio. Desde o primeiro dia de aula, nunca pisou fora da escola. Sua vida era sala de aula, laboratório, biblioteca,oficina, sala de aula. Os professores estavam encantados. Professor Carlos Carvalho, o Vovô Carlos, era só elogios para o quase neto, já Vovó Aline, a professora de artes da Prestes de Medeiros e esposa do Vovô Carlos, estava preocupada. Era quase hora do jantar quando eles se encontraram no corredor do hotel, que servia de alojamento para alunos do intercâmbio.

__Como está o aluno mais brilhante deste andar?- Vovô Carlos continuava muito amigo. Embora com poucos cabelos bem branquinhos e com as lentes dos óculos mais grossas, o avô dos Ruivo e de Clara, continuava o mesmo professor de literatura carinhoso de sempre. Alex gostava muito de encontra-lo assim, remetia aos encontros banais no corredor de sua casa com outro par de olhos verdes esmeralda, de outro professor Carlos, um que Alex chamava carinhosamente de pai.

__Estou bem, Professor Carlos.- Disse abraçando o senhorzinho.

__Quando vai me chamar de vovô?- Fez cara de bravo.- Se ouvir você chamar Rodolfo de Vovô, antes de mim, teremos problemas rapaz!- riram

__Não seja bobo, Carlos.- Disse Dona Aline, elegante com seus lindos olhos cor de uísque. – Deixe o menino em paz.- Olhou para ele.- Querido, você tem estudado muito, seus professores estão muito impressionados.  Nós estamos todos contentes com seu progresso, mas eu estou preocupada, você não sai, não se diverte, não foi nem conhecer a cidade. Estamos aqui a três meses e você nunca saiu do hotel, exceto para ir para seus cursos. Você é tão jovem, meu amor, precisa se divertir um pouco.

__Eu tenho andado muito ocupado, Dona Aline. Fico lisonjeado com a preocupação, mas fique descansada, eu estou bem.

__Agora é minha vez de dizer para você deixar o menino em paz.- Disse o Professor sorrindo.- Não percebe Aline, minha linda? Ele não quer sair. Não quer conhecer a cidade sem Clara. Está esperando que ela chegue para visitar os lugares junto com ela.- Sorriu para a esposa acariciando o rosto dela.- Ele está apaixonado, sabe o que isso significa. – Ela também sorriu.

__Eu entendo.- Olhou Alex com todo carinho.- Clara não é minha neta, mas é como se fosse. Vi Nina  apaixonada por Beto, depois vi eles se casarem, os meninos nascerem, depois Clara. Ela sempre foi incrível. Mesmo pequena era espetacularmente inteligente. E linda. Eu sempre a amei como amei Nina e Lia. E como amo você agora. Por isso estou preocupada, não quero que fique sozinho e solitário no quarto. Compreendo que sinta muita falta dela, e de tudo que está longe, mas não quero você sofrendo sozinho trancado no quarto. Estamos entendidos? Sua mãe ficará chateada comigo se chegar aqui e te encontrar doente. Seu pai postiço então, nem se fala! Antes de embarcarmos ele fez um milhão de recomendações.- Alex riu.- Verdade. Sabe como os professores são, acham que tem que ensinar tudo para os outros e tudo mais….

__Ei!- Disse Professor.- Não fale mau dos professores, e menos ainda do Ruivo, é meu herdeiro de profissão e de ruivice.- Eles chegaram ao restaurante rindo. Sentaram na mesa de sempre. Depois do jantar animado, o casal idoso foi ao teatro, mesmo insistindo, Dona Aline não conseguiu tirar Alex do hotel. Dessa vez ele tinha mesmo que terminar um relatório.  Duas horas depois, Alex saia do banho, quando bateram na porta.

__Alex, é o Vovô, posso entrar? – Alex sorriu.

__Claro. Entre por favor.- Abriu e deu espaço para o “vovô” simpático passar.- Algum problema, professor, quero dizer, Vovô?- O velhinho sorriu.

__Gostei.- Sentou-se e indicou a poltrona ao lado para Alex.- Comigo não, mas acho que você tem um bem grande.

__Problema? Mas eu entreguei todos….

__Não, não.- Carlos sorriu.- Seu problema tem nome de mulher, se chama Saudade.- Tirou os óculos, limpou e recolocou.- Eu já estive loucamente apaixonado por uma linda Clara. Ela também era intensamente inteligente e corajosa e linda. Ela me enlouqueceu na primeira vez que há vi. Nunca mais consegui me afastar dela. Nem da necessidade de crescer para merece-la. Amei tanto a minha Clara, quanto você ama a sua, que aliás, é minha neta. Sabe Alex, as mulheres desta família tem o poder de encantar os homens. Eu estava na sala quando Rick viu Lia pela primeira vez, ele ficou paralisado. Isso faz trinta anos e ele continua tão encantado quanto naquele dia. Também estava presente quando Ben viu Liv dançar pela primeira vez, ele sempre foi o mais sensível dos meus netos, depois daquele dia ele nunca mais olhou para ela do mesmo jeito. E teve Beto que tentou muito se afastar de Nina. Eu fiquei furioso quando vi Nina sofrendo por ele, mas com o tempo descobri que a culpa disso era minha. – Alex o olhou confuso.- Sim, foi minha culpa. Beto viu meu desespero quando a minha Clara morreu. Clara ficou muito doente antes de morrer, eu sabia que isso ia acontecer, achei que estava preparado para enfrentar minha dor e ajudar minha filhinha a superar sua perda. Mas quando realmente aconteceu, fiquei sem chão. Sem norte. Sem folêgo. Sem vida. Rodolfo me levou para a casa dele. Ficamos com eles três meses. No primeiro mês eu chorava a noite toda.  Lá pelo meio do segundo mês que consegui voltar a dormir a noite.  Eu tentei  voltar para casa várias vezes, mas não passava da porta. Morei de aluguel por quase um ano, enquanto minha casa ficava fazia e fechada, porque eu não tinha forças para entrar nela. Minha filha tinha uma sala de dança e um quarto que ela amava, mas que não podia usar porque eu não conseguia entrar na minha casa e não encontrar minha Clara lá. Beto viu toda a minha agonia. Ele era um garoto, mas entendia o que estava acontecendo comigo. Os falcões tem esse dom de identificar um coração sofredor, apaixonado. O meu sofrimento assustou Beto. Quando ele percebeu onde os sentimentos dele iam chegar, ele tentou fugir. Não deu certo.- Sorriu.- Como disse, essas Fazzano,  tem um imã, um não sei o que, que nos enlaça, nos amarra, nos encanta.  Mesmo quando somos apenas amigos delas, as admiramos tanto que as defenderíamos com a vida. Rodolfo está aí como prova disso.

__Fazzano?- Alex baixou o olhar curioso.- Elas tem esse sobrenome?

__A sua Clara não. Mas a minha carregou o nome do pai, apesar dele ser um canalha. A mãe de Lia, Olivia, deixou de usar quando casou. Nina também, fez questão de tirar. Os Medeiros não produziam meninas, até as Fazzano se casarem com eles. Foi então que veio Liv, a bailarina delicada e Clara, a loira majestosa. As duas herdaram os nomes de suas avós, que levaram a loucura dois homens pobres que se apaixonaram pelas filhas de um rico e ganancioso empresário. Os dois, um jardineiro e um professor , foram totalmente rejeitados pelo velho egoísta. O jardineiro não teve nem chance de tentar melhorar sua situação, foi enxotado. O professor tentou várias vezes falar com o pai de sua amada esposa, faria qualquer coisa pela felicidade dela. Mas nada adiantou. Clara morreu sem ver o pai. Por muito tempo achei que deveria aumentar meu patrimônio, melhorar de vida, juntar dinheiro, mas meu melhor amigo sempre me dizia que o dinheiro não compra as três coisas mais importantes, amor, caráter e a vida. Quando encontrei Aline, vi que ele tinha razão. O que estou tentando te dizer Alex, é que é bonito você se esforçar para ganhar o mundo para Clara, mas lembre-se, ela só quer você. Embora não leve o sobrenome, Clara é uma Fazzano, elas só querem ser amadas. Viu Rick com Lia no colo, com a cabeça dela encostada no peito dele?- Era uma posição comum para o casal, Alex tinha visto muitas vezes. Ele afirmou com a cabeça.- Então, viu como ela fica feliz ali? Isso acontece porque ela sabe que ele a ama. Ela confia no amor dele. Sabe que aquele homem faria qualquer coisa pela felicidade dela. É verdade, Rick é rico, e já era bem rico e famoso quando Lia o conheceu, mas foi justamente esse motivo que quase fez com que ela se afastasse dele. Eu era pobre, e Clara me queria mesmo assim. Ela também se aconchegava nos meus braços. Está me entendendo? Se quer ganhar o mundo, faça por você, porque Clara não precisa disso. Ela mesma vai ganhar o mundo para ela se desejar, como diz sempre, também é uma falcão. Além do mais, ela já é sua.

__Obrigado, professor, quero dizer, vovô.- Riu.- Eu entendo. Mas quero melhorar, por Clara, por minha mãe, por minhas tias, pelo Ruivo, pelos Medeiros, mas também por mim. Eu quero ser melhor, entende? Todos eles confiaram em mim, no meu talento. Eu quero provar que mereci. Não só para eles, para mim. O senhor me entende, não é?

__Sim.- Sorriu.- Vai ao teatro conosco da próxima vez? Se não terei que voltar a fazer um novo discurso na semana que vem, Aline vai me obrigar outra vez.- Riu.- Fazer o que, sou um marido apaixonado e obediente.- Os dois riram.

__Vovô.- Carlos sorriu de novo.- Como o senhor fez para esquecer sua esposa Clara?

__Não fiz. Não esqueci. Só fui vivendo, criando minha filha. Depois tive outra chance, e outra filha e o ciclo continuou. Mas nunca deixei de amar Clara. Amo Aline, muito, mas é diferente. O que tive com Clara, nunca teria novamente com ninguém.- Alex pensou, pensou- O que esta  passando por essa mente tão matemática?

__Vovô, o senhor acha que eu conseguiria suportar perder Clara?- Olhou Carlos com muita angustia.- É que se ela algum dia não me quiser mais, ou se apaixonar por outro eu serei obrigado a deixa-la ir, eu nunca a forçaria  a ficar comigo, mas eu não sei se posso superar isso, eu…. o senhor conseguiu…..- O sábio professor leu todas as inseguranças de Alex naquele segundo, entendeu também a força daquele amor. Alex estava disposto a qualquer coisa pela felicidade de Clara, mesmo deixa-la ir.

__Eu não tive escolha.- Disse ele.- Mas você não tem com o que se preocupar. Clara é saudável e ama você, não precisará passar pelo que passei.- Bateu de leve no ombro de Alex.- Posso separar a entrada para você para sexta que vem? Aline não nos deixará em paz, acredite. É melhor ir logo. Depois você pode dizer que não gostou do teatro, ou do frio, ou inventar outra coisa. Você é bom em invenções, não é?- Alex teve que rir.

__Sabe, vovô, sempre achei que o Ruivo tirava aquelas piadas dele do Tio Beto, mas agora vi que ele aprendeu com o senhor, né?- Carlos riu.

__ Dizem que sou um excelente professor.- Alex olhou o doce professor e disse:

__Vovô, diga a Dona Aline…

__Vovó.- O cortou rindo.

__Certo, diga a vovó, que estou mesmo muito cheio de trabalhos para entregar antes das férias. Quero deixar tudo pronto para quando Clara, mamãe e o Ruivo chegarem. Terei o mês todo livre para eles e para vocês. Quando eles se forem, eu ficarei muito triste. Precisarei muito da ajuda de vocês dois, também estou começando os trabalhos de depois das férias para deixar adiantado até que me sinta melhor. Por isso tenho me ocupado tanto. Mas falo com Clara á meia noite, todos os dias. São 9:00 horas lá. Isso quer dizer que quando vocês chegam do teatro, ou do cinema, eu estou acordado. Normalmente fico estudando, mas se quiserem vir ficar comigo, são muito bem vindos. Gostaria de pedir que me trouxessem os informativos dos lugares que já conheceram e que gostaram, também dos espetáculos mais legais, assim posso separar para Clara escolher. Nos meses depois das férias, irei com vocês uma vez por semana passear, prometo. Tudo bem?- Carlos olhou o menino de olhos verdes claro e sorriu.

__Sim. Acho que sua avó postiça vai concordar, mas se eu bater na sua porta sexta que vem, finja que já dormiu.- Riu levando Alex junto. Ouviram uma batida de leve na porta:

__Meninos? Estão aí?- Alex sorriu para Carlos e respondeu:

__Sim Vovó. Entre.- Deste dia em diante, Alex tinha todas as manhãs um beijo de avó antes de ir para a escola. E todas as sextas, ela lhe trazia os informes de propagandas dos espetáculos e um doce do lugar onde tinha ido.

Falcão por opção

Capitulo 3

__Está chateada comigo, amor?- Alex estava sentado na cama com o note no colo. A câmera tinha resolução maravilhosa, era como se ele estivesse do outro lado da janela. Clara podia ver todos os contornos escuros da íris dele.- Desculpe, amor? Mas quando vi que o tempo passava e você continuava no estacionamento me desesperei. Liguei para minha mãe e ela falou que os falcões estavam presos no transito. Eu…_Suspirou.- Tem razão, me intrometi. Eu fiquei apavorado, estou tão longe, eu…- Suspirou de novo.- Ah, Clara desculpe, por favor?- Clara encarou a tela.

__Sim, Fiquei furiosa com você. Principalmente quando entendi que esta história de escala foi ideia sua. Mas depois acabou tudo bem. Papai já tinha até ligado para a companhia de táxi para contratar um serviço diferenciado para mim, quando tia Lia chegou. Ela trouxe o motorista dela. Disse que ele vai me buscar na escola para me levar ao curso e depois vai me buscar na saída. Tia  Lia não dirige e o motorista, Senhor Praxedes, já está com eles há anos. Segundo ela, no horário que entro no curso, ela está na Escola de Arte, e quando saio, ela já está em casa a tempos. E mesmo se precisar de um motorista nesta hora, Tio Rick já está em casa também. Quem mais gostou, foi Sr Praxedes que vai ganhar um aumento.- Riu.- Então, está tudo bem. Mas por favor, sem escândalos se houver uma próxima vez.

__Perdoe-me, amor. Tenho muito medo de perder você. Não consigo evitar. E estando tão longe, sem poder cuidar de você, qualquer coisa me assusta. Mas prometo que vou tentar, ok?- Sorriu para ela.- Como foi sua aula, o que cozinhou hoje?

__Carneiro. Gosta?

__Não me lembro de já ter comido. Mas tenho certeza que deve ter ficado delicioso. Qual foi o veredicto do Chefe Maximo?

__Meu grupo tirou uma nota bem alta. Foi bom.

__Quem estava com você? Leninha?

__Sim, ela e Vincenzo, um aluno que começou neste semestre.

__O do cabelo comprido que estava com você no estacionamento?- Clara sentiu uma pequena nota de ciúme.

__Ele mesmo. Como sabe dele. Andou investigando, foi?- Disse sorrindo. Alex pareceu envergonhado.

__Não foi bem assim. Quando entendi que você estava sozinha no estacionamento eu…

__Ai meu Deus!- Ela o interrompeu.- Você buscou as imagens do satélite! Alex, voce é louco, isso não é só bisbilhotar, é invasão isso é crime!

__Ei! Não se preocupe, está tudo bem. Sempre posso dizer que estava testando meu projeto.- Sorriu. Clara fechou a cara.- Amor, eu estava preocupado. Não fiz nada de mais. Só olhei o estacionamento. Vi você sozinha. O cara estava no celular perto de uma moto gigante. Depois ele percebeu que você estava lá e se aproximou. No começo pensei em chamar a polícia.- Riu, Clara não.- Mas depois você começou a rir sem parar e logo minha mãe chegou, e depois as outras.

__Você viu tudo? Estou sendo vigiada?- Parecia bem brava agora.

__Não. Clara, eu fiquei com medo. Então fiz o que sei fazer. Quando vi que você estava segura, fechei o canal do satélite e tudo bem. Eu não estou vigiando você, mas eu já tinha dito como acho aquele lugar perigoso.

__Você já tinha feito isso antes?

__Buscar você pelo satélite?- Sorriu, tristonho.- Só uma vez. No dia que cheguei. Eu estava muito triste e sozinho. Mas então descidi que só faria isso de novo para te proteger, como hoje.

__Porque?- Ela estava desconfiada.

__Porque doe muito ver você chorar. Você estava no jardim lá de casa e…

__Eu sei.- O cortou. Os olhos negros de Clara marejaram.- Eu me lembro. Foi muito triste ver nosso banco vazio, sentar nele sem você.- Ela olhou para a tela, para os lindos olhos verdes de Alex.- Vai passar logo, né? Um ano passa rápido, logo você vai voltar para mim, não vai?- O rapaz fez cara de dor, respirou fundo e disse:

__Faltam 92 dias para as suas férias começarem. O Ruivo me prometeu que vai trazer você para mim em junho. Ele não é nem louco de te deixar aí- Ela sorriu mas as lágrimas rolaram. Era sempre assim que essas videoconferências acabavam. Alex jurando que voltaria logo e implorando que ela fosse vê-lo nas férias.- Você virá, não é? Não posso aguentar até o fim do ano sem te abraçar.  Prometo não ficar invadindo o satélite, nem qualquer outra rede, mas jura que você vem, amor? Por favor?- Clara beijou o anel no polegar.

__Juro. – Olhou o anel e disse : -Papai quer saber como você sempre sabe onde eu estou? Que acha, conto a ele?- Riu de leve. Alex beijou seu próprio anel dizendo:

__Se quiser. Mas não estou produzindo em série. Algo me diz que seu pai vai querer pelo menos uma dúzia.- Clara caiu na gargalhada.- Ah! Que bom, fiz você rir. Estou perdoado, então?- Ela simulou pensar.

__Talvez, mas só se não ficar se martirizando com ciúmes do Vincenzo, eu sou louca por você. Ninguém mais me interessa. Ok?- Ele não respondeu, mas Clara já o conhecia bem. Alex era um gênio da eletrônica, ninguém podia supera-lo neste campo. Mas quando se tratava de seu pavor de perder Clara, era totalmente vulnerável, um menino. Nem mesmo os lindo olhos verde água que tinha, nem seu corpo bem formado e desenvolvido pelos exercícios, nem seu porte imponente, seus cabelos sedosos e castanhos claros harmoniosos com o rosto bem desenhado de barba bem feita, nem a boca carnuda de um sorriso tímido lhe davam segurança.  Nem parecia o grande hacker, capaz de invadir uma rede de segurança em segundos.-Ei! Alex, eu amo você. Você sabe. Acabei de conhecer Vincenzo, ele foi gentil em esperar comigo, foi só isso.

__Para você, talvez.

__Mas não sou só eu que importa?- Ela estava certa, e ele sabia.

__Tem razão, amor, desculpe.- Suspirou. Sorriu para ela.- Tentarei não ficar invejoso daquela cabeleira.- Os dois riram.- Sabe, tem uma garota na minha sala com o cabelo igual ao dele.

__Aé? Bonita?- Disse Clara.

__Nem reparei.- Debochou.

__Mentiroso!-Riu alto.

__Certo! É bem bonita, mas meu coração já tem dona. E ela é a garota mais linda do mundo inteiro.- Ficou sério e disse olhando nos olhos dela.- Clara, perdoe-me se sou tão inseguro as vezes, mas te amo muito, tenho muito medo de perde-la. Eu não sou um falcão de nascimento, mas sou por opção. Amarei você por toda a vida.-O coração de Clara se encheu de amor, Alex pode ver e sorriu para sua amada.- E agora amor, estou perdoado?- Clara riu.- Por favor, sabe que não vou conseguir deixar você dormir se não me perdoar.

__Certo. Só faz essas coisas porque sabe que basta olhar assim para mim e eu vou esquecer toda trapalhada que fez, né?

__Você esquecer? Até parece, com a memória que tem?

__Me elogiando de novo? – Baixou uma sobrancelha como sua mãe fazia.- O que mais você andou aprontando, Alexandre?- Alex arregalou os olhos e rindo disse:

__Meu Deus! Lê mentes á distancia também?- Os dois riram.- Estou aprontando uma coisa sim, mas não é nada contra a lei dessa vez. É surpresa para você, então não posso contar, nem adianta insistir. – Olhou no relógio.- É tarde amor, precisa descançar. Amanhã nos falamos, ok? Durma bem, minha Clara, eu te amo.

__Eu também te amo, meu Alex. Descanse também. Não quero que fique doente, ainda mais estando tão longe de mim. E quanto ao seu ciúme, até acho fofinho.- Riu.- Mas não é necessário, eu sou sua, só sua, e eu sou falcão de nascimento.- Os dois colocaram o polegar na tela . Era sempre assim que se despediam. O anel que Alex havia lhe dado antes de partir, nunca saía do polegar de Clara. Era o seu guardião. Não era um anel comum. Alex o havia projetado para ter o mesmo peso e aparência de um anel de compromisso, mas dentro tinha um dispositivo rastreador que mostrava a localização de Clara e seus batimentos cardíacos. Nas palavras dele, enquanto ela estivesse com o anel, ele poderia saber as emoções dela. Para um gênio da eletrônica, está era uma imensa declaração de amor. Ele queria saber quando ela estava feliz e quando não. Mesmo do outro lado do mundo.  Alex havia se apaixonado pela linda loirinha desde o primeiro instante que a viu. Mas sua origem dramática e humilde o fizeram crer que nunca poderia tê-la.

A vida de Alex começou de um crime. Sua mãe Diana foi dada para traficantes como pagamento de dívida e vendida para um cafetão. Ela tinha apenas 11 anos. Seu último agressor quase a matou. Ela foi jogada num matagal para morrer, mas sobreviveu e gerou Alex, que apesar das inquietações de todos, nasceu saudável e com inteligência acima da média. O garoto cresceu bondoso e tranquilo, embora tímido e um pouco recluso. Herdou de sua mãe o gosto por estudar, mas não se parecia com ela, embora ela também fosse bem alta. Diana era uma negra linda, com fartos cabelos compridos e olhos expressivos. Todos os traços de Alex vinham de seu avô pai de Diana, um outro traste. Alex sabia que sua mãe tinha sido vítima de uma violência sem tamanho, e por causa disso, ele existia, mas ela o tratava como um grande tesouro. Nunca duvidou da imensidão do amor que Diana tinha por ele. Estava estampado no rosto dela, em todos os seus gestos, em suas atitudes. Ela lutou bravamente por ele. Alex sabia que era muito amado por sua jovem mãezinha. Conforme crescia e entendia com mais clareza tudo, implorava a Deus que Diana encontrasse um homem capaz de ama-la como ela merecia. Não era justo que ela sofresse mais. Então, um dia, Deus colocou no caminho dela um ruivo alegre e sorridente como o sol. No começo parecia impossível que ficassem juntos, eram totalmente diferentes. Depois, era impossível que ficassem separados, se completavam, eram um. O mais maluco de tudo era que Alex gostou dele de cara. Isso nunca acontecia. Alex era sempre introspectivo, desconfiado, tímido mesmo com todo mundo, mas com aquele ruivo era diferente. Ele sentia-se a vontade. Confiava no grandalhão divertido de todo o coração. Logo eram melhores amigos e Alex se viu torcendo pelo romance por causa do rapaz e não somente por sua mãe. Quando se casaram, Alex já o respeitava como se respeita um pai. Agora amava o Ruivo como pai. Embora fosse apenas 8 anos mais velho que ele.

Como tudo na vida de Alex sempre era diferente, o Ruivo, seu padrasto era Carlos Medeiros, irmão de Clara. Clara tinha dois irmãos. Eles eram gêmeos idênticos. Os Ruivos como eram carinhosamente chamados. O mais novo dos ruivos, Ben, era casado com Liv, prima deles. Uma linda e pequena bailarina, mãe de gêmeas fraternas encantadoras. A doce família de Ben, o sagaz advogado, era a síntese de todos os Medeiros. Diferentes fisicamente e intelectualmente, mas igualmente amorosos, valentes, prestativos, respeitosos e apaixonados por seus pares. Outro traço de família era o riso fácil. Ben era muito sério em seu trabalho, mas fora dele era a alegria em pessoa. Já Carlinhos, o Ruivo, nunca deixava o sorriso, nem no trabalho. O Ruivo era o Diretor da Prestes de Medeiros, a escola privada de ensino fundamental e médio mais conceituada do sul do país. Desde o tempo que o avô deles, o grande Rodolfo Medeiros, um poderoso empresário, fundou a escola, ela sempre figurou entre as grandes. Todos os seus diretores foram dedicados e competentes, mas ninguém jamais foi tão entusiasmado como o Ruivo, o Diretor Carlos, para os alunos. Ele era o orgulho dos vários professores da família. E o melhor amigo de seu enteado, ou melhor, filho. O Ruivo o chamava assim. E em seu coração, Alex sabia que o Ruivo sentia assim também. Igual a ele. O sentimento deles era realmente muito forte. Se amavam como pai e filho. E Alex tinha muito orgulho do pai jovem e sorridente que Deus pôs em sua vida. Ele sempre tinha gostado dos seus tios, os maridos se suas tias. Os dois, Cunha e Xande, eram homens corajosos e honestos que amavam crianças como os Medeiros. Mas os Falcões eram surpreendentes. O fogo em seus olhos quando uma criança estava em perigo era comovente, e a alegria em seus sorrisos quando viam uma criança feliz era empolgante. Por causa de começo de vida tão triste, Alex sempre teve o maior respeito pelas mulheres. Viu também, todo o respeito e consideração que seus tios demonstravam por suas tias. Aprendeu a ser educado e gentil com elas. Seus tios eram homens fortes, suas profissões exigiam isso. Um agente policial e um bombeiro. Mas isso nunca os impediu de ser carinhosos com suas mulheres. Mas nada se comparava a maneira que os Medeiros tratavam as mulheres. Principalmente as suas mulheres. Alex ouviu muitas histórias sobre gerações de Medeiros que produziam apenas meninos. Talvez por serem tão raras, as que existiam agora eram imensamente amadas. Mas nada explicava o amor sem controle que esses homens tão grandes e fortes exibiam por suas esposas. Vovô Rodolfo dizia que os Medeiros eram como os falcões. Os falcões são caçadores velozes e precisos. Os pares cuidam dos ovos. E um falcão nunca deixa sua fêmea. Quando um falcão perde seu par, fica sozinho até sua morte. Por esses motivos, o esperto idoso, chamava a si e seus descendentes de falcões. Segundo suas crônicas familiares, todos os Medeiros permaneceram casados com a mesma mulher por toda a vida. Amando-a loucamente até que seus corações param de bater. Alex conhecia os Medeiros havia uns 3 ou 4 anos, mas não tinha dúvida que eles eram mesmo falcões. Era lindo vê-los com suas mulheres. Desde o mais velho até o mais novo, todos demonstravam uma delicadeza, um senso de proteção, uma admiração sem tamanho por elas. Segundo Beto, o pai de Clara, todo falcão prefere a morte a perder a mulher amada. Parecia um pouco exagerado no começo, mas agora, longe de Clara, Alex entendia o que ele queria dizer. Tio Rick, irmão de Beto e pai de Liv, dizia que nada podia ser melhor que ter a mulher amada nos braços. De acordo com ele, saber que ela estava bem, protegida, feliz, ouvindo seu coração bater, não tinha preço. Alex não via a hora das férias chegarem, para poder ter Clara em seus braços outra vez. Sempre soube que Ricardo Medeiros, o famoso escritor, era muito inteligente, com um raciocínio veloz e lógico, mas descobriu que o querido tio Rick precisou só do coração para esclarecer essa verdade. E ele estava muito certo. Viu sua linda amada sumir da tela suspirando de dor.  Já era muito tarde, precisava descansar para enfrentar a maratona de estudos que se propôs a fazer. Afinal, era para isso que tinha viajado.

Falcão por opção

Capitulo 2

A semana passou feito um relampago. Na Prestes de Medeiros, sua escola de toda vida, Clara estava com notas bem altas, sempre gostara de estudar. Optou por fazer um curso gastronomico avançado em vez do intercâmbio, antes da faculdade. Agora corria no intervalo do meio dia para a Menu, a escola de culinária. Seus parentes a levavam e seu pai ia busca-la todos os dias as 19:00 em ponto. Pelo menos tinha sido assim. Na sexta, Leninha foi embora apressada para o restaurante que trabalhava. Enquanto os outros alunos e professores foram dispersando, Beto não chegava. Passavam das sete e meia quando ela resolveu mandar uma mensagem para saber se estava tudo bem.

__Algum problema, Medeiros?- Perguntou Vincenzo.-  O namorado não veio hoje?

__ Meu namorado?- Por um segundo, Clara achou que ele falava de Alex.

__ Sim. O coroa no carrão.- Clara desatou numa risada sem fim.- Ei? O que foi que eu disse?- Neste momento, um Creta branco entrou no estacionamento. Desceu dele uma mulher  negra, alta, jovem e bem bonita. Sorriu para Clara:

__Oi Clarinha. Seu pai ficou preso no transito. Parece que tem um congestionamento enorme  perto da empresa. Pelo que entendi seus irmãos também estão presos nele. Resumindo, a única Medeiros que tem marido hoje, é Alice.

__Mas só porque Jorge trabalha do lado de casa.- Riu.

__É isso aí, querida. -Riu, olhou Vincenzo.- Como vai? Sou Diana Medeiros, cunhada de Clara.

__A sim. Sou Vincenzo Ferreti, estamos na mesma turma.- Vincenzo olhou Clara com olhar de súplica para que ela não contasse seu pequeno engano.

__Diana, Vincenzo achou que papai fosse meu namorado. Acredita? – As duas riram e ele fez cara de enfezado.

__ Não se preocupe Vincenzo, Seo Beto vai amar saber disso. Terá um amigo para sempre.- Riram mais ainda.

__Vocês vão contar para ele? Que isso, por favor meninas?- Elas riam cada vez mais.

__Desculpe, caríssimo. _Disse Clara batendo de leve no ombro dele.- Mas não posso perder a chance de fazer meu pai feliz.- Neste instante entrou no estacionamento mais dois carros. Uma Doblo cinza e um  Karman Ghuian amarelo. De dentro, da Doblo desceu uma mulher pequena, de cabelos longos e negros, com lindos olhos cor de gelo. Sorriu para a ruiva poderosa que saiu do Karman Ghuian. As duas caminharam para o trio que as observava.

__Deixa eu ver se eu entendi.- Disse Clara.- Já que papai não conseguiu vir me buscar, e meus irmãos estão igualmente presos no transito, cada um deles ligou para sua respectiva esposa e pediu para ela vir me pegar. Foi isso?- As três se entreolharam e riram.

__Parece que você tem um pai super-protetor, e é muito importante para seus parentes, Clara.- Disse Vincenzo.- Imagino que uma delas seja sua outra cunhada.- Disse olhando Liv.- Mas quem é a outra moça?- Foi encantador com a ruiva. Já  tinha ouvido alguém comentar que a mãe dela era uma ruiva muito bonita. As duas eram da mesma altura e tinham o corpo parecido. Embora parecesse muito jovem, depois do jovem pai de Clara, nada lhe parecia impossível.

__Vincenzo, está é Marina Carvalho Medeiros, minha mãe. -Apontou Liv.- E está é Olivia Medeiros, minha outra cunhada.

__Muito prazer.- Ele foi mesmo bem galante.

__Obrigada por fazer companhia a minha filha enquanto ela esperava, Vincenzo.- Olhou para Clara.- Sim, seu pai me ligou, mas me disse para avisar para você espera-lo.

__Foi igual com Ben.- Disse Liv.- Disse que se demorasse mais voltaria a me ligar.

__O Ruivo me ligou. Disse que achava melhor que eu pegasse você no caminho para casa. Mas Seo Beto  ligou para ele dizendo que estava a caminho, e que seria pior se eu também ficasse presa no trânsito.

__E todas vocês desobedeceram seus maridos.- Clara balançava a cabeça rindo.- Isso é um péssimo exemplo.

__ Eu sou sua mãe. Venho te buscar quando quiser.- Todos riram. – Mas devo admitir que não resisti a um certo telefonema aflito.- Sorriu para a filha. Clara abriu mais os olhos.

__Ele ligou para você? Pediu para vir me buscar?

__Parecia muito preocupado.- Disse Liv.- Disse que era perigoso você esperar sozinha aqui.

__Ele ligou para você também? Jura, Liv?- Ela já parecia muito emocionada.

__Eu disse que ele não precisava ficar com tanto medo. Você é esperta e uma atleta, e além disso tem seus amigos do curso.- Sorriu para Vincenzo.- Mas Alex parecia apavorado. Achei que se não viesse buscar você, ele pegaria o primeiro avião para fazer isso. Então prometi a ele que viria. Mesmo assim ele ligou para sua mãe e para Liv. Só para garantir.- Riu.- Esse meu filho não tem jeito mesmo.

__Esperem!- Disse Vincenzo.- Estão falando de quem? Pensei que fosse do namorado da Clara.- Elas riram de novo.

__Vincenzo, meu namorado Alex, é filho de Diana. Ela o teve muito antes de se casar com meu irmão. Alex está na Alemanha fazendo especializações do curso dele.- Vincenzo fez uma cara de pouco caso.

__Entendo. Faz tempo que ele foi?

__Dois meses.

__Ele conhece aqui, como sabe que é perigoso ficar no estacionamento?

__Ele vinha me buscar no semestre passado. Sempre achou muito deserta esta rua e o estacionamento. – Ela pensou.- Foi ele que orquestrou essa escala maluca para me trazerem para a escola? – Olhou sua mãe e Liv, que pareciam não ter certeza, então olhou Diana.- Não acredito! Que sem graça! Quer dizer que por causa dele, não posso pegar um táxi para ir para casa? Não! Tenho que fazer Liv desviar do caminho com as gêmeas, Mamãe fazer todo o trajeto de ida e volta desde a academia, e Diana fazer um adendo. Tudo porque um nerd de olhos verdes tem medo que eu espere o táxi na rua deserta. Que droga! E como eu não desconfiei antes? Fui muito tonta mesmo. Por isso ele nunca perguntou como eu estava indo e vindo do curso, ele já sabia. Alex me paga!- As mulheres riram, menos Clara, lógico. Vincenzo percebeu que todas gostavam muito do tal Alex.

__Certo filha. Brigue com ele, mas depois. Agora se despeça de seu gentil amigo, e vamos embora antes que seu pai e seus irmãos cheguem aqui.

__Eu ainda não estou acreditando que Alex pediu a todas vocês para me pegarem.- Clara estava mesmo brava.

__Clarinha.- Disse Liv compassiva.- Ele não me pediu para vir. Disse que estava preocupado, queria saber se eu tinha conseguido falar com Ben.

__Para mim, ele também não pediu.- Disse Nina.- Mas ele estava angustiado querendo saber se Beto tinha conseguido sair do engarrafamento. Eu não podia deixar o garoto sofrendo.

__Como já disse, para mim ele pediu sim. Estava apavorado, em todo tempo que Alex está na Alemanha, é a primeira vez que ele pareceu arrependido de ter ido. – Sorriu.- Clara, ele te ama. Qualquer possível perigo que corra, tira Alex do rumo. Você sabe disso. Já viu acontecer. Lógico que antes de ir, ele fez todos os planos para protege-la. Faz parte da personalidade dele calcular todas as variantes.- Riu.- Ele sugeriu a seu pai contratar um serviço de táxi, com um motorista escalado para te  trazer e buscar, mas…

__Claro que seu pai preferiu esta escala que como você disse, é maluca.- Riu.- Quem sabe depois do atraso de hoje, o Senhor Medeiros, resolva mudar de ideia. – Nina toda matreira. E Liv completou.

__Não fique chateada com Alex. Ele foi até comedido, se considerarmos Tio Beto e os Ruivos. Se fosse Ben, teria ele mesmo pedido o táxi hoje, para me pegar. E se fosse O Ruivo, Deus, nem sei, provavelmente teria pego a primeira moto que passasse para vir atrás de Diana.- Diana riu.- Meu pai com certeza teria encontrado uma maneira parecida a que Alex encontrou para garantir a segurança de mamãe e Jorge nem teria ido no intercâmbio por Alice. Sabe que é verdade. Os falcões são muito piores do que Alex jamais será. Em vez de ficar carrancuda, ligue para ele, diga que todas nós chegamos aqui, mas que um amigo do curso esperou com você. Você estava segura. E que depois foi para casa com sua mãe. Peça para ele insistir com tio Beto na história do táxi. Ele tem um bom argumento agora para convencer seu pai e assim você terá mais liberdade. E com certeza sairá totalmente vítima das circunstancias e ganhando.

__Liv! Você está falando igualzinha a Lia!- Disse Nina.- Que horror! Isso é assustador!- Todas riram e Clara também.

__Quem é Lia?- Perguntou Vincenzo.

__Tia Lia é mãe de Liv, é a pessoa mais inteligente que conhecemos, tem uma memória absurda.

__Mais que você? Sério? Existe alguém com a memória melhor que a sua?- Todas riram  outra vez.

__Amigo Vincenzo. _ Disse Diana.- Também fiquei muito espantada quando conheci essa família. Mas acredite, tudo que ouvir sobre a memória de Tia Lia, o raciocínio lógico de Tio Rick, as saídas surpreendentes de Ben, a esperteza do vovô Rodolfo e a inteligencia de Clara será ainda pouco para descreve-los. Eles são incríveis. Pode ver com Clara.

__E seu filho, também tem algum talento como Clara?- Perguntou sem emoção na voz, mas por dentro estava intrigado. Diana sorriu ao pensar na resposta, mas foi Clara que respondeu.

__Ele é um gênio da eletrônica. Está desenvolvendo um projeto de robótica no intercâmbio na Alemanha.

__Ah! Então é por isso que o chamou de nerd. – Clara sorriu apaixonada.

__Sim. Um lindo nerd de olhos verdes.- Olhou para Diana. Depois para Liv.- Certo, dessa vez vou deixar passar, mas só se ele conseguir convencer papai. – Virou-se para Nina.- Vamos mamãe?- Voltou para o novo amigo cabeludo, que usava uma trança frouxa hoje.- Obrigada por ficar comigo, Vincenzo. Espero não ter te atrapalhado.

__Não se preocupe.- Sorriu.- Moto nunca pega transito, nem se atrasa.

__Por favor, querido?- Perguntou Nina, erguendo a famosa sobrancelha vermelha.- Você conhece meu marido? São amigos de infância por acaso?- Vincenzo teve que rir.- Sim porque falou igual a ele. Vou dizer a você algo que sempre digo a ele. Tome cuidado. Moto não tem para-choque. Você é muito bonito para ficar sem dentes.- Vincenzo quase morreu de rir.

__Clara, amei sua família.

__É porque não faz parte dela.

__Mentira!- Disse Nina.- Ela só está emburrada. Também ama fazer parte do clã dos falcões.

-__Falcões?

__Vincenzo, essa história fica para outro dia. Já está muito tarde. Obrigada de novo.- As mulheres entraram nos carros. A Doblo saiu primeiro, seguida pelo Creta branco, quando o carrinho amarelo se aproximou do portão, uma mercedes preta grandiosa crusou primeiro. Beto abriu o vidro e sorrindo disse:

__Se existe uma vista melhor que essa, eu não conheço. Minhas lindas garotas juntas. Deus realmente foi muito bom comigo.- E riu.

__Todo esse trabalho só porque eu não peguei um táxi.- Disse Clara.

__Ah minha bonequinha, desculpe. Você tem toda razão. Alex também me disse isso. Na verdade desde antes de ir ele me aconselhou a contratar uma companhia de táxi para você. Mas é que eu gosto tanto de vir busca-la. Desculpe-me, meu amor. Não se preocupe, Alex me disse para contratar um serviço só para trazer você, e para buscar só quando eu não puder ou acontecer um contratempo como hoje. Ele me deu o número de uma companhia que tem uma  das garagem  aqui perto. Assim você não vai mais ficar esperando se eu tiver problemas no transito. Por hora, você pode perdoar esse velho babão?- Fez cara de coitado. Vincenzo assistia a tudo fascinado com a história toda.

__Ah papai! Não seja bobo. Não aconteceu nada. Está tudo bem. Mas realmente prefiro vir de táxi. Os falcões são muito ocupados. Sei que gostam de vir comigo, mas não é justo. E quanto ao senhor, quero que venha me buscar só quando realmente estiver com tempo. Pode ser? -Sorriu para ele.- Alex ligou para o senhor?

__Sim. Ele estava preocupado. Disse que você estava no estacionamento. Clara, como é que ele sabe exatamente onde você está?- Clara sorriu, acariciou o anel de aço cirurgico no polegar esquerdo e disse:

__Ele é um gênio. – Beto riu. Todos se foram, inclusive um peculiar motoqueiro, que ficou encantado com os Medeiros. Principalmente com uma certa loirinha.