O Namorado

Capitulo 15
Doutora Gislaine passou a fazer parte da vida do Medeiros. Nove grávidas na mesma família uniria qualquer profissional. Sofia, Clara, Lú, Ritinha visitavam o consultório as terças de manhã, uma vez por mês. Um pré natal muito normal. Chegavam juntas no carro de Clara. Quando conseguiam convercer Gigiu que podiam andar sozinhas. Na verdade o primo italiano estava bem interessado na competente obstetra, diga-se de passagem.Quando tinham uma ultrassom ou outro exame, iam com os maridos no dia escolhido pela médica que de certa forma, também parecia um pouco interessada no belo arquiteto. Diana e Liv iam juntas com Ben na quarta a cada duas semanas, visto que as gestações múltiplas precisavam de mais cuidados e Diana tinha um histórico e fosse a mais velha, a doutora achou melhor acompanha-las assim, embora a gestação delas estava tão saudável quanto as das meninas. Ruivo ia com Diana a todos os exames, e uma vez no mês na consulta no lugar de Ben. Alana com trigêmeos, Mari com gêmeos as duas na primeira gestação, visitavam o consultório duas vezes no mês. Rody as levava. Quincas ia aos exames de Mari e sempre que podia encontrava ela lá no consultório. Já com Alice, a coisa era um pouco mais complicada. Ela ia ao consultório uma vez por mês, na quinta feira de manhã, fazia uma ultrassom no mesmo dia, mas todas as semanas Doutora Gislaine ia a casa dela para examina-la, colher material para exames de sangue e outros. A gravidez dela era mesmo de risco. O repouso absoluto era mesmo necessário. Isso explicava porque durante vinte anos ela não quis tentar novamente. Alex deu a médica acesso a seu equipamento para monitorar todas as grávidas, mas principalmente, Alice. Tudo estava muito bem, bem até de mais. Então na primeira semana do sétimo mês dela, Alice acordou Jorge.
__Jorge. Acho que ele quer nascer, hoje.- Disse calma. Jorge acendeu a luz e viu uma mancha de sangue enorme na cama. Deveria ter enlouquecido, mas simplesmente ligou para a médica e disse que estava chegando com Alice em trabalho de parto. 2 horas depois, o bebê estava na incubadora. Um mês depois papai , mamãe e bebê estavam felizes em casa. Então foi a vez de Liv entrar em trabalho de parto duas semanas antes do previsto, quando ela estava na escola de artes, no meio de uma de suas aulas.
__ Mamãe!- Disse para Lia.- Preciso ir para o hospital. Por favor, vamos com calma, não quero assustar todo mundo.
__Certo.- Lia olhou em volta. Rick estava na diretoria, cobrindo Alice. Pegou sua bolsa e foi saindo discretamente para o estacionamento. Na saída do elevador encontrou Quincas que tinha vindo trazer Mari da consulta.- Oi querido, que bom que encontramos você, precisamos ir para o hospital agora. Liv vai ter os gêmeos.
__Mas eu pensei que fosse daqui a duas semanas?- Disse com os olhos arregalados por detrás dos óculos.
__Verdade. Mas nem sempre os bebês obedecem os cronogramas.- Riu.- Precisamos chegar lá logo. Não chamei Rick, porque ele está em uma reunião no lugar de Alice. Tinha pensado em pegar um táxi.
__Imagine! Eu estou aqui. Levo vocês , vamos.- Entraram no carro e Quincas guiou rápido e seguro para o Consolação. Lia chamou a Doutora Gislane e a pediatra enquanto estavam no carro explicando tudo. Avisou Rick e Alex, que já estavam ligando atrás delas.
__Estranho Ben já não estar entrando correndo pela porta do hospital.- Disse Lia rindo para Liv.
__Ele tem tribunal hoje. Deve estar com o celular desligado.
__Devemos avisar, ou esperamos que ele ligue?
__Espere. Por favor.- Disse ela deitando na maca.
__Senhora?- Disse Quincas.- Ele vai enlouquecer quando souber que trouxemos a senhora para cá sem avisa-lo.- Liv sorriu, acariciou o rosto de seu genro.
__Ele vai enlouquecer de qualquer jeito. É melhor que já tenha terminado seu trabalho. Se continuar assim, o parto não vai ser rápido. A doutora não vai permitir a entrada dele no centro cirúrgico desta vez. A equipe vai ser maior por precaução. Avisem tio Beto e o Ruivo, eles sabem como controlar Ben.- Olhou sua mãe, um medo escondido nos olhos cor de céu.- Mamãe, se alguma coisa não der certo, cuide de meus meninos, por favor. Principalmente de Ben.
__Vai dar tudo certo!- A voz veio pela direita rompendo todo o saguão. Ben foi firme seguro, como quando estava no tribunal. O grande guerreiro ruivo, o falcão. Liv sorriu para ele. Ben sempre foi sua força, embora ele achasse o contrário. Ele percorreu o caminho num vento. Beijou-a, colocou a mão sobre a barriga inchada e rígida.- Vocês já começaram muito bem, hein crianças?- Riu.- Desobedecendo o papai e querendo chegar enquanto não estou por perto? Não tínhamos combinado que vocês iam seguir as ordens da médica e esperar mais duas semanas?- Beijou a barriga dura. Na hora as contrações pararam.- Fiquem tranquilos, venham com calma, mamãe vai ajudar vocês a nascer, ela sabe o que está fazendo. Doutora Gislaine também, obedeçam elas. Estou aqui, esperando vocês.- Olhou nos olhos dela.- Acha que vão me deixar entrar?- Sorriu confiante.
__Doutor Benjamim.- Disse Doutora Gislaine.- Como já combinamos, é melhor o senhor esperar aqui. Assim que possível eu mando chama-lo. Olha, o senhor já ajudou bastante, estabilizou as contrações dela. – Sorriu. — Vai ficar tudo bem.- Ele beijou Liv novamente.
__Vai, minha vida. Estarei aqui.- Liv olhou sua mãe e Quincas e sorriu. Olhou seu marido certa de tudo daria certo.
__Ok. Volto logo, nada de bagunça na minha ausência.- Riu. A equipe a levou, um frio tomou conta do falcão. Um pavor de perder sua razão de viver. Lia o abraçou. Conhecia Ben por toda a vida dele. Sabia que ele estava apavorado.
__Tia, vai dar tudo certo né? Não vou perde-la, certo? Diz tia Lia, diz que não vou perde-la, pelo amor de Deus?
__Não vai, meu querido.- Disse emocionada, num fio de voz.
__É claro que não vai!- Disse o Ruivo chegando com Beto. Ben abraçou seu irmão e chorou.- Ei! O que é isso? Vai assustar Quincas. Pior, vai perder todo o respeito. Como vai bancar o papai sabichão chorando desse jeito?- Esfregou as costas de seu irmão.- Sabe que ela é muito forte, é uma bailarina. Parece frágil e delicada, mas já passou por outras três gestações com muito sucesso. Vamos, respire homem! Vai sufocar!
__Não posso perdê-la, Ruivo. Sabe que não posso.- Soluçou.
__Isso não vai acontecer.- Sorriu.- Você sempre fica apavorado assim. Depois ela sorri junto com os bebês toda poderosa como um falcão e você se derrete todo.
__Antes eramos mais jovens. E me deixaram ficar com ela. Dessa vez…
__É melhor assim. Vai ter muita gente na sala.- Disse Beto.- Não sei como você consegue ver todo o processo. Eu desmaio só de pensar.- Esfregou as costas do filho.- Fique calmo. Vai dar certo. Tenha fé, meu guerreiro.- Quincas chegou perto deles.
__O senhor assistiu os outros partos? Como foi?- Ben respirou e passou a contar como tudo tinha acontecido. Lia percebeu que a intenção de Quincas era distrair o sogro. Conseguiu. Logo vários falcões estavam na ante sala. Menos Jorge que estava com Alice e o bebê. E as grávidas que foram aconselhadas a esperar em casa. Uma hora depois duas enfermeiras apareceram no corredor com duas trouxinhas acompanhadas pela pediatra.
__Doutor Benjamin, estes são seus bebês.- Disse Doutora Lisandra apontando as enfermeiras. Ben chegou perto já pegando os dois bebês ao mesmo tempo e trazendo para perto de seu peito. Olhou nos olhinhos sonolentos, ambos verdes como os dele, os cabelinhos negros como os de Liv. Eram muito parecidos.
__O garoto pesou 2300 e mediu 53 centímetro, a menina é só um pouquinho menor pesou 2250 e mediu 50 centímetro. Nem parecem de 37 semanas. Estão muito bem, e pelo visto já reconheceram o papai.- A pediatra sorriu.- Não estavam tão quietinhos antes.- Ben beijou os dois.
__Oi bebezinhos, estão cansados? Devem ter se esforçado muito, eu sei. Mas não durmam ainda. Esperem um pouco venham conhecer seus parentes. Esta linda que parece a mamãe, é a vovó Lia, esse grandalhão, é o vovô Beto meu pai, esse que parece o papai, é tio Ruivo, meu irmão. Este bonito de olhos âmbar, é Cisco, marido de sua irmã Lú, e este de óculos é Quincas, marido de Mari, sua outra irmã. Vovó Nina, é a ruiva bonitona e aquele chegando correndo ali, é seu vovô Rick, o papai da mamãe. Suas irmãs não puderam estar aqui, e seus irmão são pequenos, talvez não venham hoje, mas estão todos loucos para encontrar vocês.- Os pequenos sorriram juntos.- Sabe, seu tio Jorge tinha esse costume, de sorrir junto com sua mãe. Eles também nasceram no mesmo dia.- Neste momento Jorge chegou. Tinha deixado sua amada e seu bebê aos cuidados de sua sogra e veio conhecer os gêmeos de sua irmã. O casal que nasceu junto, como ele e sua amada irmãzinha. Quando olhou seu primo e cunhado com os pequeninos no colo, sorriu com os olhos cheios de lágrimas. Foi se aproximando devagar.- Olhe quem chegou! Seu tio gêmeo de sua mãe.- Jorge chorou.
__Deus! São lindos, Ben.- Suspirou.
__Pode me fazer um favor? Preciso entrar para ver Liv. Pode ficar com eles só por uns minutos para mim?- Jorge Chorou ainda mais.
__Claro.- Pegou os dois exatamente igual Ben tinha feito. Ben beijou de novo os bebês.
__ Ruivo, pode por favor ajuda-lo?- Ruivo não tinha voz. Só afirmou emocionado. Ben voltou-se para seus bebês.- Fiquem quietinhos com seus titios, vou ver mamãe, já volto.- Beijou o rosto de Jorge e o de Ruivo ao lado dele, e correu pelo corredor atrás da médica que o levaria para o ver o fim da cirurgia.
__Gente! Isso foi muito emocionante.- Disse Cisco.
__Nem me diga!- Disse Quincas.- Sabia que ele era um pai maravilhoso, mas nunca poderia imaginar isso. Os bebês entendem ele.
__É como Liv disse antes.- Disse Beto.- Ele nasceu para ser pai. Ele ama isso.
__Mas ele estava apavorado antes de vocês chegarem.- Disse Quincas.
__Ele tem muito, muito medo de perde-la.- Disse o Ruivo com a voz ainda embargada.-
__Tem medo de não suportar?- Perguntou o genro preocupado.-
__Não.- Disse Ruivo chegando perto dos novos sobrinhos.- Ben é muito protetor, seus instintos não permitiriam que ele sucumbisse. Ele tem os outros meninos e agora os bebês, sem contar as meninas e vocês. Ele sobreviveria. É esse o medo dele. Ter que viver sem Liv. Ter que suportar esse sofrimento. Sobreviver sem o coração dentro do peito outra vez.
__Ele é o falcão mais resistente de nossa geração.- Disse Jorge.- Lutaria por essas crianças até o fim. Enquanto nenhum de nós sobreviveria nem cinco minutos sem sua amada, exatamente como nosso avô, ele suportaria tudo por seus filhos. Ele sabe disso.
__Ele conhece essa dor, Quincas.- Disse Rody.- Já passou por ela antes. Ele sempre foi apaixonado por ela, mas Liv não quis ficar com ele no começo. Ele ouviu ela dizer que não o queria, que ele era só um irmão, um primo amado.
__Isso destruiu o coração dele.- Disse Rick.- Mesmo assim ele lutou pela felicidade dela. Ela queria que ele fosse um primo, foi o que ele foi. Lutou ferozmente por isso. Com o peito em carne viva.
__É isso que não quer passar isso novamente, Quincas.- Disse Beto.- Ele diz que não pode viver sem ela, que não poderia suportar, mas se existe um falcão de nascimento que pode resistir a esse martírio, esse é Ben. Ele já fez isso antes, e sem a ajuda dos outros falcões. Nós não sabíamos dos sentimentos dele, no máximo, desconfiávamos. Ele sofreu muito e sozinho. Por isso todo esse pavor.
__ Muitas vezes achei que era meio exagero dele, me parecia tão dramático, até que estive na mesma situação.- Disse Cisco e sorriu solidário.- Ele é mesmo muito valente. Não sei o que seria de mim se Lú realmente estivesse doente ano passado. Ben já me disse várias vezes, que prefere a morte a viver sem Liv.
__Verdade?- Perguntou Quincas.
__Sim.- Disse Lia.- Ben sempre foi muito parecido com Rick. Doce e valente. Desde menino percebi que ele amava Liv. Liv sempre foi muito parecida comigo, só um pouco mais calada. Sempre foi claro o amor dele por ela para mim, mas ela parecia não entender. Nem perceber que também o amava. Depois que ela foi estudar fora com Jorge, a dor nos olhos dele só aumentou. Principalmente depois das férias, quando ele se declarou. O esforço que fazia para manter tudo como antes era monstruoso. Ele sempre estava correndo, ocupado, no trabalho, na faculdade, com consultorias. Mas era só as férias chegarem para ficar evidente o pavor dele de encontra-la.- Riu.- Ou a necessidade de vê-la, ou medo de deixa-la depois. Ele fazia parecer que tudo estava bem, mas quando a olhava, furtivamente, a respiração dele mudava. Então Liv voltou.- Lia sorriu.- Ele até que suportou quase dois anos.- Riu.
__Foi bem bonito a primeira vez que os vi juntos.- Disse Nina.- Nunca tinha visto meu filho tão feliz. Foi quase tão bonito quanto quando vi ele ajoelhado no meio da sala de Liv, cheia de bailarinos, pedindo ela em casamento. Parecia cena de filme.- Suspirou.- Já se passaram quantos? 25 anos?
__20.- Disse Ben sorrindo.- Pare de falar assim, mamãe, pareço um velho.- Beijou seus pequenos. Tomou-os novamente.- A sua mamãe, que não é tão exagerada quanto a minha, já está indo para o quarto. Linda como sempre. Perguntou por vocês. Mas ela está muito cansada. Então nós três vamos ter que ficar bem quietinhos ou a médica vai nos expulsar de lá.- Os olhinhos verdes ficavam grudados nele.- Bem, para dizer a verdade, vocês ela não vai expulsar, mas eu é quase certo.- Riu.
__Mas o que é isso Doutor Ben?- Disse Gislaine a médica.- Jogando os pequenos contra mim?- Ela sorriu.- Parabéns, Doutor. Tem lindos e saudáveis filhos. E tem uma esposa muito forte. Ela surpreendeu a mim também. – Virou para a família.- Dona Olivia está muito bem. Está descansando.
__Podemos vê-la?- perguntou Lia.
__Sim, dona Lucélia. Mas um de cada vez. Já que eu vou ter que manter esses três lá dentro.- Apontou Ben e os bebês.
__Papai!- Eram Caio, Calebe, Mari e Lú. Gigio tinha trazido eles. Correram para Ben.
__Ei. Não falem muito alto. Se não assustam os pequeninos.- Ben se abaixou com os bebês e seus meninos puderam vê-los.
__São tão bonitinhos.- Disse Calebe.- Eles tem olhos iguais aos nossos papai.
__Estavam dentro da mamãe?- Perguntou Caio.- Eu também era pequeno assim?
__Sim.- Disse Ben.- Mas cresceu rapidinho. Eles também vão.
__Olhe Lú.- disse Mari.- Os dois tem cabelos pretinhos.
__São lindos.- Olhou seu pai.- Parabéns papai. Como está a mamãe?
__Muito bem. Podem vê-la, mas um de cada vez. Quer dizer, acho no caso de vocês podem ter exceções.- Disse olhando as barrigas enormes de suas filhas.Todos riram.- Se sentem bem?- Disse preocupado com elas.- Não sei se tudo isso faz bem para vocês? Talvez fosse melhor esperarem em casa.
__Desculpe, primo.- Disse Gigio, com Mateus no colo.- Mas eu passei na escola por acaso e achei que não teria problema… É que eu não consigo me controlar quando um de meus sobrinhos está nascendo. Perdoe-me.
__Tudo bem.- Disse Ben sorrindo.
__Tudo bem, mesmo.- Disse Gislaine.- Elas estão bem, só não devem se agitar. Já percebemos que esses pequenos falcões são apressados.
__Não são apressados.- Disse Caio.- Só queriam ficar com a gente logo. Né papai?
__Tem razão.- Disse Ben carinhoso.- Sabe do que acabo de me lembrar? Vou precisar de um irmão muito esperto, para vigiar esses dois. Acha que Calebe faria isso?
__Não papai. Calebe já cuida de mim. E combinamos que vamos nos revesar para cuidar dos sobrinhos. Eu sou irmão mais velho agora, posso cuidar deles.
__Verdade. Agora você é um irmão mais velho. Mas eles são dois. O que acham de os dois cuidarem dos pequenos? Assim sobra mais tempo para cuidarem dos quatro sobrinhos também.- O pequeno Caio pareceu entender a lógica e concordar com tudo.
__Eu concordo.- Disse Calebe.- São muitos, vamos precisar ser bem expertos mesmo. Talvez, Pérola seja bem boazinha como a Lú, mas acho que os meninos todos serão tão bagunceiros quanto Caio. Vê como Mateus é arteiro. Não para um segundo.
__Eu não sou bagunceiro.- Riu.- Bem só um pouco.- Mais risadas de todos.
__Ei Calebe!- Disse Cisco rindo pegando seu filho no colo.- Não fale mal do meu filho.- beijou seu fofo que sorriu feliz para o pai.- Ele é um docinho. Só se parece comigo, ué! Igual você que se parece com seu pai.
__Não tô falando mal. Ele é menino, né?- Agora até as médicas tiveram que rir.
__Estou com um grave problema.- Disse Rody.- Terei mais três meninos daqui uns dias. Davi é muito pequeno para cuidar deles, nem vou falar que é bagunceiro também. Será que os outros guardiões dos falcões podem me ajudar?- Os dois pensaram como se fossem resolver um problema de estado.
__Acho que sim. Lube, Luke e Luca, só terão Elisabete para cuidar. Mesmo que ela se pareça com Clara que é menina, mas também não para quieta, ela é só uma.- Caio olhou Alex.-É só uma mesmo, né?- Cada segundo que passava tudo ficava mais divertido.
__Até ontem era só uma. Mas sabe como Clara é surpreendente. Não garanto nada.
__Se for só uma mesmo.- Disse Calebe esquematizando tudo.- Eles podem te ajudar. Marco e Sasha também, eles são até maiores. E tem Pietro, Giordano já está bem grandinho, pode cuidar de Guilhermo. Vai precisar combinar direitinho com eles.
__Muito obrigado pela dica. Vou falar com eles.
__É sempre bom ter especialistas.- Disse Jorge.- Vou ter que falar com os guardiões também. Artur não tem nenhum irmãozinho em casa para vigia-lo.
__Mas nem vai precisar.- Disse Calebe.- Vovô Aline não sai de perto dele nem um minuto.
__É mesmo.- Disse Caio.- Nem queria me deixar pega-lo. Disse que sou muito pequeno.- Olhou seu pai.- Papai, vou poder pegar Pérola e Pedro? É que não cresci muito desde que Artur nasceu.
__Vai. Mas vamos esperar estarmos em casa. Lá ensino você.- Disse Ben tranquilo.
__Vai ser fácil.- Disse Calebe.- Papai me ensinou a pegar você quando nasceu. Eu era do seu tamanho.
__Eu era menor.- Disse Cisco com os olhos brilhando para Ben.- Seu pai me ensinou a pegar suas irmãs no colo, era mais novo que você Caio.
__Lembra disso?- Disse Ben sorrindo.- Era tão pequeno?
__Jamais esquecerei. Aprendi direitinho. Nunca derrubei nenhuma delas. E nem Mateus.
__Por isso que Lù gosta tanto de ficar no seu colo.- Disse Caio.- Você pega ela desde bebê.- Todos riram outra vez, enquanto Cisco beijava sua esposa.
__Doutora. _ Disse Rick.- Será que já podemos ver, minha filha?
__É doutora?- Disse Caio.- Podemos ver mamãe?- A médica sorriu para o lindo e sorridente garoto de profundos olhos negros.
__Se prometerem ficar bem quietinhos, igual os gêmeos prometeram, podem entrar junto com seu pai.
__Eles prometeram para a senhora?- Parecia bem surpreso.- A senhora também fala com eles igual o papai?- Não tinha quem não se encantava com esse pequenino.
__Não. Na verdade eles prometeram para seu pai. E então? Temos um trato?- Os dois meninos responderam que sim. E foram todos ver Liv. Três dias depois, ela e seus gêmeos estavam em casa recebendo seus parentes e amigos com muita alegria.
Depois disso, na semana seguinte, todos os bebês resolveram quebrar o cronograma. Nasceram todos com diferença de dias uns dos outros. Dentro de duas semanas todos os bebês únicos nasceram. Uns adiantaram dias, outros semanas, mas todos estavam aí, saudáveis e fazendo seus pais babarem. O último a nascer foi Miguel, de Lú e Cisco, a cara de seu irmãozinho Mateus, inclusive os olhinhos cor de céu como os de Liv. Para o tempo determinado, apenas os trigêmeos de Alana e Rody e os gêmeos de Mari e Quincas que nasceram por último, Rafael e Gabriel. Gigio e Giu acabaram por construir mesmo o tal berçário nos fundos da Chácara das Flores. Rick brincava que tinham mais crianças em seu quintal, que no orfanato de Jorge. Os gêmeos de Mari eram iguaizinhos, a cara de Quincas, mas com lindo olhos verdes como a mãe. Ele que não tinha ninguém no mundo, agora tinha uma linda esposa e filhos que eram a sua cara. Sem contar todos os falcões, e seu sogro que considerava quase um pai. Cisco, que começou apenas como coadjuvante numa história de amor, vivia seu romance com a pequena bailarina intensamente, seus dois bebês com pouco mais de um ano de diferença de idade, provavam isso. E Rody estava nas nuvens. No dia que foi pegar Alana na faculdade, quase 7 anos antes, tinha feito todos os planos para pedi-la em casamento, mas foi surpreendido pela decisão dela de terminar o namoro. Pensou que seu mundo tinha deixado de existir. Implorou com ela nos braços que aquilo não fosse de verdade. Pediu a Deus por forças para deixa-la sair do carro naquele dia. Quando ela entrou com o Paulo na cozinha do restaurante, seu coração parou de bater. E parou de novo quando viu Antonio beija-la. E outra vez quando entrou no navio deixando seu amor para trás. E de novo quando ouviu Jorge dizer que ela ia se casar com Antonio. Quando achou que estava mesmo perdido, que seu pobre coração nunca mais fosse bater direito de novo, Alana correu para ele no jardim de Ben. Se jogou em seus braços e se fundiu em seu corpo dando-lhe vida novamente. O que faria sem essa mulher? Olhando seus filhos brincando no jardim da casinha azul, se sentia o homem mais feliz do universo. Seu Chinesinho tinha 3 anos agora, os trigêmeos tinham quase dois. Eram exatamente iguais, e idênticos ao pai com apenas uma diferença, todos tinham os olhos âmbar de Alana. Olhou por cima do muro baixo da frente da casa, um carro grande todo preto com os vidros escuros estava parado esperando um caminhão manobrar. O vidro desceu um pouco e Rody deu um pequeno sorriso ao reconhecer os cabelos compridos presos num rabo de cavalo. O homem virou o rosto por uns momentos fixando o olhar por trás dos óculos de sol no jardim. Ele também esboçou um pequeno sorriso. A cena não durou nem 2 minutos, mas Rody sabia quem estava vigiando seu pequeno chinesinho. Um pai que o amava tanto quanto ele. Os pequenos riam de algo, quando sua linda mãe saiu da casa trazendo garrafinhas de suco para eles. Eles amavam suco. E Alana amava cuidar de seus filhos. Quando notou que seu eterno namorado a observava, sorriu para ele e correu pelo gramado até seus braços, seguida por quatro menininhos que amavam seu pai com a mesma intensidade que Alana amava seu marido. Seus bebês não tinham problemas na audição e já sabiam falar várias palavras. Davi ensinava os trigêmeos com muita animação uma nova palavra quebra-cabeça, e ria das tentativas engraçadas de falar o nome do brinquedo que estavam montando. Daniel, o mais velho logo conseguiu, errou só uma vez. Samuel, o do meio errou mais, mas ria a cada tentativa, por fim conseguiu. Já Emanuel, preguiçoso nem tentava só ria junto com Davi.
__Muito bem. Então aprenderam o nome do brinquedo? Vamos falar para a mamãe e pedir que nos ensine em sinais?_ Os garotinhos sentaram na frente de Alana e disseram juntos. Alana fez os sinais devagar e repetiu até que eles conseguissem imita-la. Depois sorriu e bateu palmas felicitando os meninos. Os quatro sorriram juntos e depois de beijarem o rosto dela, correram para terminar a brincadeira.
__Viu o carro parado na rua ainda há pouco?_ Perguntou ela._ Era Shiro?
__Sim. Ele foi discreto como sempre.- Olhou sua amada.- Você está linda.- Beijou-a.- Alana, quero ter outro filho. Quero uma menina. Uma garotinha.- Alana sorriu.-
–Mesmo que eu engravide logo, não temos como ter certeza que será uma menina.
__Eu não disse engravidar.- Sorriu para ela. Alana amou esse homem ainda mais.
__Porque quer adotar outra criança?
__Porque sou muito carente.- Sorriu mais.- Quero ter uma menininha que olhe para mim como você olha para meu irmão. Como se eu fosse um príncipe um cavaleiro defensor. Não tem nenhuma garotinha chegando no orfanato? Não precisa ser bebe pode ser um pouco maior, não tem?
__Vamos precisar de outro quarto.
__Eu perguntei aos primos, eles disseram que a casa tem boa estrutura, mas se quisermos, podemos só fazer um quarto no sótão. Eles falaram que dá para fazer uma escada melhor de acesso e até um banheiro. Podemos ficar lá e deixar o quarto ao lado do dos meninos para ela. Que tal?
__Você falou com os primos?
__Sim. Eu perguntei também de uma casa na árvore. Eles falaram que a nossa é perfeita. Me deram alguns projetos. Eu pensei em fazer de presente para os meninos? O que acha?- Alana sorriu, abraçou seu lindo eterno namorado.
__O que mais você andou maquinando?
__Bem, pensei em fazer uma piscina, uma não muito grande para não estragar seu jardim. Mas uma para as crianças brincarem juntas quando estão aqui.
__Você é maravilhoso.- Beijou-o.- Vou colocar nossos nomes na lista para adoção. Preencherei os papéis, depois procurarei uma garotinha para você amar. Mas devo avisar que talvez demore um pouco, e que o quarto precisa estar pronto antes dela chegar.- Seis meses depois todas as reformas estavam prontas, casa na árvore, piscina no jardim, quarto do casal no sótão e um lindo quartinho de princesa rosa chá do lado do quarto azul dos meninos. Que a essa altura, com 4 e 3 anos dormiam todos em beliches modernas muito alegres e cheias de compartimentos para guardar seus pertences. Mas a linda princesinha ainda não tinha sido encontrada. Então o telefone tocou, era o número de Alex.
__Oi Alex, tudo bem?
__Rody, é Eliana, estou falando do telefone de Alex, ele está aqui no hospital comigo. Você já está no restaurante?
__Sim. Algum problema?
__Rody, aconteceu um tiroteio na estrada. A policia disse que devia ser uma disputa de território. Houve um acidente de carro. Algumas pessoas ficaram feridas, ninguém que conhecemos. Mas o acidente envolveu um carro de passeio de uma família que a policia acha ser inocente que passava no local. Toda família morreu exceto uma menininha. Ela foi salva por um dos bandidos antes dos bombeiros chegarem. Ele trouxe ela para o hospital ferida e desacordada, mas viva. Ele fugiu em seguida.
__Porque está me contando isso? Porque quero adotar, acha que posso vê-la? Se é isso talvez fosse melhor informar Diana e Jorge. Já ligou para Alana?
__Rody.- Disse falando mais baixo.- Escute, bem. A policia chegou aqui bem depois do cara. Ele estava no meio do tiroteio. Disse que a família era inimiga. Salvou a garotinha, mas não me parece um cara bom. Ele disse que ficou com pena da menininha quando o carro começou a pegar fogo. Quebrou o vidro e tirou ela. Ele me entregou ela no portão dos fundos, na entrada do pessoal do hospital. Estava escondido esperando eu chegar. Entregou ela para mim, para que eu entregasse ela para você Rody.
__Como era esse cara?
__Oriental, cabelos compridos, magro, alto, vestido de terno escuro. Falou seu nome e sabia que eramos parentes. Disse para entregar a menina para meu primo Rody. Disse para te dizer que a pequena não tem nenhuma conexão com Natsumi, mas teria a mesma vida dela. Disse que você entenderia. Eu não sei o que está acontecendo. Mas estou com medo, por isso chamei Alex primeiro. Estou falando com você com ele aqui do meu lado.
__Deixe-me falar com ele. E Eliana, não diga nada para ninguém por enquanto. Por favor? E obrigado, querida.- Alex pegou o telefone.
__Rody, você está com um problema. Como vai explicar sua ligação com essa criança? A menina tem 3 anos como os trigêmeos, não te conhece, precisará da ajuda de todos os falcões. O diretor do Hospital já mandou chamar Diana e Jorge. Eu já liguei para tia Dália, mas acho que seria bom você falar com Ben também. Mesmo que não queira adotar a garotinha, essa história pode chegar até você e seu filho. Mas acho que quando vir a pequena, bem…
__Porque? Você viu a menina?- Alex suspirou.
__Rody, pegue Alana e venha para cá. Vai me entender.- Rody ligou para Ben, contou tudo o que sabia. Ligou para Jorge e para Lia, por fim ligou para Alana e foi pega-la para irem ao hospital. Ben tinha aconselhado que Eliana se mantivesse neutra. Dizendo apenas que um estranho tinha lhe entregado uma criança ferida nos fundos do hospital. Que ela não reparara muito nele, porque se ateve a criança ferida. Jorge já tinha pedido para levar a menina para seu orfanato, e Dália já tinha conseguido que Alana fosse escalada como Assistente social do caso. Ela e Rody passaram na vara da infância para pegar os documentos do caso antes de chegar ao hospital. Lá foram informados que toda a família da menina havia morrido no carro. O pai, a mãe, um tio e um irmão bem mais velho. Pelo visto, não eram boa coisa. Os homens tinham uma tatuagem de uma cobra vermelha em posição de ataque que envolvia toda as costas. Eram orientais, mas a mãe não era. Ela era escandinava, pelo que se via nas fotos nos documentos encontrados eletronicamente. O carro e tudo o que tinha dentro foi carbonizado. Outros dois carros se envolveram na disputa. Outros mortos sem documentos, mas que foram identificados como membros de uma facção rival. A policia não entendia como a criança tinha vindo parar no hospital. Quando Eliana disse que um homem oriental a trouxe. Eles concluíram que algum comparsa dos pais dela trouxe a garota para o hospital. Quando Alana e Rody viram a menina no berçário dormindo com um bracinho e uma perninha enfaixados ficaram com muita dó. Ela tinha cabelos compridos, meio enrolados nas pontas, castanhos claros, parecidos aos de Alana. A pele era clarinha, e tinha um narizinho arrebitado. Era um menininha pequena,magrinha, talvez até descuidada. Não parecia em nada com Davi, nem era encorpada como os gêmeos. Enquanto a observavam ela abriu os olhinhos e então Rody entendeu porque Shiro disse para entrega-la a ele. Ela tinha olhos cor de uísque, como Alana. A garotinha que tinha muito pouco, quase nenhum traço oriental além da pequena boquinha, tinha cabelos castanhos e olhos âmbar, passaria tranquilamente como filha de Alana e irmã dos trigêmeos. Na verdade, olhando para ela, ela faria a transição entre Davi e os outros filhos do casal. A garotinha sorriu para Rody como se visse um príncipe.
__Olá pequenina.- Ele disse sorrindo.- Tudo bem com você?- Ela olhou em volta, pareceu um pouco assutada, sentou rápido.
__O anjo me salvou do fogo.- Disse muito séria.- Ele quebrou o vidro do carro. Foi pedacinho para todo lado. Ele disse para eu cobrir o olho. Eu obedeci. Minha mãe e meu pai estavam dormindo. Tio Okada, e Aiko não responderam. Tio Okada é chato mesmo, mas Aiko sempre brinca comigo. Então começou a ficar bem quente. O anjo tinha cabelos compridos, ele sorriu para mim. Ele falou que você ia cuidar de mim. Que ia me levar para uma casa com um jardim bem grande cheia de flores e de meninos.
__O anjo, falou de mim para você?- Ela balançou a cabecinha.-
__Sim. Ele disse que eu ia dormir num quarto branco com cheiro de álcool, mas que quando eu acordasse, eu ia ver você.- Olhou Alana.- E ela.- Sorriu. O policial achando tudo muito estranho perguntou.
__Querida. Você disse que um anjo de cabelo comprido te tirou do carro, trouxe para cá e disse que aqui você ia encontrar esse rapaz e essa moça?
__Sim. Ele disse que eu ia encontrar uma moça com os olhos da cor dos meus, e um rapaz muito grande, muito forte e muito bonito. Disse que ele ia sorrir para mim e eu saberia que ele era meu novo pai.- Baixou os olhinhos.- Meu pai é muito bravo, bate na minha mãe e mim o tempo todo. Na verdade bate no Aiko também, até no tio Okada. Eles brigam toda hora. A minha mãe chora muito. Ela também tem o olho igual o meu, mas o cabelo dela é bem loiro. Ela está sempre vermelha aqui.- Apontou o rosto em volta do olho. Os adultos se olharam.
__Senhor Rodolfo, você conhece essas pessoas?- Perguntou o policial.
__Senhor, eu não conheço nenhum deles. Nem essa coisinha linda.- Olhou a menina.- Como é seu nome meu amor?
__Mel.
__Ela se chama Melissa Okada.- Disse o policial.- É filha de Hiroshi e Malena Okada. Hiroshi foi iniciado na Yakuza, depois migrou para outra facção. Tinha um negócio próprio com o irmão Ito Okada. A mulher era escocesa, nas indas e vindas da vida veio parar aqui. Hiroshi tinha um filho mais velho, de outro relacionamento, Aiko. Dizem que na verdade a menina..- Olhou Mel.- Era dele e não do Hiroshi.- Um clima se instalou no quarto. Alana distraia a menina, mas entendeu tudo o que disseram. – Seja como for, alguém da “família” dele trouxe a menina. Até aí, tudo bem. Embora eles não costumem demonstrar tanta compaixão. Mas porque disse que o senhor estaria aqui e levaria a garota para morar com o senhor?
__Senhor, eu não sei nada dessa história. Meu primo Alex Vogelmamn ligou para mim. Contou sobre o acidente e de uma garotinha que tinha ficado órfã, eu e e minha esposa estamos querendo uma menininha para nossa família. Todos os meus parentes sabem. Minha prima Eliana, a médica que recebeu a menina, também. Coincidentemente, Alana foi escalada para o caso. Nos falamos e ela me chamou para vir com ela conhecer a menina. Minha família é conhecida, pode ser que essa nossa intenção tenha chegado aos ouvidos desse rapaz que trouxe Mel. Nós já adotamos uma criança em situação de risco daqui deste hospital. Inclusive um oriental. Meu filho Davi vive feliz com nossos outros 3 filhos num quintal grande cheio de flores. Temos muros baixos. Talvez o rapaz tenha visto em algum momento. Talvez seja um parente do meu filho, quem sabe? Eu não sei. Talvez até Mel seja uma parente de Davi. Essas pessoas destas “famílias” como o senhor disse, não costumam ser muito preocupada com suas crianças, pelo que sei até deixam as meninas morrerem, não é? Mas talvez ele tenha ficado com dó. Tenha pensado que ela poderia ter uma família de verdade, já que todos os seus morreram, ela não faz mais parte deste círculo. – Olhou Alana que sorria brincando com Mel.- Talvez, para não assustar Mel, ele tenha dito que ela encontraria um homem grande e forte que pudesse protege-la e uma mulher doce com os olhos iguais aos da mãe dela. Quem sabe, esse tal de Aiko, que ela pensa ser o irmão, mas na verdade é o pai dela, não morreu no carro. Talvez ele tenha tirado ela de lá.
__O senhor acha que ela poderia ter se confundido?- Disse o policial meio perdido.
__Ela é muito pequena. Estava assustada. Encontraram quantos corpos?
__Estava tudo muito queimado, serão necessários exames mais profundos.
__Sabe, senhor.- Disse Jorge.- Meu irmão tem razão. Mel é muito pequena. Pode ter se confundido. Talvez esse pai-irmão tenha salvado ela. Talvez tenha trazido ela para o hospital e morrido depois. Os rivais estavam atrás dele. Ele deixou a criança aqui e fugiu. Eliana não teve tempo de examina-lo nem nada. Ele poderia estar bem ferido. Talvez por isso não ficou com a criança. Se não foi esse Aiko, foi alguém ligado a ele. Provavelmente, ou já foi morto, ou está muito ferido por aí. Mas Mel, com tudo o que aconteceu, estava assustada de mais para reconhece-lo.
__Isso é bem comum nessa idade.- Disse Diana.- Se ela for adotada por uma boa família e bem cuidada, provavelmente, não se lembrará de nada do que houve hoje. Talvez até esqueça dos acontecimento de antes de sua nova família.- Olhou Rody.- Alana foi escalada para o caso?- Ele assentiu.- E você, se interessou pela adoção? Se for assim, ela terá que deixar o caso. Me ofereço para assumir no lugar dela.- O policial e seus subordinados ficaram ali vendo a família Medeiros em ação. Poucos dias depois Mel estava dormindo no seu quarto de princesa, vestindo roupas de princesa, correndo em seu quintal cheio de flores e de meninos. Mel falava sem parar, e ria, encantando seus irmãozinhos, sua mãe surda e seu pai príncipe. Ela amava a casa na árvore e a piscina. Amava a escola cheia de primos. Amava vovó Aline e seus olhos cor de uísque. Para Alice, era como ter Alana pequena outra vez. Logo a garotinha magrinha tomou formas saudáveis e coradas. Um dia estavam na Chácara das Flores e Mel entrou no meio da cozinha familiar puxando um homem pela mão. Todos os Medeiros o olharam ressabiados e o homem também os olhou desconsertado.
__Venha! Eu quero mostrar você para meu pai.- Mel dizia sorridente cheia de amor. Ela parou na frente de Rody.- Papai! Esse é o anjo que lhe falei. Foi ele que me salvou do fogo. Eu disse que ele era de verdade. Disse que ele é a cara do Davi, não disse?
__Eu não tenho o cabelo desse tamanho.- Disse Davi todo petulante. Apertou os olhinhos.- Está certo ele tem os olhos parecidos com os meus.- Rody e Shiro se olharam. Shiro parecia dizer que não teve como fugir dela sem assusta-la. Parecia pedir desculpas, mas quando olhou Davi seus olhos brilharam. Logo os outros pequenos se aproximaram.
__O senhor salvou Mel?- Perguntou Daniel.- Ela fala sempre disso.
__Verdade.- Disse Emanuel.- Ela acha que tem um anjo da guarda. Além do papai, claro.
__As meninas inventam cada coisa.- Disse Samuel rindo.
__Eu não inventei nada.- Disse brava.
__O que é isso de meninas inventarem as coisas?- Disse Anelise, muito brava.
__Ei.- Disse Shiro.- Não precisam ficar nervosas. Eles estão brincando.- Se abaixou, olhou nos olhos dela.- Mel, infelizmente não sou um anjo de verdade, mas sempre fui e sempre serei um guardião, seu..- Olhou os gêmeos e Davi.- E de seus irmãos.- Suspirou, olhou as outras crianças curiosas.- E de seus primos também. Sim, tirei você do carro aquele dia. Não foi invenção.- Disse olhando as crianças.- E disse que você encontraria outros guardiões. E uma família. Você está feliz?
__Sim! – Disse abraçando Shiro. Ele sorriu. Então Davi também o abraçou encobrindo o corpo de Mel e passando os bracinhos no pescoço de Shiro.
__Obrigado por salvar nossa irmã.- Em seguida os trigêmeos e as outras crianças se juntaram ao abraço.
__Chega crianças.- Disse Rody rindo.- Vão amassa-lo.- Elas foram soltando aos poucos.
__Eu preciso ir.- Disse olhando Mel e Davi. O coração de Shiro batia como nunca tinha batido antes. Pegou os dois no colo.- Preciso pedir um favor. Eu gosto muito de ver e visitar vocês, mas eu não posso ser visto perto de vocês. O meu trabalho é muito perigoso, as pessoas que eu amo, correm risco de vida. Por isso preciso que se vocês me virem na rua, ou em outro lugar, façam de conta que não me conhecem. Tudo bem?
__Sei.- Disse Davi.- Que nem os espiões do meu jogo?
__Exato, filho. Você é muito esperto. Igual aos espiões.
__Mas a gente nunca vai poder falar com você?- Perguntou Mel.
__Quando precisarem falar comigo, peçam para seu pai. Ele sabe como e onde me encontrar. Mas não pode ser toda hora, tem que ser importante.
__Mas e se a gente ficar com saudade?- Perguntou Davi olhando nos olhos de seu pai. Shiro travou o maxilar. Todos os falcões puderam ver o quanto ele amava aquele menino, o filho da mulher que sempre amou. Entenderam porque apesar de todos os motivos, Rody não tinha medo dele.
__Eu sei que é ruim ficar com saudade. Mas as vezes é preciso. E …- Davi deitou a cabecinha no ombro dele.
__Porque sempre usa essa roupa?- Disse simplesmente.
__O que?
__Mel disse que estava com uma roupa igual a do tio Ben, quando tirou ela do carro. Tio Ben usa essas roupas no trabalho, mas quando ele está com a gente aqui, ou nos outros lugares não. Eu já te vi antes, em outras vezes e você sempre estava vestido assim, e com esse cabelo.- Pegou o cabelo dele, sorriu.- É bastante.
__Não gosta do meu cabelo?
__Eu gosto!- Disse Mel.
__Eu gosto. Mas deve dar calor na cabeça.- Shiro riu. Olhou Rody.- Obrigado.- Alana tomou-lhe a frente. Disse com sua voz abafada.
__Não. Nós agradecemos você. Sem você, não teríamos essas coisas maravilhosas. Muito obrigada. Por salvar Mel, por traze-la para nós. – Olhou Davi. – Davi, quer deixar seu cabelo crescer como do nosso amigo espião?
__Não mamãe, é muito quente e pesado. Só quando eu for grande que nem ele.- sorriu para seu pai e fez Shiro se derreter novamente.
__Tem razão meu pequeno samurai.- Olhou Mel.- Eu preciso ir minha linda Sakurá. Temos um acordo? Vai fingir que não sabe quem sou, como os espiões de Davi?
__Sim.
__Nós também podemos fazer parte do jogo?- Perguntou Emanuel.- A gente também sabe fingir, jogamos muito bem?- Disse compartilhando com seus irmãos e primos.
__Verdade. Eles sabem mesmo.- Nem parecem tão pequenos.- Disse Libe.
__A culpa é sua, ensina tudo para eles.- Disse Marco.
__Ok.- Disse Shiro.- Todos vocês podem jogar, ninguém me conhece, nem nunca me viram.
__Certo. Mas todo mundo sabe que você é o anjo que me salvou.
__E meu outro pai.- Disse Davi. Shiro olhou o garoto espantado e depois Rody.
__Shiro, ele é a sua cara. Na primeira vez que viu seu rosto em algum lugar, eu já não tinha como esconder. Mas ele sabe que você não pode aparecer. E já ensinou os irmãos.
__Só Mel que não aprendeu ainda. Foi até te buscar.- Disse explicando a atitude da irmã para Shiro, com cara de desaprovação.
__Mas eu queria mostrar você para meu pai. Não vou mais te buscar. Agora vou ser espiã também. Prometo.- Shiro teve que rir. Desceu as duas crianças, ganhou beijo de todos os falcõezinhos antes que eles corressem para brincar no jardim. Shiro voltou para Rick e Beto.
__Por favor me desculpem, senhores. Eu não tinha a intenção de causar nenhum problema ou transtorno. Prometo não permitir que isso aconteça de novo.- Olhou Rody e Alana.- Muito obrigado. Meu filho teve chance de ser feliz graças a vocês. Quando vi a menina no carro daqueles…- Olhou as pessoas em volta.- Enfim ela não teve chance de ter uma família de verdade. Pensei que poderia ter sido igual com Davi. Então ela me olhou com aqueles olhos iguais aos seus.- Olhou Alana e sorriu.- Achei que era um tipo de sinal. Não se engane, não sou uma pessoa boa, mas amo meu filho, como jamais amei nada, nem a mãe dele por quem fui louco, eu amei como amo esse menino. Sei que cuidam dele com o mesmo amor que cuidam dos seus gêmeos, não sabia que estavam mesmo procurando adotar uma menina, mas ela é tão doce, tão sonhadora, tão Medeiros.- Sorriu.- Achei que gostariam do presente. Pelo visto, não me enganei.
__Não. Você acertou, Shiro.- Disse Rody.- E não concordo. Você é um mafioso, mas não é totalmente mau. Ama seu filho. – Eles se encararam. Alex se aproximou.
__Shiro. Vou te dar uma coisa. Preste muita atenção. Não vou dar nada mais além disso, nem ensinarei a reproduzir isso sob hipótese alguma. Se algum dia isso for encontrado pela polícia ou qualquer outra força, seus inimigos, ou sei lá mais o que, você dirá que roubou e que não sabe como usar. Estamos entendidos?
__Do que está falando Vogelmamn?- Alex estendeu uma caixinha de chip.
__Coloque em uma linha segura, limpa, no lugar do segundo chip. Ele vai monitorar as pulseiras de Davi e Mel. As pulseiras são rastreadores. Assim que colocar o chip, ele emitirá uma luz pequena azul no canto do celular. Quando clicar nela, vão aparecer os batimentos cardíacos deles e a localização dos dois. Se achar que algo está estranho clique na opção encontrar, o satélite vai encontra-los. Poderá vê-los por alguns segundos enquanto o satélite não se move, sem ser percebido pelos programadores de comunicação. Mas não pode demorar muito, porque a cada minuto é necessário uma nova busca, e o sistema vai ser reconhecido.
__É assim que você consegue encontrar todos eles? Assim que os…
__Não falo sobre meus clientes, nem meus negócios. Estou te dando isso, para que possa saber do seu filho e de Mel, sem corrermos mais nenhum risco. Configurei o telefone de Rody para não ser rastreado pela polícia e nem seus prováveis inimigos. Entendo sua dor e sua preocupação com seu filho, mas suas aparições poem em risco toda a nossa família. Sei que Rody confia em você, achei fabuloso o que fez por Mel, mas seu estilo de vida ameaça os falcões.
__Alex!- Disse Rody.
__Escute!- Continuou Alex.- Não te quero mau. E quero muito bem a Davi e a Mel. Mas conheço seu mundo. Eles não vão deixa-lo em paz. Nem seus irmãos, nem seus inimigos. Os outros Samurais estão procurando o Naja que tirou a filha de Hiroshi Okada do carro em chamas. Os samurais não entendem como isso pode ter acontecido, visto que eles mataram todos os najas que estavam lá aquele dia. Não desconfiam de você, porque você é um líder temido. Mas podem mudar de ideia.
__Você está vigiando os samurais?
__Não. Esse não é meu trabalho. Mas tem gente na polícia de olho em vocês. Gente honesta, mas também gente corrupta, disposta a tudo por mais dinheiro. Não quero meus sobrinhos no meio desta confusão. O chip é seu, mas se num momento eu descobrir que você está usando essa tecnologia para coisas incorretas, desvio seu sinal. Vai perder a melhor chance que tem de saber como está o coração de seu filho todos os dias, todo o tempo. O único jeito de encontra-lo no mesmo instante que algo ruim estiver acontecendo com ele. Criei esse dispositivo para defender minha mãe de mafiosos exatamente iguais a você e sua família. Eu tinha pavor que eles a machucassem de novo. Se você ama mesmo seu filho, como parece amar, vai entender o que quero dizer. – Shiro, olhou profundamente nos olhos verdes de Alex.
__O senhor é muito corajoso, Alex Vogelmamn. Está desafiando um Samurai da Yakuzá.
__Não estou desafiando. Estou te fazendo um favor. Vou continuar protegendo seu filho de toda essa maldade, e agora vou ajudar você a fazer isso mais eficientemente também. Você não vai mais correr o risco de ser pego perto dele desnecessariamente. Não vai mais correr o risco das crianças correrem para você como fizeram ainda a pouco, nem de Mel agarra-lo para traze-lo para junto deles, obrigando você a ser rude com ela. Configurei o celular do Rody, como já disse. Ele pode falar com você sem problemas e você também pode falar com ele. Todas as suas ligações serão apagadas assim que terminarem. Estou trabalhando para proteger minha família, o que inclui Mel e Davi. Vou protege-los até de você, se for preciso.- Shiro olhou em volta e sentiu que todos os falcões mudaram de posição. Todos estavam prontos para defender Alex, e estavam dispostos a proteger a família exatamente como ele.
__Shiro.- Disse Lia.- Alex não está desafiando você. Está apenas protegendo Davi. O que você fez salvando Mel foi lindo, mas expôs Rody. Lógico que Eliana nunca vai delatar você, mas a polícia está procurando o homem que deixou a menina no hospital. E Mel falou que você disse que ela encontraria Rody lá. Sim, conseguimos engana-los por enquanto. Mas pode haver alguma conexão da polícia com seus inimigos, ou com seus amigos, e Rody estaria na berlinda. Basta olhar Davi para saber que ele é seu. Até Mel reconheceu você nele quando o viu pela primeira vez. Disse que ele era filho do anjo.- Sorriu.- Precisa manter distancia. Mais distancia. Eu poderia te dar uma lição de moral, dizer para você deixar esse mundo de violência e tudo mais. Sei que você ouviria meu discurso, os orientais respeitam os mais velhos. Mas na sua posição, acredito que isso seria perca de tempo. Pelo que Rody nos disse, você tentou salvar sua noiva, e depois salvou seu filho, agora salvou Mel desta vida obscura. Então, aproveite a ajuda de Alex, você terá acesso a todos os passos de seu filho, mas estará longe, protegendo ele. Quando for possível que o veja pessoalmente, Rody vai avisa-lo. Se um dia você conseguir se livrar do seu passado, seu filho estará aqui. Bem cuidado, amado e feliz.
__Shiro. – Disse Rody.- Sei que não queria aparecer assim. Mas as crianças são muito espertas. Farão de novo o que fizeram hoje, e você vai nos expor outra vez. Ainda são muito pequenos, não posso dizer a
eles que….- Se calou e Shiro sorriu.
__Que sou um bandido? Um mafioso? Um assassino?
__Desculpe, Shiro.- Disse Rody.- Mas é isso mesmo. Vou explicar aos meus filhos que esse seu mundo existe, mas eles vão crescer primeiro.
__Shiro.- Disse Ben.- Somos uma família da lei. Temos juízes, advogados, delgados, todos neste recinto. Sabemos o que você fez de bom, ficamos contentes pelas crianças, mas não podemos admitir suas práticas aqui. Seu ofício é condenado pelos nossos princípios. Não queremos esse mundo perto de nossas crianças. Você também não o quer perto das suas. Por isso deixou Rody adotar Davi e trouxe Mel para ele agora. Não pode rondar mais a casa de Rody e nem as crianças. Elas vão achar que é brincadeira, e logo chegarão até você. O rastreador de Alex é muito eficiente, vai ajuda-lo. Confie em Alex, ele sabe o que está fazendo.
__Pelo que vejo, não sou bem vindo aqui.- Disse Shiro.
__Shiro.- Disse Alana pegando as mãos dele.- É sempre bem vindo. Trouxe alegria para minha vida. Mas eles estão tentando proteger as crianças das pessoas que podem machuca-los para se vingar de você. Você não pode nos dizer quem são essas pessoas, não é? Deve ser contra seus votos, ou algo parecido, certo? Então, não sabemos quem pode querer ferir Davi, ou Mel, sendo assim, o único jeito é você se afastar deles. Mesmo assim, eles correm risco, porque os inimigos das famílias deles sabem onde eles estão. Mas aí entra em ação os falcões. Todos os inimigos das famílias de Davi e de Mel, conhecem o poder dos falcões. Normalmente, não querem enfrenta-los. Todos sabem que os falcões são uma família que vive dentro da lei. Não são mafiosos, mas são uma família muito unida que luta junto. Davi será tão protegido quanto qualquer outro falcãozinho. E Mel também. Vai em paz. Davi nunca vai esquecer você, e Mel também não. – Ela pensou. Olhou Alex.- Pode me fazer um favor? Um bem grande?- Alex olhou Rody, depois Shiro, suspirou.
__O que quer?
__Quero que configure um aparelho para mim. Como fez com o de Rody. Mel e Davi vão usa-lo uma vez por semana para falar com Shiro. Chamadas de vídeo que serão totalmente apagadas logo depois que acabarem. Por favor, Alex? Assim Shiro pode ver as crianças e ficar longe, por enquanto.
__Você pode fazer isso?- Disse Shiro. – Enganar até a telefonia, os satélites?
__Alex pode fazer qualquer coisa.- Disse Alana.- Ele é um gênio.- Sorriu para Alex e ele sorriu de volta.- Por favor, Alex?- Alex olhou Shiro.
__Se fizer isso, não vai mais chegar perto das crianças? Pelo menos até encontrarmos outra solução?
__Como vai fazer isso? Eu não sou um leigo, conheço esse ramo. Isso não pode ser feito. As imagens ficam registradas na central nas chamadas de vídeo. As vezes por pouco tempo, mas ficam.- Disse Shiro.
__Vai ficar longe das crianças?
__Eu vou ficar. Já ia ficar. Entendo tudo o que disseram. Eu melhor que ninguém. Hoje foi um pequeno descuido, que não ocorrerá mais.- Disse.
__Certo.- Disse Alex.- Me dê seu celular Alana.- Ela o fez. Ele abriu, com poucos toques dentro dele com uma pinça que tinha no chaveiro, fechou e teclou na tela configurando um número com senha. Devolveu para ela dizendo.- Pronto. A ligação só pode ser feita as segundas-feiras as 19:45 e deve durar no máximo até as 20:00 horas. A senha é sakura. Toda a ligação após as 20:00 volta ao normal e será gravada na central normalmente.- Olhou Shiro.- Esteja em condições de receber a chamada, se não for possível, avise Alana antes. Não quero saber de entrarem ao vivo no meio de um tiroteio. E não quero mais você rondando as crianças. Lembre-se, deu sua palavra, é um samurai, certo?- Shiro ficou olhando sem acreditar. Alana sorriu.
__Eu disse que ele é um gênio. Ligo para você segunda. Davi e Mel falarão com você, juro. Vou tentar controlar os gêmeos para que deixem Davi um pouco sozinho com você, tá? Agora, vá. E obrigada, de novo, por trazer Mel.- Alana beijou o rosto dele. Ele deu dois passos na direção da saída, voltou-se para Alex, foi até ele e o abraçou.
__Obrigado. Pelo rastreador e pelas chamadas de vídeo. Não deixarei que ninguém encontre. Sou um samurai, mas estou jurando como um falcão. Não chegarei mais perto das crianças.- Caminhou para fora com muita pressa. Deixando um silêncio no meio dos falcões.
__Pois é!- Disse Vincenzo.- E Alex arrasa de novo.- Gargalharam. -Verdade. Quando você pensa que acabaram as novidades, ele faz um gangester chorar com seu rastreador.Quincas tem razão, ele é um icone.-Mais risadas.
–Pare de zoar meu marido.-Disse Clara. Mel veio correndo e gritando alegremente.
__Papai! Papai!- Estancou.- Ué? Cadê o anjo?
__Ele já foi.- Respondeu Rody pegando a pequena no colo.
__Mel!- Disse Emanuel sério.- Não pode ficar perguntando dele assim. Esqueceu que somos espiões?
__É mesmo.- Disse concordando.- É por isso que ele sempre some.- Olhou Rody.- Papai, Calebe disse que você morava aqui quando era do nosso tamanho, e que as fotos lá no corredor, são suas e não do Caio, é verdade? Você morava aqui?
__Sim, amor. Eu morava com minha mãe e meu pai, e com meus irmãos também.- A garotinha olhou Rick e Lia, depois Liv e Jorge.-
__Eu vi uma foto do Caio comigo lá nas flores, mas Calebe disse que é você e a mamãe. Ela também morava aqui?- Rody sorriu.
__Não. A mamãe morava com a mãe dela.- Apontou Alice.- E com Jorge, lá na casa colorida que você gostou.
__Sei. Perto da casa de crianças.
__Isso mesmo. Mas nos sempre brincávamos juntos igual você e seus primos.
__Quantos anos você tinha quando você casou com ela?
__26 anos.- Ela contou nos dedinhos.
__Ah! Não sei contar tudo isso. Vou ter que esperar muito então?
__Para que?
__Para me casar com Caio.- Todos riram.
__Porque vai se casar com Caio?- Perguntou Davi.
__Porque não posso me casar com você ou com gêmeos, são meus irmãos. Mas Caio é primo, primo pode.
__Quem disse isso?- Perguntou Samuel.
__Calebe.- Todos olharam o primo mais velho. O lindo falcãozinho de olhos cor de esmeralda, de 9 anos explicou.
__É verdade. Mamãe e papai são primos, Lú e Cisco também. Primos podem casar, mas precisam crescer primeiro. Crianças não podem casar, são só amigos. Quando crescem podem namorar, e ficar noivos e depois casar, igual as meninas.- Apontou suas irmãs.- E Rody e Alana. Só que Rody já era apaixonado por Alana desde pequeno. Igual o papai já era apaixonado por mamãe. Papai disse que isso é difícil, mas as vezes acontece. Ai os amigos se casam.
__Eu fui no casamento de Rody, e no das minhas irmãs.- Disse Caio. Vários outros falcõezinhos, os mais velhos, começaram a dizer que também tinham ido e o que tinham visto.
__Eu não lembro de nada.- Disse Anelise.- Tem fotos comigo no colo do papai levando uma lanterna, mas eu não lembro. Era muito pequena.- Ela esticou a palavra fazendo todos rirem.
__Eu nunca fui num casamento.- Disse Mel.
__Podemos brincar de casar!- Disse Anelise.- Assim, você casa com todos eles, um de cada vez, e vê se gosta mesmo de casar com Caio.
__Sim!- Disse já descendo do colo do pai.
__Ei!- Insistiu Davi.- Ainda não explicou porque quer casar com Caio!- Ela nem o ouviu, saiu correndo com suas primas do coração, Anelise e Betinha, e no encalço delas, uma tropa de meninos. Caio antes de correr atrás delas disse:
__Ela quer casar comigo, porque eu pedi para ela, bobo.- Saiu rindo como sempre fazia. Calebe chegou perto do priminho chinesinho, tocou seu ombro compassivo e disse:
__Não se preocupe. Ela ainda é muito pequena. Agora só quer casar com Caio porque viu a foto do Rody e da Alana juntos.- O chinesinho riu.
__Essa Mel é meio maluca. Brincar de casar? Que negócio mais esquisito! – Correu para junto dos outros. Rody olhou Calebe, depois Ben e enfim Jorge.
__Pelo visto já temos um falcão herdeiro, do nosso tipo de amor.
__Que tipo?- Perguntou Quincas.
__O tipo que ama uma mulher desde que ela é uma menina.- Disse Rody.
__Capaz de enfrentar a distancia, por ela.- Disse Ben, olhando Liv.
__Disposto a deixa-la com outro, se for da vontade dela.- Disse Jorge abraçando Alice.
__Estas mulheres sempre tem olhos de cor incomum.- Disse Lia.- As vezes âmbar, as vezes gelo.- Disse olhando sua filha e suas noras. Sorriu, olhou seu neto.- Ainda bem que você é tão lindo e tão forte quanto seu pai.- Piscou para o ruivinho. O pequeno sorriu lindamente para sua avó.
__Na verdade, vovó, ainda bem que tenho todos vocês.- Ergueu o queixo e disse:- Ainda bem que sou um falcão.

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O namorado

Capitulo 14
Davi começava a dar os primeiros passos. Os cabelos negros lisos e brilhantes, a pele clara e vistosa, o sorriso constante na boquinha pequena e os olhos negros orientais muito graciosos encantavam a todos. Agora já tinha pouco mais de um ano, em nada se parecia com o bebê magrinho na incubadora. Era rechonchudo, com dobrinhas por todo lado. Tentava correr atrás de seus primos todo contente. Era o famoso almoço de família. Todos falcões reunidos na casa de Lú e Cisco, e de Mateus, o lindo bebê de cabelos negros e olhos cor céu deles. Todos estavas muito contentes de estar juntos, essa era uma característica deles, a felicidade de compartilhar em família suas alegrias. Não tinha sido um ano fácil. Sim teve o reencontro de Rody e Alana, os eternos namorados, o encontro de Cisco e Lú os namorados inesperados, e a constatação de Mari e Quincas o namorado escondido. O casamento triplo entraria para a história dos Medeiros. Teve o nascimento de Mateus, o apaixonamento por Davi, a formatura de Cisco, Marcelo, de Laila e Elis, a pós graduação de Quincas. Rick recebeu um Pulitzer. Dália uma condecoração. As empresas lucraram, os primos italianos tiveram sucesso em suas vendas. A academia de dança teve que abrir uma lista de espera. A Companhia fez muito sucesso com o espetáculo. Embora sofrera duas baixas importantes. Primeiro Lú com a licença maternidade, depois Elis que resolveu tentar a vida nos Estados Unidos. Os problemas não se limitaram a uma bailarina faltando, mas isso explicava bem a alegria de todos quando Lú pode retornar aos palcos. Alana também enfrentou uma rotina pesada. Levar o pequeno chinesinho para o orfanato com ela todos os dias. Amamenta-lo e cuidar das necessidades dele e dar conta de seu trabalho seriamente, não foi fácil. Ficou comprovado que ele tinha uma perda severa da audição do ouvido esquerdo, e um uns 40% do direito. Segundo os médicos o som grave era melhor identificado no aparelho auditivo dele. Isso explicava ele reconhecer a voz de Rody. O tom profundo do som dela ajudava ele a compreende-la. Ele precisou passar por uma cirurgia, logo depois outra. Foi uma dificuldade a mais. Mas foi muito bom para o fofucho. Teve também denúncia falsa de assédio contra a Prestes de Medeiros, Ruivo precisou acionar a justiça. Venceu. Mas foi complicado. Teve o início de desfalque que Quincas descobriu e várias outras batalhas pessoais que todos os falcões enfrentaram. Mas de tudo o que passaram a derrota mais triste que sofreram, sem dúvida desenhou-se com o falecimento do doce professor Carlos Carvalho, o pai de Nina e Alice. Ele vinha com problemas cardíacos há muitos anos, numa noite enquanto todos dormiam seu generoso coração parou de vez. Todos sofreram muito. As filhas, a esposa, os netos, Lia, mas para Rodolfo Medeiros, o velho falcão foi muito doloroso enterrar o amigo de toda a vida. O idoso patriarca sentiu o peso dos anos, e naquele dia triste, fez questão de revisar seu testamento e partilhar seus bens em doações em vida para seus herdeiros. Dividiu toda a sua fortuna. Ninguém foi prejudicado, mas fez questão de doações para as escolas, o orfanato, para um fundo de ajuda humanitária para pessoas com esquizofrenia. Fez de Quincas, Sofia, Ritinha seus herdeiros também. Formalizou um único pedido, se morresse primeiro, que sua esposa amada fosse enterrada ao seu lado. Toda aquela situação deixou todos profundamente mexidos. Vovó Elisa estava com os pulmões fracos. Eles compartilhavam a mesma idade,96 anos. Tudo indicava que ela não conseguiria resistir por muito tempo mais. A linda escritora sorridente se tornou um idosinha muito simpática, mas agora ela parecia cansada. O velho falcão não saia do lado dela nem um segundo. O que vinha mostrar que ele não resistiria a vida sem ela. E foi exatamente assim. Provando que todas as histórias contadas pelos falcões eram verdadeiras. Quando Jorge ligou do hospital para Rody para avisar do falecimento de sua avó, ele disse:
__Meu querido irmãozinho. Agora temos somente um Rodolfo entre os falcões.
Não foi preciso explicar nada mais. Dona Elisa Medeiros havia falecido de problemas respiratórios e seu amado marido, o poderoso Rodolfo Medeiros, empresário conhecido como o grande falcão, não resistira a perda de sua amada. Seu coração parou exatos 2 minutos depois do dela. Viram juntos seus filhos se apaixonarem, se casarem, terem seus filhos, viu o mesmo com seus netos e com alguns bisnetos. Viu Rody com Davi e viu Cisco e com o pequeno Mateus, que ele escolheu o nome, porque disse que era um presente de Deus ter visto nascer aquela criança. O pequenino Mateus, não dado a muitos sorrisos, deu um glorioso a seu patriarca bondoso na última vez que o viu com vida. Isso fazia 3 meses. Enfrentaram toda a tempestade de perder seus pilastres, mas continuaram firmes. Estes eram os falcões. Mesmo Rick, o escritor esquizofrênico, inteligente e perceptivo, com o coração frágil diante da dor, mostrou a força dos Medeiros diante das adversidades. O que deveria ter devastado essa família, a uniu ainda mais. Jorge buscou Aline, mãe de Alice para morar em sua casa no dia seguinte ao funeral do professor. Beto, comprou a casa ao lado da casa de Rick. Uma propriedade grande com 3 piscinas. Beto sempre teve horror de piscina desde menino por causa de um acidente que sofrera levando a primeira crise de seu irmão. Mas assim que seus pais faleceram, ele foi atrás do dono do imóvel pessoalmente, ofereceu um valor irrecusável. Disse que moraria ao lado de seu único irmão a qualquer custo. Rick mandou derrubar o muro e a propriedade passou a ser uma chácara. A chácara das flores, como Nina chamava. Agora a família almoçava junta duas vezes no mês. O primeiro e o terceiro domingo. No terceiro obedecendo o antigo rodízio. O primeiro domingo era mais como ir dormir na casa da vovó. As crianças chegavam na sexta á noite na Chácara das Flores, e ficavam até o fim do domingo. Os adultos que podiam vinham no sábado de acordo com seus horários, mas todos dormiam na casa de Rick e na Beto. Os primos italianos construíram uma cozinha gourmet entre as duas propriedades, os almoços eram maravilhosos. Rick, que sempre se esquivou da empresa, passou a exercer um cargo no conselho, indo trabalhar lá duas vezes por semana. Não deixou de continuar a trabalhar na escola de artes e nem no orfanato e nem no conselho da Prestes de Medeiros, mas passou a escrever apenas no fim de semana e nas horas livres, como Lia fazia com suas flores. Enquanto ela cuidava do jardim, ele se sentava perto dela em uma das cadeiras do jardim e escrevia. Passou também a fazer aulas de dança com Nina, como quando eram jovens, fez questão que seu irmão fizesse parte da classe. Lia se divertia com eles, e Beto era sempre obediente embora preferisse seus halteres. Os Outros Medeiros também se esforçaram para unir a família. Vincenzo deixou seu emprego de anos no Aimê, com Sylvie seu chefe e amigo, para trabalhar no Medeiros com Clara e Rody. Fez questão mesmo antes de saber que Rodolfo tinha feito de Sofia sua esposa, herdeira dele. Ele já se considerava parte dos falcões, mas chorou muito quando Ben avisou o casal sobre seus direitos. Ritinha também se emocionou muito, o velho falcão sempre foi seu avô, era o único que ela conheceu assim. Mas ninguém ficou mais surpreso que Quincas. O senhor Rodolfo Medeiros tinha assumido a paternidade dele. Uma adoção estava em andamento quando ele faleceu e mesmo antes do processo ter sido apresentado as autoridades, Quincas já fazia parte dos herdeiro do empresário. Vovô Rodolfo deixou sua cobertura para ele, escriturada como doação.
__Porque ele deixou a casa dele para mim?- Disse entre soluços para Ben.
__Porque ele quis.- Disse Ben também emocionado.- E porque ele sabia que nenhum dos outros Medeiros conseguiria morar lá. Temos muitas lembranças. Precisamos de tempo para termos só saudade boa de lá. Você pode tomar conta da casa como quiser, alugar, e se depois quando sua família aumentar se quiser morar lá também, vai ser bom. Mas se dependesse de nós, talvez até vendêssemos. Ele sabia. Mas ele não queria que a casa onde ele foi tão feliz, fosse vendida. Você com certeza era a pessoa certa. Ele deixou ações e outros bens para você e Mari, mas a casa não deve ser vendida.- Quincas olhou para Mari.
__Vamos cuidar da casa. Eu juro. Mas não vou morar lá. Quero que seja um espaço para crianças. Uma escola para crianças com Dislexia. E outros distúrbios de aprendizagem. O senhor pode me ajudar a conseguir isso?- Perguntou a Ben que agora já chorava.
__Claro, meu menino grande. Faremos isso, uma escola. – Abraçou seu genro.- Ruivo vai nos ajudar, não é Ruivo?- Ruivo nem falava, só chorava e balançava a cabeça.
E assim os dias começaram a passar cada vez mais rápido e a alegria começou a voltar aqueles belos rostos. Enquanto a manada de meninos brincava em volta da piscina de Cisco, a única pequena Bombom, ou Anelise, a menina do Ruivo e de Diana, tentava muito emburrada com a chatice dos meninos, acompanha-los, o pequeno Davi queria por toda lei chegar até seus primos barulhentos perto da água.
__Nem pensar chinesinho.- Disse Rody rindo.- Pergunte ao tio Beto como piscinas são perigosas?- E riu mais.
__Não seja malvado com o menino!- Gritou Cisco de dentro da água, com seu bebê no colo.- Entre com ele, ou então dê ele para o papai.
__Você quer ir para piscina com seu Avô, meu amor?- O bebê sorriu.- Ok. Mas se mamãe brigar, direi que foi você e seu tio que me convenceram.- Depois de dar o garoto para Jorge, Rody se levantou e algo chamou sua atenção na praia. Ele olhou em volta e viu todos os falcões distraídos. Uns dentro da piscina, outros nas mesas, ou na cozinha. Foi saindo de fininho, não sem verificar onde Alana estava. Ela estava com Mari e Lú no jardim. Ele saiu e alcançou o mirante.
__Olá.- Disse firme, mas amigável para o homem de costas que olhava o mar. Os cabelos negros muito lisos e amarados num rabo de cavalo que descia até a cintura, não deixavam dúvida de sua etnia. Ele não se virou, apenas movimentou de leve a cabeça em cumprimento dizendo num tom baixo, uma voz fina, quase delicada, quase feminina.
__Ohayo gozaimasu, Medeiros sam.
__ Faz muito tempo que não o vejo, Shiro Abe sam.- O japonês alto deu um leve sorriso.
__Realmente. Mas pelo que vejo sua memória tão louvada, continua muito boa. Acredito que o senhor sabe meu nome porque minha noiva lhe falou quando estudaram juntos, porque eu não me lembro de ter falado com o senhor antes.
__Eu poderia dizer ao senhor que procurei nas reservas do meu restaurante, ou pedido aos primos para descobrir, mas na verdade foi Natacha que me disse seu nome quando estudamos juntos sim. Ela não falava muito do senhor, eu também nunca me interessei, mas um dia estávamos falando sobre uma fórmula e apareceu um nome japonês, ela disse o significado de vários nomes e citou o seu Shiro, quarto filho.
__O nome dela não era Natacha, era Natsumi Yumi Sato. Mas ela queria que as pessoas a chamassem por um nome da sua língua. Também queria se afastar do sobrenome da família.- Suspirou.- Medeiros sam, sabe porque eu estou aqui.- Rody encheu o peito de ar.
__Shiro.- Disse com sua voz profunda.- Por nada no mundo, vai tira-lo de mim.- Shiro voltou a sorrir de canto.
__Sabe mesmo com quem está falando, Rodolfo sam?
__Shiro, não sei quem você é. Não me importa o que faça, nem o poder que acha ter. Não vai tirar meu filho de mim.
__Ele é meu filho!- Disse o Japonês num tom acima.
__Não é!- Disse Rody, muito baixo. O japonês entendeu o recado, virou-se para Rody. Foi brutal para Rody perceber a semelhança. Os mesmos olhos, o mesmo tom de pele, o queixo, as sobrancelhas, a boca. Lembrou-se de nunca deixar o cabelo de Davi crescer.- Davi foi devidamente adotado. Todos os documentos estão em ordem. Não há juiz no mundo que o tiraria de mim. Ele é bem cuidado, tratado e amado. É uma criança feliz e livre, apesar de sua surdez parcial.
__Parcial?- Perguntou confuso.- Pensei que o bebê não pudesse ouvir?- Rody percebeu um traço de amor.
__Ele nasceu prematuro. Isso ocasionou algumas formações incompletas. Ele fez uma cirurgia.
__Cirurgia? Mas é muito pequeno!- Rody sentiu a preocupação dele.
_É mesmo muito pequeno. Já fez duas cirurgias para ser exato. Recuperou boa parte da audição do ouvido direito. O esquerdo, por enquanto não teve melhora. Mas é muito esperto. Sabe quando estou brincando ou falando sério com ele.
__Mesmo?- Rody viu que ele estava preocupado, interessado no bem estar de Davi.
__Sim. Ele é uma criança saudável. Está crescendo normalmente. Alana é uma mãe muito dedicada e atenta.
__Mas ela é surda. Como pode dar conta de um bebê?
__Não faz ideia do que um surdo pode fazer, Shiro.- Suspirou.- Shiro, o que você quer, afinal? Não pode ter vindo aqui para levar o menino. Ele é um bebê, está muito bem cuidado. É intensamente amado por toda a minha família. Onde ele poderia ser mais feliz?
__Com o pai dele.- Disse olhando o mar novamente.
__Shiro, ele tem o pai dele. Ele sabe disso. Eu sei disso. E você também. Você não quis lutar por ele quando ele nasceu. Porque quer fazer isso agora?- Shiro baixou a cabeça.
__Eu era louco por ela. Ela me traia com muitos homens, você via durante o curso, tenho certeza, mas eu não conseguia viver sem ela. Ela queria deixar a família, deixar o negócio. Eu não tenho como sair, não vivo. Podia dar tudo o que ela queria, menos essa liberdade. Um dia ela tentou se matar. Quando eu a socorri, ela ficou furiosa, disse que eu não tinha permitido a ela nem mesmo a morte. Então eu dei a ela um meio para a família permitir que ela se afastasse. Pensei que ela fosse escolher um sujeito mais defensor para ajuda-la, alguém como você.
__Eu nunca tive nada com ela, Shiro.
__Eu sei. Investiguei a vida de todos os homens que ela conheceu. O surdo era um tonto que se achava muito esperto, traindo a namorada. Ela achou que seria fácil engana-lo. Mas não foi bem assim. Parece que ele gostava mesmo da sua mulher. Enfim, se ela tivesse sobrevivido eu teria conseguido leva-los para longe. Mas ela morreu e o bebê nasceu antes do tempo, precisou ficar no hospital e a história se enrolou muito. Eu não estava aqui quando tudo aconteceu.- Olhou Rody.- Negócios. Soube de tudo num momento que eu não podia vir. Quando cheguei, você e sua família de educadores já estavam envolvidos com a adoção. E a família Sato louca para se livrar do bebê surdo.
__Eles nunca desconfiaram que era seu?
__Não. Os samurais da família não engravidam as mulheres.- Rody ficou pasmo.
__Como? Quer dizer que são…Operados? Todos?
__Sim. Todos somos esterilizados. E depois recebemos a tatuagem de dragão negro que nos identifica.
__Mas então como Davi pode…- Rody abriu mais os olhos, ele realmente amava Natacha.- Claro, você guardou seu esperma para ela antes da cirurgia.
__Ela sempre quis ter filhos. Dizia que se não pertencesse a essa família teria vários. Quando chegou a época da minha unção eu fui a uma clínica antes. Ela não sabia, mas quando eu vi que ela estava a disposta a morrer eu…
__Você deu seu esperma para ela engravidar. Sabia que ela iria para longe e talvez nunca mais pudesse vê-la. Você realmente a amava.
__Eu não sei amar como você e sua família. Não fui criado para isso. Nasci para ser um samurai, não um pai de família. Mas eu…- Suspirou.- Você vai cuidar muito bem do filho de Natsumi, ou eu virei aqui e você se arrependerá muito.
__Não precisa me ameaçar para me obrigar a amar meu filho. Eu não entendo a sua vida e as confusões em que se mete. Não entendo seu mundo e nem quero entender. Mas uma coisa entendo. Amor. Posso ver nos seus olhos que ama seu filho tanto como amava Natacha. Sei que não teria deixado ele sozinho. Eu o amo assim também. No dia que o vi pela primeira vez, ele roubou meu coração. Cada dia que passa eu o amo mais. Ele está cada dia mais lindo, e me ouvi. O médico diz que o som da minha voz é mais fácil dele entender. Vou ensina-lo a falar. E cozinhar. E dançar e dirigir e tudo mais. E se você quiser, mando para você uma foto, uma gravação, tudo o que conseguir aprender eu te mando. Você cria um canal seguro e me passa. Mas eu não posso deixar você ficar perto dele. Não enquanto ficar envolvido com os seus “negócios”. Eu preciso protege-lo. Quando ele for maior, eu direi a ele que a mãe dele era uma mulher maravilhosa. Alegre e inteligente. E que o pai dele, lutou pela felicidade dessa mulher até as últimas consequências. Direi que ele era louco por ela. Como eu sou por Alana. Mas não posso deixar você vê-lo agora Shiro. Ele é a sua cara. Qualquer um dos seus inimigos pode querer machuca-lo para chegar a você.- Shiro perdeu a cor, travou os dentes na boca.- Por favor, é pelo bem dele. Eu nem sei se você tem inimigos, e muito menos quem são, como posso defender nosso filho? Temos que trabalhar juntos. Eu vou cria-lo com todo amor e carinho, transforma-lo num homem de bem, estudado, cheio de possibilidades, você vai protege-lo das pessoas do seu mundo que podem causar algum mau a ele. Natacha sempre será a mulher corajosa que deu a vida por ele, Alana será a mãe que vai ama-lo para sempre.- Olhou nos olhos do oriental.- Temos um acordo?- Shiro pensou por um segundo.
__Já tinha esse discurso quando veio ao mirante atrás de mim?
__Não. Vim pronto para quebrar sua cara por chegar tão perto do meu filho, mas percebi que você também o ama e na minha família o amor é uma coisa muito importante. Algo que damos muito valor.- Shiro deu um meio sorriso.

__Ele se parece comigo?- Rody sorriu.
__Tem um numero seguro para me passar?- Estendeu seu celular. Shiro pegou o aparelho e digitou o número cifrado. Rody mandou para ele várias fotos e um vídeo.- Ele é a sua cara. Shiro, cuidado com essas fotos sim?
__Não se preocupe.- Disse sorrindo ao olhar as poses no aparelho.- Vou deleta-las.
__O que? O número não é seguro?
__Sim. Mas não quero correr nenhum risco. Você vai me mandar outras conforme ele for crescendo, não é? Então sempre terei imagens dele. Vou deletar depois que as vir. Ele… é…. lindo.
__Sim, e é um filho muito amado, por seus pais.- Shiro o olhou.
__Davi, o amado por Deus.
__Foi exatamente o que Alana disse quando o viu pela primeira vez.
__Rody!- Era Alana com sua voz abafada. Ela estava com os olhos arregalados. É claro que identificara o pai verdadeiro de Davi. Ela estava com o bebê no colo e instintivamente colocou a mão cobrindo-o
__Acalma-se, amor. Está tudo bem. – Disse Rody, o bebê ouviu a voz dele, sorriu fazendo uns sons com a boca que parecia algo como:
__Pa! Pa!- Shiro olhou Rody.
__Ele vai falar?- Rody sorriu, pegou o bebê no colo e disse:
__Sim. Ele vai falar.- Virou o bebê devagar.- Shiro, esse é Davi, nosso filho.- Encostou a boca no ouvido do bebê dizendo:- Davi, esse é Shiro, seu outro pai. Ele também te ama como eu, e também vai protege-lo de todo o mau. Por isso você não vai vê-lo sempre. Mas ele sempre estará cuidando de você.- O bebê sorriu para Shiro, era evidente a emoção nos olhos dele. Shiro virou-se para o mar.
__É melhor vocês voltarem. Não devem ficar muito tempo perto de mim. Tomei todos os cuidados, mas nunca devemos vacilar. Seu primo Alex Vogelmamn tem uma empresa muito boa. Sei que a segurança de vocês é muito eficaz. Mas se precisar de mim, é só chamar pelo número que te dei.- Enxugou o rosto das lágrimas furtivas.- Não esqueça o que me prometeu, Medeiros sam. Sayonara.- Saiu caminhando rápido pela beira do asfalto, sem olhar para trás.
__O que foi isso Rody?- Perguntou Alana ainda trêmula. Rody viu o pai de seu filho fazer a curva a distancia e desaparecer na paisagem.
__Ele era o noivo da Natacha. É o pai do Davi. Ele só veio para ter certeza que estamos cuidando bem do bebê. Ele era louco por Natacha. Fez tudo para que ela fosse feliz, encontrasse o que queria. Até desistiu de tê-la. Mas ela morreu quando ele estava longe, sem dar tempo que ele voltasse e assumisse Davi. Ele não abandonou o filho, apenas chegou quando nós já o tínhamos encontrado. Achou que seria melhor para ele ser criado por uma família como a nossa, do que pela família da qual a Natacha queria fugir. Desistiu do filho, pela mesma razão que desistiu da mãe dele, para a felicidade de Davi. Ele o ama tanto quanto nós.- Olhou Alana.- Seu bebê é mesmo muito amado Alana. Por todos os pais.- Riu.
__E se ele voltar?
__Eu acho difícil. Mas se acontecer, ele tomará os cuidados necessários. Não quer prejudicar Davi. Davi é o bem mais precioso dele. É o filho da única mulher que ele amou.
__Vamos contar isso para o Davi?
__Vamos contar que os pais biológicos dele sempre o amaram. E quando ele for maior, vamos ver o que acontece.
_ Para os falcões?- Rody pensou.
__Acho que vamos ter que contar, mas antes vou escutar a opinião do Papai e da Mamãe, ok?- Ela sorriu.- Fazia tempo que não me chamava usando essa sua voz sexe.- Riu.- Quando vai usa-la de novo?- Beijou-a. O bebê começou a se mexer no meio deles. Eles riram e voltaram para casa de Cisco. Alguns meses depois estavam na Chácara das Flores. Todos estavam na cozinha gourmet jantando. Já era bem tarde, mas as crianças ainda estavam todas acordadas.
__Família!- Disse Mari levantando-se e chamando a atenção de todos. Sorriu.- Eu tinha combinado guardar segredo até amanhã para podermos contar ao mesmo tempo na hora do nosso almoço, mas estou explodindo de alegria, não vou poder esperar. – Virou-se para Quincas ao seu lado.- Eu quero te dizer, meu marido, que te amo muito e que você será papai. Eu estou grávida!
__O que?!- Disse.- Mas… Mas como grávida….
__Ué, não sabe?- Perguntou Caio inocentemente.- Mas foi você que colocou o bebê dentro dela?- Todos riram.
__Não, filho.- Disse Ben.- Quincas só está um pouco surpreso. Isso as vezes acontece quando o papai não estava esperando a notícia.
__Tem papai distraído que nem eu então?- Muitas risadas e Quincas olhou Mari com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso gigante no rosto.
__Tem certeza?- Ela balançou a cabeça e continuou.
__E tem mais, são gêmeos.
__Gêmeos! Como sabe?
__Fui a médica hoje. Ela pode confirmar com a ultrassom. Disse que estamos de 12 semanas, então já pode dizer que são mesmo gêmeos como havia me dito no mês passado.
__No mês passado? Porque não me disse antes?
__Porque estava esperando as outras confirmarem, também.
__Outras? Que outras?- Quincas estava confuso. Lú se levantou.
__Então, teremos outro nenênzinho.- Disse sorrindo para Cisco que cuspiu o suco que tomava para longe.
__O que?- Disse tossindo.- Mas Mateus….Ele ainda…- Ela deu de ombros e sorriu ainda mais olhando seu bebê de menos de um ano sorrindo e babando para ela. Cisco rindo completou:_ Nós somos loucos mesmos!!- Em seguida Alana se levantou, olhou nos olhos de seu lindo Rody.
__Não! – Disse ele afônico muito emocionado.- Jura!- Ela balançou a cabeça rápido. Ele se levantou e a apertou em seus braços.- Quanto tempo tem?
__14 semanas. Esperei, porque a médica disse que podia haver algum problema. As coisas pareciam meio estranhas. Alex escutava muito eco e..
__Alex? O que Alex… O rastreador!- Alex se levantou e disse:
__ Pois é. Começaram a acontecer alterações nos batimentos cardíacos de várias Medeiros. Achei que podia ser defeito no rastreador. Mas por via das dúvidas pedi que fizessem um teste de gravidez. Todos deram positivo.- Ele riu.- Achei que o defeito era nos testes. Então mandei elas para a Doutora Gislaine. As gestações foram confirmadas, e os ecos começaram a aumentar. Lú era uma que tinha só um eco. Uma das últimas então..
__Espera!- Disse Rody.- Também teremos gêmeos?- Ela balançou a cabeça negativamente. Fez sinal de três.- Está brincando?
__Não. – Disse Alex.- Ela não está brincando. Estamos inaugurando uma nova rodada de fertilidade nesta família.- Riu.- Alana terá trigêmeos naturais. Parabéns papai. Três meninos de uma só vez. Davi vai ter seu próprio time de vôlei de praia. Acho que a casinha azul precisará de reformas.
__As três estão grávidas ao mesmo tempo? Disse Vincenzo- Isso é muita coincidência!- Sofia se levantou sorriu para seu marido.
__Então, na verdade, não são só elas.- Passou a mão sobre seu ventre.
__Pelo amor de Deus não me diga que são gêmeos. Não tem para onde aumentar o apartamento.- Se levantou abraçando e beijando sua ruivinha russa.- Bem que eu estava desconfiado. Gastrite atacada que nada!
__Não são gêmeos. É mais um garotinho, para seu time.
__Sasha! _ Gritou Marco.- Mamãe vai ter outro bebê!
__Vamos precisar de beliches. Eu vou dormir em cima.- Todos riram. Alex olhou Ritinha sorrindo. Giu não precisou de mais nada. Começou a beija-la.
__Deus!- Disse Gigiu.- Eu nem me casei e você já vai indo para o terceiro filho.
__Acho que você está esperando demais.- Disse Ritinha para o cunhado.
__Verdade.- Disse Giulliano, o nono
__É mesmo, zio Gigio. _Disse Giordano.- Logo não será mais papa e sim um nono.- Todos riram.
__Tirando sarro do seu zio, né bambino?- Gigio olhou em volta. Contou Alana, Lú, Mari, Sofia e Ritinha.- Tem mais alguma linda mulher neste recinto, que também está gravida?.- Alex olhou sua mãe, Diana, Alice e Liv. As três se levantaram juntas. Ruivo começou a rir na hora.
__É brincadeira, né?- Olhou Diana que negou com a cabeça. Ele ficou sério.- Não acredito! Mas…- Ficou com a boca aberta sem terminar a frase.
__A médica disse para ter cuidado com os antibióticos, eles costumam cortar os efeitos das pilulas. Mas não se preocupe, não são gêmeos.- Disse rindo. Dimi e Nico correram para a mãe carregando Anelise com eles.
__Vamos ter outro bebê HEHEHE!!!- O ruivo ficou sem fala, enquanto seus filhos rodavam em torno da mãe. Olhou Alex que sorriu e só então notou Jorge de joelhos chorando abraçado a cintura de Alice. Cisco e Alana se olharam e ele disse:
__Não sei se fico mais feliz por mim, por você irmãzinha, ou pelo papai.- Alana não disse nada, só chorou. Alice sofreu muito com sua queda durante a gravidez de Alana, quase não poderia mais engravidar, então teve uma gravidez de repouso com Cisco, agora 20 anos depois teria uma gravidez de risco outra vez.
__Desculpe.- Disse Jorge.- Eu não me cuidei direito. É que tem sido um ano muito cheio de mudanças. Mas não se preocupe, eu vou dar um jeito. Vai dar tudo certo meu amor, eu juro.
__Eu sei. Não tenho medo. Eu quis essa gravidez, Jorge. Não foi você que se descuidou, eu provoquei essa gravidez deliberadamente. Eu quero ter outro filho seu. Vou precisar ficar de repouso, é claro, mas nada vai me impedir de dar essa alegria a você e a minha querida mãe.- Olhou Aline que chorava copiosamente ao seu lado. Ben puxou Liv com cuidado para seu colo, encostou a testa na dela, as lágrimas escorriam por entre a barba ruiva por fazer, o queixo forte tremia um pouco. Ele aconchegou sua bailarina em seu peito. Olhou suas duas filhas grávidas, soltou o ar com força.
__Não sei se consigo conter toda essa alegria e esse pavor ao mesmo tempo no meu peito. Lú é tão pequena, pensei que não suportaria vê-la grávida tão cedo outra vez. Mari, gêmeos?- Olhou sua esposa.- Você vai me matar. Sabe disso, não é?- Soluçou.- Pelo amor de Deus, diz que essa médica disse que você está ótima que não vai precisar de repouso, nem de nada desse tipo. Eu vou enlouquecer, não vou conseguir sair de perto de você.- Chorou. Liv acariciou o rosto dele.
__É claro que vai conseguir, meu guerreiro. Você sempre foi um falcão forte e lutador. Concordo que não sou mais uma menina, como as nossas filhas, que tem uma saúde perfeita para gerar filhos saudáveis numa gravidez perfeita. Mas mamãe tinha a mais ou menos a minha idade quando teve Rody. E se Alice pode corajosamente se empenhar nessa missão tão recompensadora, porque que eu que descobri minha gravidez antes que as outras não poderia vencer essa batalha? Afinal, já tive gêmeos antes?
__O que? Gêmeos?- Ben estava sem ar.
__Teremos um casal dessa vez. Como eu e meu amado irmão.- Olhou Jorge que estava pálido ao lado de Alice. Liv sorriu e olhou sua mãe e seu pai, ambos emocionados e felizes. Voltou-se para seu lindo marido.- Você meu lindo, nasceu para ser pai. De todas as coisas maravilhosas que faz, essa é sem dúvida a melhor. Eu estou bem. Os bebês estão muito bem também. Fique tranquilo. Não estamos correndo nenhum perigo. A médica disse que é uma gravidez de risco por causa da minha idade e da gestação dupla, mas tudo está correndo muito bem. Já tenho uma lista com a alimentação que devo fazer, os exercícios propiciosos e o tempo de descanso recomendado. Já organizei todas as escalas daqui até minha licença maternidade acabar. Já fiz as escalas de Mari e de Lú e de Alice com o repouso absoluto também. Na verdade já fiz listas e escalas para todas, inclusive as de Clara no restaurante.- Todos se viraram para Clara que permanecia sentada. Ela se levantou e olhou para sua família. Ela era exatamente igual Dona Elisa quando jovem, se pôs de pé com o mesmo porte de sua avó querida, estendeu a mão para Alex, do mesmo jeito que ela fazia para seu marido, e Alex segurou do jeito que ele fazia. Clara sorriu.
__Estou esperando uma menininha.- Houve uma comoção.- Ela será a próxima a nascer depois do casal de gêmeos de Liv. Também estamos muito bem. Alex percebeu a gestação antes de mim, mas como logo os rastreadores começaram a dar “defeito”.- Sorriu fazendo todos rirem.- Então resolvemos confirmar primeiro. Estou realmente muito feliz. Primeiro porque vou ter uma menininha. Todos sabem como isso é raro nesta família. Segundo porque outra vez estou grávida ao mesmo tempo que minha sogra querida.- Sorriu para Diana e Ruivo que só chorava.- Terceiro porque essa gravidez veio num momento que eu estava muito triste com as perdas que tivemos.- Todos choraram.- E quinto porque nunca imaginei que todas as nossas casas seriam abençoadas com pelo menos um bebê ao mesmo tempo.- Beto olhou Nina.
__Pelo amor de Deus, não me diga que também está grávida?- Gargalharam.
__Lógico que não, né?- Fez cara de poucos amigos para ele.
__E você, pequenina?- Perguntou para Lia. Lia fez uma cara de dúvida que deixou tanto Beto como Rick sem respirar.
__Podem respirar.-Riu.- Não posso mais engravidar, fiquem tranquilos. Nem eu , nem Nina.
__Eu sou avô.- Disse Beto.- Nem sei mais fazer bebês.- Todos riram. Beto olhou sua linda filha, a cara de sua mãe, grávida, esperando uma menininha. Suspirou.- Parabéns, minha loirinha. Sei que será tão boa mãe para ela, como é para seus meninos.- Olhou o Ruivo e Diana.- Parabéns para vocês dois também. O ruivo mesmo desprevenido, sempre acerta.- Riram.- Olhou seu filho Ben, que era pura emoção.- Você meu gêmeo mais novo, o grande guerreiro ruivo dos tribunais, sempre tão valente como meu irmão, totalmente abatido pela pequena bailarina e suas meninas. Não tenha medo. Vai dar tudo certo, eu sinto. Não é, Lia?- Lia olhou seu sobrinho nos olhos, depois sua filha e suas netas. Sorriu.
__Vai sim. Vamos cuidar de todas vocês e todos esses bebês.- Olhou Ben.- Entendo que você esteja preocupado, é próprio do seu coração protetor. Mas vamos conseguir. Temos Alex que conseguiu monitorar todos esses coraçõezinhos. A médica, senhorita Gislaine é jovem, mas muito competente. Ela é filha mais nova do Dr Andrade Filho, o Médico do Rick. Ela já convocou uma pediatra muito boa, a Doutora Lisandra Zanete, que já é pediatra do Mateus e do Davi, para acompanhar as gestações. Elas são primas e ficaram muito felizes de trabalhar juntas nestes casos.
__Você já sabia disso, amor?- Perguntou Rick.- Claro, que inocência a nossa imaginar que você seria pega de surpresa.
__Alex estava preocupado. Clara estar grávida não parecia estranho, embora inesperado, mas Liv? E depois as outras todas se sucedendo. Inclusive Diana. Então ele me chamou. Eu investiguei.- Sorriu.- Um pouquinho. Depois falamos com elas. As médicas estão monitorando tudo desde então. No começo é difícil para o médico determinar uma gestação dupla sem exames mais elaborados, mas Alex ouvia os ecos e mostrou para elas. Resolvemos esperar até ter total certeza de como, quando, e quantos bebês estavam envolvidos nesta brincadeira.- Riu.- Por fim ficamos assim, 13 bebês chegando aí, alguns com diferença de menos de uma semana. Os primeiros a chegar, serão os de Liv. Em seguida duas semanas depois, a neném de Clara, uma semana depois o de Ritinha, mais duas e os gêmeos de Mari, mais uma e o de Sofia, no meio desta mesma semana, os trigêmeos de Alana e duas semanas depois, o menino de Alice. A menos que algum apressadinho queira vir antes, as médicas acharam melhor fazer cesarianas eletivas neste caso. Para melhor acomodação das mães e dos bebês. Lógico que elas nunca tinham visto nada deste tipo antes. Nem eu. Acho que podemos entrar para o livro dos recordes.- Riu, e todos foram com ela.
__Sabe. -Disse Rick todo matreiro.- Estou pensando em construir um berçário nos fundos de casa.- Mais gargalhadas. Rick olhou sua família gigante e sorriu.- Vocês são maravilhosos. A melhor família que um esquizofrênico poderia querer.- Mais risadas. Suspirou.- Agora sério. Vocês são meu maior orgulho. E não é por seus bens, nem seus talentos, nem suas conquistas. É pelo amor que vocês sentem uns pelos outros. Pela forma com que se preocupam uns com os outros. Que lutam uns pelos outros, pela felicidade do outro. Deus deu para nós a benção de nascer nesta família grande e amorosa que era o sonho do meu pai. Ele se foi como infelizmente acontece com todos nós, mas ele sabia disso. Da gratidão que sinto por ele ter sido meu pai, por ter me dado este irmão, toda esta família. Sou muito grato a todos vocês também. Meus filhos, meus netos, meus sobrinhos, meus genros, meus primos, meus amigos, minha linda cunhada, minha amada esposa. Sou grato por me amarem, e por me permitir amar vocês. Sou grato por me darem mais esses 13 bebês para amar. Ganhei muito prêmios na minha carreira, sou grato por eles também, o reconhecimento da arte que herdei de minha sorridente e carinhosa mãezinha, mas nenhum deles tem nem um décimo do valor que vocês tem. Espero poder ser para vocês pelo menos um pedacinho do que o velho falcão foi para mim. Meu protetor, meu instrutor, meu conselheiro, meu refúgio, meu pai. Nossas férias em família deste ano foram canceladas pelos motivos que conhecem, mas no ano que vem, se fiz as contas direito, todos os bebês já poderão viajar. Gostaria que todos viajássemos juntos, como meu pai gostava de fazer. Iremos para Irlanda. Vou levar as cinzas do meu querido professor de Literatura para jogarmos na Ilha Esmeralda, como os olhos dele que vários de vocês herdaram. Meu querido pai queria fazer, e eu farei em nome e honra a ele e a amizade que tinha com o amigo de toda vida dele. Sabem que tenho um coração frágil, será muito emocionante para mim, precisarei da força dos falcões. Quem de vocês estaria disposto a ir para a Irlanda comigo nas próximas férias?- Todos se levantaram juntos. Mesmo os pequenos que não entendiam direito o que estava acontecendo. Rick olhou sua família, emocionada com o voto que acabavam de fazer.- Por isso tenho tanto orgulho de todos vocês. Amo muito todos vocês.- Lia segurou a mão de seu marido e Beto tomou seu braço segurando a mão de Nina.- Nós somos os falcões, herdeiros de Rodolfo Prestes de Medeiros, descendentes de Benjamin Carlos Carvalho Kavanagh, de Francesca Bourguignon Fazzano. Somos guerreiros. Lutamos pela felicidade de quem amamos. Nunca nos esquecemos que somos diferentes, mas nos completamos. Está família passou o ano mais difícil de sua existência, mas superamos. E fomos abençoados com 13 novos falcõezinhos. Eles iguais a todos os pequenos que temos, crescerão e aprenderão a amar suas raízes, suas tradições, seus irmãos, sua família. E saberão que nunca lutamos sozinhos. – Olhou sua esposa. Sorriu.-É uma pena que também não esteja grávida.- Beijou-a, deixando tudo leve, fazendo todos voltarem a alegria de antes, mas conscientes da força do que tinha acabado de acontecer. Uma emoção capaz de levantar e unir a eles até os tios de Alex, Junior, o noivo de Carol, Ana, a irmã de Vincenzo, Sylvie e Vanessa, todos. Aline, a viúva do Professor Carlos, não parava de chorar.
__Ei! Vovó.- Disse Cisco apertando ela nos braços.- Não chore. Eu vou ter outro bebê, Alana vai ter três e mamãe está grávida outra vez. Não é maravilhoso? Esse tiozinho será mais novo que os sobrinhos. Igual Rody.- Riu.
__Eu era mais velho!
__E o capitão da bagunça.- Disse Vincenzo.- Me lembro de vocês entrando feito um tornado no meu quarto no Castelo do Yuri. Toda essa turminha de meninas e meninos seguindo você.- Rody riu.
__Verdade, tio Rody?- Perguntou Luca o mais novo de Clara.
__Deve ser por isso que ganhou de uma só vez tantos garotos. Vai ser o capitão, igual no navio.- Disse a pequena Bombom, ou Anelise do Ruivo.- Todos riram.

O namorado

Capitulo 13
Muitas mudanças em poucos meses. 6 meses antes, Alana estava noiva de Antônio, estava ansiosa pela volta de Rody, Cisco dançava e galinhava com várias ficantes, Lú, dançava e sofria por ele sozinha. Mari dançava e sonhava em poder namorar Quincas livremente. Agora já fazia três meses que todos estavam casados. Quincas e Mari felizes em sua cobertura, faziam planos de ter um filho para quando ela terminasse a faculdade. Lú e Cisco estavam grávidos e felizes na casa da praia ao lado da de Ben. Rody e Alana tentavam ficar grávidos todos os dias.
__Quer mesmo ter um bebê?- disse Rody. – Lú começou a enjoar.- Riu.
__Sim, quero muito. Quero muito ter um bebê que se pareça com você. Quem tenha seus olhos, seu sorriso. Você é tão bonito Rody. É o homem mais bonito que já conheci. – ele pareceu encabulado.
__Pensei que Jorge fosse o homem mais bonito que conheceu.
__Sim. Papai é lindo, mas vocês são irmãos, tem os mesmos traços. Aliás todos os falcões são parecidos. Todos tem esse formato meio quadrado no rosto. As sobrancelhas iguais, o nariz reto, o queixo com um furinho.- Sorriu.
__Em outras palavras todo Medeiros parece com vovô Rodolfo.- Riu.
__É isso mesmo. Só que uns tens olhos verdes, outros azuis, outros negros como você.
__E Cisco tem olhos amarelos, deve ser um vampiro!- Riram.
__Tem outra diferença entre os Medeiros. A boca. Notei que quase todo herdaram o formato da boca de suas mães. Mas seu pai, seu irmão e você tem a boca igual a do vovô também. Quando conheci Jorge, ele era o homem mais bonito que já tinha visto. Mas você cresceu.- Olhou seu marido apaixonada.- Era o menino mais bonito da escola, e do orfanato, e da faculdade. O meu namorado.- Sorriu.
__Eu não sou tão bonito assim. Sou um cara normal. Só diz isso porque me ama.- Beijou-a.- E porque quer me convencer a ser pai.
__Você não quer ter um filho agora?
__Para lhe ser sincero.- Olhou no fundo dos olhos dela.- Eu quero! Quero muito! Quero um bebê meu crescendo dentro de você. E quero que tenha os seus olhos. Os olhos que amei desde que tinha 7 anos. Mesmo que não sejam desta cor tão incomum que os seus tem, eles serão para mim iguais aos seus, os olhos do meu amor.- Foi muito enfático nos gestos, usou a língua que ela lhe ensinou para mostrar a força do que sentia, do que queria, do quanto queria.
__E se eu não puder ter filhos?
__O que? Porque? Acha que tem algum problema?
__Não sei. Eu nunca usei anticoncepcionais. Lú engravidou apesar dos comprimidos. Nós nunca nos precavemos. Não acha estranho que ainda…
__Ora amor.- Riu.- Não se preocupe. Quando tiver que vir, ele virá. Mas se for para ficar mais tranquila, podemos ir ao médico. Fazer alguns exames.
__E se ficarmos sabendo que o acidente antes de eu nascer tenha deixado mais sequelas que minha surdez?- Então era isso. Ela estava com medo de não poder engravidar por causa da queda que sua mãe sofrera antes dela nascer. Uma queda violenta da escada, provocada por um criminoso, que infelizmente era o pai de Alana. Depois do tombo, o parto foi prematuro, Alana ficou meses na incubadora. O acidente deixou sequelas, ela perdera a audição. Desenvolveu-se uma criança normal, mas era óbvio que tivesse alguns traumas. Principalmente, porque Alice continuou mais 5 anos casada com o cretino. Apanhando quase todo dia. Rody abraçou sua mulher com carinho.
__Meu amor, não se preocupe. Não acho que isso possa ter acontecido, mas se realmente for assim. Nós adotamos uma criança. Você vive no meio delas, sabe como precisam de alguém que lhe dê amor. Será igual para mim. Um filho que amarei exatamente do mesmo jeito.
__Mas ele não crescerá dentro de mim. Você não poderá sentir o mesmo que Cisco está sentindo. Ele está tão contente.
__Alana, ninguém nunca poderá ser tão contente quanto Cisco.- Riu.- Ele sempre foi assim. Mas eu serei sempre feliz, desde que tenha você. Desde que você esteja feliz comigo. Se nosso filho crescer dentro de sua barriga ou fora dela, não importa. Ele vai crescer dentro do meu coração de qualquer maneira.- Ela sorriu.
__Mas eu queria que ele fosso bonito como você.- Ele riu.
__Vai acabar me deixando convencido.
__É para ficar. Você é lindo.- Beijou-o.- E é só meu.
__Disso não tenha a menor dúvida.
__Mudando de assunto. O que quer fazer no domingo, para o almoço da família? É a primeira vez que recebemos os falcões todos juntos.
__Então, pensei em uma carne assada de porco, todos gostam. Vou fazer também a lasanha de abobrinha da Clara. Uma salada verde e uma cozida. Farei um cozido indiano. Assim todos os vovôs doentinhos e as meninas de dietas poderão comer. São pratos que posso montar antes, na sexta ou no sábado e assar no domingo de manhã. Um arroz e umas batatas podemos cozinhas na hora.
__Parece delicioso. Sei que está acostumado a cozinhar para muita gente, mas eu nunca tive essa responsabilidade antes.- Sorriu.- Estou gostando muito. Já aluguei as mesas. Vamos colocar no jardim do fundo. Aqui não tem piscina, mas está meio frio mesmo, mandei vir uma cama elástica e outros brinquedos para as crianças. Acho que vão se divertir. As crianças do orfanato amam.
__Também acho. Se bem que mamãe estará aqui. É só ela começar a ler que todas as crianças ficam paralisadas.- Riu.- E tem Ben e o violão.
__Verdade. Seja como for separei uns jogos, uns filmes, para o caso de chover. Seria uma pena porque o jardim está lindo, mas pode acontecer. É melhor ficar preparado.
__Pelo visto já pensou em tudo.- Beijou-a.
__Quase tudo. E a sobremesa? Vou separar umas frutas, um sorvete. Amo a mousse da Clara, mas queria uma coisa diferente. Só não sei o que?- Cisco pensou.
__Que tal crepes? Quando estava no cruzeiro, tinha o dia do crepe. Neste dia os chefes se revezavam em fazer crepes com sabores diferentes durante todo o dia. Tenho várias receitas. E teremos três chefes presentes. Poderíamos fazer a tarde dos crepes. O que acha?
__Amei! Sorriu animada.
__Mas vamos precisar alugar uma crepeira, talvez 3. Ou mais.- Disse olhando o entusiasmo dela.
__Sim! Onde alugo isso?
__Vou falar com Sylvie, ele deve saber, com certeza.
__Ele também poderia vir. Ele é tão legal e Vanessa também.
__Vou convida-lo. Não sei se virá. Disse que no terceiro domingo do mês, O Aimê tem seu maior faturamento. É o dia que o Medeiros fecha.- Riu.
__Será verdade? Vincenzo sempre está de folga nesse dia, como ele consegue dar conta se tem tanto movimento?
__Não faço ideia.- Disse beijando Alana.- Sabe acho que está tudo resolvido. Poderíamos voltar para aquele primeiro assunto.- Foi apertando ela em seu corpo.
__Que assunto?- Disse rindo. Ele nem respondeu, aprofundou o beijo e entraram num vórtice de carinho e amor sem fim. O domingo chegou. E como havia programado, Rody já tinha tudo nos fornos, ou na geladeira. O dia estava lindo. As mesas todas colocadas no fundo perto das flores. Os brinquedos para as crianças estavam mais para o lado perto do balanço. Ficou tudo muito bonito. Os falcões começaram a chegar. Todos muito felizes com a ocasião, inclusive os vovôs idosinhos e as crianças. Todos elogiaram muito o almoço com cara do Restaurante Medeiros. Mais a tarde, Clara, Vincenzo e Rody se revesaram fazendo todos os sabores de crepes para a alegria geral das crianças e dos adultos.
__Quando eu crescer quero ser chefe igual papai.- Disse Marco. Filho de Vincenzo. Vincenzo e Sofia adotaram o menino logo após seu casamento, e em seguida descobriram que ela estava grávida. Sasha o irmão mais novo logo se declarou:
__Eu gosto de cozinhar. Mas prefiro fazer brinquedos de madeira.
__É legal.- Disse Calebe.
__Eu também acho.- Disse Caio.- Mas os crepes são melhores a gente pode comer.- Vincenzo olhou Rody e os dois caíram na gargalhada.
__Pode rir.- Disse Vincenzo.- Vai ver o que seus filhos farão com você.
__Vincenzo.- Disse Rody.- Posso fazer uma pergunta bem pessoal?
__Claro.- O Chefe bonito de olhos e cabelos castanhos, sorriu para seu companheiro de profissão.- Algo sobre crepes?- Riram.
__Vincenzo, ama seus dois filhos do mesmo jeito? Sente alguma diferença nos seus sentimentos por eles.- Vincenzo pensou.
-_Não. Amo os dois do mesmo jeito. Daria a vida por qualquer um deles. Os dois tem personalidade diferente, mas ambos são filhos maravilhosos. E os dois protegem os pequenos como guarda-costas.- Sorriu.- Talvez, eu seja um pouco injusto as vezes. Tenho a tendência de ter mais dó do Marco. Mas procuro me corrigir. E ao vê-los juntos, meu coração enche de amor.- Olhou Rody.- Alana não pode ter filhos?- O cozinheiro era esperto.
__Não sabemos, ainda. O médico disse para não nos preocuparmos. Eu também acho que é cedo para isso, mas Alana acha estranho não ter engravidado ainda. Por causa do sofreu antes de nascer e quando era pequena, acha que pode ter algum problema.
__Entendo. Para alguém que vive rodeada de crianças, seria difícil para ela. Você gostaria de adotar?
__Sim. Eu me sentiria muito bem com isso. Na verdade, acho que gostaria de adotar mesmo se pudermos ter filhos. Não sei se sei agir como é devido. Marco sabe que foi adotado?
__Claro.- Riu.- Rody, ele é negro. Como eu poderia explicar sou branco e Sofia é até ruiva. Temos fotos de Sofia grávida e do Sasha no hospital, mas dele não temos. Um dia ele simplesmente perguntou porque ele tinha a pele diferente. Eu disse que era porque ele foi gerado em outra barriga. Então ele me perguntou se Sofia não era a mãe dele. Eu perguntei o que ele achava? Ele olhou Sofia arrumando as coisas dele no armário. Sorriu e respondeu que ela era a mãe dele sim. E foi isso. Sei que talvez quando ele crescer queira saber mais sobre seu passado, sobre quem o gerou. Mas isso não fara dele menos meu filho.
__Verdade. Jorge ama Alana do mesmo jeito que ama Cisco.- Olhou Alana brincando com as crianças.
__Ela tem muito jeito com as crianças mesmo. Será uma ótima mãe.- Vincenzo olhou Sofia.- Sabe, no dia que Sofia entrou no Aimê com Marco todo sujinho no colo, eu vi nos olhos dela, que ela era a mãe dele, ninguém no mundo conseguiria mudar isso. E mesmo que eu não tivesse me apaixonado pelo meu bebê sorridente naquele dia, eu não conseguiria magoar ela assim, tirando o filho do coração dela.
__Sei exatamente o que quer dizer.
__O que os cozinheiros tanto conversam?- Disse Jorge sorrindo para o irmão.
__Estamos fazendo uma enquete. Quem é o vovô mais jovem do recinto?
__Ben. É mais novo que eu dois anos.
__Discordo. _ Disse Ruivo.- Eu sou o vovô mais novo. Os filhos de Alex são meus netos. Esqueceu?
__Temos um vencedor!- Disse Vincenzo passando um crepe para ele.
__Pode acrescentar que é o pai mais velho também, afinal Anelise só tem um ano.- disse Ben.
__Não sei se podemos contabilizar filhos que se tornam filhos depois de adultos?
__É mesmo? Se for assim também tenho um novo filho.- Disse Ben apontando Quincas. Todos riram. A tarde de crepes foi um sucesso. Rody recolheu a comida que sobrou e embalou para Jorge levar para o orfanato. Segunda de manhã vieram buscar as coisas que tinham alugado. O jardim continuava inteiro apesar das crianças correrem por ele todo o tempo. Depois de ajeitar tudo. Foram ao médico. Fizeram vários exames, e ouviram muitas explicações. A primeira vista nada os impedia de ter filhos, a não ser a ansiedade de Alana. Quando caminhavam pelo shopping depois da consulta Alana sentiu tocarem em seu ombro. Virou-se. Fazia muito tempo que não via Antonio. Na verdade nunca mais o vira, depois que se separaram na casa de Ben. Antonio os olhou de baixo em cima.
__Oi. Parecem muito bem.
__Oi Antonio.- Disse Rody.- Estamos bem sim. E você?
__Se estão bem, então porque acabaram de sair da clínica médica?
__Antonio, está nos seguindo?- Rody fez cara de poucos amigos.
__Não estou falando com você, cozinheiro. Estou falando com Alana, minha ex-noiva.
__Nunca fomos noivos!- Disse Alana.- Fomos namorados. Terminamos. Eu terminei. Não fale assim com ele, é meu marido!
__Você se casou com ele? Quando? Durante a viagem? Por isso estão morando juntos?- Rody ficou muito bravo.
__Então você esteve mesmo nos seguindo. Deixe te dizer uma coisa Antonio. Vá cuidar da sua vida. Não quero saber de você rondando minha esposa. Fui muito paciente com você. Levei em consideração sua desilusão. Mas isso já passou. Se chegar perto dela outra vez, chamo a polícia.
__Claro. O príncipe cozinheiro jamais sujaria as próprias mãos, não é, a não ser que fosse de açucar?- Disse encarando Rody.
__Antonio!- Disse Alana entrando na frente de Rody que estava furioso.- Pare de provoca-lo. Rody é um homem educado sim, mas é um homem. Se me lembro bem, você saiu com o rabinho entre as pernas no último confronto que tiveram.
__Eles estavam em três!
__O que quer Antonio?- Disse Rody.- Porque esteve nos seguindo?- Antonio olhou Alana.- Se disser que quer minha mulher, quebro sua cara aqui mesmo.- Antonio olhou para ele assustado. Rody era grande e musculoso, sabia que não teria nenhuma vantagem. E Rody prosseguiu cuspindo fogo pelos olhos- Acredite! Já deixei você perto dela tempo de mais. Apenas, porque achei que ela amava você. Sempre soube que você era mulherengo, mesquinho e folgado. Mas estava disposto a suporta-lo se ela amasse você de verdade. É lógico que isso foi antes de você tentar bater nela. Não deixarei que toque nela nunca mais.
__Eu estava nervoso! Não queria te machucar de verdade. Eu preciso de sua ajuda.
__Da minha ajuda para quê?- Perguntou Alana desconfiada. Antonio fez uma cara de arrependido.
__Então. Tinha uma garota. Ela ficou grávida, disse que o bebê era meu. Mas não pode ser.
__Espere.- Disse Alana.- O que tenho com isso? Como posso te ajudar?
__Eu também fiquei bem nervoso. Quando ela falou isso eu ia me casar com você. Bem eu meio que perdi a cabeça.
__O que você fez?
__Disse que já tinha me casado com você. Para ela se virar. Ela ficou louca, veio para cima de mim. Eu só me defendi.
__Você bateu em uma mulher grávida!- Rody estava ainda mais furioso. Antonio deu um passo atrás.
__Ei! Calma. Não foi bem assim.- Parecia amedrontado.- Enfim. Ela foi embora. Disse que iria se vingar e tudo mais. Eu nem liguei. Só que a criança nasceu a quase um mês. É um menino.
__O que?- Alana estava muito confusa.- Você engravidou uma garota enquanto estávamos juntos? Negou a essa criança os direitos dela com um pai? Enxotou a mãe do bebê de sua vida? O que isso tem haver comigo? Porque está me seguindo?
__Os parentes dela são meio barra pesada. Eu não sabia quando nos envolvemos. Eles querem que eu fique com a criança. Estão me caçando! Entende? Eu preciso que me ajude a me livrar deles.
__Está louco Antonio!- Disse Alana.- Porque eu me meteria nesta história? Você me traiu e engravidou outra, tentou me agredir quando nos separamos, agiu como um canalha com seu filho. Eu não tenho nada com seus problemas.
__Tem sim. Você não queria dormir comigo. Eu estive com outras. Você ficou enrolando para nos casarmos. Eu tenho certeza que a criança não é minha. Você trabalha com isso, pode me ajudar. Você me deve isso. Me jogou fora de sua vida como um trapo velho. Foi só ele voltar. Não se dignou nem a esperar se separar de mim e já estava se esfregando nele no mirante. Eu vi! Porque acha que estava tão nervoso?
__Porque tinha uma mulher grávida querendo que você assumisse seu papel de pai!- Disse ela.- Seu papel de homem! Coisa que você nunca foi!- Antonio tentou se aproximar dela Rody colocou a mão aberta sobre o peito dele.
__Se chegar mais perto é um homem morto.- Disse baixo, sem sinais. Antonio não podia ouvir o tom da voz, mas mesmo assim percebeu o perigo.
__Certo. Façam como quiserem. Achei que você fosse se interessar pelo caso. Vivia dizendo que crianças rejeitadas são sua missão. Não sou um monstro. Fiquei nervoso quando perdi você, mas não costumo bater em mulheres. A Natacha disse que o bebê era meu. Mas não era. Dei uns empurrões nela, foi errado, mas foi só isso. Os parentes do menino não o querem. Vão coloca-lo para adoção. Ele não é meu! Eu não vou cria-lo. Nem tenho condições para isso. Vou pedir o DNA vai ficar comprovado que ele não é meu. E ele será mandado para um orfanato. Mas acho que não será facilmente adotado. O menino é surdo. – Olhou Alana nos olhos.- Não fui muito correto com você, mas eu te amava. Você sabe disso. Natacha nunca significou nada, ela também sabia. Fiquei com pena do bebê, será muito difícil para ele, nós dois sabemos. Eu tinha meus pais e você sua mãe e depois seu padrasto, mas ele não terá ninguém.
__E a mãe dele?
__Ela teve eclampsia, morreu no parto.
__Antonio.- Disse Rody um pouco mais calmo.- Como tem tanta certeza que essa criança não é sua?- Antonio olhou Rody.
__Eu conheço a clínica que estavam porque fiz minha vasectomia nela.- Isso foi mesmo surpreendente.
__Você fez vasectomia? Quando?- Perguntou Alana.
__Quando fui para a faculdade. Eu nunca quis ter filhos. Não queria correr o risco de gerar filhos que não pudessem ouvir, como eu.- Rody ficou até com pena do idiota. Ele se achava mesmo inferior aos outros. Mas então uma fúria o tomou.
__Antonio, você ia se casar com Alana sem contar isso a ela?- Antonio não respondeu.- Já te achava um besta antes, agora você ultrapassou todos os níveis da idiotice.
__Pense o que quiser. Eu só procurei você quando me avisaram que Natacha tinha morrido e que queriam que eu ficasse com o bebê surdo dela. Alana, você pode encontrar alguém que possa cuidar bem dele. Não quero ficar com ele, mas tenho dó do menino. Esse é seu trabalho. Seu padrasto tem um orfanato, se não conseguir alguém para adota-lo, lá é o melhor lugar para ele. Todos vocês conhecem libras, sabem lidar com surdos. Não quero mau a ele, Natacha era legal apesar de tudo. Não sei quem é o pai. Se ele não se manifestou até agora, é porque também não sabe que é o pai, ou não quer o filho, ou pior talvez já tenha morrido também, como disse o pessoal dela é barra pesada. A criança não tem culpa desse rolo todo. Eu tenho pena, mas não posso assumir essa criança, estou indo morar no Emirados Arabês. Vou trabalhar lá. Meu contrato é por 2 anos. Vou morar num alojamento de solteiros. Não posso aparecer com um bebê que nem é meu. Meus pais ficaram furiosos. Então tive que contar da vasectomia, minha mãe não pára de chorar desde então. Eu disse a ela que ia procurar você, tentar conseguir um lugar melhor para o menino. É só o que posso fazer por ele. Pela mãe dele. Por favor, me ajude?- Alana ficou imóvel. Estava absorvendo toda a história. Rody sabia como aquilo tudo poderia mexer com ela. E Antonio também sabia.
__Como podemos ter certeza de tudo o que diz Antonio?- Disse Rody protetor.- Você não foi muito sincero nesta história. A criança sem dúvida é vítima. Mas e o resto todo?- Antonio suspirou. Pegou no bolso uma intimação da vara da família, contendo alguns detalhes que tinha dito. Também um atestado do médico que comprovava sua vasectomia. E um e-mail de seu novo empregador esperando a comprovação do dia da chegada dele.
__Eu saí com Natacha algumas vezes.- Parou olhou Rody com a sobrancelha levantada.- Ok, saí com ela várias vezes, mas nunca tivemos um romance. Já conhecia ela da faculdade, ela fazia química. A família dela eu só conheci agora. Parecem gangsteres, são tipo mafiosos, muito estranhos. Eu não vou ficar com o bebê, mas também não gostaria de deixa-los com eles. E como pode ver na intimação, eles querem se livrar dele de qualquer jeito. – Olhou Alana.- Acho que entendem o que quero dizer.- Alana olhou nos olhos de Rody, depois para Antonio.
__Porque não procurou meu pai?
__Porque ele me jurou de morte da última vez. Além disso é louco por crianças. Não teria nem terminado de explicar ele já teria esfregado minha cara no asfalto.- Alana sorriu. Jorge faria isso mesmo.- Tentei encontra-la sozinha.- Olhou Rody.- Mas esse cara não se separa de você nunca. Eu não quero mais encrenca. Podia ir amanhã no juizado, levar o atestado do médico, fazer o exame e embarcar para o Emirados na sexta- feira sabendo que não tenho nada com isso. Mas o bebê é surdo…Eu…- Antonio olhou Alana por um segundo.- Eu fiquei comovido… Quando soube do bebê e da morte da Natacha e tudo mais, fiquei revoltado. Mas quando passou um pouco eu fiquei com muita pena da criança, o único jeito de ajudar um pouco seria procurar você. Também precisei passar por cima do meu orgulho. Tinha jurado nunca mais procurar você na vida. Sou rancoroso, admito. Não consigo superar as coisas assim fácil. Não consigo acreditar que esse cara te aceitou volta. Ele me viu muitas vezes com você e com Paulo e mesmo assim abriu os braços para te receber aquele dia como se nada tivesse acontecido. Beijou você como se você nunca tivesse trocado ele por outro. Entrou na minha frente para te defender com a morte nos olhos. Fiquei pensando que sentimento superaria uma dor assim. Devo imaginar que ele te ama muito mesmo. Provavelmente é um tipo de amor que eu não conheço, fiquei com medo que o bebê de Natacha nunca conhecesse nenhum tipo de amor.- Ele baixou os olhos e suspirou. Alana olhou Rody. Rody disse;
__Onde o bebê está?- Antonio respondeu sem encara-lo.
__Ainda está no hospital. Parece que era um pouco prematuro. Depois da minha audiência, acredito que ele deve ser transferido para algum lugar.
__Certo. Disse uma Alana decidida.- Entrarei em contato com a vara da família ainda hoje. Vou tirar uma foto da intimação.- Pegou o celular. E fotografou.- Bem agora tudo o que você sabe do bebê está aqui. Não tem mesmo ideia que quem possa ser o pai?
__Não. Ela saía com outros caras.
__Porque ela disse que era você?- Perguntou Rody.
__Não sei. Já pensei muito nisso. Não consigo encontrar uma razão. Ela sabia que não tenho dinheiro, que estava namorando outra, que sou surdo.
__Talvez ela estivesse apaixonada por você de verdade.- Disse Alana.
__Ou queria fugir da família.- Disse Rody. Antonio o olhou.- Você já sabia dessa possibilidade de ir trabalhar no Emirados Árabes? Contou a ela em algum momento?
__Sim. Ela sabia. Eu me inscrevi porque ela comentou comigo sobre as vagas. Por isso não falei nada para Alana. Teria que explicar onde fiquei sabendo do emprego.
__Outra coisa que não iria me contar antes de casarmos? Era por isso que estava com tanta pressa?
__Só poderia te levar comigo se estivéssemos casados antes de aprovarem meu cadastro.
__Bem então isso explica tudo. Ela queria fugir dessa família. Você disse que são perigosos, não é?. Ela te deu a dica do emprego, deve ter pensado em casar contigo e ir para o Emirados . Só que você queria casar com Alana. Ela achou que você mudaria de ideia se soubesse que ela estava grávida. Não foi bem o que aconteceu. Você disse que ela ficou muito nervosa, até agrediu você. Isso não é o comportamento normal de uma mulher grávida. Ela devia estar apavorada. Alguma coisa muito ruim deve ter acontecido. A família quer obrigar você a ficar com o bebê. Então eles não sabem que você não pode ser o pai. Poderíamos pensar que eles não sabem quem é o pai, mas eu acho que você tem razão, se esse pai ainda não apareceu ou ele é tão bandido quanto os parentes dessa Natacha, ou eles já deram cabo dele.- Rody cerrou os olhos e então os abriu como um falcão.- Yumi! Era Natacha Yumi?- Antonio o olhou desconfiado e surpreso.
__Sim. Você também andou me seguindo?
_ Disse que ela fazia Química. Era uma garota oriental da mesma altura que Alana, com cabelos sempre bem curtos, que ela pintava de todas as cores existentes no mundo?
__Sim. Você conhecia ela?
__Eu estudei com ela. Num curso de química na gastronomia. Era muito bonita e sorridente e se me lembro bem tinha um namorado tão oriental quanto ela. Um cara alto de cabelo comprido com uma tatuagem de dragão negro nas costas. Sempre com cara de poucos amigos, usando ternos pretos. Ele era meio agressivo ao beija-la e coloca-la no carro. Não parecia um namorado, era mais como um dono. O pessoal no curso comentava que ele era da Yakuzá. Não sei se era verdade, mas um dia vi o namorado com uns caras muito esquisitos. Tempos depois vi um noticiário sobre uma guerra de traficantes de cocaína, dois dos caras estavam lá. Não nos falamos mais depois do curso, mas eu há vi algumas vezes no restaurante. Estava sempre com o tal namorado. Sempre bem vestida, usando jóias e muito séria. Bem diferente da garota que via saindo com os rapazes do curso na terça á noite. O único dia que o namorado não vinha busca-la. Sempre me perguntei porque ela fazia química. Um dia ela me disse que era para ajudar a família.
__Eles mexem com drogas, então? – Perguntou Alana.
__Parece que sim. Como você fez isso?- Perguntou a Rody.- Como sabia de toda essa história? Disse que fez um curso com ela, mas ela terminou a faculdade junto comigo? Faz tempo já.
__Eu não sabia de tudo, mas tenho boa memória. Costumo me lembrar das coisas que me intrigam, ou que me chamam atenção. Mesmo que já tenha passado bastante tempo. Se o pai da criança não era aquele namorado, com certeza ele deu fim no cara. Se é ele, bem ela provavelmente iria preferir outro. Ela com certeza queria deixar esse mundo. Deve ter pensado que você fosse o melhor caminho para isso.
__Porque eu? Ela saía com outros caras.- Rody não respondeu. Isso instigou Antonio. O que será que ele tinha percebido.- Vamos? Diga? Porque acha que ela escolheu a mim.
__Fale, amor.- Disse Alana.- Porque acha que Natacha escolheu Antonio para assumir o filho dela.
__Por causa da sua surdez. Ela sabia que eles poderiam encontra-la se ela fugisse sozinha. Então ela se casaria com você, o pai do filho dela, iria para o Emirados Árabes, você iria trabalhar na sua área e ela facilmente acharia uma colocação lá também. Pelo que li no contrato, na verdade tinha muito mais lugar para uma química do que para um engenheiro eletrônico lá. Ela poderia dizer que te acompanhou por causa do bebê. Não teria abandonado a família, apenas não trabalharia mais para eles. O negócio deles não tem ramo lá. Se o namorado cabeludo morreu, vocês nunca mais precisariam se preocupar. Se ele está vivo, ela poderia tentar desaparecer lá. Deixando você. O fato de ser surdo, e estar indo para um lugar que fala um idioma que você não conhece facilitaria para ela. Você disse que ela não te amava.
__Mas ela não sabia que eu saberia que o filho não era meu. E que não aceitaria leva-la comigo. – Olhou Alana.- Depois que nos separamos, ela tentou sair comigo outra vez, mas eu estava muito irritado e não quis nem falar com ela. Ela foi internada as pressas no mês passado.
__Coitada!- Disse Alana.- Tudo o que planejou caiu por terra.
__Como assim?- Disse Antonio.- Está com pena dela?
__Sim. Não entende Antonio, ela não agiu por mau. Ela estava tentando se salvar. E salvar o bebê também. Deve ter tido uma vida muito triste.- Rody abraçou Alana e beijou sua cabeça.
__Não fique assim. Vamos ver o bebê. Jorge e Diana podem ajudar. Podemos ligar para Tia Dalia também.- Olhou Antonio.- Você foi vê-lo?
__O bebê? Não.- Rody olhou para Alana, sorriu.
__ Podemos aproveitar que estou de folga. Quer ir lá antes do almoço, ou depois?- Alana sorriu.
__Agora!
__Ei! Mesmo? Vocês vão lá ver o bebê?
__Sim.- Disse Rody.- Não era o que você queria? Que Alana pedisse o caso desse bebê para cuidar? Então, vamos até lá. Depois que nos inteiramos mais, ligamos para o Jorge. Bem, acho que era só isso, né?. Adeus Antonio, boa viagem.- Foi se virando levando Alana no movimento. Antonio segurou seu braço.
__Você vai leva-la até lá para ver o bebê de Natacha? Simples assim?
__Vou. Se Alana quiser cuidar do caso e encontrar um lar para ele, farei tudo o que for possível, moverei todos os meus contatos, os meus recursos para que ela consiga isso. Agora, se quando chegarmos lá, Alana se apaixonar pelo pequeno e quiser ser a mãe dele, vou adota-lo como meu filho. E antes que me ofenda perguntando, não me importo que ele possa ser filho de um mafioso, nem que seja surdo, nem prematuro, oriental, que nunca se parecerá comigo. Só o que me importa é a felicidade de Alana. Se ele for o filho que o coração dela escolher, será meu filho também. E será amado por toda a minha família. Crescerá e será um falcão como todos os Medeiros. Igual aos outros filhos que tivermos. Não sei se entende esse tipo de amor Antonio, mas na minha família esse é o único tipo que conhecemos. Completo e sincero. Boa viagem.- Caminhou dois passos. Sentiu a mão de Antonio novamente.
__Eu… É só que…. Obrigado. – Alana olhou Antonio. Depois Rody, deu dois passos segurando a mão de Rody. Beijou o rosto de Antonio.
__Seja feliz. Cuidarei para que o filho de Natacha tenha uma boa família. Não se preocupe, mais. Amanhã pode ir a sua audiência tranquilo. E sexta-feira pode embarcar em paz. Diga a sua mãe que já falou comigo, eu usarei toda a autoridade que minha profissão me dá para proteger essa criança. Ela também pode ficar sossegada. Adeus Antonio, tenha uma boa viagem.- Voltou para o abraço de seu marido e seguiu para o estacionamento do Shopping. Menos de 10 minutos estavam no hospital. Eliana, prima de Alex estava de plantão.
__O que o casal faz aqui?- Perguntou Eliana topando com eles no saguão.
__Eliana.- Disse Rody.- Sabe de um bebê prematuro que nasceu ha quase um mês que a mãe morreu de eclampsia?
__Sim. O chinesinho.
__Como?- Perguntou Alana.
__Ele não tem nome, a família pelo visto vai mandar para adoção. As enfermeiras o chamam assim, o chinesinho. Como souberam dele?
__Foi um amigo que comentou.- Disse Rody.- Podemos vê-lo?
__Não sei.- Olhou Alana.- Bem, acho que Alana pode vê-lo de qualquer modo. Vamos lá.- Entraram com a prima médica. Ela os levou para um corredor largo numa parede de vidro podiam ver vários bebês no berçário. Andaram mais um pouco e chegaram a uma outra parede de vidro, nela leitos de incubadoras. Eliana acenou para a enfermeira e fez um sinal, ela virou o leito que ficou de lado dando visão para o bebê pequenino só de fralda. O corpinho magro e comprido, todo rosado. A cabecinha cheia de cabelinhos negros espetados, e os olhinhos eram apenas dois risquinhos, e a boquinha tão pequenina bocejou, fazendo -os rir.
__Ele está bem? – Perguntou Rody.
__Sim. Eu não sou deste setor, mas ouvi que ele está bem. Tem um problema na formação do ouvido médio, se tivesse permanecido no ventre até o final da gestação, talvez não nascesse surdo, mas devido ao parto prematuro é muito provável que essa condição permaneça. No mais é uma criança saudável para a situação dela.- O bip de Eliana tocou,- Estou sendo chamada, desculpe, preciso ir. – Caminhou rapidamente pelo corredor. Alana não tirava os olhos do pequenino. Rody encostou o corpo dela no dele com um abraço doce. Ficaram ali, em silêncio.
__Rody?- Rody virou a cabeça por cima de Alana. Viu Jorge e Diana, acompanhados do diretor do hospital e de um homem mais velho. Jorge olhou os dois e perguntou:- O que estão fazendo aqui?- Rody sorriu olhou a cabeça de Alana depois para o bebê.
__Acho que vim conhecer meu filho?
__O que?- Disse o homem com eles.- Senhor Medeiros, conhece este casal?- Diana olhava Alana que encantada, nem se mexia. Ela não tinha nem visto eles chegarem.
__Sim, Senhor Gentil. Este é meu irmão Rodolfo Medeiros Neto e está é esposa dele Alana. Ela também é minha enteada, e é a outra Assistente Social do orfanato.
__Ah. A que é surda. Isso explica que nem percebeu que chegamos.- Alana virou-se com os olhos rasos d’agua. Sorriu para Jorge e Diana.
__Venha ver papai! Venha ver Davi, o meu bebê.- Jorge olhou nos olhos do irmão que beijou a cabeça da esposa.
__Desculpe.- Disse o tal Gentil.- O que ela disse? Eu não sei libras.- Alana se concentrou e disse com a voz afônica e profunda.
__Disse para meu pai vir conhecer Davi, meu filho.
__Ah. A senhora fala.- Ela fez um sinal que ele pode entender dizendo sem som.
__Um pouco.
__A senhora lê lábios, então?-Ela afirmou.- Porque disse que o bebê é seu e se chama Davi?- Ela sorriu.- começou a sinalizar e Rody traduziu para ela.
__Porque eu o quero. Amei-o no instante que o vi. Por isso o chamei de Davi, o amado.
__Entendo. Seu padrasto me disse que é Assistente Social. Então sabe como são esses procedimentos. Não pode simplesmente escolher uma criança e esperar que…
__Sou Assistente Social. Conheço as leis. Trabalho pelo bem estar de órfãos no orfanato do meu pai. Sim, sei que muitos trâmites precisam ser percorridos. Não tenho a intenção de burlar a lei. Pelo contrário. Sou uma agente da lei, farei tudo conforme determinado no estatuto, mas esse bebê é meu filho. Lutarei por ele até as últimas instancias. Imagino que o senhor seja o juiz selecionado para o caso. Deve ser o Sr. Norberto Benevides.- O homem a encarou.
__Sim sou eu mesmo.
__Hoje, mais cedo encontrei com Antonio Soares, o senhor o intimou porque a família da mãe da criança, disse que ele é o pai. Visto que a família materna não deseja criar a criança, pretendem deixa-la aos cuidados do pai. Mas Antonio não é o pai. Ele não pode gerar filhos desde os 20 anos. Ele fez uma vasectomia. Ele me mostrou o atestado do médico. Vai levar o original para o senhor amanhã na audiência. Se mesmo assim houver dúvidas, está totalmente disposto a fazer um exame de DNA. Mas apesar de não ter vínculo sanguíneo com a criança, ele teve compaixão por ela quando soube que o menino é surdo, como ele e eu. Antonio conhece essa luta, sabe que é difícil de ser vencida sem ajuda. Ele me procurou porque sabia que eu poderia ajudar a criança a ser adotada por uma boa família. Alguém que pudesse ajudar o bebê a crescer feliz como as outras crianças. Que pudesse criá-la sem preconceitos. Vim para cá para conhecer o bebê, tinha a intenção de pedir o caso para a vara da família. Mas pelo que vejo, Diana, minha mentora, foi escolhida para o caso. Se meu pai está aqui, isto significa que esse bebê pode ir para o Francesca Fazzano. Estou certa?
__Talvez.- Disse o homem. Jorge o olhou fixamente.- Bem, está era a intenção. Embora o Francesca não tem um berçário para bebês tão pequenos. Como Dona Diana, Professor Jorge e toda a equipe conhecem libras, e tem uma surda na equipe, lá foi o lugar mais indicado, caso o pai não pudesse ficar com o bebê.
__Entendo. Então, meritíssimo, essa bebê será meu filho. Mesmo que demore. Ele ficará na instituição sob meus cuidados, até que possa leva-lo para minha casa.
__Vejo que é muito direta, senhora…?
__Alana.- Disse com sua voz abafada. Depois sinalizou.- Isso faz parte da cultura surda. Não fazemos rodeios como os ouvintes. Eu quero cuidar desse bebê.
__E seu marido?- Olhou Rody.- Nada tem a dizer?- Rody ergueu o queixo.
__Claro.- Apontou o bebê.- Aquele é meu filho, Davi Carvalho Medeiros. Está na incubadora porque nasceu prematuro, nasceu com uma má formação óssea no ouvido médio. Por isso, provavelmente continuará surdo, como é agora. Mas está saudável e se desenvolvendo muito bem para um bebê na situação dele. É esperto e sorridente. Eu acabei de ligar para meu advogado, ele vai conseguir as autorizações para que eu e minha esposa possamos entrar nesta sala e tocar nele. Também vai entrar com o pedido de adoção assim que acabar sua audiência com Antonio amanhã.- O juiz ficou olhando para Rody.
__Você falou com Ben?- Perguntou Diana.
__Sim. Ele disse para falar com você e com Jorge. Disse que vocês poderiam ajudar a conseguir a guarda provisória, protocolando um pedido junto ao juiz do caso.- Olhou Juiz.- Ben disse também que ia ligar para Tia Dália.
__Dália Vogelmamn? A juíza desembargadora da vara da família?
__Ela é minha irmã.- Disse Diana.- A filha mais velha dela Eliana, é médica aqui deste hospital.
–Porque chamou ela de tia?- Perguntou a Rody.
__Diana se casou com um dos meus primos quando eu era menino. Passei a chamar as irmãs mais velhas dela assim.
__Então são todos meio parentes?- Perguntou a Jorge.
__De certa forma sim. Somos uma família de educadores. Temos professores em todas as categorias, vivemos em torno de crianças. Nosso círculo de amizade acabou gerando alianças mais profundas.
__E tudo começou com meu pai.- Disse Alana.- Ele se casou com uma mulher, uma professora de dança que tinha uma filha surda. Lutou muito para construir um orfanato digno para crianças desprezadas, um de seus primos, um famoso advogado, conseguiu recursos mais rápidos para agilizar as adoções. Seu outro primo, um diretor de uma das escolas mais conceituadas do país, criou um sistema de bolsas para esses órfão. Esse diretor se casou com uma assistente Social que tinha sido uma criança em situação de risco, logo uma defensora voraz das crianças. A irmã mais velha dela se tornou uma juíza da vara de família exemplar e depois desembargadora. Essa juíza conhecida por ser firme e lutadora, adotou três meninas, a mais velha delas é médica aqui, como disse Diana. E a filha da professora de dança, se tornou assistente social, como Diana.
__Entendo.- Disse o homem.- Gostam de continuar com esse ciclo. Quase como um legado.
__Sim. Um legado de amor.- Olhou o bebê.- Já vi muitas crianças serem abandonadas. Todas mereciam um lar, e carinho. Lutei muito para conseguir isso para todas, nem sempre foi fácil, em alguns casos não fui feliz o tempo nos alcançou e em outros ainda estou tentando. Mas Davi é diferente. Meu coração o amou assim que o vi.- Olhou Rody que sorriu para ela.- Nós o amamos. Sei que o senhor, como todos nós queremos o melhor para ele. E o melhor para um bebê é um pai e uma mãe que o amam.
__É sempre muito decidida nos seus assuntos senhora/
__Quando se trata de uma criança, sim! Já que o juiz, a assistente social e o diretor do hospital estão aqui, poderiam nos permitir entrar para ver Davi?
__Alana.- Disse Diana.- Tem certeza? Quer o bebê para você?
__Quero!- Diana olhou o Diretor do Hospital, Doutor Felix.- –
__Por mim não tem problema Dr Felix. Alana conhece todos os procedimento. E ela é jovem, casada, tem residência e trabalho. O mesmo para Rody, digo, Rodolfo. Eles tem rotinas apertadas, mas Alana pode levar o bebê para o trabalho quando a licença maternidade acabar. Falta preparar o quarto do bebê, mas eles tem como fazer isso antes do bebê ter alta. Mesmo que não fosse minha pupila e colega de trabalho, não teria como negar esse pedido.
__Eu também não vejo problema. Nunca seria bobo de negar uma criança a uma mãe tão carinhosa. Já vi Alana cuidar de muitas crianças, sempre imaginei que sortudos seriam os filhos dela. Eu autorizo as visitas a encubadora. Precisarão se esterilizar, é claro.- Alana e Rody sorriram. Alana abraçou o bom doutor.
__Obrigada Dr Felix. – Correu para a ante sala da incubadora. Parou na porta olhando Rody.
__Pode ir primeiro.- Ele riu. Ela voltou e beijou-o.- Certo eu vou esperar desta vez. Amanhã eu entro primeiro, tá?. Diga a Davi que ainda não podemos entrar os dois juntos para vê-lo. Mas que daqui a alguns minutos eu estarei lá.- Beijou-a. Ela entrou.
__O senhor, pelo visto sempre quer agradar sua esposa?- Disse o juiz.
__Sim. Sou um Medeiros, fui criado assim. Para amar e fazer minha esposa feliz.
__Tem certeza que quer adotar uma criança que o senhor sabe tão pouco sobre a origem?
__Tenho.
__Muito bem. Amanhã veremos os documentos do senhor Antonio, depois vamos ver as petições de seu advogado. Quem é mesmo?
__Benjamim Medeiros.-
__Ah! Claro, o guerreiro Ruivo.- Sorriu sem graça.- O sobrenome não me era mesmo estranho. Tudo bem.- Olhou Jorge e Diana.- Pelo visto teremos pouco trabalho aqui.- Jorge sorriu e piscou para seu irmão. Em seguida todos viram Alana entrar na sala das incubadoras com luvas, toca e um avental. Chegou perto do bebê colocou as mãos nos buracos da incubadora e coçou de mansinho as costas dele. O pequenino sorriu. Foi lindo. Até o juiz se emocionou. Depois foi a vez de Rody.
__Ei meu filho, como se sente hoje?- Passou o dedo na orelhinha dele ele se mexeu como se sentisse cocegas.- O que foi? Não vai sorrir para mim? Eu vi você dar um sorriso lindo para a mamãe. Tudo bem, não vou ficar com ciúme, ela é linda mesmo.- E riu. O bebê abriu os olhos, como se ouvisse a voz dele.- Olá campeão. Resolveu acordar, hein. – Procurou a voz dele. Rody estranhou e continuou falando.- Sabe Davi, tinham me dito que você não pode me ouvir, como a mamãe. Mas eu não sei porque…- Mudou de lado- Tenho a impressão que você está me ouvindo.- O bebê tentou se virar para seguir a voz dele. Rody olhou pelo vidro e disse em libras o que estava notando. Fez de novo o mesmo movimento e de novo o bebê o seguiu.- Acham que ele pode ouvir? Talvez um pouco?
__Eu acho que é possível. -Disse Alana.- Talvez ele não tenha uma perda total da audição. Pode ser que ele não escute tudo, mas um pouco, alguns ruídos, algum tom específico ele consegue. Eu não ouço nada, mas meu problema é no cérebro, no receptor que identifica os sons, não no aparelho auditivo. Ele é muito pequeno, talvez possa recuperar um pouco da audição.- sorriu.
__Olhe só Davi! Mamãe acha que talvez você possa ouvir o papai. Isso seria fantástico, mas se não for possível, não tem problema meu pequenino, vou lhe ensinar a falar em libras, igual sua mãe me ensinou. Todos os seus primos sabem conversar assim. Você poderá até jogar bola com eles, mas cuide-se, são uns bagunceiros. Principalmente, seu tio Cisco.- Riu e o bebê abriu mais os olhos, depois sorriu.- Você gostou, né espertinho? AH, meu amor eu tenho que ir. Não posso ficar mais tempo com você. Mas eu e mamãe voltamos amanhã, certo? Virei mais cedo, tenho que trabalhar no horário do almoço. Eu sou cozinheiro. Vou fazer umas delícias para você comer quando puder, prometo.- Olhou o bebê, depois Alana.- Não quero ir.- Olhou Jorge.- Não quero deixa-lo sozinho aqui, Jorge. Não podemos leva-lo? Para o orfanato?- Jorge olhou seu irmãozinho crescido. Um falcão poderoso que ainda recorria a ele pedindo ajuda na hora da dor. Sentiu muito orgulho desse irmão que se tornou seu genro.
__Infelizmente não. Hoje não podemos fazer nada.
__Provavelmente, nem amanhã.- Disse Diana.- O juiz terá que analisar o caso.- Rody olhou para o Juiz suplicante.
__Não se preocupe, amor.- Disse Alana confiante.- Ele logo virá conosco. Vai ser por pouco tempo. E as enfermeiras cuidam muito bem dele para nós.- Sorriu para elas.
__Minha esposa disse que vocês cuidam muito bem do bebê. E que continuarão a fazer isso até que possamos leva-lo.- As enfermeiras sorriram satisfeitas.
__Com certeza, Chefe Medeiros.- Rody olhou a moça, reconheceu-a como uma das clientes do Medeiros.- Sou Rayane, sempre peço, mais molho de azeitona no linguado. Aquele molho é maravilhoso.
__Ah, sim. E seu esposo o piloto de avião, como está?
__Muito bem, Chefe. O senhor vai adotar o chinesinho?
__Pretendo. Rayane, pode chama-lo de Davi, e dizer as outras enfermeiras que esse é o nome dele? Achei fofo o apelido que deram a ele. Na minha família isso é prova de carinho, de cuidado. Mas eu gostaria que ele se acostumasse com o nome dele.
__Claro, Chefe Medeiros. O senhor também notou que ele pareceu ouvi-lo, né? Eu também tive essa impressão, outro dia, enquanto riamos aqui de alguma bobagem.
__Isso pode acontecer mesmo?
__Ele nasceu antes do tempo. Vamos ter que esperar para ver. Mas eu vi outros casos.
__Obrigado Rayane.- Olhou seu bebê.- Ai, amor, papai tem mesmo que ir. Mas Rayane vai cuidar de você. E amanhã voltamos. Se não gostar de qualquer coisa, conte para o papai. – Saiu reticente de dentro da sala. Para encontrar uma Alana eufórica do lado de fora.
__Precisamos arrumar um berço para colocar no quarto azul para ele. E precisamos comprar roupinhas e fraldas. Vamos!
__Vamos. Mas primeiro vamos encontrar Ben.

O Namorado

Capitulo 12
Já fazia duas semanas que tinham voltado a se apresentar. Cisco estava cada dia melhor. A crítica do espetáculo só lhe fazia elogios. Mari também foi muito elogiada. Já a coreografia foi considerada impecável. O dueto do casal que se separa no começo da trama arrancava suspiros. Crítica favorável, casa cheia, um espetáculo atrás do outro, mais a faculdade, deixavam o jovem casal exausto. Saiam de manhã, almoçavam no campus, ensaiavam a tarde, jantavam na academia, se apresentavam de terça a sexta as 8:00 e chegavam em casa poubco antes das 10:00. Sábado, ensaiavam de manhã, passavam no orfanato para as aulas das crianças, almoçavam com Jorge e Alice. Tinham um preludio e duas apresentações. Então voltavam para casa, no domingo dormiam até as 10;00 da manhã. Só depois disso podiam aproveitar para cuidar de suas coisas, ir a praia, visitar Ben e Liv e os meninos. Almoçar com eles. Voltar para sua linda casa e descansar para começar a rotina pesada da semana. Dividiam as tarefas, Cisco punha a roupa para lavar, lavava a louça e limpava a cozinha. Lú tirava o pó dos móveis e passava pano em tudo. Ela ainda limpava os banheiros e molhava as plantas, e terminava antes de Cisco tirar a roupa da máquina. A faxineira vinha na quinta. Era a mesma Dona Inês que vinha na Quarta para Liv, na terça para Lia, e na sexta para Mari. Era muito boa, deixava tudo brilhando e cheiroso. Mas Lú quase era melhor que ela. Cisco ficou impressionada já na primeira semana. Foi educado para ajudar nas tarefas domésticas, sabia como lidar com todos os itens de limpeza, mas Lú era imbatível. Lógico que a rotina apertada do jovem casal não impedia as horas de paixão que faziam Cisco se arrepender ainda mais por não ter demorado tanto a perceber o amor de sua bailarina. Naquele domingo, depois de dividirem seu sagrado momento de felicidade matinal, Cisco estranhou ela não ter aparecido, na cozinha mesmo quando ele já tinha terminado seu serviço. Notou que ela ainda não tinha molhado as plantas da sala.

__O que houve amor, está preguiçosa hoje?- Ela não respondeu.- Lú!- Chamou, mas não houve resposta. Foi ao corredor, depois ao quarto. Ela estava no closed, caída no chão desacordada. Um pavor correu por seu corpo. Num segundo a tinha nos braços.- Amor, o que houve? Está me ouvindo? Ai meu Deus!- Levou-a para cama. Colocou o ouvido em seu peito, ela respirava tranquila, como se dormisse.- Lú, pelo amor de Deus, acorde. Acorde amor. -Pegou o celular trêmulo. Quando ia teclar, ela abriu os olhos devagar, meio sonolenta.
__O que aconteceu? Porque está chorando?- Só então Cisco se deu conta de suas lágrimas.- Ele a abraçou apertado.
__Fiquei apavorado. Você não chegou na cozinha, vim atrás e te encontrei caída, desmaiada, eu….Você está bem? Está sentindo alguma dor?
__Eu estava desmaiada…- Um assombro e um medo passou por seus olhos. Ela pensou, pensou, olhou nos olhos dele.- Cisco posso estar grávida. Mamãe também desmaiou quando estava grávida de Caio, lembra?
__Mas você menstruou semana passada. E sempre tomou anticoncepcionais por causa das cólicas, não é?- Era verdade. Lú mesma havia dito isso a ele. A preocupação encheu o quarto. Como bailarinos, sabiam que uma pessoa desmaia porque falta oxigênio no cérebro. Inúmeras razões podem causar isso. Desde a mais simples as mais complicadas. O caso era que uma bailarina saudável, como característica, precisa desenvolver seu equilíbrio e seu foco. Por esse motivo, dizem que uma bailarina nunca desmaia. Ela sempre mantém o foco e não pode dançar sem equilíbrio, então sua respiração é sempre bem feita, nunca lhe faltando oxigenação. Se ela desmaia é por um problema sério. Muito sério.
__Cisco…- O pavor tomou conta dela. Lú começou a tremer. Ele a pegou em seu colo, encostou a cabeça dela no peito e foi respirando devagar, falando compassado, como seu pai e seu avô.
__Ei. Fique calma amor. Não sabemos o porque disso, mas vamos descobrir. Estou aqui. E nunca vamos nos separar, sabe disso.- Acariciou os cabelos dela.
__Cisco, eu achei que estava bem, eu faço exames regularmente. Nunca tive nenhuma alteração que preocupasse. Desculpe…- Ele pegou o rosto dela, as lágrimas molhavam a face triste.
__Desculpe, porque?- Ela o olhou profundamente.
__Eu não quero que sofra. Eu prometi que não faria você sofrer. Foi por isso que não falei antes dos meus sentimentos, eu não quero, não posso suportar vê-lo sofrer. Se estiver mesmo doente….- Cisco a apertou em seu peito.
__Lucélia. Pare com isso!- Disse firme.- Não somos mais apenas primos, nem companheiros de profissão, somos um. Tudo o que acontece com você, acontece comigo. Se doe em você, doe em mim. Eu sou seu marido. Estarei aqui enquanto viver, loucamente apaixonado por você. Se estiver doente, vou ficar muito triste. Não quero que sofra porque doe dentro do meu peito qualquer dorzinha que possa vir a ter. Mas seja como for, vamos lutar juntos. Pela sua saúde, pela sua felicidade, por sua vida. Exatamente como você faria se fosse comigo.- Riu.- Faria se fosse comigo, né?
__Não seja bobo.- Encostou o queixo no peito dele olhou aqueles olhos incomuns. Suspirou.- Estou com medo.-
__Eu também.- Acariciou o rosto dela e sorriu carinhoso.- Mas mesmo com muito medo, eu sempre estarei aqui. Com você, meu amor, minha vida, minha linda esposa. Acredita em mim?- Ela afirmou.- Certo. Vou ligar para o Doutor Germano.- Pegou o telefone e ligou para o médico que os atendia. Era um clínico muito bom que cuidava de todos os bailarinos da companhia.
__Alo.- Disse.- Doutor Germano, é Francesco Medeiros.
__Olá. Algum problema Francesco?- O médico sempre direto.
__Minha esposa. Lucélia Medeiros, a segunda bailarina, ela desmaiou hoje. Estávamos em casa. Ela disse que não se lembra de nada.- O médico ficou em silêncio por uns segundos:
__Eu estou no Consolação. É meu plantão. Traga ela para cá. Vamos precisar fazer uns exames. Venha logo. Estou esperando.
__Sim.- Desligou. Olhou em volta, apontou para a bolsa marrom em cima da penteadeira.- Essa é a bolsa onde estão seus documentos?
__Sim.
__O Doutor disse para irmos logo.- Olhou-a. Ela estava com uma jardineira jeans rodadinha, com uma camiseta verde claro de algodão, macia. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo bem frouxo e descalça. Parecia uma menininha. Ele sorriu.- Você é tão linda, parece uma menininha do jardim de infância.- Ela fez carreta.
__O que foi? Não quer esperar eu trocar de roupa, né?- Ele pegou um par de sapatilhas vermelhas de verniz, com um laço grande na frente.
__Não. Para completar seu lindo look.- Abaixou-se e colocou as sapatilhas. Levantou-se pegou sua carteira, a bolsa dela e com um puxão doce, soltou os longos cabelos que caíram pelos ombros descendo pelas costas em grossas ondas negras. Olhou-a outra vez, sorriu ainda mais.- Deus, me sinto um papa anjo!- Riu e ela também.
__Seu tonto! Sou só um ano mais nova que você. Vamos logo.- Saíram do quarto e Cisco pegou o SUV que Ben havia dado de presente para leva-la. Durante o trajeto, lembrou-se que precisava ligar para os falcões, mas seu primeiro objetivo era chegar ao hospital. Estacionou com cuidado, e entrou com ela debaixo de seu braço forte. Explicou quem procuravam na recepção. Foram conduzidos ao consultório.
__Lucélia.- Disse o bom doutor.- Quando foi sua última menstruação?
__Semana passada.
__Sentiu alguma diferença?
__Veio um pouco menos que o normal, mas no mês passado, também foi assim.
__Sei. Vamos precisar fazer um hemograma. Tem também alguns outros exames que quero fazer, alguns podem demorar um pouco. O primeiro é uma tomografia.
__Porque tomografia?- Perguntou Cisco.- O senhor suspeita de algo?
__Talvez. Mas não posso levantar a suspeita sem os exames.- Uma enfermeira entrou.- Primeiro o hemograma.- A enfermeira tirou o sangue e saiu.- Agora vamos prepara-la para a tomografia. Vai demorar uns minutos porque os equipamentos estão sendo usados. Assim que forem liberados, uma enfermeira virá buscar você para prepara-la.
__Eu posso ir com ela, doutor?
__Quando ela estiver na sala, daremos um jeito. Mas ela irá sozinha para fazer o contraste.- Olhou a bailarina amedrontada.- Não se preocupe, vamos descobrir o que está acontecendo. E você é bailarina, é uma atleta, além disso é uma Medeiros.- O Doutor sorriu. A enfermeira entrou novamente.- Francesco, quero fazer um hemograma seu também. É só para precaução. São primos, sei que tomaram a vacina antes do casamento, mas gostaria de saber se está tudo bem. Se possível, gostaria que sua irmã e as outras Medeiros de nascimento, também fizessem um hemograma. Por favor, podem avisa-las?
__Claro doutor.- Disse Cisco ainda mais preocupado.- Assim que terminaram o Doutor os mandou esperar na ante sala. Cisco sentou-se na poltrona e Lú em seu colo, com a cabeça encostada em seu peito. Cisco ligou primeiro para seu pai.
__Cisco? – Disse Jorge assuntado.- Está tudo bem? Alex acabou de ligar. Disse que seu rastreador está no hospital, Ben não viu o SUV na garagem, já saiu tresloucado para o Hospital.
__Papai, eu estou bem. Estamos no hospital porque Lú desmaiou.- Não foi preciso dizer mais nada, Jorge entendeu.
__Certo, filho. Estamos indo encontra-los.
__Papai, ligue para o tio Ben, e para o Vovô Rick, por favor? E o Doutor Germano quer fazer um hemograma das Medeiros Bailarinas. Avise, Mari e Clara. Sim?
__Claro. Estamos chegando, filho. Aguente firme.- Ele desligou.
__O que tio Jorge disse?
__Que vai avisar as bailarinas e os falcões.- Acariciou sua amada.- Está com alguma dor?
__Não, eu não sinto nada estranho. Não consigo entender. Eu não tinha nada. Já refiz tudo o que aconteceu nos últimos 6 meses. Não aconteceu nada diferente.
__Na verdade teve uma coisinha diferente. Eu.- Sorriu. Os olhos dela se encheram de lágrimas.
__Cisco. Você foi a melhor coisa que aconteceu em toda minha vida. Tenho uma família maravilhosa, amo dançar, gosto de ler, de cozinhar, de cuidar da casa. Amo meus irmãos, e morar perto do mar. Amo muito tudo o que temos, nossas coisas, Judite, o SUV, nossa linda casa. Mas de tudo, quem mais amo é você. Vivi os meses mais felizes da minha vida com você. Um sonho.
__Não. Pare de falar assim. Como se estivesse se despedindo de mim. Não vai me deixar. Eu não vou deixar. Sei tudo o que ama, sei que foi feliz comigo. Eu estava lá todo o tempo. Lembra? Se foi feliz, foi somente porque eu estava explodindo de felicidade também. Não vai me obrigar a desistir de lutar para ter você comigo para sempre. Não vou permitir que desista de lutar. Somos falcões. Estamos juntos. Vamos vencer! Por favor, meu amor. Acredite!
__Eu quero acreditar, mas estou com muito medo, Cisco. _ Ele a abraçou.
__Deixe eu te aquecer, então. Te dar minha certeza. Ouça meu coração. Acalme-se, meu amor. Estou aqui. E te amo, como jamais achei que amaria um dia.- Respirou fundo- Olha, faça de conta que vamos estrear um espetáculo novo, que sua coreografia é bem difícil. Sei que nunca é tão difícil para você, né? Mas faça de conta que sou eu.- Riu.
__Lógico que é difícil para mim também.- Riu. E ele viu que ela estava só um pouquinho mais calma.
__Você nunca fica nervosa.- Disse acariciando os cabelos dela languidamente.
__ Não é verdade. Você que nunca fica nervoso. Parece um poderoso falcão se preparando para voar. – Riu, Cisco beijou o topo da cabeça dela.
__ Está com fome, minha linda pluma? Já passa da 13:00? Normalmente já almoçamos neste horário.
__ Então. Deveria estar com um bolo no estomago, por causa do nervoso, mas estou morrendo de fome.- Os dois riram.- E você?
_ Não estou com fome. Comi muito no café.- Sorriu olhando para ela.- Quer que pegue algo para você comer?
_Acho melhor esperar o tal exame. Mas depois podemos comer no Medeiros? Estou com vontade de comer a lasanha de abobrinha da Clara e o bife a milanesa do Rody.- Cisco riu.
_ Está mesmo com fome.- Olhou nos olhos dela.- Vai dar tudo certo, amor. Precisa dar. Somos felizes de mais juntos. Felicidade é contagioso.
__ E se eu não puder mais dançar? Ainda vai me amar?
__ Não é a dança que faz você, é o contrario, você que faz a dança ser assim tão maravilhosa. Se você não dançar vai fazer outras coisas maravilhosas. E eu continuarei louco por você. Talvez eu seja um bom professor de educação física, o que acha?
__ Não precisa parar de dançar por mim.
__ Eu sei. Mas faria se for para ficar mais perto de você. Faço qualquer coisa por você.- Ela encostou os lábios nos dele de levinho.
__ Você é o melhor marido do mundo.-Suspirou intrigada.
– O que foi? – ele perguntou.
– É que não entendo. Sempre pensei que pessoas doentes ficavam desanimadas e sem vontade de nada. Tenho dormido bem. Tenho tido apetite, alias até mais fome que o costume. Não senti nenhum cansaço físico ou mental. Pelo contrário, acho que estou na minha melhor forma. Sem contar que estou sempre louca para….- Parou de falar e ficou um pouco vermelha. Deu um sorrisinho tímido.
— Louca para que? – Cisco olhou nos olhos dela e começou a rir.- Quem diria hein? A doce e tímida bailarina, devoradora de homens.
– Não sou devoradora de homens.- Disse encabulada.- Só quero um, você.- Cisco não sabia o que era maior naquele instante, seu ego por saber que ela o queria tanto, ou seu medo que ela realmente estivesse doente.
– Deixe te contar um segredo. Você não pode dizer a um homem em público que está louca para devora-lo. Principalmente quando este homem é seu marido e vive em chamas por você. Quer que eu vá preso por atentado ao pudor?- Riram os dois.- Olha, amor, eu não sei o que está acontecendo, mas acho que não adianta você ficar tão nervosa e tentando descobrir antes dos exames. Dr. Germano é um bom médico. Vamos esperar pelo que ele diz primeiro. Depois pensamos em como cuidar do quer que seja. Certo?- Ela afirmou, sorriu.
__Quem é você? E o que fez com meu marido intempestivo?- Cisco sorriu apaixonado.
__Eu estou aqui. Sempre estarei aqui.- Acariciou o rosto dela.- Estou apenas tentando esquecer que acabou de dizer que quer….- Olhou a boca dela.- Deus, você vai me matar.- Riu, e ela também.- Eu deveria ter puxado ao vovô Rick sempre tão paciente e controlado, mas não tinha que puxar ao vovô Carlos…- Riram mais.- Acabarei preso. Imagine a manchete no jornal. ” Bailarino preso por atentado ao pudor.” E uma foto minha te agarrando no palco.- Gargalharam. Cisco olhou em volta.- As enfermeiras estão olhando com cara feia. Acho que estamos fazendo muito barulho.- Lú olhou nos olhos incomuns de seu lindo marido.
__Eu amo você. Você tinha razão, você me completa. O que seria de mim num momento feito esse senão fosse essa sua alegria latente?- Acariciou o rosto dele.- Você é o homem mais bonito que conheço. Mas não é por isso que te amo tanto. É porque sei o quanto você é valente, o quanto é persistente, o quanto é protetor e apesar de ter qualidades tão sérias você consegue exerce-las com toda leveza de um menino. Um bailarino. Você é a tradução desta palavra. É forte e suave. Confiei meu coração a você do mesmo jeito que confio meu corpo quando dançamos. Desculpe se pareço muito ousada desde que nos casamos. Realmente, nunca fui assim. Mas você e esse seu lindo sorriso mudaram meu mundo.- Cisco encostou a testa na dela sorrindo.
__Ei! Acho que você não entendeu, minha linda e gostosa esposa. Estou explodindo de satisfação. Tenho uma mulher inteligente, talentosa, eficiente, fiel, amiga, carinhosa, deliciosa e que acabou de dizer que me quer o tempo todo. Sou o cara mais sortudo do universo. Se tiver que ser preso por isso, ok.- Riram de novo.- Eu te amo, pequenina. Provavelmente não mereço você, mas já que me quer, eu não vou recusar, não sou besta.- Beijou-a com carinho. Lú sorriu para seu amado. Voltou a cabeça para o peito dele. Dois minutos depois os falcões chegaram. Todos juntos. As mulheres apreensivas e cuidadosas. Os homens protetores e poderosos. Todos beijaram Lú e trocaram olhares solidários com Cisco. Lú contou com calma tudo o que tinha acontecido e os exames que o médico pediu.
__ Mas não sentiu nada estranho?- Perguntou Rick.- Não sentiu tonturas, nada?
__Nada, vovô. Estava molhando as flores do closed num segundo e no outro estava na cama com Cisco nervoso do meu lado.
__Isso realmente é muito estranho.- Disse Lia olhando Liv.- Tem certeza que não está grávida?
__Eu menstruei, vovó. Tem sido igual a vários anos, sempre precisei tomar anticoncepcionais por causa das cólicas. Minha menstruação nunca nem sequer atrasou.- Todos ficaram em silêncio. Ela olhou Cisco, ele acariciou seu rosto e sorriu.
__Vai me contar como é estar dentro daquela máquina? Deve ser igual uma capsula espacial.- Chacoalhou as sobrancelhas. Ela riu.
__Cisco! Só você mesmo.- Abraçou seu marido. O Doutor Germano apareceu com uma enfermeira.
__ Como estão, Medeiros?- Olhou Mari e Liv.- Ah, que bom que já vieram. Mais tarde quero fazer um hemograma de vocês também.- Olhou Lú.- Mas primeiro seu exame. Acompanhe Jacira, ela vai prepara-la.- Lú olhou Cisco amedrontada.- Como já lhe disse, eu virei busca-lo para acompanhar seu exame, mas a preparação você terá que fazer sozinha.- Cisco se levantou colocando Lú de pé com cuidado. Beijou-a e disse:
__Vá tranquila. Estarei na sala de exame, nem que para isso precise derrubar uma porta.- Sorriu. Depois piscou para ela.- Estou brincando, mas sabe que faria se fosse preciso.- Acariciou o rosto dela novamente.- Vai meu amor, estarei lá.- Lú olhou seu pai e sua mãe, depois Mari e de novo Cisco. Respirou e acompanhou a enfermeira pelo corredor comprido. Quando o médico ameaçou sair, Cisco segurou seu braço e disse entredentes:
__Se não vier me buscar para o exame, quebro sua cara!- O médico o olhou descontente;
__Sei que está nervoso. Por isso não levarei seu comentário em conta. Vou buscar o resultado do hemograma, então assim que ela estiver pronta, virei busca-lo para a tomografia de sua esposa.- Saiu por uma porta lateral. Cisco voltou a olhar Lú que chegava ao final do corredor, antes de virar para a direita, ela o olhou e acenou. Assim que ela sumiu, Cisco travou os dentre com força. O pavor tomando conta de seus ossos. Uma certeza o invadiu, não poderia viver sem ela. Sentiu um vazio pesado forçando seu peito. Uma dor sem controle se espalhando por suas células. Lutou tanto para nunca se apaixonar, porque não queria sentir esse pavor. Porque Deus permitiu que conhecesse essa maravilha para lhe privar dela em tão pouco tempo? Porque não descobriu o amor de Lú antes? Pelo menos poderia ter tido essa benção por mais tempo. O que faria se a perdesse? Foi perdendo a cor. Jorge apertou o ombro do filho. Sabia o que o medo de perder sua amada era capaz de fazer. Cisco foi ficando sem ar, sufocando com as lágrimas que lavavam seu rosto, soluços violentos convulsionavam seu corpo. Nunca em toda sua vida sentira um desespero tão grande. Ben também veio segura-lo.
__Sei que está sofrendo.- Disse o sogro compassivo.- Mas ela precisa de sua força agora. De todos nós aqui, você é o único em quem ela vai acreditar. Se te vir assim, sangrando não terá forças para lutar com o que vem pela frente.- Os olhos de Ben eram pura dor.
__Não posso perde-la.- Disse chorando.- Não vou suportar. Eu…
__Oh, meu filho.- Disse Jorge com as lágrimas correndo pelo rosto.- Precisa lutar, escute Ben. Você é o motivo para ela lutar.- Rick suspirou:
__Tragam ele aqui.- Ele se sentou chorando ao lado do avô: _Filho, sei que está devastado. No seu lugar eu também estaria. Mas seu pai e seu tio estão certos. Sua esposa precisa de sua força. Não pode deixar essa agonia vence-lo. Acho que chorar pode acalma-lo, mas precisa se recompor.
__O que faço se ela… Não tenho como enfrentar isso….Eu…
__Cisco.- Disse Lia.- Escute, você foi maravilhoso até aqui. Socorreu, protegeu, procurou ajuda, esteve com ela em seus braços mantendo-a segura. Acalmou-a, encorajou-a, apoiou-a. Foi o marido perfeito. Mas ela vai precisar disso ainda mais. Não sabemos o que está acontecendo, mas se ela estiver mesmo doente, vai precisar de sua coragem.
__Vovó. Que coragem? Não vou nem mesmo conseguir respirar se ela……- Chorou.- Vovó, o que vou fazer se….. Deus, eu…. Não posso mais viver sem ela… Eu…- Mari explodiu:
__O que você está querendo dizer?- Quincas segurou-a pela cintura.- O que acha que vai acontecer, seu trouxa? Acha que minha irmã não vai conseguir vencer seja lá o que for que ela tiver? De quem acha que estamos falando?- Quincas disse baixinho no ouvido dela:
__Calma, linda.- Mari nem mudou de posição. Parecia que se o marido a soltasse, ela voaria no pescoço de Cisco. Os olhos em chamas. Toda a coragem, o poder, a força dos falcões estampada em seu rosto.
__Quem pensa que Lú é? Ela é forte, corajosa, batalhadora. É doce e gentil com todos, mas é uma guerreira. Acha que não sei que ela dança muito melhor do que eu? Que não vi ela inúmeras vezes se prejudicar apenas para me fazer sentir melhor, especial? Acha que não vejo ela doar todo seu tempo livre para meus irmãos e outras crianças no orfanato, muito mais do que qualquer outro ser humano poderia fazer? Acha que não sei que foi ela que contou a você sobre o casamento no mar, para que contasse a Quincas, porque ela sabia que o voo dele estava chegando naquele horário? Que eu não sei de várias outras vezes que só fui feliz por causa da intervenção dela? Conheço minha irmã. Ela parece frágil, mas é batalhadora, e bondosa. É lutadora como meu pai e inteligente como minha mãe. Pode vencer qualquer adversário. Ela é um falcão. Vai vencer qualquer doença que possa ter. Todo mundo aqui sabe disso. Agora pare de agir como um idiota fracote achando que vai perde-la. Mostre que também é um falcão. Levante-se e vá apoia-la. – Cisco levantou, foi até Mari a abraçou forte:
__Tem razão. Acredito em tudo isso. Sei que ela é capaz de vencer qualquer coisa. Conheço a força dela melhor que ninguém. Sei que ela não precisa de mim para protege-la. Sou eu que preciso dela! Não sou nada sem ela. É por isso Mari, esse pavor de perde-la. Por favor Mari, me ajude. Diz outra vez que não vou perde-la? Diz?
__Não vai.- Todos se viraram ao ouvir a voz no meio do corredor. Lú estava radiante, com sorriso nos lábios e lágrimas escorrendo pela face delicada. Usava uma camisola do hospital e estava descalça. Doutor Germano vinha caminhando uns 10 passos atrás dela sorrindo. Lú correu para Cisco e saltou no colo dele chorando e rindo.
__O que houve? Pelo amor de Deus, Lú, o que está acontecendo?- Aquele jovem sofredor havia desaparecido, um falcão protetor surgira no lugar. Os braços em volta dela mostrando que estava disposto a tudo por ela, provavam isso.- Diz, meu amor, o que houve?
__Estou grávida! Cisco, estou grávida! Eu vi nosso bebê! Tem um bebê dentro de mim. Estou grávida! Grávida!
__Mas como….- Olhou o médico.
__Pois é. Deu no hemograma, como estávamos na sala de ultrassom resolvi confirmar. Tem um bebê de seis semanas bem saudável chegando por aí.
__Mas ela menstruou?
__Então, pelo visto o contraceptivo não funcionou exatamente como devia, mas continuou regrando a menstruação. Quando ela parava de tomar, a menstruação vinha. Por conta deste contratempo, provavelmente serão necessárias algumas vitaminas. Não sou obstetra, querem que elenque um, ou já conhecem alguém?- Cisco olhou Lú, a alegria tomando conta de todas as suas células.
__Você viu nosso bebê?- Ela sorriu e afirmou com a cabeça rapidamente.- Ai meu Deus, vou ser pai!- Beijou-a.
__Espere!- Disse Ben.- 6 semanas? Engravidou minha filha antes do casamento?
__Claro que não. Ela era até virgem.- Disse Cisco e olhou nos olhos de sua amada, entendendo que engravidara sua esposa na primeira vez que fez amor com ela. Na noite que não pode conter a fúria de seus desejos, quando se viu totalmente entregue a ela, por ela. A informação não precisou ser explicada, toda a família entendeu.
__Bem isso não faz diferença para a medicina.- Disse Doutor Germano.- Muitas mulheres engravidam na primeira vez, mas muito poucas tomando o contraceptivo, então é melhor começar o pré-natal o quanto antes.
__Pré natal? – Disse Nina entrando com Beto, Rody, Alana e Clara.- Quem está grávida?
__Lú, né mamãe.- Disse Clara rindo.- Acho que não poderia ser Cisco.
__Ei cara!- Disse Rody.- Já?! Não tem televisão em casa, não?- Riram. Menos Ben que parecia meio pálido.
__Isso é competência. Já ouviu falar Rody? Nem o comprimido me venceu.- Riram mais.
__Deus! -Disse Ben.- Vou ser avô? Acho que preciso me sentar.
__E eu que serei bisavô.- Disse Rick.- Estou me sentindo jurássico.- Riram.
__Ben.- Disse Clara.- Não sei se é você que está adiantado, ou Ruivo que está atrasado. Afinal ele acabou de ter uma filha, mas você maninho, vai ser avô.
__Quem? Ben?- Disse o Ruivo chegando com Alex.- Deus! Ah, meu docinho.- Disse Ruivo chegando perto de Lú.- Então era isso. Você será uma mãezinha muito linda.- Beijou-a, e depois Cisco.- E você garoto? Não tem televisão em casa?
__Eu já disse isso.- Disse Rody rindo e indo abraçar seu sobrinho.- Seu apressado. Não podia ter esperado uns anos? Assim nossos filhos seriam da mesma idade.- Sorriu.- Você é mesmo um estraga prazeres.
__Amigo, depois do desespero que passei hoje, pode me insultar como quiser. Nada vai me deixar chateado.- Todos os falcões começaram a felicita-los. Então veio Liv. Depois de beijar a filha disse para Cisco.
__Estou muito contente por vocês, são jovens, mas serão ótimos pais, tenho certeza. Obrigada Cisco, por mais essa alegria. De todos os homens do mundo por quem Lú poderia se apaixonar, você era o único que eu já amava como filho antes de você nascer. Se for possível, gostaria de pedir um favor. Tenha um pouco de paciência com seu tio. Ben é muito protetor e agora vai ficar ainda mais.- Sorriu. Cisco olhou para Ben e viu que ele ainda estava atordoado com a notícia, sentou-se ao lado de seu sogro.
__Tio Ben, posso falar com o senhor? É que eu sou muito novo, não estava esperando esse presente de Deus, mas estou infinitamente grato por ele. Só que não sei nada de bebês, nunca troquei uma fralda na vida. O senhor pode me ensinar? Por favor?- Ben olhou seu primo, que virou seu sobrinho e depois seu genro, o homem que fez dele avô. Suas lágrimas rolaram por seu rosto emocionado. Ben abraçou Cisco.
__Oh, meu querido menino. Sei que será um pai maravilhoso, como seu pai, como seu avô, como todos os falcões. Sei disso porque vi o amor que tem por minha filha. Vi seu desespero com a possibilidade de perde-la. Essa é a primeira coisa que um pai deve fazer pela felicidade de seu filho, amar a mãe dele. Desculpe se estou meio atordoado, mas foi tudo muito rápido, primeiro Lú doente, depois grávida…Vou melhorar, e ensinarei tudo o que quiser. Certo?- Acariciou o rosto dele como fazia com seus meninos.- Você é um presente que Jorge me deu. Meu pequeno primo capaz de fazer todos sorrirem com você. Obrigado por fazer de mim avô.- Cisco chorou.
__Ei! Pare de fazer meu filho chorar, Ben.- Disse Jorge sorrindo.- Ele já sofreu muito hoje. Deixe-o aproveitar sua alegria.- Jorge olhou seu filho nos olhos.- Poucas alegrias se comparam a alegria de ser pai.- Cisco sorriu, beijou o rosto de Ben depois o de Jorge, pegou a mão de sua esposa e ajoelhou-se na frente dela, no meio do hospital:
__Você já me deu as maiores alegrias que um homem pode ter na vida, mas agora está me dando uma felicidade que não pensei ser capaz de administrar. Como sempre, confio em você, em sua sabedoria, em sua inteligencia, em sua destreza para lidar com os desafios. Hoje, fui do inferno ao céu. Não tenho como descrever o que senti quando te vi desacordada, nem quando me disse que viu nosso bebê. Meu coração parou quando te encontrei caída, e fiquei sem ar quando me disse que está grávida. Não sei o que é maior, se meu alívio por saber que não está doente ou minha felicidade por saber que está esperando nosso filho. Só o que posso te dizer, na frente de nossa família, de nossos amigos, de todo o hospital, é que você é minha vida. Lutarei por você e sua felicidade com todas as minhas forças. E essa criança, terá um pai jovem, mas totalmente apaixonado pela mãe dela e disposto a tudo para protege-la. Esse bebê, será meu maior tesouro. Como tal, devo agradecer a você, meu grande amor, sem você, eu jamais alcançaria tamanha felicidade.- Beijou a barriga plana.- Estou aqui meu benzinho, esperando por você. Você me deu um bruta susto. Mas não se preocupe, estou tão feliz agora, que até já esqueci. Cresça meu amorzinho, estou te esperando.- Beijou a barriga dela novamente, molhando a camisola com suas lágrimas. Levantou-se imponente, um grande falcão.- Onde estão suas roupas?
__Roupas?- Foi só então que Lú se lembrou que saiu correndo do quarto para contar para Cisco de sua gravidez.- Deus! Estou de camisola!- Tapou a boca rindo. Todos riram.
__Vá vestir suas roupas. Vamos comer!- Sorriu, beijou-a.- Poderia leva-la assim, mas acho que Clara e Rody não deixariam a gente entrar. – Mais risadas. Lú foi vestir-se. Cisco ligou para a obstetra de Diana, marcando uma consulta para o dia seguinte. A novidade correu como rastilho de pólvora. Logo todos os falcões e agregados estavam no Medeiros, o badalado restaurante de Clara e Rody. O último a chegar foi Vincenzo. Chegou com Sofia, seus dois meninos e os meninos de Ben que Liv havia deixado com ela para ir ao hospital. Caio correu primeiro para sua irmã.
__Lú, você melhorou? Mamãe disse que estava doente?- Os olhinhos negros preocupados.
__O que aconteceu com você?- Perguntou Calebe.
__Não se preocupem. Eu estou bem. Eu só desmaiei e….
__Está grávida!- Disse Calebe com os olhos verdes muito brilhantes.- Igual mamãe, quando caiu na cozinha.
__Quando foi que mamãe caiu?- Perguntou o pequenino.- Eu não vi.
__Lógico que você não viu. Você estava dentro da barriga da mamãe. Foi por isso que ela desmaiou, porque estava esperando você. Foi por isso que você desmaiou Lú? Você também está esperando um bebê?- Ela sorriu.
__Sim.
__Verdade?- Perguntou Caio.- Ele está aí dentro da sua barriga?
__Sim.
__Que legal!- Sorriu o garotinho.- Como ele entrou aí?- Todo mundo riu.
__Está é uma longa história.- Disse Cisco rindo.- Te conto quando crescer.
__Mas isso vai levar muito tempo.- Risadas outra vez.
__Caio, foi Cisco que colocou o bebê dentro dela. Os maridos fazem isso. Então os bebês crescem e quando não cabem mais lá, eles nascem. E aí crescem aqui fora. Não é papai?- Cisco olhou Ben. Ele tinha explicado tudo tão claramente e tão simplesmente para seu filho que ele conseguia até ensinar seu irmão mais novo. Sentiu muito orgulho daquele sogro.
__Exatamente assim, filho.
__Mas então tem bebês nas barrigas de Mari e de Alana também?- Agora Cisco não se aguentou.
__Na verdade Caio, alguns maridos são mais….- Olhou Rody e Quincas, deu um pequeno sorriso.- Ansiosos que outros. Sabem que eu não gosto de esperar. Eu queria muito ter um garotinho lindo feito vocês. Sua irmã é muito boazinha, como vocês já sabem. Então deixou que eu colocar meu bebê dentro dela. Sabe que as mamães são sempre muito boas e espertas, né? Elas sempre sabem de tudo.- Os garotos se olharam e balançaram a cabeça juntos.- Então, Lú será uma mamãe maravilhosa, não acham?- Os dois sorriram esticaram as mãozinhas.
__Podemos fazer carinho nele? – Perguntou Caio.
__Doe carregar ele aí?- Perguntou Calebe.-
__Não.- Ela sorriu.- Não doe. Ele ainda é muito pequenininho. Igual esse botão.- Mostrou o botão da camisa de Cisco.- Mas ele vai crescer.
__E aí sua barriga vai ficar bem grande, né?
__Sim Caio. Então quando estiver assim, ele vai poder sentir quando você colocar a mão nela. Mas por enquanto, mesmo que ele não saiba, eu sinto.- Colocou as mãos de seus irmãozinhos sobre a barriga dela. Os garotos sorriram.
__Como sabe que é ele e não ela.- Perguntou Calebe.
__Eu não sei.- Caio arregalou os olhinhos. Virou-se para Cisco.
__Ué? Não disse para ela?- Todos riram.
_É que ele era muito pequeno, não tinha como eu saber. Tem que esperar um pouco mais. Mas não faz diferença. Eu amo o bebê de qualquer jeito.- Eles se deram por satisfeitos e se encantaram com a mousse de chocolate.
__Se saiu muito bem, Cisco.- Disse Ben.- Não é fácil enfrentar a bateria de perguntas de meninos curiosos e preocupados.
__Verdade.- Disse Jorge.- Principalmente quando eles sabem que foi você que colocou um bebê dentro da irmã deles.- Os dois riram.
__Pensei que fosse dizer aos garotos que alguns pais são mais eficientes que outros.- Disse Rody rindo.- Eu ia ter que partir para a ignorância, né?- Mais risadas e algazarra.
__Eu fiquei com inveja, admito!- Disse Alana. Rody a olhou um pouco surpreso.- Eu estou muito feliz por vocês. E estou muito feliz na minha casinha azul com meu marido maravilhoso. Mas gostaria de ter uma criança correndo pelo jardim.- Olhou Rody sonhadora.- Se eu não tivesse sido tão idiota, nós já estaríamos casados há anos e hoje talvez até já teríamos um filho.- Ele acariciou o rosto dela.
__Temos todo o tempo do mundo para ter um bebê, minha linda.- Beijou-a.
__Também quero filhos!- Disse Mari fazendo Quincas engasgar com o suco. Ela riu.- Fique calmo, amor. Vou esperar até terminar a faculdade. Além disso, a Companhia vai ficar sem minha substituta em breve.- Sorriu para a irmã.- Vou ter que esperar ela voltar as atividades para poder pensar em engravidar.
__Sabe Cisco. – Disse o Ruivo.- Acho que você tem razão, tem um maridos que são mais…Tranquilos que outros.- Gargalhadas encheram o salão.

O Namorado

Capitulo 11
Era chegada a hora de voltar para o dia a dia. Os falcões desembarcaram primeiro. Uma semana antes dos noivos. As férias e os casamentos tinham sido muito bons, mas todos deviam voltar aos seus trabalhos ou para escola. Os três casais foram deixados para aproveitar uma última semana. Na verdade, Quincas e Mari não estavam originalmente incluídos nesta parte, mas nada que Ben não conseguissem ajeitar. Os casais ficaram em andares diferentes, segundo Beto para começarem a se acostumar a vida a dois. Foi maravilhoso. Todos aprovaram. Mas depois daquelas semanas inesquecíveis, era o momento de começar realmente suas novas rotinas. Rody se despediu de suas sobrinhas e sobrinhos e pegou seu SUV azul que estava guardado no aeroporto e foi para a casinha azul. Cisco pegou Judite, seu fusquinha vermelho, colocou a bagagem dele e de Lú no bagageiro e a de Mari e as poucas coisas de Quincas em cima do capô. Amarrou tudo rindo e foram rumo sua casa. Deixou a ruiva e o marido na entrada do Dom Pietro e foi-se para sua casa. Nem tentou convencer o casal a dormir com eles enquanto não arrumavam o novo apartamento. Quincas pensou que ele faria isso, mas ele os deixou lá todo sorridente e se foi. Não que ele fosse aceitar, já tinha até pensado em onde buscaria um colchão para a primeira noite e depois alguns móveis. Mas Cisco, apesar de parecer um menino despreocupado, era sempre muito prestativo. Apenas estranhou. Mari estava tão contente com sua nova vida que tudo era uma aventura. Subir as escadas da portaria
cheia de malas, procurar seu andar, falar pela primeira vez com seu porteiro, tudo lhe parecia maravilhoso.
__Olá.- Disse a ruiva para o senhorzinho magrinho de óculos atrás da bancada da recepção.- Somos os Fernandes, somos os novos moradores do 305.- O homem arrumou os óculos, olhou com sorriso simpático para eles dizendo:
__Ah, sim. Um jovem casal. Ele alto e ela a mais linda ruiva que já vi. Sei.- Aquelas palavras soavam muito familiar.- Venham vou ajudar com as malas.- Colocou tudo no elevador. Apertou o último andar.- Sr Vogelmamn esteve aqui, ontem cedo. Já providenciou a segurança. Disse para entregar este controle e dizer que ele vai ativar tudo depois que falar com vocês mais tarde. Os Fazzanos também estiveram aqui. Disseram para ligarem para eles se tiverem alguma dúvida.- Entregou um envelope grande e grosso.- Disseram para dar isso a vocês. E o Doutor Medeiros também veio hoje.- Deu outro envelope, também grande e grosso.- Bem acho que é só. O número da portaria está no interfone. qualquer coisa estou por aqui. Me chamo Dimas, e o outro porteiro, Luan. O seu é o último andar. Tudo certo?- Eles subiram rindo sem nem saber direito o porque. A atitude do porteiro Dimas foi tão engraçada. Enfim chegaram ao destino. Quando a porta se abriu, deu num átrio com uma porta de saída de incêndio, uma escrito manutenção e apenas mais uma porta. Uma porta de madeira larga e alta com um puxador bem grande. Um vaso bojudo de chão, com uma boca larga, cheio de margaridas brancas plantadas, logo abaixo do número 305 não deixava dúvida que esse era mesmo o lugar. Testaram as chaves e a porta se abriu para um jardim gramado com um caminho de pedras que levava para uma casa branca, com portas e janelas grandes de vidro. Um telhado de várias águas e uma varanda na frente. O jardim circundava toda a casa com mais ou menos uns 10 metros até chegar aos parapeitos altos do edifício todos revestidos com jardins suspensos de margaridas brancas. Tinha também umas mesinhas de ferro pintadas de branco com cadeiras pelo jardim. Uma carriola cheia de flores brancas, uns vasos meio enterrados derramando as mesmas flores. E num dos lados uma árvore de jabuticaba. Não, a sua árvore de jabuticaba.
__Não acredito!- Começou a chorar.- Essa árvore é minha. Eu tenho desde menina, eu…. Eles trouxeram para cá.
__Isso pode ser feito?
__Tio Ruivo e Vovó Lia fazem maravilhas com plantas. Olha só o que fizeram aqui.-
__Mas eles estavam com a gente. Uma semana é muito pouco tempo para plantar tudo isso.
__Verdade. Ela deve ter desenhado e mandado para alguém. Ruivo conhece bons jardineiros, eles devem ter vindo só terminar tudo. Vamos olhar lá dentro?- Entraram com a mesma chave. A sala era aconchegante, as paredes em dois tons de bege e palha. Branco no teto. Piso de madeira de cerejeira, bem envernizado. Um jogo de sofá cinza claro, mesinha dupla redonda em cima de um tapete felpudo. Nela um vaso com gérberas e uma estatueta de uma bailarina de bronze. No sofá duas almofadas de crochê. Na parede central uma tela do mar com uma menina ruiva apontando para as ondas.
__É você!- Disse Quincas bobo com tudo que via.
__Sim. Papai tinha essa foto, foi Clara que fez. Eu não sabia que ele tinha pedido uma tela dela para o Ruivo. Com certeza Tio Ruivo pediu uma foto para pintar e ele escolheu essa. Com tantas lindas poses de espetáculos ele sempre amou essa. Dizia que eu era só eu nesta cena.- Chorou. Foi quando viram na mesinha de canto, uma foto num porta retrato de prata, era de Quincas pequeno, quando chegou no orfanato e ao lado, em outro ele na formatura. Na mesinha ainda um abajur tifany muito bonito. Na parede oposta um espelho jateado bem elegante. Uma sala arejada e bem bonita. Na parede lateral, uma porta dava em uma circulação sextavada com cinco portas brancas . Na primeira, um lavabo verde bem clarinho. Peças brancas e uma bancada de mármore. O espelho cristal bem decorado com pequenas folhinhas. Um vaso com uma orquídea branca e toalhas verde claro completavam os detalhes. Muito lindo. Na outra um quarto de casal com cama branca, um armário também branco, com roupas de cama branca, pintado de amarelo. Tinha um banheiro pequeno, todo preto com uns veios verde escuro, bem elegante. Quincas ia deixando as malas ali, mas uma foto do por do sol, em preto e branco, fez Mari achar que aquele não era o quarto deles. A próxima porta encantou Mari. Era uma sala de 6 metros por 6 metros. Uma das paredes toda de vidro com visão para o jardim. A outra parede toda espelhada e com uma barra. A terceira parede, coberta por pequenos nichos em madeira branca. Alguns ainda vazios, mas várias fotos, alguns bibelôs, prêmios, livros, alguns vasinhos. Toda a história dela ali. Uma cadeira estofada branca, e uma arara com a roupas de balé dela, que ficavam em casa.
__Papai!- Chorou ainda mais.
__Ei! Não chore. Ele não vai querer que fique chorando.
__Está certo. Vamos ver o restante. – Foram para a outra porta. Não era um quarto muito grande, três por três no máximo, com uma janela grande, mas fez Quincas chorar. Uma escrivaninha azul em L, uma cadeira confortável, impressora, computadores, um lixo aramado, material de escritório. Tudo em azul. Simples, útil. Mas a parede oposta cheia de nichos para livros , prêmios, diplomas e afins, tinha também muitas fotos. Todas as que Jorge pode juntar. As que ele trouxe de sua família quando chegou no orfanato, foram reconstruídas. AS que tirou quando criança e depois no orfanato. Algumas do casamento. Todas ali, contando sua história.
__Como eles conseguiram isso tudo?-
__Jorge e Clara. E tem papai também, é muito bom com fotos. E Gigio também.- Choraram juntos. Quando saíram do escritório, notaram uma escada do lado direito. Subiram e lá encontraram duas portas. Na primeira, um quarto pequeno. quase igual o amarelo lá de baixo. Mas esse era verde claro. E tinha um banheiro em mármore branco. Muito elegante também. E na parede uma foto em preto e branco da jabuticabeira. Isso era coisa de Clara. Mari sorriu. Então a outra porta se abriu. Atrás uma cama de ferro pintada de bronze, os lenções estampados de margaridas brancas pequeninas. As cortinas também. Grandes janelas davam visão para o mar. As paredes num rosa envelhecido davam um ar de conforto. Um poster quase de tamanho natural, mostrava o momento exato que Quincas beijava a mão de Mari com a aliança e o anel. Como sempre Clara pegara o momento exato, o mais bonito, e transformara em obra de arte. Alguns vasos de flores e outros pequenos apetrechos deixaram o quarto ainda mais lindo. Então notaram a porta lateral. Atrás dela um closed bem planejado um espelho gigante e uma penteadeira muito elegante. Em frente um banheiro, todo bege. Bancada de travertino, Box incolor, banheira de pesinhos, tudo clarinho. O desenho de rosas no espelho e o vaso de margaridas na bancada deixava tudo a cara de Mari. Ela voltou para o closed e abriu as gavetas para constatar que todas as sua coisas tinham sido trazidos para lá. As coisas de Quincas também.
__Essa sua família não existe!- Ela riu.
__Nossa família.- Deixaram as malas lá e foram conhecer a cozinha.
__Ficava na parede ao lado da entrada. Uma cozinha de apartamento. Bem planejada, com tudo o que precisavam, uma lavanderia acoplada, mas bem estreita. Em contra partida, uma sala de jantar ao lado com uma mesa de madeira para doze lugares. Um balcão estreito e comprido e um espelho bem bonito acima dele. E para compensar a cozinha, uma varanda amistosa no outro lado de casa.
__Parece a casa do Professor Jorge, um pouco.
__Eu acho que parece mais a do Ruivo. É diferente, mas lembra. Ai amor, achei tudo lindo. Olha, não sei se você não gostou de alguma coisa, mas eles fizeram tudo pensando na gente. Conhecem mais meu gosto, mas se esforçaram para agrada-lo também. Por favor, não fique bravo.
__Bravo! Estou imensamente agradecido. Só não sei como vou pagar tudo. Espero que eles parcelem para mim.- Sorriu.
__Acho que não entendeu.- Ela apontou os envelopes.- Aposto que aí dentro tem todas as notas, mas nem um valor. Tudo o que fizeram, são de presente. Iguais as prendas dos falcões que estavam no case de Caio.
__O que? Mas é tudo muito caro. Preciso paga-los.
__Eles não vão aceitar. Na verdade, nunca vão admitir quem fez o que. É assim que agem.
__Está me dizendo que teremos que aceitar tudo de graça! Não sei se isso é certo. Eles são seus parentes, mas eu…- Olhou-a e percebeu uma certa tristeza nos olhos dela. Suspirou.- Eu não me sinto bem, Mari. Não foi para ganhar coisas que casei com você.
__Eu sei. Mas as pessoas ganham presentes quando se casam , é normal. A tradição das prendas, eu entende que você estranhe um pouco. Mas os presentes deles é normal.
__Mari. Eles deram uma casa numa cobertura totalmente mobiliada. Isso não é normal.- Ela riu.- Normal seria uma batedeira, um jogo de xícaras, de taças, um faqueiro. Isso , não pode ser.
__Joaquim. – Disse séria.- Olha, entendo seu embaraço. Mas preciso que entenda, que está é minha família. Se nós tivéssemos namorado e noivado normalmente. Talvez eles tivessem ajudado você a conseguir um financiamento para comprar um apartamento aqui no Dom Pietro. Provavelmente um em outro andar. Poderiam ter ajudado a conseguir móveis simples e de bom gosto nos fornecedores que conhecem. Poderiam ter vindo junto comigo fazer um pequeno jardim na sacada e todos estaríamos felizes. Mas as coisas não aconteceram assim. Num dia eu estava embarcando para o casamento da minha irmã e da minha prima, e no outro estava casando com você. Sem ter onde ficar. Eles são falcões, protetores por natureza. Lógico que não permitiriam que ficássemos sem essas coisas. Só que agora não teriam tempo de esperar que você pedisse a ajuda deles. Eu não sabia que fariam isso. Pensei que se não tivéssemos onde ficar, meu pai ofereceria o meu quarto para nós. Achei que você ficaria constrangido, mas seria uma boa saída para economizar para o nosso apartamento. Quando os primos explicaram as chaves, eu fiquei contente. Era um começo mais tranquilo para nós. Não me importaria de dormir em um colchão, em comprar comida pronta até poder cozinhar num fogão pequeno, em não ter todas essas flores. Mas agora que eles tiveram todo esse trabalho para deixar nossa casa tão linda assim, eu acho um desrespeito você não aceitar o presente deles. Eles fizeram por amor. Não só a mim, a você também. Quanto tempo Jorge precisou para juntar todas aquelas fotos suas, todas as coisas que você poderia se agradar em ter em seu escritório? O mesmo tempo que meu pai teve juntando todas as coisas que colocou na minha sala de dança. Essa cozinha. Quando tempo e carinho os primos tiveram em preparar cada coisa para nos agradar? Eles sabem que gosto de cozinhar, não sou tão boa como Lú, mas eu sei cozinhar. E Ruivo trouxe minha árvore para cá! Nem vou falar das pinturas, da minha bailarina de bronze, do abajur do meu quarto, as minhas coisas que eles trouxeram e tiveram o cuidado de colocar onde eu pudesse me sentir mais afagada. Todas as cores, todas as flores tudo eles escolheram e fizeram com muito amor. Sei que deve ter custado dinheiro também, lógico. Mas nada pode pagar o amor que demonstraram fazendo isso. Não vou desonrar esse amor. E não vou permitir que você faça isso. – Quincas nunca tinha visto Mari tão poderosa. Ficou ainda mais apaixonado.
__Não quero chatear você, nem desonrar o amor de sua família, mas eu tenho vergonha de aceitar tudo isso sem pagar nada. Me sinto aproveitando da bondade deles.
__Quincas.- Sorriu, era a primeira vez que o chamava assim. Ele também sorriu.- Se Caio precisasse de sua ajuda para usar o computador, você ajudaria?
__Claro.
__E cobraria por isso.
__Claro que não. Imagine?
__Mas é sua profissão. Você ganha a vida programando computadores, e se fosse Calebe, ou mesmo Lú, você cobraria?
__Aonde quer chegar?
__Para os falcões, nós somos como Caio. Eles tem condições de resolver nossas dificuldades facilmente. E jamais cobrariam por isso. Sim, em muito casos é a profissão deles, como os primos e papai, ou Alex, mas eles fazem isso por carinho. Como você faria para Caio, ou Calebe, entende?
__Entendo. Só que programar o computador de seu irmão é bem diferente de mobiliar uma cobertura, né?- Ela suspirou.
__Ok. Cansei. Você se vire com os falcões depois, vamos ver se consegue devolver ou pagar pelo carinho deles. É bom se lembrar que isso inclui vovó Lia e tio Jorge também. Eu estou com fome.- Abriu a geladeira.- Mamãe e vovó passaram aqui. Acho que Vincenzo e Clara também.- riu. Tirou de lá uns quitutes deliciosos. Foi para o fogão fazer café. Quincas ficou olhando ela fazer café e verificar todas as portas e utensílios com cuidado. Aquela era a cozinha dela, a casa dela. Se deu por vencido.- Quer leite?
__Não, prefiro só café.
__Não quer comer nada, tem umas coisas bem gostosas aqui.- Ele a abraçou e beijou seu pescoço.
__Exatamente do que estamos falando?
__De doces, salgados, algumas massas, frutas.
__Pensei em algo mais… Picante.
__Bem, posso conseguir pimenta, se quiser.
__Prefiro um beijo.- Esse foi longo e quente.- Mari, é complicado para mim, mas vou tentar me esforçar. Não quero brigar com você.
__Não foi o que pareceu há dois minutos.- Ele riu.
__Ok. Desculpe. Posso beija-la como pedido de trégua?
__Desculpe, caro nerd, mas acho que está enganado com a mulher que se casou. Não acha realmente que vou me render por um simples beijinho na cozinha, acha?- Ela ergueu a sobrancelha ruiva examinando seu marido. Ele sorriu:
__ Já que não terei mesmo opção, que tal inaugurarmos a cama?
__Você é rápido hein?- Disse ela rindo.- Não vai nem ao menos tentar me seduzir?
__Amanhã, amor. Hoje, estou sem condições de esperar mais. E a culpa é toda sua, quem mandou erguer essa sobrancelha ruiva deliciosa para mim? Estou em chamas. – Agarrou a mão dela e correram para o lindo quarto rindo.
Na manhã seguinte, enquanto tomavam o café da manhã, o interfone tocou.
__Sim.
__Bom dia senhor. Seu sogro está aqui, quer saber se podem atende-lo?
__Claro. Mande-o subir, por favor.- Olhou Mari.- Seu pai está aqui.- ela sorriu e pegou outra xícara. Quincas foi para o quintal abrir a porta. Quando Ben tocou a campainha, Quincas o fez entrar num segundo. E sua filha correu para abraçar seu pai.
__Ah, papai. Obrigada. Tudo é lindo.– Ele sorriu apaixonado por sua menina.
__Não sei exatamente do que está falando, mas se é sobre a casa também achei. Os falcões nunca perdem a mão. Viu sua árvore? Nunca imaginei que ela pudesse ser transplantada. Ah, pedi para plantarem outra no lugar para mim. Eles me arrumaram uma magrinha, mas pelo menos já tem frutas.- Riu.- Olha, toda a documentação está nos envelopes. No que deixei, no que os primos deixaram e Alex deixou alguns comandos no computador, numa pasta que ele disse que Quincas vai encontrar facilmente. Ele virá depois para explicar mais alguma coisa.- Entraram na cozinha, Ben abriu uma das portas do armário.- Aqui está seu cofre. A senha provisória está aqui.- Passou um papel.- Alex instalará a definitiva com vocês.- Puxou o ar sentido o cheiro.- Hum… Café?
__Sim.- Sorriu e deu uma xícara para ele.-
__Que delícia. Ninguém faz café como você, minha linda.- Ela sorriu ainda mais contente. Quincas viu o amor com que esse pai tratava sua filha. Entendeu que não poderia mesmo pagar tanto afeto.- Ok. Estou aqui, para lhes entregar meu presente.
__Como?- Disse O genro.- Senhor, mas já nos deu a casa e todas essas coisas….
__Eu não dei a casa. Já sabem, os falcões compraram a cobertura dos primos, partilharam em todos os amigos e parentes que quiseram dar para vocês como presente de casamento. Eu fiz a documentação, cedi as fotos, os objetos e as roupas que já eram dela que estavam na minha casa. Foi só o que fiz. Não me pediram para presentear vocês com a casa, sou o pai da noiva. Então estou aqui para entregar o meu presente, um presente igual ao que dei para minha outra filha. Ela aceitou e o marido também, espero que você não me faça a desfeita de não querer meu presente só porque não fiz parte do mutirão da casa.- Quincas ficou sem ação. Ben era mesmo um excelente advogado. Tirou do bolso uma chave preta. De carro.- Não é muito grande, mas será bem útil para irem para o trabalho. Escolhi cinza porque era a última peça disponível na concessionária. Já está no nome de Mari, mas ela não tem carteira. Jorge disse que você tem. E disse que você dirige bem. Espero que ele não tenha mentido.- Sorriu.
__O Senhor está dando um carro para Mari?
__Sim. Para irem trabalhar. Se não vão ter que pegar carona com Cisco.
__Mas o senhor disse que deu o mesmo presente para Lú? Cisco já tem carro.- Disse Mari.
__Aquilo não é carro, é um fusca.- Riu.- Não vou deixar ele levar minha pequenina naquela lata de sardinha. Ela vai chegar toda dolorida para dançar.
__Papai, Cisco ama Judite. Não vai deixar de usa-la.
__Até pode ser. Mas eu ouvi sua irmã dizendo que vai dar entrada na carteira essa semana.- Riu. Olhou seu genro.- Quincas, sei que é estranho para você de repente ter uma casa tão arrumada e um carro novo, sem ter sido você que comprou ou escolheu essas coisas. Imagino que queria escolher cada detalhe com sua esposa. Mas você já volta ao trabalho hoje e Mari tem apresentação para depois de amanhã. Se quiser trocar alguma coisa, tudo bem. Tudo é de vocês. O carro também, pode trocar se preferir. Escolhi igual o meu porque é o modelo que conheço melhor.
__O senhor nos deu um SUV da Ford?
__Então, não tinha mais preto igual o que reservei para Lú e Jorge comprou o vermelho um dia antes quanto falei que tinha ligado para encomendar um para vocês e o vendedor disse que tinha só mais o cinza e um verde para chegar esta semana. Se quiser trocar, não tem problema. Eu gosto do cinza, é mais escuro que o de Liv. Querem ver, está na sua garagem? É bem macio, o motor é bem bonito.- Sorriu.
__O senhor veio dirigindo ele?
__Eu trouxe da loja, e deixei ele aqui ontem. Liv trouxe o de Lú, disse que está muito bom também.
__O tio Jorge deu um carro para Alana? Mas o de Rody é novinho. Ele trocou antes de viajarmos.- Disse Mari.
__Jorge é um invejoso. Só porque disse que tinha comprado um carro para Lú e estava separando um para você, disse que as três noivas deviam ganhar um presente igual. Alana gostou claro. Ama tudo que Jorge faz. E Rody não consegue não concordar com ela. Em resumo, só eu que vou ter que convencer meus genros a aceitar meu presente. Cisco me olhou com uma cara que parecia que eu tinha ofendido a mãe dele, que é minha tia. E Quincas.. Bem, não preciso nem dizer, né?- Quincas se sentiu muito mau. Rody nem precisava do carro, mas para agradar Alana recebeu de bom grado o carro que seu irmão deu para ela. Cisco não rejeitou o carro, só não queria deixar de usar seu fusquinha. E ele que mais precisava de um veículo reagia todo cheio de orgulho. Lembrou-se que quando era menino, tinha conhecido órfãos assim, ingratos. Olhou para seu sogro. Um homem na casa dos 40 anos, muito jovem para a idade, era alto e forte. Os cabelos ruivos como os de Mari, não tinham nenhum fio branco. Os olhos exatamente iguais os de sua amada, eram sábios e bondosos e sem dúvida muito astutos. Ele era o grande advogado da família Medeiros. O herdeiro das qualidades de seu avô, o poderoso e sagaz Rodolfo Medeiros. E amava suas filhas verdadeiramente.
__Desculpe, senhor.- Disse Quincas.- Realmente é tudo muito novo e assustador para mim. Sou órfão desde os 9 anos. Embora tenha sido tratado com todo respeito e cuidado pelo pessoal do orfanato do Professor Jorge, eu nunca voltei a ter uma família. Eu tinha me esquecido como é ser amado pelo seu sangue. Um amor sem preço.- Olhou Mari.- Ela tentou me explicar isso ontem quando vimos tudo aqui, mas é difícil para mim. Desculpe se pareço ingrato. Eu não sou.- Olhou Ben suplicante.- Principalmente ao senhor, que me permitiu casar com sua filha. Uma filha que o senhor ama tanto que articulou para que seus parentes e amigos se unissem para dar para ela presentes tão carinhosos. O senhor, que mau chegou de viagem, e foi em busca de um veículo seguro para leva-la para a escola e o trabalho. Eu vi a sala de dança que fez para ela. Não via esse tipo de amor desde que minha família morreu naquele desmoronamento. Meus pais eram pobres, mas me olhavam exatamente como o senhor olha para ela. Também eram capazes de todo esforço para nos ver felizes, eu e meus irmãos. Desculpe senhor. De-me mais tempo. Eu vou me acostumar. E só que, não sei como reagir, eu não tive esse tipo de carinho durante 14 anos. Me sinto estranho, como se estivesse abusando de vocês, do senhor. Sei que o senhor não tem como entender isso, sempre foi amado, mas eu…- Ben segurou o ombro dele.
__Ei! Filho.- Disse carinhoso.- Olhe para mim.- Quincas fez meio encabulado.- Eu entendo. Para mim também é tudo muito estranho. Tudo novo. Também tenho sentimentos negativos. Olhe, a três meses eu tinha duas meninas lindas dançando para mim na sala de dança que fiz para a mãe delas. Hoje tenho dois genros beijando elas todo tempo. Quase morro de ciúme o tempo todo. Não sei mais se posso beija-las como antes, se posso pega-las no colo como sempre fiz, se eles estão cuidando delas direito, se vão protege-las como eu, não sei se estou fazendo as coisas certas, se devo apenas esperar que me procurem. Conheço Cisco desde que nasceu, sabia que ele detestaria a história do carro, mas não pude me conter só de pensar em minha pequenina sacolejando naquela coisa minúscula. Eu te vi no orfanato quando era pequeno. Depois te vi algumas vezes na empresa. Mas sabia muito pouco de você. Jorge me garantiu que você é um bom rapaz e eu vi Mari apaixonada, então deixei vocês se casarem. Mas fiquei com meu coração apertado. Não vou negar, já revirei sua vida do avesso. Usei todos os meus contatos, e os de Alex, e de todos os falcões.- Quincas arregalou os olhos.- Sim, desculpe. Mas eu precisava saber quem você era. Me senti muito mau ao descobrir que tudo o que Jorge disse era mesmo verdade. Você sempre foi um bom menino. Um menino sofrido. Me senti um monstro ciumento procurando um defeito no namorado da filha. Mas ao mesmo tempo, fiquei imensamente feliz, ao descobrir que entreguei minha ruivinha para um bom homem. Um trabalhador diligente, aplicado e muito educado e gentil com todos. Achei que precisava te compensar pela minha invasão. – Quincas entendeu. Foi ele que fez o escritório, não Jorge. Jorge lhe deu as coisas, as fotos, mas foi ele que tinha feito.
__O escritório! O senhor…- Quincas chorou. E Ben, como o bom pai que era, abraçou seu novo filho.- Como o senhor conseguiu todas as fotos?- Disse aos soluços.
__Jorge me deu as que você tinha. Eu mandei refaze-las. Nas minhas buscas encontrei outras. E Clara e Gigio me deram algumas também. Seus objetos estavam no orfanato e na sua sala na Medeiros. Foi bem fácil.- Riu.- Gostou do seu escritório? Mantive as mesmas cores de seu quarto no orfanato. Me disseram que nunca quis trocar, achei que preferia essas.- Quincas o olhou. Ele tinha feito tudo para agrada-lo, como Mari havia dito.
__Obrigado senhor, eu nem sei como agradecer. Sim gosto das cores, me acalmam. Eu não tinha aquelas fotos dos meus pais crianças. Como o senhor conseguiu?- Ben sorriu.
__Alex. Nunca vi um rastreador melhor que ele. Nem a pulseira.- Riu.
__Pulseira?- Quincas olhou a pulseira que Mari colocou nele no dia do casamento. Aquela que Alex mandou com um bilhete.- Isso é o rastreador dele? O invento que ele vendeu na Alemanha quando éramos crianças?
__Sim. Melhorada.- Disse Mari.- Alex pode monitorar você desde aquele dia.
__Verdade?- Perguntou a Ben.
__Sim. Enquanto estiver com a pulseira, ele pode achar você. E se estiver aqui, ou num lugar com um sinal bom, ele pode encontrar sua imagem pelo satélite.
__Gente! Ele é mesmo incrível.
__Sim.- Disse Mari.- Ele monitora todos nós. Mas normalmente, tem outro falcão que também pode monitorar a pulseira. Quem …?- Mari não terminou a pergunta. E Quincas já sabia a resposta.
__Não me olhe assim. Era lógico que seria eu. Você se casou com minha filha, é evidente que será meu filho agora. Vou cuidar de você como cuido dos meus meninos.- Para ele parecia tudo muito simples. Para Quincas um mundo de sentimentos misturados caiu sobre ele como uma avalanche. Chorou ainda mais.- Ei! Está tudo bem. Se preferir que Jorge seja seu pai, ele com certeza, vai gostar muito. Ele sempre é o preferido das crianças. Até o Ruivo ganha de mim neste quesito. Mas eu gostaria de ter um filho homem adulto. Vou ficar com mais ciúme se preferir meu primo.- Riu. Bagunçou o cabelo dele.- Oh, meu menino, só vou deixar você continuar chorando, se me disser que é de alegria. Não tem porque ficar triste. Você foi um órfão. Mas isso passou. Agora é um Medeiros. Tem uma esposa linda, louca por você. Tem uma casa feita com muito carinho por seus parentes para e por vocês. Tem uma família que aceitou você desde o primeiro instante. Tem um sogro ciumento, que terá imenso prazer em ser seu pai postiço. Tem até um carrão que pus no nome de Mari para você não poder me devolver.- Riram. Eles se olharam.- Desculpe desconfiar de você e revirar sua história, mas você terá seus filhos, saberá o que o medo de perde-los faz com um pai. Quase perdi Liv, antes de Alex inventar essa pulseira. Estive a beira da loucura. Nunca mais me recuperei. Não consigo não protege-los. Agora isso vale também para você, mesmo que prefira Jorge.- Quincas riu.
__Eu sempre preferi o senhor.- Ben o olhou estranhando o comentário.- Sim. Jorge era muito bondoso e sorridente. O Diretor Carlos era divertido e animado. Seu pai sempre muito grande, apesar da simpatia eu tinha um pouco de medo dele. Acho que ainda tenho.- Riu.- Tio Rick é assim tão educado, parece um lorde, não sei. E Alex é…muito além é um ícone para alguém como eu. Tinha seus dois avôs muito gentis, os italianos, o cozinheiro, mas o senhor…- Olhou Ben.- Não sei, era sempre mais calmo que o diretor, mas tão alegre quanto e parecia sempre focado em alguma coisa, mas nunca deixava de brincar com as crianças. Cuidava das meninas com tanto carinho. E depois veio os meninos. Muitas vezes desejei ser um dos seus filhos.- Foi os olhos verdes de Ben que marejaram agora.
__Então porque não me disse que estava apaixonado por minha filha? Teríamos escolhido tudo isso juntos. Sua casa, seu carro, o tipo de casamento. Porque teve medo de mim?
__Porque o senhor merecia um genro melhor. Sua filha merecia alguém melhor. Se eu não a amasse tanto, teria saído da vida dela. Eu tentei várias vezes, mas não consigo respirar longe dela.- Ben sorriu.
__Sobre o que sente por ela, entendo exatamente. É o mesmo que sinto pela mãe dela. Mas sobre merecermos alguém melhor que você, eu descordo. Não é uma decisão sua. Mari ama você. E eu serei seu pai mesmo que prefira Jorge, já disse.- Riu de novo.- Espere! Disse que preferia a mim, não foi? Mari! Grave isso! Vou mostrar para aqueles dois engraçadinhos.
__Obrigado por tudo, senhor. De verdade.- Quincas tirou os óculos, enxugou o rosto, respirou fundo e os recolocou.- Preciso ir. Não posso me atrasar, tenho que retomar meu trabalho, tenho família agora.- Sorriu, Ben também.
__Muito bem.- Disse Mari enxugando as próprias lágrimas.- Também tenho que ir. Papai, quer carona? Meu marido pode leva-lo para a empresa no novo carro que ganhei.- Sorriu matreira.
__Vou para o fórum.- Disse Ben.- Vou pegar meu carro, deixei na garagem reserva. Vocês tem duas vagas, ok? Tem outras condições nos contratos que os Primos mandaram. Inclusive o valor do condomínio. Não é absurdo, mas ainda assim não é tão barato. A vantagem é o gás e a água incluídos. Seja como for, essa cobertura foi mesmo um achado. Depois que os primos conheceram a casa do Ruivo, sempre fazem uma casa assim no último andar. Parece que tinha mais um apartamento no prédio, mas já foi reservado. A segurança é muito boa e a localização não podia ser melhor. O valor foi bem condizente e foi dividido como disse, os falcões se esbaldaram. Hoje, não posso ir com você para a empresa. Mas quero que dirija com cuidado. É um carro grande e com motor muito potente. Não precisa correr. Deixe Mari na faculdade e vá para a empresa sem loucuras. Certo, filho?- Quincas o olhou e viu todo o cuidado dos falcões.
__Sim senhor, sogro.- Disse de um jeito tão carinhoso que Ben se emocionou. Nunca tinha achado aquela palavra bonita, mas agora, neste momento achou tão bonita quanto pai. E ele que descobriu seu lugar no mundo quando Lú o chamou de papai pela primeira vez, agora sentiu seu peito esquentar do mesmo jeito, ao ouvir Quincas o chamar de sogro. Sorriu. Beijou o rosto da filha e depois o do genro que disse para ele baixinho.- E pode beijar e pegar Mari no colo sempre que quiser. Ela sempre será sua menina. Sempre. – Foi a vez de Ben deixar suas lágrimas cair no ombro de seu genro. Mas foi rápido. Mari nem percebeu. Mas uma amizade sem precedentes começou naquele instante. Não, um pacto. Eles lutariam juntos, pela felicidade dela.
Mais tarde, perto das 11:00 horas, Quincas já tinha colocado toda sua programação em dia. A agenda da semana estava preparada e a do mês em andamento. Tinha trabalhado bastante, muito concentrado. Nem notou que os outros programadores cochichavam sobre ele. Sentiu uma mão em seu ombro, virou-se para ver Beto olhando sua tela do computador.
__Já conseguiu adiantar tudo isso? E as atualizações? Já agendou?
__Sim, senhor. Até quarta da outra semana tudo já estará instalado. Já mandei o protocolo para os outros terminais.
__Conseguiu descobrir porque o sistema estava caindo, enquanto estávamos no cruzeiro?
__Então. Esse problema eu não consegui resolver. Não sei parece alguma coisa na segurança.
__Como assim? Algum vírus? Mas tivemos uma verificação antes de sairmos de férias. Os provedores são os mesmos e confiáveis, acha que pode ser algum problema no navegador? Ou no …
__Não é bem minha área, talvez Senhor Alex…- Disse Olhando nos olhos do falcão.
__Sei…- Beto com seus olhos muito negros sabendo exatamente o que o rapaz tentava lhe dizer. Beto suspirou.- Detesto problemas. Sou obrigado a ser mau. Não gosto de ser mau.
__Mentira!- Disse Ben entrando pela porta de vidro a direita.- Ele só faz de conta que é bonzinho.- Sorriu para o genro, que retribuiu o sorriso.- Ele é igualzinho a mim, ama ser muito mau.- Ben beijou rosto de seu pai sorrindo. Depois se abaixou e beijou o rosto de Quincas que ainda estava na sua cadeira, mas foi levantando para abraçar Ben e retribuir o beijo.- Como foi sua manhã, filho? Muito agitada, pelo visto.- Os outros programadores ficaram de queixo caído e foi Beto que respondeu.
__Não sei se gostei de ter Quincas de volta as máquinas. Foi só ele chegar que os problemas apareceram.- Parecia um garoto emburrado.-
__Ah! Papai, sempre pensei que gostasse de uma boa briga?- Ben sorriu.
__Estou ficando velho.- Apontou Quincas.- Olha o tamanho dos meus netos!
__Vamos meu velhinho, venha tomar um café com seu filho paciente e seu neto gigante.- Riu.- Venha, filho.- Quincas bloqueou seu terminal e saiu deixando seus colegas pasmos.
__Ok.- Disse Beto com o café na mão.- O que acha que está acontecendo, Quincas?
__Eu não sei senhor.
__Vovô. Por favor, me chame de Vovô. Pelo menos uma coisa boa no dia.- Ben riu.
__Quanto drama, papai. O que está acontecendo, filho.
__Tem algum problema com os servidores. Não são todos, mas vários não conseguem acessar alguns códigos de segurança. Parece que foi feito uma manobra para tentar furar os bloqueios e então um sistema de corte foi acionado. Sempre que um terminal tenta chegar perto da pasta em questão ele trava. Igual quando bloqueamos o celular para uma criança não acessar alguma coisa. O problema é que não sabemos em que pasta foi tentando o acesso.
__E você não tem como descobrir?
__Talvez. Mas nesse nível, vai ser demorado. Na verdade, como disse, não é minha área. – Neste momento como que por mágica Alex entrou na sala de Ben.
__Olá. Não tinha ninguém na ante sala. Por isso que entrei.- Alex continuava o mesmo menino tímido de sempre. Com seus lindo olhos cor de água.
__Entre, filho.- Disse Beto.- Foi ótimo que veio. Estamos com um problema que você pode resolver.- Alex era o gênio da eletrônica e Robótica.
__Ah! – Disse tranquilo.- Já descobriram o bugg?- Beto e Ben se olharam e Quincas se adiantou.
__O senhor rastreou? Então, eu não sei direito onde começou, mas parece uma das travas de segurança do setor 9. Eu não tenho acesso a ela. Tem alguns terminais falhando.
__Quando você foi para o congresso estava tudo normal?
__Sim, eu verifiquei. Fiz a varredura como o senhor tinha protocolado. Agora estou preocupado.
__Fez todas as atualizações necessárias?
__Sim.
__Acha que pode ser alguém da equipe de programadores?
__Eu não sei. São apenas conhecidos. Eu não converso muito com ninguém. Na verdade nunca tive muito tempo. Nos primeiros anos estudava de manhã, vinha trabalhar só a tarde. Depois precisei mudar de horário por causa da pós. Corria para dar conta de tudo, para poder ver Mari quando ela podia. Nunca tive amizade de verdade com eles. Não sei se seriam capazes de…..- Se calou.- Eu espero que não.- Olhou Alex.-
__Quincas.- Disse Alex.- Uma certeza temos. Alguém tentou acessar pastas privadas do servidor central. Fez isso usando vários terminais. A trava foi acionada no dia do seu casamento. Outros bloqueios foram superados durante o tempo que esteve no congresso.
__Acha que esperaram que eu não estivesse aqui?- Quincas perguntou para Alex. Os Medeiros ficaram em silêncio assimilando tudo aquilo.
__Talvez, te acham Caxias de mais.- Beto Riu.- Acharam que você pudesse descobrir alguma coisa e contar para nós. Estavam certos.
__Mas eles sabem que senhor Alex monitora os servidores da empresa. As travas chamariam a atenção dele.- Disse Quincas.
__Não se Alex estivesse no casamento da sobrinha.- Disse Ben.- Quando você deveria ter assumido suas funções depois do congresso? Se não tivesse se casado, quando voltaria para a empresa?
__Na terça. Me casei na segunda.
__Então- Disse Alex.- Seja lá quem quer que está tentando violar a segurança, tentou fazer isso enquanto você estava fora. Se não é um programador, é alguém que tem acesso a eles. Alguém que conhece sua competência.
__E sua integridade.- Disse Ben.- Você disse que estava preocupado. Com o que?- Quincas olhou Ben. Viu que ele estava demonstrando total crença na inocência dele.
__Sogro. Não sei o que estão querendo. Mas usaram todos os terminais que eu tenho acesso. Usaram a minha chave para entrar no servidor central. Iriam me incriminar. Isso não é uma pegadinha com o nerd. É muito sério. Se conseguirem acessar uma de suas contas, podem conseguir senhas, e até violações bancarias.
__Sei o que estão tentando encontrar, filho. Grana. Não é a primeira vez que isso acontece numa empresa desse porte. Infelizmente, já vi isso aqui mesmo. É por isso que temos Alex.- Sorriu.- E quanto a incriminar você, você estava fora. Isso é fato.
__Mas estavam com minha chave de acesso e minhas senhas. Podiam entrar no meu servidor, remotamente.- Ben entendeu. Por isso o garoto queria chamar Alex.
__Isso é possível, Alex?- Perguntou Beto.
__Sim. Mas eles não sabiam duas coisas. Primeiro, que Quincas estava se casando naquele dia. Segundo, que ele não voltaria até hoje.- Disse Alex tranquilo.- As senhas são alteradas a cada 60 dias. Você estava fora quando as últimas alterações aconteceram. Eles não tinham como usar seu terminal mais. Foi por isso que tentaram outros servidores e a trava foi acionada novamente. Deixei você instalar as novas alterações e atualizações. Com suas novas senhas você recebeu uma nova chave e pode trabalhar a manhã sem problemas, certo?
__Sim. Mas descobri o bugg.
__Certo. Agora você vai voltar para seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Continuar com as programações normais. Mas antes de colocar sua chave vai colocar esse pendrive. Depois que sua chave abrir seu servidor, pode retirar. Guarde contigo. Depois eu pego.- Sorriu.- Não se preocupe. Mesmo que não tivesse se casado com Mari, poderíamos saber exatamente onde estava. Ia dar mais trabalho, mas você seria inocentado. Mas você estava com Mari na minha frente quando a trava disparou. Olhe, vou descobrir quem está fazendo isso. Só preciso que coloque o pendrive.- Quincas olhou o pendrive.
__Não é só um pendrive né? – Alex sorriu.
__Não. É um rastreador.- Piscou e sorriu para ele.
__Pensei que a pulseira fosse um rastreador.- Sorriu.
__Bem, é outro tipo de rastreador.- Riu.- É um farejador.- Quincas sorriu.
__O senhor inventou um farejador que fica num pendrive? Incrível!- Parecia encantado.
__Desculpe a ignorância do vovô. Podem explicar, por favor?
__Ele criou um programa, um vírus, esse vírus rastreia o sistema, vai procurar onde começou as invasões. Vai seguindo de uma pista para outra, como um cão de caça. Um farejador. Já vi esses programas, alguns são bem comuns, mas precisam ser instalados. Ele colocou um num pendrive. Isso é fantástico!
__Ei!- Disse Ben.- Não olhe assim para ele. Estou com ciúme, genro.- Todos riram.
__Não se preocupe, ele é meu ícone, mas o senhor é meu sogro.
_É bom mesmo.
__Mas que rapaz ciumento!- Disse Beto.- Vai assustar meu novo neto.- Riram outra vez.- Quincas, vá trabalhar em paz. Faça como Alex disse. Vai ficar tudo bem. E lembre-se, os falcões sempre se protegem. Você é um de nós agora. Ben é seu sogro, eu sou seu avô, Alex é seu tio. Somos sua família. Você trabalha com os computadores, Ben trabalha com o jurídico, Alex com a segurança e eu com a direção. Mas está empresa sempre foi e sempre será da família. Protegemos os bens da família, mas muito mais importante que eles, são as pessoas desta família. E nós amamos todas. E isso inclui você é claro.- Beijou a testa dele.- Vai meu neto, vai tranquilo.- Ele foi, fez exatamente como Alex tinha dito. Não levou nem dois dias e um dos programadores, foi chamado na diretoria e em seguida mais dois foram levados para lá. As demissões aconteceram sem alarde, mas sem direito a nada. E o nerd, casado com a ruiva, percebeu como essa família era mesmo unida e disposta a lutar uns pelos outros.

O Namorado

Capitulo 10
Na suíte muito bonita do iate, Alana tomava coragem para sair do banheiro usando seu conjunto de camisola vermelha, escolhida especialmente para sua noite de núpcias. Soltou sua trança e colocou a flor de seda que ele havia lhe trazido da Espanha. Se olhou mais uma vez no espelho, respirou e saiu. Lá estava Rody, de shorts azul do pijama, descalço e sem camisa. Olhou-a encantado, mas parecia nervoso. Caminhou devagar para ela, acariciou seu rosto.
__Você é linda.- Suspirou.- Pelo amor de Deus, diz que eu não estou sonhando?
__Não está. Eu acho.- Sorriu. Rody pegou sua mão e trouxe-a para a cama. Sentaram-se.
__Alana, eu preciso te dizer uma coisa. Lembra que disse que você foi minha única namorada?- Ela afirmou.- Então, eu disse a verdade. Eu nunca quis outra namorada, nunca quis outra mulher. Eu nunca estive com ninguém.- Alana abriu a boca em espanto. Não era possível. Ele estava dizendo que era virgem?- Sei que não é comum hoje em dia, mas eu só queria estar com você então nunca fiz isso antes. Terá que ter um pouco de paciência com minha inexperiência.- Sorriu.- Tentarei não ser muito afobado, estou louco por você, mas quero muito que seja feliz. Se eu fizer algo que não goste ou que machuque, por favor me avise. Ok, amor?- Alana olhou para ele, másculo, grande, lindo, poderia ter qualquer mulher, mas tinha se guardado só para ela. Sentiu seu peito explodir de alegria, de amor, de paixão.
__Então, também sou virgem.- Rody a olhou com os olhos brilhando.
__Mas e Antônio?
__Essa era a razão das nossas idas e vindas. Ele queria e eu nunca me sentia pronta. Foi quando ele resolveu casar, assim eu me sentiria mais confiante. Acabou que nunca ….- Olhou nos olhos negros em chamas de Rody.- E com Paulo foi ainda pior, eu não queria e ele saia com outras, por isso não durou muito. Saí com alguns outros rapazes, mas nunca passou de um beijo e olhe lá. Nunca quis nada mais íntimo.
__E porque você não queria? Pensei que precisasse de novas experiências?
__Acho que eu queria essas experiências, mas com você. Nunca deixei de te amar, nunca.- Rody a beijou, um beijo profundo apaixonado, sensual.
__Então meu amor, acho que está com sorte hoje. Estou aqui, e sou seu, só seu. Tudo o que desejar, farei. Tudo o que quiser fazer comigo, faça. Sempre foi a dona do meu coração e do meu corpo, tome posse do que lhe pertence. Tenho esperado por esse momento a muito tempo. Em dado momento, achei que ele nunca aconteceria de verdade. Quando disse sim ao Capitão na cerimonia, ganhou o direito de tornar realidade meu mais ardente sonho. Venha para mim, meu amor, deixe te moatrar tudo o que guardei só para você.- Alana se entregou ao seu grande amor, certa que ele saberia exatamente como faze-la feliz. E não se enganou. Rody era tudo o que um homem apaixonado deveria ser. Cuidadoso, sensível, amoroso e muito, muito delicioso. Nem parecia sua primeira vez. Se ele não tivesse dito Alana nunca saberia. Mas ela sabia porque tudo tinha dado tão certo, sido tão maravilhoso. Rody a amava intensamente. E os falcões são guiados pelo amor.Alana sentiu-se a mulher mais linda, mais desejada e mais idiota do mundo. Fez Rody sofre por quase 3 anos, por nada. Ele nem mesmo tocou em outra mulher quando estavam separados. Ele nunca tinha feito amor com ninguém, só com ela. O viu enlouquecer, o corpo grande e belo ardendo por ela, explodindo de prazer. Sentiu-se poderosa. Dona do coração e dos desejos de um falcão. Viu o cuidado que ele teve em preparar um banho de banheira para que ela relaxasse depois, e ainda a secou com carinho. E a acolheu em seus braços para que dormisse. Esse era o seu amor, seu namorado de toda a vida. Antes de adormecer perguntou a ele:
-Rody como foi que soube que eu ia casar com Antonio?- Ele acariciou seu rosto e disse:
– Eu estava no hotel, ouvi papai falando com Jorge pelo viva voz,entrei no quarto deles rapidamente queria muito falar com ele e então ouvi ele contando para papai e mamãe e dizendo que não sabia como me contar aquilo.
– O que você fez?
– Corri para o banheiro.
– Como?
– Acho que eu sabia que um dia isso podia acontecer, mas não estava preparado para aquilo ainda. Estava louco de saudade, tinha ficado um ano e meio sem te ver, estava dando os dois braços para ficar só um pouquinho perto de você.- Riu.- Já tinha esquematizado, treinado, ensaiado tudo o que ia fazer, para não chatear Antonio, para que você pudesse me dar um pouco de atenção. Estava conformado em não poder mais te beijar, mas precisava te abraçar, sentir seu cheiro, seu calor. Saber que eu ia te perder de vez e para sempre, que você ia casar com ele torceu meu estômago. Vomitei tudo o tinha comido nos últimos 10 anos mais ou menos, depois vomitei o que ainda não tinha comido. A dor foi diferente de antes. Foi muito físico daquela vez.- Sorriu.- De certa forma foi melhor. Percebi que de jeito nenhum eu poderia enfrentar aquilo. Eu não tinha como estar presente ao seu casamento com outro. Foi por isso que liguei para o meu capitão, pedindo a vaga que eu tinha acabado de deixar. O único problema era que eu ia precisar atualizar alguns dados, poderia fazer isso pela página da empresa e pelo portal da receita federal, mas eu precisava de uns dias para me recompor antes de encontrar vocês. Sim, menti quando disse que precisava ficar, mas eu não tinha condições de ver vocês ainda. E precisava também mudar alguns planos com respeito ao Medeiros. Mas então, vi você chorando e aí…. Bem, já sabe.- sorriu.- Acho que foi isso que acabou resultando em estarmos aqui hoje, certo?- Beijou-a apaixonado.
– Rody.- Disse com sua voz afônica sensual.- Eu te amo. Está foi a noite mais feliz de toda a vida.Quero dormir em seus braços para sempre.- Ele sorriu.
– Eu também, meu amor. Eu também.
__Rody? Você se lembra do que disse no dia que terminei com você?
__Do que eu disse?
__Sim. -Ela suspirou.- Você ficou bem quieto prestando muita atenção em tudo o que eu sinalizava para você. Parecia seu pai analisando um enigma. Tive a impressão que você ia dizer alguma coisa, mas você apenas perguntou se eu seria mais feliz sendo sua amiga e não sua namorada. Eu tentei ser bem firme em minha resposta, porque como sabe agora, não era bem a verdade.- Ele sorriu e beijou a testa dela.- Depois você me abraçou, eu achei que você tinha dito algo, mas você não disse nada e em seguida fez questão de me levar para casa. Lembra-se?- Ele afirmou uma vez, olhou nos olhos dela e disse:
__Minha vida por sua felicidade. Este será meu sacrifício pelo nosso amor.- Sorriu outra vez beijou a boca dela de levinho.- Enquanto você se explicava naquele dia, eu tentava resolver se me ajoelhava e implorava que você não me deixasse ou se jogava você no carro e te levava para cabana do Vovô Carlos e mostrava a você que também poderia te dar novas experiências era só você me pedir. A cada nova palavra o desespero dentro do meu peito aumentava em proporções que eu nem sabia que existiam. Eu nunca tinha imaginado minha vida sem você, eu não sabia como respirar. Então fiz a única coisa que sempre soube que faria em qualquer situação, escolhi a sua felicidade. Até aquele momento você só tinha me dado alegrias, eu tinha tido uma vida imensamente feliz ao seu lado. Sabia que jamais deixaria de amar você, achei que não pudesse resistir por muito tempo sem você, mas se isso significava a sua felicidade, estava feito. Mesmo que isso custasse todo o ar dos meus pulmões, mesmo que meu coração parasse de bater naquele momento. E assim foi. Por isso precisei daquele abraço e do seu cheiro enquanto dirigia. Era o tempo para deixar você pensar que estava tudo resolvido. Não pude ir muito longe depois de te deixar em casa. Meu pai e os falcões tentaram me ajudar, mas só consegui voltar a respirar um pouco, com o coração ainda falhando as batidas depois que mamãe chegou. Foi quando a dor começou a fazer o curso dela. Durante todo esse tempo, mamãe dizia que você voltaria para mim, que você estava confusa e precisava se encontrar sozinha. Ela dizia que eu precisava ser forte e ter paciência. Dizia que esse seria meu sacrifício e não a minha vida, como eu tinha jurado aquele dia.
__Contou a ela?
__Sim. Eu precisava desabafar. Os falcões coitados ficavam sem ação diante da minha dor. E Cisco, bem já sabe, queria por toda a lei contar a você.- Riu.- Eu precisava da calma, da sabedoria e dos conselhos dela.
__ Antes dessa noite, já me achava a garota mais idiota do mundo por ter deixado você, agora, depois de tudo que vivemos, de toda a alegria que senti, de tudo o que me deu, não consigo achar um nome para minha burrice. Obrigada por me perdoar e voltar para mim. Eu nunca seria feliz sem você.- Ele sorriu e beijou-a novamente.- Rody, posso te perguntar outra coisa?- Ele fez uma cara de garoto levado.
__ Você está muito perguntadeira hoje, hein? Claro que pode,amor. Diga.
__Você gostou? De verdade?- Olhou para ele um pouco insegura. Ele sorriu novamente.
__Foi muito melhor do que sonhei todos esses anos.- Beijou a ponta do nariz dela.- Quando vai acreditar no que vê nos meus olhos quando estamos juntos, Alana? O que devo fazer para que entenda que preciso de você para respirar? Não posso acreditar que não viu o que simplesmente olhar você assim, nos meus braços faz comigo? Acabou de me ver louco por você. Não é possível que acha que possa existir algum engano com as reações do meu corpo ao seu toque, seu carinho, seu calor, seu cheiro. Sou louco por você. Tenho certeza que também reparou que não levou tempo nemhum para me enlouquecer de novo.- Ela sorriu.
— Quero que me diga do que gostou mais e de que jeito. Quero muito agrada-lo como você faz comigo. Preciso que seja muito feliz. Não posso correr o risco de te perder de novo.
— Você nunca me perdeu- Beijou-a profundamente. Ela sorriu. -E acho que ainda não posso escolher o que gosto mais, terei que fazer outros testes.- Sorriu sedutor e safado. Alana também sorriu marota.
__Você disse que sonhava comigo? Como eram esses sonhos?- Ambos riram. A cumplicidade que Rody vinha tentando reconstruir desde que voltou do cruzeiro ganhou vida naquele momento. Era isso que ela estava fazendo. Desatando os últimos nós. Desfazendo todos os maus entendidos. Mostrando a ele todas as suas inseguranças. Confiando a ele toda a sua existência.
__Contarei todos, com todos os detalhes, na verdade, mostrarei a você.- Riram novamente.- Mas agora precisa dormir, minha linda. Sabe que por mais que tente, nunca deixarei de ser um falcão. Isso significa que preciso desesperadamente que a mulher que amo, esteja feliz e segura nos meus braços. Preciso que descanse e que esteja recuperada para mim amanhã. Para começarmos nosso flash back.- Riu.
__Promete?- Sorriu maliciosa.
__Sim. Tenha toda certeza.
__Só mais uma pergunta?- Ele riu.- Tem conseguido dormir? Você sempre reclamou do balanço do navio?- Ele riu mais ainda.
__Minha doce esposa. Com você nos braços, posso dormir em qualquer lugar. E não vou enjoar, juro.- Riram juntos outra vez. E Alana adormeceu sentindo o calor e a respiração dele em seu ouvido. Nunca mais se afastaria dele. Nunca.

Cisco entrou na suíte com Lú no colo. Os beijos inflamados que se seguiram deram inicio a uma paixão incontrolável. Cisco nunca pensou que existissem desejos tão poderosos capazes de nublar sua visão, seus outros sentidos. Seu coração batia tão forte em seu peito, que várias vezes pensou que ele fosse estourar. Nem sabia explicar em que momento foram para cama, nem como tirou o lindo vestido dela, só o que lembrava era da explosão de sentimentos transformando aquele momento no mais forte de toda a sua vida. Com a respiração ainda pesada, o corpo suado exausto pela erupção de emoções que vivera, foi se afastando devagar, tentado dar espaço para que ela também pudesse se refazer. Foi quando viu o sangue escorrer dela e manchar os lenções. Um pavor correu por todo seu corpo.
__Lú! Desculpe! Eu fui muito bruto! Machuquei você? Desculpe eu… Não consegui me controlar. Me perdoe? Está doendo? Deus, o que eu fiz? Desculpe, amor.- Ela sorriu, passou a mão com carinho no queixo dele.
__Está tudo bem, amor. Não me machucou. Doeu um pouco, mas acho que foi o normal, neste caso. Mas passou logo. E foi muito bom. Na verdade foi bom de mais. Eu até….- Sorriu mais.- Mamãe disse que não é comum dar certo na primeira vez.- Primeira vez? Deus, ela era virgem. Claro que era. Nunca tinha namorado firme antes dele. Que idiota! Cisco se sentiu o pior dos idiotas. Ela, a doce bailarina, virgem, esperando um príncipe para sua primeira vez, e em vez disso tinha tido ele, um ogro, um monstro, incapaz de um gesto delicado.
__Eu sou um ogro! Desculpe, amor. Acabei de jurar a seu pai que cuidaria de você e te trato feito um monstro. Desculpe. Está doendo?- Parecia muito chateado.
__Não.- Beijou-o.- Está tudo bem. Eu já disse. Não se preocupe.
__Não diz isso. Que está tudo bem, me sinto ainda pior. Você é tão doce, tão delicada, tão pequena e eu….- Suspirou.- Eu te amo tanto. Eu tinha planejado tudo diferente, tudo com cuidado, devagar, mas ai eu beijo você e perco todo senso.- Ela riu.- É verdade. Eu não sei o que você faz comigo.- Olhou-a com seus intensos olhos cor de uísque.- Lú, eu te amo. E você me enlouquece. Desculpe, eu não queria machuca-la.
__Você não me machucou. É normal uma virgem sangrar um pouco na primeira vez. Eu também gostei. Você me fez feliz. Também enlouqueci. Eu amo beijar você. E agora descobri outra coisa que amo fazer com você, além de dançar e beijar.- Sorriu baixando o olhar provocativo dela. Cisco sentiu seu corpo pegar fogo outra vez. Levantou-se rápido, foi ao banheiro, encheu a banheira. Voltou ao quarto, pegou sua amada com cuidado e colocou-a na água morna. Beijou-a com carinho. Voltou a cama, tirou o lençol sujo, pegou as roupas que estavam espalhadas, dobrou e colocou sobre a poltrona. Abriu a mala dela. Pegou um pijama de seda confortável, uma frasqueira e um par de chinelos. Entrou no banheiro. Tirou as coisas de banho dela. Foi soltando a trança, depois tirando todas as flores que ainda estavam no cabelo dela. Depois tirou os brincos que sua mãe havia lhe dado. Passou o xampu dela nos cabelos e massageou com cuidado. Enxaguou. Passou um creme nos longos cabelos negros.
__Posso entrar com você?- Ela sorriu e deu espaço para que ele se colocasse atrás dela. Cisco passou o sabonete líquido no corpo formoso de sua esposa com todo carinho. Tinha cheiro de flor de cerejeira.- Então é assim que consegue esse cheiro tão bom. Gostei.- Riu. Ficaram uns minutos quietos acomodados na água.- Por favor, me desculpe por não ter sido carinhoso como você merecia, mas eu serei. Eu nunca tinha enfrentado um adversário tão poderoso. Então perdi a batalha no primeiro instante. Mas agora já sei o que ele pode fazer comigo. Vou conseguir mostrar o quanto te amo, e o quanto te desejo, e o quanto posso fazer você feliz. Não vou conseguir evitar enlouquecer com você assim linda e cheirosa nos meus braços, mas darei o carinho que tem direito antes, prometo. Pode me perdoar?- Ela virou-se em seus braços, olhou nos olhos dele.
__Mas você deu. Cisco, você entrou no quarto comigo nos braços, como nos filmes. Me beijou com todo amor do mundo. Depois não pode deixar meus lábios por nenhum segundo. Vi o desejo dominar você. Vi o quanto você gosta de me beijar, de me tocar. Não como quando dançamos, como mulher, sua mulher. Me senti linda, desejada, sua. Eu nunca tinha feito amor antes, mas mesmo assim, você me levou as alturas. Foi maravilhoso. Depois ficou preocupado, com medo de ter me machucado. Ainda preparou meu banho, me banhou com todo amor. Com seu amor. Não tenho o que perdoar. Estou muito feliz. Sabia que seria um marido divertido e companheiro. Mas não sabia que você seria um marido tão apaixonado e tão carinhoso. Me prometa que sempre vai me desejar assim, que sempre vai me amar assim, por favor?- Cisco beijou sua paixão. Sim ela era sua paixão. Ele poderia perder tudo, menos sua paixão. Sua esposa, Sua Lú.
__Prometo tudo o que quiser. Podemos namorar de novo?
__O que?- Riu.-
__Sim. É que já que eu fiz tudo muito rápido, que vergonha né?- Riu.- Então, quando estará em condições para repetirmos tudo? Agora farei bem mais devagar, prometo.- Lú riu. Esse era o seu namorado relâmpago. Beijou-o e mostrou que ele não precisaria esperar nada. Mais tarde, enquanto observava sua linda esposa dormir em seus braços tão tranquila, mau podia acreditar que aquela menina tão tímida fosse tão deliciosamente fogosa. E melhor, que fosse sua. E ainda, apaixonada por ele. Sempre soube dos múltiplos talentos dela, mas não podia imaginar que nenhum deles superasse sua vocação para dança. Até agora. Mas esse talento somente ele conheceria. Sorriu orgulhoso. Sua doce e deliciosa esposa guardara esse presente só para ele. Inalou profundamente o cheiro de cerejeira que exalava dela. Sentiu sua mão delicada acariciar seus cabelos.
– Não vai dormir, marido?- Ele sorriu.
– Estou tentando, mas esse cheiro delicioso não quer me deixar dormir.
– Quer que mude de perfume?
– Jamais! -Sorriu.
– Então, o que sugere?- Disse acariciando o peito dele.
– Lú…Você vai me matar.- Riu.
– Matar? De jeito nenhum, quero você muito vivo.- Acariciou o rosto bonito de seu bailarino._ Eu te amo, Cisco.- Ele sentiu seu peito inflar com um amor tão grande que não achou que fosse possível existir de verdade. Beijou sua amada dizendo:
– Eu também te amo, minha linda. E não se preocupe, morrerei feliz. Nos braços do meu grande amor.
__Se importaria de deixar para morrer mais tarde?- Disse beijando o ouvido dele.
__Lú.- Puxou o ar com força, já louco para tê-la outra vez.- Você precisa descansar, amor. Estou fazendo toda força para esperar até amanhã e mostrar que sou um falcão muito cavalheiro, e posso esperar até amanhã que meu grande amor se recupere.- Riu.- Você poderia por favor, me ajudar?
__Já é amanhã, já passa da meia noite.- Olhou para ele com seus lindos olhos negros em chamas. Cisco não poderia nem em seus melhores sonhos, imaginar que teria uma joia tão preciosa assim. Feliz, disposta e desejosa de tê-lo.Sorriu como um felino.
__A quem devo agradecer por ganhar na loteria das mulheres deliciosamente perfeitas?
__E eu? A quem devo agradecer por ganhar na loteria dos maridos lindos maravilhosamente gostosos?- Foi o suficiente. Cisco era dela novamente, como seria enquanto respirasse.
— Vamos fazer um trato.- Disse ele com a voz rouca de desejo.- Deixo você fazer o que quiser comigo agora, em troca amanhã quando acordarmos será minha vez.- Os olhos da pequena bailarina faiscaram.- Vejo que gostou do trato. Quais são suas ordens minha deliciosa rainha?

Na manhã seguinte, quando Joaquim acordou, mau pode acreditar que ao lado dele, dormia tranquilamente a ruiva dos seus sonhos. Ela era mesmo linda. As cabelos cobreados espalhados pelo travesseiro eram como uma pintura renascentista. Ela era perfeita. A pele, os lábios, os cílios. Seu lindo corpo de bailarina, descansando encostado ao dele. Sentiu-se o mais feliz dos homens. Lembrou-se da primeira vez que a viu no orfanato. De quando a viu dançar. Do primeiro beijo no estacionamento da escola. Do sorriso quando ela o encontrou no aeroporto. Lembrou-se de quando a viu vestida de noiva, sua noiva. Se não fosse Cisco falar do casamento no mar, ele não estaria ali. Não teria tido a noite mais maravilhosa de sua vida com sua linda ruiva. Agora só queria que ela abrisse seus lindos olhos esmeralda para que ele pudesse beija-la novamente, e voltar as nuvens. Mas sabia que ela estava cansada. Demoraram muito para dormir. Sorriu se lembrando de como sua linda ruiva se mostrou totalmente apaixonada e entregue em sua noite de núpcias. Levantou-se com cuidado para não acorda-la. Foi ao banheiro, tomou um banho rápido, vestiu-se. Mandou uma mensagem para o RH do trabalho explicando a situação. Recebeu uma mensagem quase instantânea dizendo que tinham sido avisados e que conversariam quando ele chegasse. Saiu do banheiro e foi a ante sala fazer o pedido de café da manhã. Encontrou a mesa posta para eles, linda e variada. Com os cumprimentos da companhia pelo casamento. Quando ia preparar uma bandeja para levar para ela, sentiu seus braços envolvendo a cintura dele.
__Porque não está na cama? Fiquei com medo, pensei que tinha fugido.- Riu. Joaquim olhou sua linda esposa. Nunca a tinha visto ao acordar, achou ela ainda mais linda.
__Não. Não fugi. Só vim pegar seu café da manhã. Ia levar na cama para você, mas já que levantou…- Ela se aprumou rapidinho. E já foi correndo de volta para cama.
__Não, quem disse que eu levantei? Eu estou dormindo? Vem ver?- Essa era ela. Linda, divertida, amorosa, sua esposa. Tanto tempo escondeu seu amor incondicional por ela. Tanto tempo viveu assombrado com a possibilidade de perde-la. E ela sempre sua namorada. Perdeu tanto tempo. Colocou umas coisas bonitas e gostosas na bandeja e levou para ela. Beijou-a profundamente antes de lhe oferecer o café. Viu a alegria em seus olhos com o gesto. Era só isso que ela queria. Seu carinho.
__Eu te amo, Marina. Nunca fui tão feliz. Nem achei que poderia ser. Obrigado por ser tão maravilhosa e mesmo assim querer um medroso feito eu, que fez você esperar todo esse tempo para ser feliz.- Acariciou o rosto dela. – Você é um presente, que nem sei se mereço.- Ela o beijou.
__Seu bobo. Claro que merece ser feliz. Eu também te amo. Eu sou um falcão, isso significa que te amarei para sempre. Acostume-se.- Riu.- Ah! Vamos ver as prendas? Ontem até esqueci. Também com tantos beijos, né?- Riu outra vez.- Mas estou curiosa. Como eles conseguiram juntar essas prendas a tempo?- Joaquim foi até a penteadeira, pegou o case e trouxe para ela.
__O que tem ai?
__As prendas são quase sempre….. Abriu e viu vários saquinhos de veludo pretos. Daqueles de joalheria. Tinhas alguns embrulhos um pouco maiores. Ela completou:- Joias.
__Como?- Ela pegou um que parecia pesado, abriu, era um broche de ouro, em forma de lírio com uma pedra verde na flor.
__tia Diana!- Ele a olhou confuso.- Esse broche era da tia Diana. Ela ama lírios. Tem várias peças com essa flor.- Pensou.- Espere.- Abriu outro, era um par de brincos de ouro branco com uma pedra de brilhante em forma de borboletas. Ritinha.
__Ritinha.- Esse brinco era de Ritinha, nós estávamos comprando as coisas para a viagem, ela escolheu esse para trazer, eu achei lindo. Foi isso que fizeram. Eles escolheram entre as coisas deles, coisas, joias que eu gostei e me deram.- Suas lágrimas começaram a cair.- Por isso vovô disse que eu ia reconhece-los. Normalmente isso não acontece, porque os falcões tem tempo de escolher prendas que possam ficar meio ocultas, mas não dessa vez. – Parou e depois começou a abrir rapidamente todos.- Sim, veja foi isso. Essa pulseira é da Vovó Aline, esse brinco de Vovó Nina, esse colar de vovó Lia, essa pulseira de Astrid, esse anel na bailarina de madeira, de Sofia. Esse pulseira de topázio de Alice, esse broche só pode ser de Leninha. Esse colar…Chorou… Foi Lú… Eu sei… Não sei como… Era da minha avó, eu queria um quando era criança….- Abriu um pouco maior, uma tiara de brilhantes.- Mamãe!- Joaquim não podia acreditar, estava diante de um tesouro. Nunca tinha visto tantas joias na vida. Mari tinha dito que eles escolheram entre suas joias , peças para dar para ela, como prendas, lembranças. Por isso ela chorava. Todas aquelas peças deveriam ter lembranças. Então se arriscou a abrir uma. Era um trenzinho, feito de peças de computador, bem bonitinho e dentro um anel com formato de duas pequenas flores de esmeralda.
__Esse trenzinho deve ser coisa de Alex, só ele para fazer algo assim tão rápido, e o anel era de Clara.
_Esse outro maior, posso abrir?- Ela afirmou. Era um fusquinha vermelho e dentro um colar de perolas.- Cisco?- Ela riu. E assim começaram abrindo todos os outros embrulhos. Um navio em miniatura, e uma pulseira de pérolas dentro. Rody, claro. Duas presilha de ouro e brilhantes presas em uma sapatilha pequena. Jorge. Tinha um par de brincos dentro de um violão de cristal. A peça era nova, mas lógico que era de seu pai. Outros brincos e pulseiras mais simples, mas de bom gosto. Alguns souvenir bem delicados. Mari identificava todos. Em todos ela chorava e ria. Então só faltavam dois embrulhos, mas esses eram diferentes. Estavam em pequenos estojos sólidos. Num, tinha a famosa pulseira rastreador de Alex e um bilhete.” Querida, sabe o que fazer. Ele agora é um falcão, não deixe tirar do pulso, ok? Beijos”. Ela não perdeu tempo, colocou rapidamente no pulso dele. No outro estojo, um colar de brilhantes, lindo, peça nova, mas ela sabia. Só tinha uma pessoa capaz de ter uma peça daquela beleza. Era a prenda do patriarca, de seu bisavô. Entre as peças dois chaveiros de prata no formato de um edifício. Dos primos italianos.
__Esses nem tiveram tempo de tirar as chaves.- Joaquim riu.- Acho melhor separarmos, vai que precisam delas.
__Verdade, deve ser dos primos Fazzanos.
__Melhor guardar direitinho, tudo. Acho que aqui no iate, deve ter cofre, né? Essas coisas são caras. Por falar nisso, acho que talvez precise guardar no banco ou deixar com seus pais. Só no começo. É que o apartamento que estou alugando para a gente, é seguro, mas não tem cofre nem nada que seja suficiente para proteger isso tudo.
__Está alugando um apartamento?
__É simples. E pequeno. Mas fica no centro, perto da escola de artes. Eu já tinha conversado com a imobiliária. Tinha reservado para o próximo semestre, não disse que era casado, mas acredito que não vai ter problema.- Sorriu.- Sei que esta acostumada a um lugar melhor, mas é só até eu conseguir um financiamento. Então poderemos procurar algo melhor, tudo bem?
__Claro, amor. Eu nem fico em casa. Só no domingo e de noite. Alias, chego bem tarde, vai ter que jantar sozinho. Desculpe. Mas podemos tomar café todo dia juntos e almoçar se quiser. Vamos precisar nos organizar, mas vai dar certo. E eu também quero ajudar nas despesas. Eu sou trabalhadora assalariada como você, sou bailarina.
__Você tem salário?
__Claro. Não é salário de político, mas é depositado religiosamente todo dia 2 de cada mês. Se vamos morar juntos é justo que eu também ajude nas despesas.
__Desculpe minha surpresa, mas é que pensei que você vivesse de mesada. E agora que é casada comigo, mesmo que seu pai aceite nossa relação, não é bobo de continuar te dando mesada.
__Eu não vivo de mesada, eu sou bailarina. Faz tempo que meu pai não me dá mesada. Acho que ele nunca deu de fato. Os Medeiros não acreditam neste tipo de estratégia para educar economicamente os filhos. E gostamos de trabalhar. Os nossos pais incentivam nossos talentos, e nos dão o que precisamos até conseguirmos nos manter com ele.- Joaquim gostou da ideia.
__Ok. Então, podemos deixar o case com seu tesouro com seus pais? Fica mais seguro, até conseguirmos financiar um apartamento nosso, mais protegido, onde tenha um cofre.- Riu.
__Ok.
__Separe só os chaveiros. Achei muito bonito. Será que são iguais para que usemos com nossas chaves?
__Parece que sim.
__Legal.- Disse segurando os dois.- Muito bonito.- Mari colocou tudo de volta e fechou com o cadeado que seu doce e inteligente irmãozinho havia feito.- Calebe tem muito jeito como ourives, né? Nem sabia que ainda existia essa profissão.
__Meu Bisavô Rodolfo, é um ourives por vocação. Ele tinha um tio diplomata, que também era. Quando meu Bisavô nasceu, a mãe dele morreu no parto. Ela teve gêmeos, e o outro bebê morreu semanas depois. O pai deles ficou muito triste, deprimido mesmo. Então esse tio, que também era gêmeo de seu irmão veio ajuda-lo. Primeiro, cuidou das contas e negócios da família que ficaram sem nenhuma supervisão. Depois, se encarregou da educação do Vovô Rodolfo. Ensinou tudo o que sabia de negócios e diplomacia, mas também ensinou sua paixão. O pai do Vovô Rodolfo, nunca se recuperou totalmente da morte da esposa e do filho. Voltou a trabalhar e cuidar do filho com amor e carinho, mas jamais voltou a ser feliz. Quando o Vovô tinha 16 anos, assumiu os negócios com a ajuda do pai, e o tio diplomata voltou para a Europa. Ele morreu poucos anos depois num acidente de carro. Mas deixou todos os seus conhecimentos, todo o seu legado, toda a sua arte com Vovô Rodolfo, que ele sempre tratou como filho. Para honrar a memória dele, Vovô Rodolfo, fez vários cursos e passou a desenhar jóias para a família e amigos. E depois passou a fazê-las. Quando meu avô Beto assumiu a direção das empresas junto com Papai, Vovô passou a se dedicar totalmente a sua arte. Dentre todos os falcões, nunca tinha surgido um que se interessasse em aprende-la, até Calebe. Os primeiros trabalhos dele ficaram tão bons que um ouvires amigo do Vovô pediu para levar para um avaliador. O avaliador não conseguia acreditar que o artesão era uma criança.- Riu.- Ele tem mesmo muito talento.- Disse olhando o cadeado.
__Ser artista deve ser mesmo coisa de sangue, né?- Disse Quincas sorrindo. Depois passou os olhos pelo corpo de sua linda esposa demoradamente.
__O que foi?- Disse matreira.- O que está pensando?
__Nada. Apenas apreciando a mais linda obra de arte que já vi na vida.- Ela sorriu.
__Muito bem! Sabe, para um nerd tímido, você sabe muito bem o que dizer para seduzir uma garota.- Ele foi chegando perto dela de mansinho.
__Está enganada, sempre me atrapalho com o que dizer para qualquer um, só para você que sei o que dizer, porque tudo o que digo, sai direto do meu coração para você, minha vida.- Ela passou os braços em volta do pescoço dele sorrindo sedutora.
__Mais um ponto para o nerd de olhos lindos.- Tirou os óculos dele.
__Meus olhos são comuns.- Sorriu tímido.- Já os seus…
__ Aí é que você se engana.- Disse rindo.- Pode ser que no resto do mundo, olhos verdes de vários tons, azuis de vários tons, âmbar e até os totalmente negros sejam incomuns, mas não no clã dos falcões. Aqui a raridade, são olhos castanhos, doces e gentis como os seus. Consegue me ver sem os óculos?
__Sim. Está muito perto.- Riu.- Mas mesmo que não estivesse, sempre conseguiria ver você. Meu coração sempre vai te encontrar.- Os olhos verdes dela brilharam, ela sorriu dizendo:
__E nosso jogador marca seu terceiro ponto em menos de dez minutos.- Desceu os lábios.- Agora está na hora de receber seu prêmio.- Beijou-o apaixonada. E Quincas se viu de novo no céu.
Já era quase meio dia, quando a família se encontrou para o almoço no restaurante do primeiro piso. quando os casaizinhos chegaram foram aplaudidos. Depois do almoço de reis, foram lagartear pelo iate.
__Podemos falar com o senhor?- Perguntou Joaquim a Giu que estava ao lado do irmão numa espreguiçadeira, perto de Ben e Rick.
__Claro, bambino.- Disse bondoso.- Mas pode me chamar de primo, ou de Giu, se preferir. Somos parentes agora. Não é minha priminha, ruiva?- ela sorriu para o primo que era a cara de sua mãe.
__Sim, primo. E podemos abraçar.- E riram se lembrando de traquinagens antigas.
__Ok. Eu vou tentar.- Disse Joaquim.- Primo, no case com as prendas, achamos uns chaveiros bem bonitos, Mari me explicou como essa tradição funciona, achei bem emocionante e tal, mas acho que esqueceram de tirar as chaves. Mari acha que pertence a um de vocês.- Os Fazzanos se olharam e sorriram.
__Vovô Rodolfo.- Disse Gigio.- Nos ensinou a nunca revelar quem deu as prendas. Mas posso garantir que não teve engano.
__Oh!- Sorriu.- Sim. Obrigado, os chaveiros são lindos, já até pedi para Mari para usar um. Ela também vai usar o outro. Mas as chaves…
__Não, bambino.- Disse Giu.- As chaves, fazem parte da prenda.
__Como?- disse Joaquim.- Eu não entendi.- Mari abriu mais os olhos.
__O que? O que disseram? As chaves fazem parte da prenda?- Ela pegou os chaveiros no bolso de Joaquim e olhou atrás deles. Estava escrito nos dois ” Apto 305″. Olhou a frente de novo. Era o novo edifício deles, Dom Pietro.- São as chaves de um apartamento no Dom Pietro? Vocês estão dando um apartamento para nós no novo prédio de vocês que fica do outro lado da Rodovia da casa dos meus pais?- Eles se olharam.
__Não exatamente.- Disse Gigio.- Não fomos só nós. Por favor não contem ao vovô, sim? Ele vai ficar uma fera se souber que estou contando.- Todos os homens riram. Menos Joaquim que ainda estava sem folego. – Não sabíamos desse casamento. Então ninguém preparou presente. As prendas foram de todos e de cada um, mas ainda não são presentes propriamente. Então, perguntamos a Jorge se Joaquim tinha outro lugar para morar, ele disse que vocês provavelmente, alugariam algum lugar, ou financiaram. Bem, ainda temos alguns apartamentos vazios no Dom Pietro, podíamos facilitar um financiamento para vocês. Achamos que gostaria de morar perto de seus pais. Tem a rodovia que leva para a empresa bem rápido, fica bem localizado.
__Então.- Disse Giu.- Alguém teve a brilhante ideia de dividirmos o valor do imóvel em partes iguais para todos os que quisessem dar de presente de casamento para vocês.
__Foi o presente de casamento mais barato que já comprei.- Disse Rick, fazendo chacota com a quantidade de amigos que quiseram fazer parte daquilo.
__Fizemos a documentação hoje de manhã. Ben já está com tudo pronto para vocês. Escolhemos o 305, porque dá para ver o mar e a rodovia.- Disse Giu
__Então, como vocês também não vão poder devolver, nem saber quem deu, além do tio Rick que já se entregou.- Gigio riu.- Colocamos os chaveiros no case com as outras prendas.
__Espere. Estão dizendo que vocês se juntaram para dar de presente de casamento um apartamento no Dom Pietro para nós?- Joaquim estava pasmo.
__Sim. – Disse Rick. Mari sorriu para seu avô jovem, com poucos cabelos grisalhos e olhos muito azuis. A gratidão estampada em seus olhos. Já Joaquim era puro constrangimento.- Filho. Fizemos isso por amor a vocês. Sabemos que você ia encontrar um lugar para começarem a vida de vocês. Sabemos que seria um lugar digno. Não temos dúvida de sua coragem para conseguir o que precisa para sua esposa. Conhecemos o tipo de amor que você demonstrou por minha neta. Estamos orgulhosos de você. Só ficamos um pouco chateados, ao perceber que pelo modo como as coisas aconteceram, não poderíamos preparar para vocês o que sempre fazemos para os nossos. Quando apareceu a oportunidade de dar um presente útil para vocês, não resistimos. Não fique chateado conosco. Por favor? Aceite nosso presente. É de coração. Viu as outras prendas, não foi? Viu que todas tinhas um pouquinho da história de Mari conosco? É isso, os falcões são assim. Puro amor. Não conseguimos ser diferentes.
__Aceite, amor? – Disse Mari.- Assim nem vamos precisar guardar o case com o papai.
__Como é?- Disse Ben.- Não pode devolver as prendas.
__Eu sei, eu entendi.- Disse Joaquim.- É que eu tinha alugado um apartamento pequeno no centro, no Doria, pequeno e decente, mas eu não poderia guardar aquelas joias lá. Ia ser perigoso. Então disse para ela deixar guardadas com o senhor. Até sair meu financiamento de um apartamento, num lugar mais seguro.
__Já tinha alugado um lugar para vocês?- Perguntou Ben.
__É simples, mas seria só por enquanto, mas…
__Mas agora podemos morar no Dom Pietro.- Disse Mari sorrindo.- Podemos? Vamos amor? É perto de casa, posso voltar com Cisco e Lú das apresentações. E quando você precisar viajar, posso ficar com minha família. Não era com isso que estava preocupado? _ Ele pareceu ser convencido. E Ben percebeu que apesar do orgulho, da vergonha, ele aceitou o apartamento por causa da segurança dela. Isso agradou muito o pai protetor.
__Vai precisar viajar? – Perguntou Rick.
__Faz parte do meu trabalho.
__Pensei que fosse programador?- Perguntou Giu.
__Sim.- Disse Ben.- Mas ele treina os outros programadores. Viaja algumas vezes no ano para se atualizar e trazer as inovações.
__Ah! Outro professor?- Disse Gigio rindo.- Não me diga que ama componentes, igual a Alex?- Joaquim sorriu.
__Nunca serei como ele, ele é genial, mas gosto muito destas coisas sim.
__Bem vindo ao time.- Disse Giu.- Também somos do fã clube de Alex.
__Incluindo o Conde.- Disse Gigio apontando Yuri que brincava com os filhos na piscina.- Já foi ao laboratório dele? É maravilhoso. Alex tem de tudo. – Ben prestou ainda mais atenção em Joaquim. Era um nerd de carteirinha. Mas pelo que via, Jorge tinha razão. Ele era um bom menino. Sozinho. Disposto a tudo pela felicidade de Mari. Ben viu sua filha se aconchegar nos braços dele. Viu o carinho com que a acolheu. A atenção que prestava aos primos. O respeito que demonstrava a Rick, o avô, e a ele o pai de sua esposa. No meio da conversa, percebeu que era muito inteligente e perceptivo, para não dizer sensível, quase como um artista. Ben viu que seu sogro também percebeu tudo isso, e como um dos mais inteligentes falcões, apenas sorriu com a constatação. Ben olhou no andar inferior, e viu sua outra filha, aos beijos com seu marido encostados no parapeito. O amor do bailarino vertia em sua pele. Olhou de volta o casal a sua frente e pode sentir o mesmo cheiro de amor exalando deles. Não pode conter seu ciúme. Afinal, três meses atrás eram sua meninas, agora eram mulheres casadas, e sem dúvida muito desejadas por seus maridos. Precisou respirar fundo. Sentiu a mão de Rick em seu ombro e viu um olhar compassivo de quem já enfrentara esse calvário. Então, olhou sua linda esposa brincando com seus meninos. Rick tinha entregado sua menina para ele um dia também, como Ruivo lhe lembrara, agora era sua vez de ser tão bom sogro, como seu querido tio sempre fora.
__Vocês, já tem móveis?- Perguntou do nada para o casal.
__Móveis? Papai até ontem nem íamos casar.- A ruiva riu.
__Bem é que ele já tinha visto um apartamento, eu pensei que talvez…- Ben riu acompanhando a filha.- Nem acredito que tudo isso aconteceu. Sabe, pensei que já tinha visto de tudo nesta família de doidos.- Riu ainda mais.
__Eu gostei! – Disse Gigio rindo.- Três casamento pelo preço de um!
__Se gosta tanto de casamento, porque não se casa?- Perguntou Mari provocando.
__Porque o programador tomou minha vez.- E riu junto com todos.
__Meu Deus! Quanta alegria.- Disse Beto chegando com Alana e Rody.- Quem são vocês, eu conheço?
__Tudo isso é culpa sua Beto.- Disse Rick rindo.
–Minha? Porque? O que foi que eu Fiz?- Pensou.- Dessa vez? – E riu com sua família.
__Primeiro fez esses ruivos divertidos, animados e loucos. Depois, eles fizeram outros descendentes mais malucos ainda. Olha só, a garota se casou sem ter um guardanapo e está assim, a mais feliz das mulheres. Tudo porque ganhou uns beijinhos do rapaz inteligente.- Todos riram.- O pior, é que eu que sou um avô preocupado e cuidadoso, e estou igualmente feliz, e nem ganhei beijinho do rapaz.- Ai que riram mesmo.
__Veja Joaquim,- Disse Beto.- Isso de loucura é contagioso. Até meu irmão, tido como o grande escritor, intelectual foi contaminado. Sinto muito. Mas como já sabe, já casou. Agora é aquilo, na saúde e na doença…- E a risada só crescia.
__Parem!- Disse Rody.- Vão assustar o menino.
__Jamais.- Disse Joaquim.- Por nada nesse mundo me afasto de Mari. Muito menos por uma família tão alegre, que é o sonho de qualquer órfão. Estão chamando atenção de todo o iate, sim estão. Mas eu nunca me diverti tanto, senhor.
__Vovô. Sou seu avô agora. Eu e esse outro aqui.- Apontou Rick com o polegar.- Mas eu sou mais divertido.
__Ah! Vai disputar o novo neto, agora? Não pode simplesmente dividir?
__Ei! Que feio!- Disse Mari brincando com seus dois vovôs. – O que Joaquim vai pensar de nós?
__Vai pensar que são loucos.- Disse Gigio.- E está coberto de razão.- Riu.- Garoto vou te dizer. Eu achava que minha família italiana era de malucos. Até conhecer esses ragazzo. Nunca vi gente mais descompensada.- Rui mais levando todos com ele.
__Opa! Risadas.- Disse Ruivo, com Anelise no colo.
__E Ai vem o mais fanfarrão de todos.
__Olha só, Lise. Esses malvados falando mal do papai. Faz cara feia para eles.- A garotinha sem saber o que estava acontecendo, fechou a cara numa careta de brava imediatamente. Em seguida sorriu mostrando seus dentinhos brancos na boquinha linda. Todos riram com ela. E agora, disputavam a menina em vez de Joaquim, que percebeu o puro amor com que se tratavam.
__Então.- Disse Ruivo.- Como devemos chamar o novo sobrinho?–Joaquim o olhou incerto.
__O senhor já sabe meu nome Diretor. Sou Joaquim, lembra?- Ruivo riu.
__Claro que lembro. Mas pelo visto mamãe não passou por você ainda, né?- Todos riram. E Mari explicou.
__Minha avó Nina, ama dar apelidos para as pessoas. São todos carinhosos. Ela vai perguntar se não se importa que ela te chame de um certo jeito primeiro. Mas se aprovar, ela só vai te chamar assim. E no fim todos vamos acabar aderindo.- Riu.
__Se não gostar de apelidos, Joaquim.- Disse Beto.- Não tem problema, finja.- Riu.
__Verdade, filho.- Disse Rick.- Não vai conseguir escapar desta outra ruiva também. Então melhor aceitar um que goste pelo menos um pouco. Foi assim com Lucélia, que virou Lia a muitos anos.
__Verdade. – Disse Rody.- As vezes pego mamãe assinando Lia até em ocasiões que não deveria.- Riu.- Acho que acabou mesmo se convencendo.
__Mas não é para todos que ela encontra um apelido, né?- Perguntou Joaquim.
__Para todos.- Disse Alana.- Eu também tinha o meu, era Naná.- Sorriu.- Ela continuou me chamando assim por muito tempo. Mas acho que não pegou por causa do Rody que sempre me chamou de Alana. E Jorge também, desde que voltou da Holanda.
__O que tem o papai?- Disse Jorge abraçando Alana por trás e beijando a cabeça dela. Depois beijou o rosto de seu irmão sorridente.
__Estava falando que Você e Rody sempre me chamaram de Alana. Por isso o apelido que Tia Nina me deu não pegou.
__Ah! Era Naná. Né?- Riu. Olhou Joaquim.- AH! Entendi. Tia Nina já passou por aqui? Escolheu um apelido para você, Joaquim?
__Ainda não. Mas pelo que entendi fará isso.- Sorriu e olhou sua ruiva.- Também gosta de apelidos?
__Me acostumei com eles. Eu sempre fui Mari, e nem era porque tinha o nome de uma das minhas avós, afinal ninguém chama vovó Nina de Marina. Só o pai dela e quando está bravo.- Riu.- Muitos dos meus parentes só são conhecidos pelos apelidos. Tio Ruivo por exemplo, tomei o maior susto quando fui para a escola e ouvi chamarem ele de Senhor Carlos, e pior, ele atender.- Todos riram.- E meu pai! Já é complicado para uma criança entender que papai não é nome, imagina descobrir que o nome pelo qual todos chamam seu pai não é o nome dele. Eu me senti enganada.- Riu ainda mais. E levou todos com ela.- Mas depois me acostumei. Lú dizia que era um jeito carinhoso de chamar quem se ama. Vovó sempre escolhe nomes apelidos bonitos que gostamos.
__Diga por si só!- Disse Cisco chegando de mãos dadas com Lú.- Quem no mundo gostaria de ser chamado de Cisco.- Riram todos, menos Cisco Claro.- Verdade! Parece sei lá, uma sujeirinha, não sei um pedacinho de um nada.
__O que é que estou ouvindo?- Cisco se calou e prendeu os dentes fazendo uma careta. Nem se virou, mas já sabia que a sobrancelha ruiva dela estava levantada.
__Não é justo! Todo mundo pode reclamar. Foi só eu fazer um pequeno comentário, e lá está ela. Isso é de mais.- Cisco foi se virando para encarar sua Diretora da Companhia de dança. Sua chefe. Sua tia Ruiva muito brava.
__Então não gosta do seu apelido. Francesco?- Disse Nina muito séria com Lia e Alice ao seu lado.- Não tem problema. Não usarei mais. Como sempre acontece, seus parentes logo se acostumarão a chama-lo igual a mim. Dizem que é um dom que tenho de influencia-los. Espero que fique satisfeito, Francesco.- Cisco ficou sério, olhou nos olhos de sua tia.
__Não, tia. Desculpe. Eu estava brincando. Sim era estranho quando era menino na escola, quando as meninas e Marcelo me chamavam assim, mas eu me acostumei. Sabe que não conseguiria viver sem a identidade que me deu. Não fique aborrecida.- Sorriu para ela.- Como poderia obedecer seus comandos se não me chamar de Cisco. Acharei que tem outro bailarino na companhia.- Abraçou sua tia.- Não seja dramática. Sei que ama me chamar assim.- Ela deu um tapinha de leve no braço dele.
__Sim, eu gosto. Mas posso viver sem fazer isso.
__Pode nada!- Disse Beto.- Nunca me chama de Roberto, mesmo quando está brava comigo.
__É claro, porque estou sempre brava com você, Beto.- Todos riram.
__Então, vai deixar de drama e escolher um apelido para meu novo cunhado?- Disse Cisco. Ela o encarou apertou os olhos verdes e sorriu.
__Não, não vou. Joaquim, já tem apelido. Não é Lia?- Lia sorriu, olhou Joaquim.
__Quincas. Não era assim que sua mãe lhe chamava?- Os olhos de Joaquim se encheram de lágrimas. Ela se lembrava. Um dia enquanto Lia estava lendo para eles, ele contou que sua mãe o chamava assim, como o garoto no livro. Faziam muito anos, mas Lia nunca esquecia uma informação.- Se você quiser e se …
__Sim.- Olhou Lia, que sempre achou parecida a sua doce mãe que morreu junto com seu pai e seus dois irmãos em um desabamento. Joaquim tinha vindo parar no orfanato de Jorge depois de passar por vários lugares. Só então encontrou um pouco de paz. Ouvindo Tia Lia ler para ele.- Por favor? A muito tempo não ouço ninguém me chamar assim.
__Então.- Disse Nina.- Lia nos contou que nunca chamou você assim, porque parecia que você tinha ficado triste ao se lembrar de quando era pequeno. Mas como o seu cunhado Cisco e meu marido acabaram de nos lembrar, eu não consigo evitar chamar alguém por apelidos. Se você não quiser, está tudo bem. Olhe, Jorge, Alana, Alice chamamos por seus nomes. Até o pequeno Caio, e Diana e as meninas Vogelmam, Mas não vou negar que gostei muito de Quincas. Achei a sua cara. Sua mãe devia entender de apelidos que nem eu. Mas o que importa para mim é que se sinta confortável. Quando conheci Lia, ela não gostou muito dessa história de apelidos, mas ela se acostumou. Não é?- Lia olhou Joaquim, Quincas, e disse:
__Querido, eu também não tinha ninguém quando conheci essa ruiva. Ela mudou toda a minha vida. Mudou até meu nome.- Sorriu.- Mas graças a ela, encontrei tudo o que me trouxe felicidade. Isso tudo começou no dia que ela me nomeou Lia. Ela tinha escolhido outro apelido para mim, um que minha linda neta usa.- Olhou Lú.- Já que dividimos o mesmo nome. Mas ela me deu outras opções, entre elas este, que lembra o nome de minha mãe. Igual a você, eu também sentia muita a falta de minha mãe, e não sei porque, mas toda vez que Nina me chamava de Lia, meu coração se sentia mais perto da minha mãe.- As lágrimas contidas de Quincas se derramaram.- Se for assim que você se sentir, teremos prazer em cham-lo de Quincas. Como sua mãe fazia. Mas se lhe trouxer lembranças tristes, preferimos chamar você de Joaquim, o namorado escondido de Mari.- Sorriu.
__A senhora….- Disse emocionado.- Ela se parecia com a senhora. Não na aparência, no jeito de falar. Era por isso que nunca perdia suas leituras, e porque me sentia tão confiante em contar as coisas para a senhora. E para o Professor.- Olhou Jorge.- Que sempre teve esse mesmo jeito de falar.- Sorriu, enxugou suas lágrimas.- Não tenho como agradecer tudo o que fizeram por mim desde que entraram na minha vida. Nem por permitirem que fizesse parte da vida de Mari. Podem me chamar do que quiserem, até de Cisco.- Todos riram. E deste dia em diante, Joaquim voltou a ser Quincas, como quando era só um garotinho.
__Tão engraçadinho!- Disse Cisco.- Um dia sendo Medeiros, já pondo as manguinhas de fora. Vou te contar!- Quincas o olhou meio surpreso.- O que foi? Não entendeu não? Casou com Mari, Quincas. Agora, você é um Medeiros. Tentei te avisar? Mas você chegou desembestado, não deu nem tempo de te prevenir. Essa família é assim, põe apelidos nas pessoas, vai para lua de mel todos juntos, choram na frente uns dos outros, brigam com seus sobrinhos preferidos…
__Nunca param de falar…- Disse Rody morrendo de rir…
__E de rir…- Disse Quincas.- Lia o olhou carinhosa.
__Agora está começando a entender, querido. E tem mais uma coisa que você precisa entender. Você se casou com Mari, então, agora, é meu neto.- Aquelas palavras entraram pelos ouvidos de Quincas como se fossem mel e atingiram seu coração em cheio. Ele sorriu na hora.
__Ei!- Disse Nina.- Porque não sorriu assim para mim também?
__Lá vamos nós outra vez.- Disse Gigio. Beto e Rick quase se mataram de tanto rir.
__O que foi que eles aprontaram?- Perguntou Nina com as mãos na cintura.
__Vovô Rick e Vovô Beto já estiveram disputando Quincas, não foi?- Disse Lú simplesmente.
__Isso é sempre assim.- Disse Jorge.- Não se assuste, garoto. São inofensivos.- disse Rindo.
__Não foi o que ouvi sobre os falcões!- Disse Quincas, com um sorriso maroto.
__Olha!- Disse Ruivo.- Eu não queria dizer nada, mas esse comentário me soou como uma queixa trabalhista.- E riu levando todos com ele.-
__Eu estou fora!- Disse Rick.- Ele não trabalha para mim. Já você irmão….- Cutucou Beto que ria.
__Eu sou o melhor patrão do mundo. Você não concorda, Quincas?-
__O melhor que eu tenho com certeza.- Todos riam.
__Isso até Alex lhe oferecer um lugar na Vogelmamn, né?- Gigio soltou assim sem querer.
__Você entende da minha área, Joaquim?- Perguntou Alex chegando com um refresco na mão.- Alex continuava o mesmo. Muito alto, bem forte, olhos verdes cor de água. O sereno enteado do Ruivo que se casou com Clara a irmã mais nova dele. Joaquim olhou seu novo parente, o inventor do rastreador mais eficiente no mercado. Alex trabalhava para uma companhia de segurança, mas tinha contratos com muitas pessoas importantes. Ele era um gênio em sua área.
__Não senhor. Sou só um programador.- Alex sorriu tímido como sempre, olhou Tia Lia em seguida disse:
__Não se menospreze, rapaz. O que seria de mim sem os programadores? Aposto que a Medeiros pararia sem vocês por lá.
__Deus me livre!- Disse Beto.- Olha o tamanho da minha família. Como alimentaria todos se minha empresa parasse?- Todos riram. Verdade que a Medeiros era uma grande empresa. Que muitos dos recursos que dispunham vinham dela. Mas todos os Medeiros tinhas suas carreiras, suas rendas,suas vidas.
__Seja como for.- Disse Ben até então muito calado.- Talvez fosse o caso de cuidar melhor dos programadores.
__Sabe como é…- Disse Alex sorrindo para Ben.- Os programadores são perigosos, Joaquim até casou com sua filha.- Riram.
__Quincas!- Disse Nina.- Alex, esse é Quincas. E é meu netinho. Você sendo meu genro é tio dele. Joaquim é para os de fora. Para nós será nosso Quincas. Igual o ingrato do Francesco, que para nós é Cisco.
__Mas não esqueceu isso ainda? Quer que me ajoelhe?- Todos rindo. Cisco se ajoelhou como um bailarino. A pose tão imponente e delicada, chamou a atenção dos outros no iate.- Sabe que te amo. Por favor, perdoe esse pobre idiota que não sabe manter a boca fechada, e que não tem olhos na nuca.- Riram ainda mais. Quincas se sentiu dentro de uma bolha de alegria, isso nunca tinha acontecido com ele. Só quando estava sozinho com Mari. Olhou para ela sorrindo das loucuras do primo com sua avó e entendeu porque ela era tão alegre. Essa família era feliz. Juntos se faziam bem. E ele agora fazia parte disso.

O namorado

Capitulo 9
Tudo parecia correr como o combinado. Estava tudo pronto. No momento que embarcaram no iate, tudo parecia um sonho. As acomodações perfeitas. Tiveram 3 dias lindos de sol antes do dia tão esperado. O convés foi todo enfeitado com flores para o casamento. Era o capitão que oficiaria. Os noivos passaram o dia todo separados. As mulheres rodavam os corredores da embarcação vertiginosamente. Todos estavam prontos nos seus lugares na hora marcada. Desta vez, o conde de Eltz, Yuri, Leninha a condessa e Astrid a linda e loira sobrinha, não se atrasaram. Vieram com eles também os dois filhos do casal Yakin de 7anos e Yalens de 5. Todos esperavam pacientemente o cortejo de pajens e dos padrinhos. Assim como dos pais dos casais. Os convidados se resumiam a família, o Conde e mais alguns poucos amigos dos Medeiros. Estavam acomodados nas cadeiras brancas de madeira enfeitadas com flores que demarcavam o corredor até o pórtico entre os mastros, todo torneado de plantas e flores como uma tenda. Os oficiais da embarcação vestiam seus uniformes e os convidados roupas elegantes e clara. As mulheres abusaram dos vestidos esvoaçantes em tons pasteis. As madrinhas estavam de palha. Eram as duas vovós Aline e Elisa, as mulheres dos dois vovôs elegantes vestidos em um sobre tom da mesma cor. Rodolfo e Carlos tinham nas lapelas um pequeno arranjo de margaridas e cerejeiras as flores de suas netas. Calebe e Caio estavam vestido iguais aos vovôs só que de gravatas borboletas. Quando entraram com suas plaquinhas que diziam:- “Elas vem ai”. E, ” Nada de pular no mar!” Arrancaram risos de todos. Em seguida entraram as Noivas. Sorriam de braço dado com seus pais emocionadíssimos. O pais usavam um terno um tom mais escuro que os padrinho, quase indo para um marrom clarinho. E as noivas estavam deslumbrantes. Vestidos brancos de renda francesa com forro da cor da pele. Sem mangas, decore em V, saia ampla, meia capela. Um cinto delicado de cetim branco na cintura. Os cabelos num penteado de tranças folgadas, bagunçadas, meio soltas cravejada com pequenas flores brancas. Usavam os brincos que tinham ganhado de Alice, uma pulseira de strass, o anel de noivado. Uma maquiagem fina e delicada finalizava tudo com perfeição. As duas estavam vestidas exatamente iguais. Além do brinco e do anel, não havia nada diferente. Nem mesmo o buque, que era de margaridas brancas e flor de cerejeira. Caminharam sorrindo para seus noivos. Rody estava muito emocionado. Os olhos negros não continham as lágrimas quando seu irmão entregou Alana para ele. Jorge também estava assim, sabia, torcia por esse dia, mas não podia deixar de chorar ao entregar a filha que seu coração escolheu. Mesmo sabendo que aquele garoto, faria sua filha muito feliz. Como sempre acontecia nestas horas de emoção, as palavras lhe faltaram, ele compensou ao olhar para ele com seus intenso olhos azuis, derramando seu amor de pai e de irmão, sobre ele. Já Cisco não chorou, ficou fascinado quando viu sua bailarina entrar. Quase nem conseguiu ver como sua irmã estava linda e feliz ao lado de seu pai. Só conseguia ver Lú. Ela sempre fora linda, mas assim de noiva, sua noiva, ela era a beleza. Nada poderia faze-lo conter os tremores que corriam por seu corpo. Nunca tinha sentido tanto os nervos como naquele momento. Ficou com medo de não conseguir responder seus votos. Ben beijou a testa da filha, virou-se para ele e disse:
__Cuide bem de minha pequena. Ela fará você, forte, corajoso, determinado. Por ela, você poderá vencer qualquer obstáculo. Em troca, só precisa de carinho, de amor. Sei que é muito capaz disso, por isso estou muito feliz em entrega-lhe um de meus maiores bens. Minha linda Lucélia.- Olhou nos olhos verdes de seu sogro. Não conseguiu dizer uma palavra, então apenas assentiu pegando trêmulo a mão de sua amada. O Capitão começou a falar.
__Caros amigos. Estamos aqui numa ocasião muito especial, temos dois casais dispostos a se unir em matrimonio. Antes de continuar com os tramites legais, quero perguntar se alguém tem algo a declarar a respeito.- Seguiu-se um breve silêncio em que o capitão sorria. Quando parecia que ele ia retomar o discurso..
__Espere!- Uma voz masculina rompeu o ar. Todos se voltaram para o final das cadeiras assustados.
__Quem é você? -Perguntou o Capitão.- Porque interrompe uma cerimonia solene?
__Eu sou Joaquim. Joaquim Fernandes.
__Certo e então?- O rapaz alto, magro, cabelos e olhos castanhos, usando óculos e um terno cinza claro, parecido com o dos noivos, só um corte mais simples. Ele parecia nervoso. Respirou, ergueu o queixo dizendo:
__Desculpem. Não quero atrapalhar o momento de vocês.- Olhou para as noivas como se conhecesse as duas.
__Vocês conhecem este homem?- Perguntou o Capitão.
__Sim. Conhecemos Joaquim. – Disse Lú.- Ele estuda na mesma faculdade que nós, e trabalha na empresa da família também. Conhecemos ele desde menino, ele mora no orfanato.
__Verdade?- Disse o senhor curioso. Olhou o rapaz.- Então você estuda com uma das noivas.
__ Estudo na mesma faculdade. Mas não no mesmo curso. E moro no orfanato desde os 12 anos. Professor Jorge me acolheu, eu estudei na escola da família Medeiros e depois comecei a trabalhar nas empresas.
__Então todos aqui conhecem você.
__O professor Jorge, sim. O diretor Carlos, um pouco. Alana, Dona Diana, Dona Lia e Dona Rita, que trabalham no orfanato um pouco mais. Os outros me viram no orfanato ou na escola, mas faz tempo que não temos conversado. Eu não tenho muito tempo. Com a maioria não tenho contato. Trabalho com as programações dos computadores das empresas. Estudo de manhã e trabalho até tarde todas as noites. Nunca cruzo com eles.
__Certo. Você conhece está família. Mora no orfanato deles e estuda nas escolas deles.- Disse o Capitão ficando meio sem paciência.- Se ainda mora no orfanato é porque é menor de idade.
__Não.- Disse Jorge deixando seu lugar e chegando perto do rapaz.- Joaquim, tem 23 anos. Ainda pode morar conosco, porque não terminou sua pós graduação. Mas esse é o último ano dele.- Jorge olhou o garoto apreensivo.- O que houve, Joaquim? Porque está aqui?
__Eu precisava vir, professor. Desculpe, não queria estragar o casamento de sua filha, mas realmente é muito importante. Eu não podia esperar mais.
__Porque, Joaquim?- Disse Cisco do altar.- Porque você veio de tão longe? Tem que ser algo muito sério, nos vimos antes do embarque no aeroporto, você acabava de chegar de uma convenção. Nós quase nunca nos encontramos depois que crescemos, mas éramos amigos quando criança, brincávamos no orfanato. Alex nos ensinou a fazer um trem com sucata de computadores. Você enlouqueceu quando descobriu que eles poderiam andar com pilhas.- Ele sorriu.- No aeroporto, você me contou da convenção e eu do meu casamento. Você pareceu surpreso quando falei do que precisava para o casamento aqui no mar da Grécia. Quis saber mais detalhes.- Alana olhou Lú. Parecia que um entendimento entre elas fez as duas dar um passo a frente ao mesmo tempo, e sorrirem.
__O que está acontecendo?- Disse Rody, suspeitando de algo. Elas olharam seus noivos e depois para Joaquim. E Lú disse:
__Fale, Joaquim! Diga porque está aqui. Porque está vestido assim?- Ela parecia estar encorajando ele a enfrentar uma batalha. Ele puxou o fôlego e disse com o queixo erguido e o peito estufado.
__Vim para me casar.- Houve um certo assombro.
__Como?- Perguntou Cisco.
__Eu estou muito apaixonado por uma Medeiros. Ela sabe. Eu não queria o compromisso, porque como disse sou órfão e pobre, não sou genial feito Senhor Alex, nem talentoso como Senhor Vincenzo, não tinha como enfrentar um falcão e expor meus sentimentos, sem poder oferecer nada para ela.
__Espere. – Disse Rody.- Está dizendo que está apaixonado por uma Medeiros e que ela sabe, e que agora você está aqui para casar com ela?
__Se ela quiser, sim.- Cisco segurou firme a cintura de Lú e Rody acabou por fazer o mesmo Com Alana.
__Joaquim.- Disse Jorge.- Tem ideia do que está dizendo? Essas noivas…- Jorge olhou para o altar e viu dois noivos com cara de poucos amigos e duas noivas sorridentes, quase emocionadas. Parou de falar e olhou sua mãe. Lia tinha uma capacidade incrível de desvendar enigmas de ver a situação com uma visão bem mais ampla. Ela também sorria. Jorge olhou novamente para Joaquim e depois para sua irmã Liv, que cobria a boca com a mão enquanto deixava uma lágrima cair. Ben seguiu o olhar do primo e também percebeu a emoção da esposa. Voltou-se rapidamente para a filha. Não a morena, vestida de noiva no altar, a ruiva de cabeça baixa sentada na cadeira torcendo o lenço que tinha nas mãos.
__Mari!- Perguntou com um fio de voz.- Você tem algo a dizer sobre isso, filha?- Mari foi erguendo a cabeça devagar, estava meio pálida, os olhos verdes iguais aos de seu pai cheio de lágrimas. Ela não disse nada. Não foi preciso. Ben conhecia muito bem suas meninas. _ Porque você não me contou isso antes?- Ele parecia chateado.
__Desculpe, papai. Eu queria contar. Mas ele dizia que você não ia entender, como o grande guerreiro ruivo, aceitaria um qualquer como genro, eu…- Ben suspirou.
__Devo imaginar que você o ama? Porque se acreditou nessa tolice que ele disse, em vez de em mim que você sempre conheceu?
__Desculpe.- Chorou.- Nos encontramos no aeroporto, eu contei do casamento de Lu e Alana. Falei como elas estavam felizes. Disse que poderia ser a gente. Mas ele insistia em não procurar o senhor, disse que ainda não era a hora. Nós brigamos. Eu….Fiquei chateada. Ele…. Eu não sabia que ele viria. Eu… Contaria para o senhor se soubesse….Desculpe, papai.
__Senhor!- Disse Joaquim já ao lado de Ben.- Ela não tem culpa. Sempre quis contar para o senhor. Sempre disse que o senhor iria entender. Mas eu tinha medo. Eu não tinha como cuidar dela como ela merece. Ainda não tenho muito, mas já posso tentar eu….- Ben encarou o garoto que convenceu sua filha que ele era um monstro insensível, viu um menino assustado, mas muito corajoso, disposto a enfrentar seus medos pela mulher amada. Um garoto pobre, que conseguiu estudar, se formar, trabalhar e encantar uma famosa bailarina. Entendeu sua situação. Mari era uma linda e famosa bailarina, herdeira de um advogado conhecido e vinha de uma família financeiramente muito boa. Alex tinha passado por isso, mas tinha o apoio da mãe e era realmente um gênio da eletrônica. Vincenzo entrou para a família pela porta dos fundos, mas acabou fazendo um bom caminho e conquistando Sofia. Os outros todos eram homens em vantagens financeiras. Mesmo Cisco, o mais jovem, não teria nenhum problema em sustentar uma Medeiros com seus próprios recursos, sem precisar de sua herança. Ben nem ouviu direito as últimas palavras do rapaz, olhou Liv nos olhos e viu o que precisava fazer.
__Muito bem, rapaz. Então você não está aqui para atrapalhar o casamento que estava em andamento, está aqui para pedir a mão de Mari. Estou certo?
__Sim. Eu acho?
__Acha? Rapaz, estamos no meio da cerimonia, acabei de deixar minha filha, Lucélia no altar. Meu primo acabou de fazer o mesmo com Alana a filha dele. Pela cara das duas noivas, elas já sabiam de vocês. Pelo visto, as mulheres dessa família andam muito cheias de segredos.- Olhou, sua mãe e sua tia, e Liv que não tirava os olhos dele. Voltou-se para Mari. Suspirou.- Vamos Mari, levante-se.- Ela obedeceu.- Filha, você também está apaixonada por esse rapaz?
__Sim papai, eu o amo, muito.- Foi forte como os falcões.
__Certo.- Ben respirou fundo.- Imaginei que sim.- Voltou-se para o rapaz.- Então Joaquim, agora a fala é sua. Precisamos saber exatamente o que você quer com minha filha.- O rapaz arrumou os óculos empurrando no meio do nariz. Encarou Ben e disse:
__Doutor Benjamin, eu amo sua filha e quero me casar com ela. Prometo cuidar dela com todas as minhas forças. Lutarei pela felicidade dela, mesmo quando não for a minha. Nunca serei rico, mas darei a ela tudo o que ela precisar, eu juro. Por favor, nos dê sua aprovação? É muito importante para ela, é muito importante para mim também. Sei que o senhor é um pai muito dedicado. Espero poder aprender com o senhor. Sua filha é a pessoa mais importante do mundo para mim. Deixe-me faze-la feliz, senhor?- Ben olhou para a filha encantada com as palavras do garoto. Olhou Jorge que sorria atrás deles, depois Ruivo, seu irmão gêmeo de boca aberta ao lado de Diana na última fileira. Teve que rir.
__Joaquim. Antes de dizer qualquer coisa, me responda, porque casar? Digo, não prefere começar um namoro, ou noivar primeiro? Isso daria tempo para todos nós conhecermos você melhor. Termos tempo para preparar um casamento adequado para vocês. Porque toda essa urgência?
__Porque já esperei de mais. Já fiz ela esperar de mais. Logo terminarei minha pós, não estarei mais no orfanato, nem na faculdade. Ela tem pouco tempo, sua arte consome muito dela. Se não estivermos casados, eu não sei quando poderemos nos ver. Não queria atrapalhar nada, mas quando Cisco falou do casamento, achei que seria minha única chance de convencer o senhor da minha sinceridade. Eu sou pobre, mas não estou interessado na herança de sua filha. Me informei e soube que um casamento no mar precisa ser com separação total de bens. Então, eu não quero nada mais que o amor dela. Por favor acredite em mim, senhor?- Ben olhou para seu pai, Beto sorriu para seu filho. Ben respirou fundo e começou:
__ Sei pouco de você. Mas pelo que me lembro, você é um excelente funcionário. Muito diligente. Foi por isso que a empresa mandou você para o congresso, porque você se destacou entre seus colegas. Jorge fica com poucos adultos no orfanato. Se isso aconteceu com você, também é porque você continuou estudando e se esforçando e melhorando. Temos outro exemplo assim em nossa família, Ritinha, nossa prima, mulher de Giu. Fico triste que tenha pensado que eu não aceitaria um namorado das minhas meninas só porque é pobre. Os falcões não são assim. A coisa mais importante para um falcão é a família. Se você quer entrar para essa família, terá que jurar protege-la. Toda ela. Isso incluiu os pequenos, os vovôs, todos, mas principalmente as mulheres. Elas são raridade nesta família. Das que nasceram nela temos apenas cinco. Uma é um bebê. A outra é minha irmã, a as outras 3 são minhas. Se ferir qualquer uma delas, é um programador morto.- Liv segurou o braço de Ben com cuidado, era um sinal, Joaquim entendeu e achou lindo.- Mas pelo visto, minha filha quer ficar com você. Este é mais um ponto para você. As mulheres desta família parecem frágeis e indefesas, mas não se engane. Elas são fortes, determinadas e inteligentes, poderosas. Sabem escolher um homem. Olhe em volta, e terá sua prova. Confio na decisão de minha filha. Embora, não tenha me contado antes, sobre esse namoro as escondidas, dou minha benção.- Olhou Liv.- Nossa.- Mari colocou as duas mãos tapando a boca. Depois abraçou seu pai.
__Ah, papai. Obrigada. Eu sabia. Eu sempre soube. O senhor é maravilhoso. Obrigada.- Liv se adiantou, olhou Joaquim intensamente com seus olhos cor de gelo.
__Foi muito corajoso, Joaquim. Poderia ter sofrido menos, mas não podemos negar que enfrentou o falcão e toda a família por sua amada. Parabéns.- Sorriu.
__Obrigada, senhora.- Disse encabulado.
__Muito bem! Muito Bem.- Disse Nina meio chorando, meio rindo, toda apressada como se estivesse num de seus espetáculos.- Olá, netinho. Sou a Vovó Nina. Mari, dê um beijinho de leve nele.- Disse e já foi puxando a menina.
__Ei!- Disse Ben.- O que foi mamãe?
__Não vamos demorar.- Olhou o Capitão.- 5 minutos Capitão. O senhor pode ir dizendo aquelas coisas bonitas. Nós já voltamos. Venha Lia, traga Clara e Liv! Rápido!- As mulheres correram para dentro.
__O que elas vão fazer?- Disse Ben desconfiado.
__Eu estou louco, ou você vai casar sua outra filha hoje, Ben?- Disse Ruivo morrendo de rir.- Jorge prendia os lábios para não rir.
__Vai te catar, Ruivo!- Jorge olhou Alice que veio para perto deles já arrumando a gravata de Joaquim, fazendo o mesmo nó dos outros noivos, em seguida Ruivo colocou na lapela dele o arranjo que estava em seu paletó.
__Você trouxe alianças?-Alice perguntou.
__Sim, senhora.- Deu uma caixinha para Alice.
__Certo.- Ela olhou Ruivo.- Consegue ajeitar isso?- Ele riu.
__Pode deixar.- Bateu nas costas do novo sobrinho.- Foi um belo show garoto. Você me surpreendeu.- E riu.
__Você sabia disso?- Perguntou Cisco para Lú.
__Que eles se gostavam, sim. Mas eles nunca se acertavam. E não sabia que ele viria, não mesmo. Na verdade quase não o reconheci vestido assim. É bem bonito de terno.
__Ei! Sou ciumento.- Disse rindo.
__Desde de quando?
__Desde que te amo. E não sei respirar sem você.- Beijou o rosto dela.- Está linda. Perdi a fala quando te vi.- O sorriso dela se iluminou.
__Bem que estranhei o vestido.- Disse Alana. E riu.
__Que vestido?- Perguntou Rody. Neste momento as mulheres saiam novamente pela mesma porta. Nina terminava de colocar umas florezinhas no cabelo trançado de Mari. E Mari não usava o mesmo vestido rosa de antes. Estava vestida de noiva, com o vestido igual ao das outras.
__Aquele vestido.- Disse Alana. Joaquim ficou paralisado. Mari era mesmo muito linda. Sempre fora. Bailarina com curvas, ruiva com cabelos cor de cobre, olhos verdes como esmeralda, alta e delicada. Era idêntica a Nina quando moça. Do tipo de mulher que para o trânsito, só de levantar a sobrancelha. Sorriu lindamente para Joaquim. Caminhou para ele com cuidado.
__Espere!- Disse Ben.- Jorge, leve ele para o altar.
__Como?- Perguntou Joaquim.
__Vai casar com ela hoje, não é? Então, está com seu passaporte?
__Sim.
__Leve para o oficial. Ele vai pegar seus dados.- Olhou o escrivão.- Todos os dados dela são iguais aos de Lucélia, são gêmeas fraternas. – Liv passou por eles com o passaporte de Mari, pegou o passaporte da mão de Joaquim e correu até o oficial escrivão.
__Os documentos estão aqui senhor.- Pôs-se de volta ao lugar da mãe da noiva, ou melhor noivas.
-_Certo.- Ben sorriu e olhou de novo para a filha. Viu Lia entregar para ela um buque igual ao das outras noivas. Balançou a cabeça. Voltou-se para Jorge.- Leve logo o rapaz! O Capitão está esperando. Você não tem pais, mas Jorge é seu guardião legal, ou foi até você atingir a maioridade. Você ainda mora na instituição, ainda é ligado a ele. Pelas leis navais, você precisa de uma testemunha assim para se casar em alto mar. Entende?- Joaquim ainda estava encantado com Mari de noiva, mas ouviu o que Ben disse. Olhou seu antigo tutor.
__O senhor pode fazer isso, professor? Por favor?
__Claro!- Jorge pegou o braço do rapaz e segui adiante.- Senhor capitão. Este é meu filho.
__Espere.- Disse o capitão.- O senhor já me disse isso hoje.- Olhou Cisco.
__Sim.- Jorge riu.- Francesco é meu filho único. Mas tenho também Alana, que minha mulher já tinha antes de nos casarmos. Tenho também uma instituição que cuida de órfãos. Sou tutor legal deles. Joaquim foi um destes meninos. Ainda vive conosco porque não terminou os estudos. Respondo por ele, como por um filho.
__Certo.- Disse o capitão.- O escrivão fará o documento.- Jorge acariciou o cabelo do rapaz e voltou para seu lugar. Ben olhou os músicos e mandou que soltasse a música de entrada novamente. Beijou a testa de sua segunda filha vestida de noiva e levou-a para o altar. Quando a entregou, olhou ambos, ele só um pouco mais alto que ela. Pode ver os olhos brilhantes dos dois.
__Nem sei o que dizer.- Suspirou. Então as gêmeas se tocaram pegando a mão uma da outra. Era um gesto comum entre elas. Ben as viu fazer isso desde que nasceram. Seus olhos de esmeralda transbordaram.- Vocês vieram para a minha vida juntas. E estão seguindo o caminho que escolheram juntas. Não sei se posso suportar entregar as duas juntas assim, mas algo dentro de mim sempre soube que seria desse jeito.- Soluçou. Todos no altar e fora dele choravam de emoção. Olhou Cisco, o sobrinho que sempre conheceu, depois o Joaquim que nem sabia direito quem era, um pavor encheu seu peito, implorou aos dois a mesma coisa. – Por favor, por favor, por tudo que há de mais sagrado, cuidem das minhas meninas. Não poderia suportar vê-las sofrer.
__Eu juro!- Disseram juntos como se tivessem ensaiado. Então se olharam e Sorriram.
__Tio, prometo merecer a confiança que me deu em deixar-me cuidar de uma de suas joias. Enquanto viver, meu coração será dela e a felicidade dela será a minha.
__Senhor, eu não tenho ninguém. Sua filha é todo o meu mundo, é minha vida. Lutarei pela felicidade dela porque de outra forma, nunca serei feliz.- Ben sorriu e voltou emocionado para junto de sua esposa. O Capitou olhou para as cadeiras e disse:
__Muito bem. Mais alguém deseja se apresentar para o matrimonio hoje?- Todos riram.- Então vamos ao que interessa.- Falou das leis e dos preceitos para o casamento na lei de Deus e dos homens. Em seguida da leis para os casamentos no mar. Depois de explicar os documentos legítimos, os fez assinar. Em seguida as testemunhas. Logo depois, uma música encheu o ar. Era uma melodia de ninar que Ben tocava para suas meninas dormirem. Chegara a hora das alianças. Todos os meninos, os dois de Ben, os dois do Ruivo, os três de Clara, os dois de Vincenzo, os dois de Leninha , Pietro de Giu e até o pequeno Giordano segurando a mão do irmão, se enfileiraram na lateral do tapete que levava ao altar. Ruivo entrou com Anelise no colo. A bebê vestia um vestido de renda branca todo bufante, cheio de babados. Uma faixa mantinha os cabelos mais no alto da cabeça. Na lateral da faixa flores iguais as dos buques das noivas. A garotinha de pouco mais de um ano, bochechuda e muito sorridente trazia na mão uma lamparina decorativa. Toda trabalhada, de bronze, antiga. Muito bonita. Ben entregou-se a emoção. Não tinha como não lembrar que pouco mais que 16 anos antes, ele fizera o mesmo que seu gêmeo. Entrou no casamento dele, com suas filhas nos braços para que elas lhe entregasse as alianças. Ruivo olhou suas sobrinhas e também chorou exatamente como naquele dia. A pequenina bombom sorridente, entregou a lamparina para seu primo preferido, Cisco, a quem beijou e abraçou, depois beijou as noivas e os outros noivos, imitando seu pai, mas sem chorar. Cisco colocou a lamparina em cima da mesa do Capitão. Rody tirou suas alianças primeiro. Fez seus votos e colocou na mão de Alana a aliança que beijou em seguida. Alana fez o mesmo com a aliança dele. Em seguida Cisco fez o mesmo com as suas. E viu Lú repetir o gesto. Então, Cisco apontou para que Joaquim fizesse o mesmo. Quando ele abriu a lamparina, viu junto com as alianças de ouro simples que tinha comprado, um anel de diamante. Um anel suntuoso, três filetes de aro de ouro se retorciam todos cravejados de pequenos brilhantes, em cima uma cama do mesmo filete recebia uma pedra generosa e belamente lapidada. Joaquim olhou Mari confuso, ela olhou o anel e o reconheceu, seu olhos voaram para sua avó Elisa.
__Meu querido novo neto.- Disse a vovó.- A muito anos, um rapaz tímido, me surpreendeu com esse anel. Ele havia vivido muito sozinho por muito tempo e sofrido muito com isso. Num minuto eu era solteira e no outro eu tinha um homem apaixonado e uma linda família para amar. Durante todos esses anos eu carreguei o anel que significou aquele momento, em que deixamos de ser dois, para ser um só. Por favor, quero que coloque esse anel, que significa o começo de nossa vida juntos, na mão de minha bisneta. Ela deverá usar esse anel em sinal desse tipo de amor. O amor que salva uma vida da solidão.
__Vovó. – Disse Mari.- Mas é seu anel de noivado, o que vovô fez para a senhora.
__Eu sei. Agora é o seu anel de noivado, que pertenceu a sua bisavó, que lhe entregou no dia do seu casamento. Porque viu nos olhos do seu noivo, o mesmo tipo de amor, de esperança que viu nos olhos do homem que sempre amou.- Olhou Rodolfo que sorria.- Por favor, deixe seu noivo completar a cerimonia.- Mari olhou Joaquim, ele ainda parecia sem coragem de tocar numa peça tão cara, tão bonita.
__Vamos, rapaz!- Disse vovô Rodolfo com sua voz de falcão.- Não faria uma desfeita dessas para minha esposa, não é? Ela está mostrando a você o quanto estamos felizes por vocês. Quando desenhei essa joia, sabia que ela ficaria na minha família para sempre. Agora, mesmo quando não estivermos mais aqui, esse anel, que carregou todo o meu amor, estará. E estará com minha bisneta que será igualmente amada. Certo?- Joaquim sorriu. Pegou o anel e as alianças. Colocou no dedo de Mari e beijou como viu Rody e Cisco fazerem e entregou a peça para Mari completar o ciclo. Foi muito emocionante. E o Capitão:
__Bem, realmente esta é uma ocasião muito especial. O como tal não poderia terminar sem minhas palavras finais. ” Eu vos declaro, Maridos e Mulheres.” Podem beijar suas noivas.- Muitos aplausos, assobios e gritos. Muitos cumprimentos, muita alegria. Os fotógrafos levaram os noivos para tirar fotos pelo iate. A festa começou. Ruivo chegou perto do irmão:
__Então? Está bem?- Ben ainda tinha os olhos úmidos. Estava feliz por suas meninas, mas estava com medo que elas sofressem. Sentia-se impotente diante do futuro que as aguardava.
__Sim. Apavorado, mas estou bem.- Ruivo riu.
__Sei. Não queria dar suas meninas para ninguém , né? Mas a vida é assim. Você ficou com Liv, não foi?
__Está se divertindo, né?- Vai chegar sua vez. Esse lindo bombonzinho vai crescer. E acredite, é bem mais rápido do que dizem.- Jorge chegou perto deles.
__O que as meninas estão cochichando aí?
__Ben está sendo profundo, dizendo que o tempo passa muito rápido.- Jorge olhou seus pai, seus avós e seus filhos.
__Acho que tem razão.- Olhou seus primos, tão queridos, com quem dividiu sua vida. Felicidades e tristezas.- Ainda bem que sempre estamos juntos.- Os facões sorriram diante daquela verdade.- Mas agora temos um contratempo. Papai está chamando os falcões.
__Algum problema?
__Mais ou menos. Venham!
Enquanto isso os noivos faziam poses juntos e separados por toda a embarcação.
__Está brava por eu ter aparecido assim? – Disse Joaquim
__Não!- Sorriu a linda ruiva.- Não poderia ter sido mais romântico.
__Diga a verdade?- Perguntou Rody.- Você sabia que ele vinha. Tinha até um vestido igual ao delas?
__Eu não sabia. Nos falamos, mas ele só falou da convenção e que talvez fosse chamado para a capital outra vez.
__É verdade.- Disse Joaquim.- Falei com ela antes de encontrar Cisco.
__Ah! Então foi Cisco o culpado de tudo outra vez?- Disse Rody rindo.
__Como sempre.- Disse Alana.
__Ei! Eu só falei que o casamento no mar era um pouco diferente. Não tenho culpa se o maluco apareceu aqui para casar com a ruiva. Eu nem sabia que eles estavam juntos. Aliás, porque não me contaram?
__Essa até eu sei.- Disse Rody.-Boca de caçapa. Sempre aberta.- riram
__Ei! Amor, me defenda?
__Desculpe, amor.- Disse Lú rindo.- Mas se soubesse iria correndo contar para o papai.
__Até você!- Fez cara de desespero.- Estou perdido.- Riram mais.
__Olha.- Disse Joaquim.- Desculpem, eu não queria atrapalhar vocês.
__Ei!- Disse Rody segurando o ombro dele.- Não se preocupe. Foi muito bonito. E só o que precisa fazer é Marina feliz. Agora você também é meu sobrinho. Eu também vou cuidar de você. Mas vou exigir que cuide dela com muito amor. Eu e todos os falcões.
__Rody está certo.- Disse Cisco.- Fiquei meio nervoso quando te vi. Só me faltava um competidor aparecer no ultimo minuto do segundo tempo! Mas logo entendi que não se tratava de Lú. Vou repetir o que tio Ben disse, fiquei magoado por não terem me contado, eu falaria sim para tio Ben, mas porque sei que ele apoiaria vocês. Mas tudo já passou, agora somos cunhados. Eu sempre dancei com Mari com todo respeito, continuarei dançando com ela. Agora com mais respeito ainda.
__Eu sei. Já vi vocês dançando muitas vezes. Nunca tive ciúme. Sempre tratou Mari como se fosse uma menininha. Já a morena….
__Assistiu o novo espetáculo?- Perguntou Lú.
__Não. Não pude ir antes de viajar, passei um mês muito complicado na faculdade. Precisava entregar minha tese antes de viajar e a convenção durou 2 meses. Quase nem nos falamos. Eu nem sabia que estavam juntos. Muito menos que iam se casar.
__Espere. Então como diz que Cisco….- Lú parou de falar ao entender que Joaquim tinha percebido algo que ela não tinha visto. Nem Cisco tinha percebido. Ele tratava ela diferente, dançava com ela diferente. Joaquim apesar de não ser um artista tinha a sensibilidade de um, por isso conquistara Mari. Mari a olhou como se dissesse ” entendeu agora porque o amo tanto”. Elas sorriram, e a foto ficou ainda mais perfeita. Joaquim, o namorado escondido, Cisco o namorado relâmpago e Rody o eterno namorado. Todos evidentemente apaixonados por suas esposas. Joaquim alto e esguio, mas elegante. Cisco magro, mas muito forte, o bailarino. Rody, grande e musculoso. Todos em seus ternos cinza claro, suas gravatas brancas e seus cravos de lapela feitos com margaridas e flor de cerejeiras. Lindos e claramente muito felizes. Como as noivas, claro. Depois de milhares de Cliks, voltaram para os familiares e amigos. O jantar foi servido. A luz começava a cair, a iluminação foi acesa. Milhares de luzinhas iluminavam os casais. A mesa foi reorganizada para 6 cadeiras e os noivos foram acomodados sem dificuldades. Depois do jantar, os noivos liberaram a pista de dança do modo tradicional. Com alguma alterações porque Ben não podia dançar com as duas filhas ao mesmo tempo, Ruivo tomou seu lugar com Mari,e Joaquim não tinha mãe para dançar com ele, então Liv tomou o lugar dela alegremente. Foi muito bonito. Joaquim se mostrou um bom partiner apesar da falta de treino. No meio do baile, quando todos já estavam bem animados e felizes, ouviu-se o som do violão de Ben e sua voz rouca cantando My little girl de Jack Jhonson. Foi muito lindo. As gêmeas choraram. Então Calebe, disse a Joaquim:
__Então. Nós não sabíamos que vocês estavam namorando, nem que iam se casar hoje também. Mas na família Medeiros, nós temos algumas tradições. E acho que você precisa conhece-las, né Rody?- Rody sorriu, virou-se para seu novo sobrinho e disse:
__Calebe tem razão. A primeira coisa que precisa saber, é que os Medeiros são como os falcões, caçam sozinhos, mas dividem seus recursos e experiências. Protegem a família, independente do grau de parentesco, como se fossem irmãos. E nunca se separam de suas esposas. Morrem por elas, se for preciso. Amam a mesma mulher por toda a vida. Por esses motivos, a muito tempo, somos conhecidos assim, os falcões.- Cisco ergueu o queixo e disse:
__Você se casou com Mari, então precisa fazer o juramento dos falcões. Precisa jurar, amar e cuidar da família, como todos os falcões. Defender todos. Ser disposto a ajudar sempre que for preciso. Você deve jurar.
__Sim. Eu juro.
__Tem outra tradição.- Disse Lú.- Como pode notar, nesta família há muito gêmeos. É sabido que os gêmeos tem uma ligação muito forte. Essa ligação não desaparece quando um deles se casa. Segundo meu pai, ela cresce e os gêmeos passam a amar e defender os cunhados como fazem com seus irmão.- Lú se aproximou de Joaquim, colocou a mão sobre o peito dele e continuou.- Joaquim, este é o juramento dos gêmeos dos falcões. Prometo, cuidar de você, proteger você, amar você como sempre fiz com minha irmã. Seus filhos serão meus e os meus seus. Você será minha família, parte de mim, como minha irmã é e sempre será. Como todos os falcões, uma só familia, o mesmo clã.Eu juro.- Os olhos de Joaquim se encheram de lágrimas. Ele não sabia o que dizer.
__Meu querido, novo neto.- Disse Vovô Rodolfo.- Acaba de ouvir um juramento instituído a muitos anos por meu tio e meu pai. Eles o cumpriram até a morte. Todos os gêmeos desta família, todos os irmãos fizeram o mesmo. Você agora é parte de nós. Não é mais um órfão, agora você é um Medeiros, pertence a essa família, é um falcão.- Joaquim chorou.
__Senhor eu nem sei o que dizer.
__Diga, eu aceito vovô.- E sorriu. Joaquim o imitou emocionado.
__Eu aceito vovô.
__Ok.- Disse Caio com um embrulho nas mãos.- Então agora é minha vez, né vovô?- Todos riram do pequenino.- É que eu não ensaiei. Não sabia que Mari também ia casar hoje.- Riram mais ainda.
__Vá em frente falcãozinho.- Disse Rodolfo carinhoso.- É sua vez.
__Certo. Mari, você conhece bem essa tradição. Está é a….
__Não acredito!- Disse Mari espantada cortando o irmãozinho._ Como conseguiram, não tiveram tempo para isso? Vocês não sabiam que Joaquim viria?- Caio fez uma cara de chateado.
__Ei! Você me atrapalhou! Tem que esperar que eu acabe de falar. Lú esperou.- Todos riram de novo.
__Ok, desculpe. Mas eu não estava esperando por isso.
__Esperando o que, linda?- Perguntou Joaquim confuso e desconfiado.
__Você também vai me atrapalhar? Mamãe!- Disse o pequeno parecendo bem bravo. Liv olhou o casal.
__Mari, conhece a tradição. Deixe seu irmão mais novo terminar a parte dele. Joaquim, não se preocupe. Caio vai lhe explicar.- Olhou seu filho.- Prossiga querido.- O garotinho ergueu o queixo e continuou:
__Então. Como eu dizia. – Todos riram, essa sempre foi e sempre seria a marca desta família, a alegria.- Esta é a caixa de prendas dos falcões. Sempre que um falcão se casa recebe de todos da família uma prenda. Elas estão nessa caixa, são lembranças do amor que temos por vocês. Para que nunca se esqueçam que são falcões, parte desta família.- Sorriu.- Agora, acabei.
__Como Caio acabou de dizer. Não sabíamos que vocês se casariam hoje, e como Mari pontuou, não tivemos tempo para providenciar uma caixa de prendas usual. Normalmente, a caixa pertence a alguém da família ou tem um significado importante na vida de pelo menos um dos noivos. Sempre contém uma joia que desenho para a ocasião, e uma de seu gêmeo, também prendas previamente selecionadas para a noiva. Quase sempre a noiva recebe a caixa no noivado, as vezes no casamento, mas é a primeira vez que tivemos menos de duas horas para apronta-la.- Vovô suspirou.- Muito bem, a joia do patriarca e a de sua gêmea, estão na caixa.- Mari olhou espantada para Lú, que sorriu.- As prendas dos falcões também. E para ser sincero, acho que são todas de muito bom gosto e carinhosas. Normalmente, você nunca saberia quem deu o que, mas são mimos tão delicados e reveladores, que pela primeira vez, acho que não terá dificuldade de saber de quem vieram. Mesmo assim, não deverá devolver nada. É a tradição.- Olhou Joaquim explicando direto para ele, já que Mari sabia tudo isso muito bem.- São delicadezas, peças que representam algum momento que viveram juntos de Mari, lembranças de amor. Raízes desta família, da sua família.- Caio se aproximou. Tirou o tecido branco que cobria o embrulho. Era um estojo, um case de um cavaquinho. De couro marrom. Mari começou a chorar. Joaquim entendeu que aquilo deveria significar algo, mas não fazia ideia do que. Notou um cadeado todo brocado no fecho principal. Caio estendeu o case e disse sorrindo.
__Então, não vai pegar? Achei que sempre quisesse meu case?- Era isso, o pequenino que herdara o talento do pai para música, estava dando a ela a caixa que guardava o pequeno instrumento que o pai mandou fazer para ele. – Eu não quis te dar antes, mas hoje é um dia especial. Mamãe disse que não sabiam onde encontrar uma caixa que você fosse gostar, mas eu sabia que gostaria do case. Gostou não foi?- Disse sorrindo. Mari se abaixou, pegou o case e entregou para Joaquim, então apertou seu doce irmãozinho.
__Você é um amor.- Beijou-o.- Muito obrigada. Podia ter me dado antes, nas 949 vezes que eu te pedi, mas fiquei muito contente que tenha me dado, hoje.- Beijou-o de novo.- Vou cuidar dele com minha vida. Prometo.
__É bom mesmo.- Riu.- Calebe colocou o cadeado. É aquele que ele desenhou junto com o vovô. Aquele que você achou bonito, lembra? A chave está com ele.- Mari olhou seu outro irmão, aquele que era a cópia dela mesma e de seu pai. Os olhos esmeralda de Calebe brilharam, ele chegou perto deles, e estendeu a chave, tão brocada quanto o cadeado.
__Eu ia colocar dentro com as outras prendas, mas achei que ficava mais bonito assim. Porque você ia saber, que nós, sempre estaremos com você, mesmo que não vai mais morar com a gente, e que não consiga morar tão perto quanto a Lú. Você gostou?
__Sim. Sim, meu amor. Eu gostei muito. Vocês são maravilhosos. – enxugou os olhos.- E sei que vocês sempre estarão comigo, porque eu sempre estarei com vocês, meus queridos irmãos.- Abraçou os dois, estendeu a mão para alcançar Lú. – Eu amo muito vocês.- Foi uma choradeira só. Joaquim esperou até que conseguisse controlar a própria emoção, então aproximou-se deles.
__Obrigado a todos vocês. Eu perdi meus irmãos, mas não posso dizer que nunca vi esse tipo de carinho. Já vi vocês juntos muitas vezes. Sei como cuidam uns dos outros. Também recebi um cuidado parecido de vocês durante boa parte da minha vida. Estou lisonjeado de poder fazer parte disso. E vou me esforçar para mantê-la sempre perto de vocês, prometo.- Os garotos sorriram e abraçaram as pernas dele.- Opa! Ei! Cuidado! Não sou tão forte quanto o pai de vocês. Vão me derrubar.- Riu. Os garotos também. Em seguida toda a família estava rindo feliz outra vez. Dançaram contentes até a hora do bolo. Foi então que mais uma surpresa se formou. O bolo escolhido era plano redondo com dois pares de bonequinhos dos dois casais vestidos como noivinhos sentados em banquinhos de praça. Mas agora tinham um bolo de três andares. Em cima Rody e Alana com uma plaquinha que dizia” Ufá! Até que enfim!” No segundo bolo uma noivinha na beirada esperando o noivo que estava no bolo de baixo tentando subir com uma plaquinha” Estamos quase lá”. E na mesa, um casalzinho de noivos correndo para alcançar o bolo com a plaquinha ” Nós também vamos!’ Muito engraçadinho. Coisa de Clara, lógico.
__Como conseguiu estes bonequinhos?- Perguntou Lú.
__Dei meu jeito.- Riu.- E o confeiteiro do navio é muito bom. Ele trabalhou com Rody. Quando eu e Vincenzo explicamos o caso, ele rapidamente se prontificou para ajudar. Fizemos rapidinho. -Olhou Leninha.- Parecia que estávamos no curso da Menu de novo. Foi bem divertido.
__É tirando ter que trabalhar de salto, foi ótimo.- Disse a condessa chefe de cozinha rindo.- Estou espantada de terem conseguido arrumar a noiva em cinco minutos!
__Quando estávamos escolhendo os vestidos, não conseguíamos nos decidir. Queríamos um que combinasse com nós duas, mas parecia que nada ficava tão bom. Então, Mari trouxe esse modelo, disse que se fosse se casar faria ele. Quando fomos na última prova, Vovó Lia trouxe esse para ela provar. Disse que Vovó Nina tinha contado que era o preferido dela. Segundo Vovó Nina era bom ter um vestido a mais para o caso de acontecer um imprevisto. Como era tudo novo para elas nesse casamento de duas, achamos que estavam tentando se precaver.
__Mas até o buque?
__Bem, esse foi eu que pedi. Queria dar um para ela. Eu sabia que ela estava enrolada com Joaquim, achei que ela ficaria um pouco mais contente.
__Mas e a sua joia do gêmeo?- Perguntou Alana.- Como veio parar aqui no iate? Nem sabia que você já tinha mandado fazer.
__Na verdade, não trouxe para o cruzeiro.
__Mas, então?- Lú sorriu.
__Vou contar a vocês, porque ela saberá assim que olhar dentro do case. Quando éramos meninas, estávamos ajudando vovó Elisa a limpar as joias dela. Mari se apaixonou por um colar de diamantes com safiras. Era mesmo lindo. Mas eu nunca gostei de coisas muito grandes. Enfim, ela ficou com ele no pescoço até terminarmos. Depois devolveu na caixa com muita tristeza. Vovó até riu. Eu disse para ela que quando ela se casasse, eu daria um colar igual aquele para ela, seria a joia do gêmeo. Quando fiz 18 anos e recebi minha herança, contei para o vovô, ele fez um colar para ela, está no cofre da mamãe.
__Ué? Mas então..
__Vovó estava com o dela a bordo.
__Entendi, você deu o da sua avó para ela.
__Sim. Quando voltarmos, devolvo o outro no lugar.
__Genial.- Disse Ritinha, ao ouvir o fim da história.
__Foi o vovô. Eu nem sabia o que estava acontecendo. Mas quando ele me disse para fazer o juramento, já entendi que ele tinha feito a troca para mim.
__E o case do Caio? Aquilo sim foi jogada de mestre.- Riram. Com o comentário de Sofia.- Verdade. Eu fiquei imaginando como encontrariam uma caixa de joias tão rápido e que não fosse comprada na lojinha do iate.- Riram ainda mais.
__Sua mãe foi de mais, Lú.- Disse Astrid toda teatral.- Os homens ali quebrando a cabeça, ela olhou para as crianças, depois para vovó Lia, sorriu e foi até os meninos. Segundos depois os dois correram lá para dentro e logo voltaram com o case pequenininho e o cadeado de filigrana. Fiquei boba!
__Mari sempre quis o case dele. Desde quando chegou ela ficou encantada. Mas ele nunca cedia. Dizia que ela não sabia tocar, não tinha cavaquinho, não precisava do case. Papai até disse que ia mandar fazer um para ela só para parar de aborrece-lo.- Riram.
__Acha que ela vai gostar das prendas?- Perguntou Alana.- Não tive muito tempo para escolher uma das minhas joia. Não queria que ela desconfiasse de nada. Então procurei uma pulseira que ela sempre elogiava, para ser mais rápido.
__Foi o mesmo que fiz.- Disse Astrid, procurei me lembrar de uma joia que eu tivesse comprado para mim que ela tinha elogiado. Acho que quase todo mundo fez assim, não tínhamos tempo para titubear.
__Eu tinha um brinde. -Disse Sofia.- Vincenzo tinha feito uma bailarina de madeira para Lú, ficou bonita, mas ele fez mais uma para mim. Acho que posso contar, afinal quem mais esculpiria uma bailarina de madeira. Não tem como ela não saber quem fez, e também vai reconhecer o anel que coloquei como tiara da bailarina. Estávamos juntas naquelas férias na Itália nos parentes de Vincenzo quando comprei. Depois ela me disse que se arrependeu de não ter comprado um para ela também.
__A minha prenda ela ainda não viu.- Disse Leninha.- Mas tenho certeza que vai reconhecer as iniciais de Yuri. Todas as minhas peças vem com elas, fazer o que?- Riram.
__A minha prenda também é nova. Mas também acho que ela reconhecerá sem dificuldades. Tem muito a minha cara. Mas acho que ela vai gostar da intenção. Não acha Lú?
__Acho que sim. Ela vai gostar com certeza. Joaquim, talvez fique assustado, provavelmente não tem ideia do que tem no case, mas ela vai ficar emocionada.
__Estão falando de mim?- Perguntou Mari, chegando com Joaquim a tira colo.
__ Sim. – Disse Clara.- Estamos falando que você ficou linda de noiva, mesmo tendo se arrumado em cinco minutos. Não concorda Joaquim?- Ele a olhou apaixonado.
__Sim. Ela é sempre linda. E agora está magnifica.- Mari se derreteu.
__Gente!- Disse Cisco abraçando a cintura de Lú.- Ele disse magnifica? Só conheço gente com mais de 50 anos que usa essa palavra.- Rody riu.
__Deixa de ser encrenqueiro, Cisco. Você, como diria que sua noiva está?- Cisco olhou Lú totalmente apaixonado e disse:
__Gata! Muito, muito gata.- Riram todos.
__Esse não é elogio para uma noiva.- Rody olhou Alana, a alegria tomou conta de seus olhos.- No mínimo deve dizer que ela está maravilhosa.
__ Ok.- Disse Cisco.- Não sou a favor de palavras difíceis, mas sem dúvida, você minha linda bailarina, está …..Parou olhando para ela. O amor vasando por seus poros. -Fabulosa.
__Muito bem!- Disse Ruivo.- Viu Jorge, eu disse que o menino esteve nas aulas de literatura. – E riu.
__Não sei não.- Disse Ben.- Acho que é porque elas são lindas mesmo.
__Vou ter que concordar com você, primo. – Disse Jorge abraçando Alana.
__Vou dizer uma coisa.- Falou Ruivo olhando suas sobrinhas.- Fazemos poucas meninas, mas as que fazemos são muito lindas. Estão com sorte rapazes.- E riu como lhe era próprio. A noite avançou, e era chegada a hora de irem para suas novas vidas, suas novas experiências, sua suíte.