Fórum _ Inclusão

Inclusão. Entende-se que isso signifique incluir alguém num meio comum, criando um ambiente que esse sujeito possa interagir com os demais. No caso dos surdos, medidas positivas foram tomadas, eles poderiam ser matriculados sem constrangimentos em escolas de ensino regular, públicas ou privadas. Caso fosse necessário um intérprete seria convocado. Os alunos de licenciatura das faculdades deveriam aprender a Libras básica, para se comunicar em sala de aula com seus futuros alunos. No mundo ideal, os alunos surdos iriam para escola junto com os ouvintes e todos os professores poderiam se comunicar com eles. Mas infelizmente as coisas não funcionaram tão bem assim. Entrevistei parentes de surdos, e muitos acusaram o descaso, a má vontade e até a pouca aceitação desses alunos em algumas escolas particulares e até públicas. Disseram que era como se a equipe diretiva se sentisse obrigada a aceitar aquele aluno com “problemas”. Como se não bastasse, ainda há a falta de acesso que muitos surdos tem ao aprendizado da Libras antes dos primeiros anos escolares. Assim muitos tem que primeiro ser ensinados pelo intérprete, para depois conseguir acompanhar a aula que ele vai traduzir. Alguns surdos me disseram que estudar junto com ouvintes é muito cansativo, que preferem estudar junto com outros surdos, assim entendem melhor. Em resumo, embora concorde totalmente com a inclusão, percebi que esta precisa ainda ser muito melhorada. O irmão de um surdo sugeriu que a segunda língua ensinada nas escolas do país, devia ser a Libras em vez de Inglês ou Espanhol. Segundo ele seria muito mais relevante. O fato é que a inclusão contribuiu para o surdo ser visto como um indivíduo capaz de viver em sociedade, basta saber se a sociedade é capaz de viver com as diferenças.

 

Nota máxima: 50 / 50
Anúncios

Fórum__ The Lottery

Sinistro! Está é a palavra que descreve o conto The Lottery de Shirley Jackson. Você começa lendo sobre um evento tradicional de um vilarejo, muito comum em outras partes do mundo, que normalmente é associado a boa sorte e fartura. Porém, logo começa aparecer alguns elementos do ritual local, estranhos a loteria como conhecemos. O final surpreendentemente animalesco e nefasto toma o leitor de assalto. A primeira vista condenamos completamente uma comunidade capaz de um desfecho como encontramos no conto, mas se pararmos para refletir muitas vezes agimos exatamente da mesma forma. Obviamente que não temos atitudes homicidas, pelo menos a maioria de nós, mas muitas vezes julgamos e condenamos alguém por coisas banais, por ser diferente, ou pior por nossas tradições preconcebidas. Segundo Esopo,”O hábito torna suportáveis até as coisas assustadoras”. Infelizmente, nem sempre percebemos que uma tradição pode se tornar um ritual de cunho quase religioso, e muitas vezes pode trazer consequências trágicas. Os trotes violentos de universitários estão aí para comprovar. No conto, o alvo de toda ojeriza é escolhido aleatoriamente pela ‘loteria’ anual. O mesmo, já participou anteriormente desta barbárie. Isto faz lembrar que facilmente podemos mudar de agressor para agredido. E choca saber que a própria família se voltou contra a vítima da vez. Já dizia a bíblia, ‘Os inimigos do homem serão pessoas de sua casa’. Mas pelo olhar de Shirley Jackson isso fica assustador. Mais tenebroso ainda é saber que existem Richthofens e Pesseghinis por aí. Lembrando que a vítima chegou atrasada para o evento, talvez fosse melhor não ter comparecido. Realmente, um conto sinistro.

Tradução do Nono Mundo das Escrituras Sagradas- Mateus 10:36 –2013 http://www.pensador.com/habito- Esopo. (620-560 a.C)

 

Nota máxima: 50 / 50

Falcão por opção

Capítulo 21

Para Clara, era um dia muito importante. Depois daquele desespero no estacionamento do Shopping, tudo aconteceu como Clara tinha sonhado. Ocorreram alguns per causos e novidades no caminho, mas nada que não pudesse ser facilmente contornado, ou acolhido. Pietro, o bebê de Ritinha, nasceu antes do tempo, precisou ficar na incubadora, mas cresceu forte e totalmente italiano, como o pai. Os cabelos negros e os olhinhos cor de gelo fazem dele ainda mais parecido com Liv que os próprios filhos dela. É o dengo de Giulliano e de Gigio, mas Lia e Nina o tratam como se fossem seu neto. De avô então o garotinho de sorriso tímido como o pai, tem para escolher. Além do títular, tem Jorge e todos os vovôs Medeiros. No dia que saiu do hospital, ganhou de presente de seu tio favorito Alex, uma pulseira com o nome dele. Daquelas pulseiras especiais que só Alex pudia dar.

O julgamento dos bandidos acabou demorando um pouco, mas foram todos condenados e Lothar e Dirk foram levados para prisões de segurança máxima diferentes. Os testemunhos de Vincenzo e Sofia foram essenciais.  Ben teve muita dificuldade para conseguir os documentos dela, ela tinha nascido na Rússia, vivido com o pai alemão em muitos países fugindo da polícia. Nunca tinha ido a escola, seus registros eram incompletos. Foi preciso tempo para rastrear toda essa história. Yuri ajudou muito, isso aproximou  também Leninha da prima perdida, como ela chamava Sofia. Sofia não queria usar o nome do pai, pediu para que Ben conseguisse que ela usasse apenas o sobrenome de solteira de sua mãe, Bran. Deu bastante trabalho, mas Ben conseguiu, é claro. Quase um ano depois, Ben trouxe a documentação pronta. Ela tinha ficado morando todo o tempo, no apartamento de Beto e Nina. Sofia e Clara ficaram muito amigas, Clara a ajudava a praticar o idioma todas as noites antes de dormirem. Inicialmente, deveriam dormir em quartos separados, mas em menos de uma semana estavam dormindo juntas no  quarto de Clara. Ben fez um contrato provisório, e ela trabalhou na Prestes de Medeiros como faxineira com a maior alegria do mundo. Lia, sempre uma excelente professora  alfabetizou-a, ensinou-lhe português,  aperfeiçoou-lhe os métodos de organização e limpeza. Deu dicas de cozinha e de literatura. Tornou-se o exemplo que Sofia precisava. A menina que nunca tinha ido a escola, aprendeu rápido. Suas habilidades para línguas se mostraram fortes e seu amor por alfabetizar crianças também. Vincenzo tinha razão, ela era mesmo prima de Alex, como sempre dizia. A amizade dos dois se fortalecia a cada dia.  Vincenzo vinha buscar Sofia três vezes por semana. Dizia que era para passear com Apolo que se apaixonou pela menina no primeiro instante. Não demorou muito para que ele percebesse,  que seguindo o exemplo de seu cachorro, também se apaixonara por ela. Eles conversavam muito, primeiro em italiano, depois em português para ela praticar. Quando Sofia lhe mostrou os documentos que Ben havia trazido no começo da manhã, Vincenzo disse:

__Pena que vai ter que trocar loguinho.

__Não entendi, disse trocar? Porque trocar? Estão certos?

__Porque no Brasil, russinha, quando você se casa troca de sobrenome, não sabia?- Ela o olhou depois sorriu.

__Mas eu não tenho noivo, igual a Clara. Não vou me casar.- Vincenzo tirou um anel do bolso. Ouro com um diamante bem lapidado, simples e bonito. Um solitário para ser usado junto com uma aliança em forma de arabescos vazados. Aliança essa que ele já tinha pedido que Vovô Rodolfo desenhasse para ele junto com o anel.

__Se quiser, tem noivo.- Respirou fundo.- Olha, eu não sei dizer coisas tão bonitas como Alex, mas estou apaixonado por você.  Não tenho muito, mas posso te oferecer  um pequeno apartamento, comida bem feita, um cão louco por você, e eu. Não sou rico, nem tenho muita classe, mas podemos casar e morar lá e ser felizes juntos. Eu estou indo bem no Aimê. Sylvie se casou a alguns meses, fiquei cuidando de tudo durante a lua de mel dele. Desde então ele confia bastante em mim. Gosto do trabalho. Chegarei tarde quase todo dia, mas posso ficar com você até mais tarde em casa. Posso te levar para o seu trabalho.  E você vai ter sua própria casa e seu próprio cachorro. O que me diz?

__Eu não conheço sua família.- Baixou os olhos.- Eles podem não gostar quando souberem….- Vincenzo pegou o rosto dela entre as mãos, olhou profundamente em seus olhos negros. Entendeu porque os falcões defendiam suas mulheres tão ferozmente. A dor que sentiu ao vê-la sofrer por sua origem, foi muito maior do que aquela que sentiu ao ser torturado pelos bandidos.

__Minha linda russinha, você me encantou, se foi capaz de ganhar meu coração e o de Apolo, com certeza conseguirá ganhar todos os Ferreti. E mesmo que não fosse assim, eu amo você, isso é suficiente para minha família.- Ela sorriu.

__Você me ama?

__Claro. Não me casaria se não amasse, sou italiano, ou quase.- Riu. Depois respirou fundo e disse: – Sofia, conheço você a quase um ano. Nunca nos beijamos. Eu fiquei esperando para ver se você demonstrava algum interesse. Já sangrei bastante, não queria errar de novo.  Embora fomos ficando cada vez mais amigos, você nunca me deu nenhuma razão para eu tentar nada mais íntimo que um abraço de amigos ou um beijo de irmãos. Mas isso não impediu meu coração de se entregar a você. Não é obrigada a me querer porque somos amigos, ou por que gosta de Apolo. Aprendi que o amor para ser verdadeiro tem que ser espontâneo. Estou apaixonado por você,  mas também quero ser amado.  Se você não for capaz disso, tudo bem, continuamos amigos. O fato é que eu tinha que contar a você sobre o que sinto. Nossa amizade merecia essa sinceridade. Entendo se não estiver interessada.- Sorriu debochado.- Vou precisar de um tempo, mas posso  me refazer.- Ela o olhou rápido.

__O que quer dizer com precisar de um tempo? Não vai mais querer me ver?- Vincenzo pensou em como foi difícil se livrar de sua paixão por Clara, e com Sofia era muito diferente, muito mais profundo, já estava doendo mesmo antes dela responder. Sim precisaria ficar longe dela. Pelo menos até conseguir respirar direito novamente.

__Lógico que vamos continuar nos vendo, Russinha. Nos almoços de família, no restaurante, no orfanato. Só vou precisar de um tempo antes de sairmos sozinhos de novo. Mas você pode pegar Apolo quando quiser.

__Não quero ficar sem te ver.- Vincenzo sentiu um aperto no peito. Nunca pensou que uma frase tão curta, tão sincera, tão doce pudesse ferir tanto. Era fácil de entender, ela sempre tinha sido sozinha, ele era seu amigo, um irmão. Não queria deixar de vê-lo. Ela gostava dele, mas não era o bastante. Pensou que ver Clara com Alex naquela noite na Alemanha tinha sido sua maior dor por amor, mas nada se comparava ao que sentia agora. Entendeu o desespero de Clara, o pavor de Alex ou a agonia de tio Rick, tudo fazia sentido. Foi se levantando devagar, guardando o anel no bolso e dizendo.

__Acho que devemos voltar. Está ficando tarde e…Preciso ir trabalhar. Pego um pouco mais cedo hoje… Sylvie….

__Espere.- Disse segurando o braço dele.- Eu ainda não respondi.- Vincenzo olhou para ela e se arrependeu de ter começado essa conversa. Ela ia destruir seu coração. Segurou com força o encosto do banco, se preparando para a agrura. Disse num fio de voz:

__Ok. Vá em frente. – Ela o encarou por uns segundos. A agonia tomou conta dele.- Sofia, por favor, acabe logo com isso.

__ Eu também gosto de cozinhar. Vai me deixar usar a cozinha?- Vincenzo ficou olhando para ela parecendo não entender a pergunta. –  E eu quero continuar a trabalhar, tudo bem? Não me importo de te esperar até tarde, posso ficar estudando, vou continuar a estudar, tá? Vou gostar de que me leve para o trabalho, mas quero que me conte tudo o que acontecer lá e quero continuar passeando com Apolo assim.  Eu gosto de crianças, você quer ter filhos?- Disse tudo num único fôlego.

__O que?- Vincenzo demorou para entender o que estava acontecendo.

__ Então. Nunca nos beijamos porque você nunca tentou. Eu achei que não queria, que eu era só uma amiga que você ajudou. Uma maneira de se redimir do seu mal comportamento com Alex ajudando a prima dele. Mas sempre desejei que fizesse.- Baixou os olhos sorrindo.  Ele a olhou sem ar.

__Eu sou mesmo um idiota!- Sorriu, tomou o rosto dela entre as mãos desceu o seu.- Minha linda russinha. Posso beijar você?- Não cometeria mais o erro de roubar um beijo sem ter certeza como seria recebido. Ela passou os braços no pescoço dele e beijou-o. Começou carinhoso delicado, como o beijo de uma criança, mas então ela passou a língua nos lábios dele. Vincenzo enlouqueceu. Vinha esperando por isso tanto tempo. Se entregou. Era ela. Sempre fora ela. Seu coração parecia querer quebrar suas costelas outra vez. Quando já tinha esquecido de todo o mundo a sua volta, o alarme do celular tocou. Era Alex. Ele atendeu acariciando o rosto corado de sua linda russinha.- Oi Alex.

__Oi. Desculpe, Vincenzo, mas está tudo bem? É que seu alarme disparou, eu fiquei preocupado. Isso nunca aconteceu antes, então.- Seu amigo estava cuidando dele, como sempre. Sorriu. Seria grato a Alex por toda vida, principalmente agora que descobrira o motivo dele ter entrado em sua vida. Sem Alex, Vincenzo nunca teria conhecido Sofia.

__Tudo ótimo, amigo. Alex, você está em casa? Eu quero falar com você. Posso passar aí daqui a alguns minutos?

__Sim. Pode vir. Vincenzo está tudo bem mesmo? Você está um pouco estranho, não deveria estar passeando no parque com Apolo e Sofia?- Vincenzo riu.

__Não se preocupe. Já explico tudo para você. – Desligou, beijou Sofia outra vez.- Você quer se casar comigo, minha pantera?

__Pantera?- Sorriu entendendo a alusão a suas sardas.- Prefiro gata, é menos agressivo e mais carinhoso. Se quer me dar um apelido carinhoso, prefiro esse. Embora goste quando me chama de russinha.- Sorriu mais.

__Certo, tudo o que quiser meu amor. Você quer se casar comigo, minha gatinha?- Eles riram. – Minha linda russinha, você quer?

__Sim. Eu quero, meu protetor, meu tigre.- Riram outra vez. Ela ficou séria e disse:-Vincenzo, tem uma coisa…. que preciso te contar antes. – Suspirou.- Os bandidos que eram parceiros do meu pai, eles…. Bem, eles abusavam de mim. Meu pai deixava, acho que era parte do acordo deles.

_O que? – Ele se enfureceu.- Espera! Está me dizendo que seu pai deixava aqueles estúpidos tomarem você, a força? Como um pai permitiria isso?

_Eu era só uma mercadoria para ele. Enfim, eu não sou mais …- O olhou triste e com vergonha.- Bem, talvez você não devesse se casar com alguém como eu, você pode encontrar alguém melhor e…-Ele não a deixou terminar, tomou-lhe a mão, colocou o anel no dedo dela beijou-lhe a mão e a boca depois  e disse: _Nada disso faz diferença para mim. Apenas me faz te admirar mais, amar mais. Por favor, me permita mostrar a você com todo cuidado  e toda paixão que você merece, como se faz amor de verdade? Farei você esquecer tudo isso. Juro! – Ela o olhou profundamente. Ia baixando o rosto novamente ele o ergueu com cuidado.- Mas posso esperar até que se sinta segura para isso. Esperei um ano por um beijo.- Sorriram juntos.- Só que agora quero me casar com você o mais rápido possível. Depois do que me contou, preciso ter certeza que estará segura em minha casa todos os dias ou não conseguirei mais respirar.-Ela chorou.-  Ei, minha gatinha russa. Não chore. Não é para isso que disse isso,  estou aqui.- Abraçou-a.

__Eu sei. Você está aqui para me fazer feliz. Tem sido assim desde a primeira vez que falou comigo. Quando me deixou usar sua camiseta preta preferida.- Sorriu para ele.

__Porque acha que aquela camiseta velha é minha preferida?

__Porque sempre dorme com ela. Já vi todas as vezes que a família vai para algum lugar junta.- Vincenzo pensou, sorriu encabulado e disse:

__Vou te contar um segredo. Passei a dormir com ela, depois que você a usou.- Olhou apaixonado para sua noiva ruiva.

__Jura?- Ela parecia surpresa.

__Não sei exatamente em que instante você ganhou meu coração Sofia, mas foi  entre o momento que Alex disse que era filha do Dirk e que o Apolo correu para você. – Riram.

__Mentiroso, eu nem tinha tomado banho ainda.

__Depois do banho eu passei a deseja-la. Foi diferente.- Eles se olharam como nunca tinha acontecido antes.

__No seu país uma garota pode dizer que deseja um homem?- O corpo de Vincenzo pegou fogo.

__Pode. Desde que seja verdade. E ela esteja disposta a casar com ele.

__Então, não seria deselegante eu dizer que desejei você quando te vi a primeira vez, todo ferido, lá no quartinho da Vila Ciro?- Vincenzo a olhou sem fôlego.

__Me quis aquele dia?

__Você era tão lindo, tão diferente deles. Mesmo desacordado parecia tão valente.  Dizia todo o tempo o nome de Alex, era como se quisesse avisa-lo.

__Você me reconheceu no shopping, então? Porque não fugiu?

__Eu fugi. Para você.-  Vincenzo a olho com muita admiração. Sentiu-se um tolo. Ela sempre soube. Sabia que ele poderia ajuda-la desde o primeiro momento, sabia que Alex era o primo dela, e que se ele estava protegendo Alex, poderia defende-la também. Sabia que aquele desconhecido era sua chance de sair daquele mundo. Por isso deixou que ele a visse no cativeiro. Deixou que ele a pegasse no Shopping. Ela sempre confiou nele, antes dele mesmo.  Olhou Apolo e o cachorro pareceu zombar dele. Afinal, Apolo também sabia desde o primeiro segundo que a viu.

__Eu sou mesmo um idiota. Até o Apolo sabia que você era a razão da minha vida.- Beijou-a novamente.- Desculpe demorar tanto a entender. Sou um idiota, precisará ter paciência comigo. Não consigo raciocinar rápido como você e Alex. Eu demoro, mas entendo.- Riram.- Venha meu amor, vamos falar com Alex.

__Porque?-

__Quero pedir sua mão a ele. Ele é seu único parente que tenho acesso. Terá que servir. – Quando chegaram ao prédio de Alex, Vovó Aline estava chegando. Entraram com ela. Quando tocaram a campainha, Alex atendeu com seu característico sorriso tímido. Astuto como sempre, percebeu o rosto corado de Sofia e as mãos unidas dos dois.

__Então, enfim se acertaram? Estão namorando?- Sofia pareceu encabulada. Disse em alemão.

__Ele quis vir pedir minha mão para você. Ele quer se casar comigo.- Alex olhou Vincenzo.

__Casar? Você já quer se casar com ela? Tem certeza? Não é muito rápido?- Ele estava protegendo Sofia. Vincenzo gostou.

__Alex, eu já te disse que estou apaixonado por ela.

__Você disse a ele?- Sofia estava espantada.

__Ele é meu melhor amigo e é muito esperto, Sofia. Descobriu muito mais rápido que eu.- Sorriu.- Alex se parece você.- Olhou Alex.- Eu quero me casar com Sofia. Você é o único parente dela que posso contatar. Então estou aqui para pedir a mão dela em casamento. Já falei com ela. Como você havia sugerido ela também estava interessada. Quero muito faze-la feliz, Alex. Aprendi com você que é só assim que serei feliz também. Você me daria sua aprovação?- Alex olhou Sofia.

__Você quer se casar com ele?

__Quero.- Disse em Alemão.- Ele me diverti. É carinhoso. Cuidadoso comigo. Gosta de animais e de crianças. As vezes é rabugento e desorganizado.- Riram.- Mas eu gosto dele. Me sinto feliz com ele. Você tem alguma objeção?

__Não. Nenhuma.

__E aquela história do beijo que ele deu na Clara?

__Ele te contou isto?- Alex estava um pouco surpreso.

__Sim. Disse que fez você e Clara sofrerem muito. E que sofreu muito também. Se arrependeu muito, se sentiu muito culpado. Disse que você é o irmão que o coração dele escolheu, que se pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente. Mas no fundo ele tem medo que você ainda sofra de alguma forma com as lembranças daquela noite. Ele sofre. Se sente muito mal ainda.

__Ele te disse tudo isso?

__Sobre o que aconteceu sim, ele contou todos os detalhes. Mas como se sente agora, eu vejo nos olhos dele.- Alex sorriu para Sofia.

__Você está mesmo apaixonada.

__Sim.

__Bem então..- Virou-se para Vincenzo e disse em Italiano.- Seja bem vindo a família.- Abraçaram-se todos.- Cuide bem dela, primo.- Sorriram. Casaram-se no jardim da casa do Ruivo dois meses depois. Poucos convidados presentes. Só os país, os tios, um irmão e uma irmã de Vincenzo, os Medeiros, os Vogelmamn, os Fazzanos e Sylvie e a esposa. Dalia oficiou seu primeiro casamento fora do cartório. Alex e Clara, Sylvie e Vanessa foram os padrinhos. A cerimonia foi feita de baixo do caramanchão de primaveras vermelhas e floridas. Ruivo espalhou mesas brancas com toalhas estampadas de flores delicadas, a louça vermelha os copos transparentes bem altos e os vasos de rosas vermelhas na mesa deixando  tudo com ar elegante e clássico, que remetia a Itália. Clara tinha feito uma foto linda do casal em preto e branco, que foi posta na entrada. O cardápio de massas e saladas italianas oferecidas por Sylvie e o Aimê, foi delicioso. O Bolo todo branco, com uma cascata de rosas vermelhas comestíveis que desciam de um lado deixou a mesa de doces de Clara deslumbrante. Assim como o casalzinho de bonecos no topo. Ele com sua russinha segurando o cachorro em uma bolsa, na moto envenenada. Uma graça. O casamento de manhã, teve espaço para cortejo de daminhas, e pajens, todos vestido de branco com cinto vermelho rebordado. As garotas com uma pequena tiara de rosinhas vermelhas, e os garotos com o mesmo arranjo na lapela. Os convidados todos elegantes. As mulheres com vestidos esvoaçantes e coloridos, todas com uma rosa vermelha no cabelo. A mesma rosa na lapela dos homens.  As duas madrinhas de tubinho vermelho, no mesmo modelo, cabelos presos num coque grande, uma rosa vermelha em um dos lados. Vanessa negra de olhos verdes e Clara loira de olhos negros. Lindíssimas! Os homens elegante num tom de cinza médio. Vincenzo estava vestido como italiano, terno cinza escuro, risca de giz, camisa branca, sapato bicolor. Na lapela, uma rosa vermelha. E a noiva veio escoltada por Alex. Um vestido branco, modelo medieval. Um forro branco de cetim, com decote quadrado e com alças finas com corpete justo e saia em A. Por cima uma capa de renda francesa, com mangas com punho godê, que se ajustava ao corpo por três pequenos botões de pérola um pouco abaixo dos seios. Todos os desenhos das flores da renda no contorno foram valorizados, e conforme ela andava, ficava ainda mais elegante. O cabelo vermelho, quase cenoura, num trançado frouxo recoberto de pequenas flores de laranjeiras brancas e umas mini rosas vermelhas espalhadas. Uma maquiagem suave e perfeita que não escondia totalmente suas charmosas sardas. Brincos pequenos em forma de gota, que Marília, mãe de Vincenzo trouxera de presente para ela. O buquê era de meia dúzia de  rosas vermelhas colombianas com cabo comprido. Para Vincenzo, ela era a imagem da Julieta de Shakespeare. Mas ao contrário de Julieta, Sofia viveria de amor. A família tratou todos os detalhes do casamento como se fosse realmente para uma filha, e como já era um costume, Ben escolheu  uma linda música para tocar para ela entrar, justamente o Tema para Julieta. E o carinho só aumentava. A hora da tradicional caixa de prendas chegou.  Dentro, as costumeiras prendas sem nome, a prenda do Vovô e a prenda do Gêmeo. Alex se levantou e disse para Sofia:

__Não somos irmãos gêmeos, mas somos parecidos. Minha mãe preservou minha vida, a sua também,  amigos me aceitaram em sua família, você também, um amor salvou meu coração, você também. Nossas histórias são gêmeas. – Olhou Vincenzo e disse:- Vincenzo, prometo cuidar de você, proteger você, lutar por você, como lutarei por Sofia, minha irmã. Minha família será a sua,  seus filhos serão meus e os meus serão seus, sua felicidade e sua dor serão minhas. Eu juro.-  Entregou a Vincenzo uma pulseira igual a que tinha lhe dado, para que colocasse em Sofia. Vincenzo chorou.

__Eu tenho irmãos que amo muito.- Disse.- Mas você é o irmão que Deus colocou no meu caminho para me fazer melhor. Para que eu pudesse encontrar meu verdadeiro amor. Nunca vou esquecer o que fez por mim. Não sei se consigo ser um falcão como você, mas lutarei bravamente para chegar o mais perto possível. Para honrar sua amizade. Faço minhas as suas palavras, em tudo que precisar de mim, estarei aqui. Juro.-Alex sorriu. Então, Vovô Rodolfo chegou até eles levando um pequeno baú, do tamanho de uma caixa de sapatos com pezinhos e uma tampa arredondada. O fecho em mão francesa tinha uma lingueta que recebia um pequeno cadeado em forma de coração com uma chave também toda brocada. Toda a caixa era em filigrana banhada em prata. Muito linda. Disse a ela:

__Sofia, está é a caixa de prendas dos falcões. Dentro dela vai encontrar pequenos mimos, lembranças da família para você. Encontrará também uma joia do patriarca desta família.- Piscou e sorriu para ela.- E uma de seu gêmeo, é uma tradição. Como está tradição manda, você nunca saberá quem deu o que e não poderá devolver nada. Tudo o que encontrar na caixa é seu. São lembranças desta sua família, do nosso amor para você.- Agora foi Sofia que chorou.- Está caixa de prendas é uma tradição famíliar dos Medeiros, todas as mulheres casadas de nossa família ganharam uma. E como a tradição exige, está peça, o baú, deve ter pertencido a alguém importante para os noivos. – Sofia e Vincenzo se olharam em dúvida. Então, Sofia olhou novamente a caixa, percebeu traços de artesões russos. Alguns desenhos que sua mãe tinha na barra de um vestido. Olhou rapidamente para o Vovô, que sorriu e apontou para a portão do jardim. Entrando por ele estavam Leninha, Yuri e Astrid, que correu para junto deles, linda vestida como as outras daminhas. Leninha sorrindo disse:

__ Ok. Estou um pouco atrasada. Mas foi culpa do tempo em Kiev. -Sorriu.- Porque o espanto, idiota. Achou mesmo que eu ia perdeu seu casamento?  Por nada no mundo ia perder Sofia vestida de Julieta.- E riu. Vincenzo abraçou e beijou sua amiga roqueira sorrindo. E também abraçou Yuri com todo carinho italiano. Yuri olhou Sofia e explicou:

__Querida kleiner Freund. Minha mãe era russa, de São Petesburgo. Quando ela se casou com meu pai, ganhou muitos presentes dos artesões locais. Entre eles encontrei essa caixa de joias. O artesão que  a fez se chamava Sergei Bran. – Sofia arregalou os olhos, depois chorou mais.

__O que foi, amor?- Disse Vincenzo preocupado.- Quem é esse artesão?- Perguntou a ela. Sofia se endireitou enxugando suas lágrimas.

__Meu avô. Pai da minha mãe, ele morreu quando ela tinha 13 anos. Por isso ela usava este mesmo filigrana na saia, era um selo de família. Conde, eu…- Chorou novamente. Vincenzo entendendo o significado daquele gesto, olhou Leninha e Yuri com mais admiração ainda. Eles procuraram um presente realmente importante para Sofia. Uma ligação com sua família. Uma ligação de carinho.

__Vocês são maravilhosos.- Disse emocionado.- Não tenho como agradecer pelo que fizeram. – Acariciou sua noiva linda e chorosa.- Muito obrigado.-  Eles sorriram. E Leninha disse:

__Na verdade tem. Vamos nos casar no próximo verão. Quero que sejam meus padrinhos.

__Eu? Padrinho de um Conde?- Disse Vincenzo espantado. Todos riram.

__Eu ainda não sou conde, Vincenzo. E você e Sofia serão padrinhos de uma futura condessa. Vocês e Clara com o Lerher. Meus padrinhos, serão minha irmã e meu cunhado e aquele italiano e a esposa ali.- Apontou Giu.- Meu melhor amigo, que quero muito abraçar se não se importa. Sendo assim, preciso terminar meu texto. -Riram de novo.- Ok. Sofia, está caixa que pertenceu a minha mãe, ficou guardada junto com outras coisas que ela prezava muito. Coisas que a faziam lembrar de sua terra, de seu povo, de sua família. Quando nossos amigos disseram que estavam procurando uma caixa de joias para as prendas dos falcões, eu soube imediatamente que ela deveria ser sua. Mesmo antes de saber que tinha sido seu avô que a havia feito. Quando encontrei os registros dela e vi o nome dele, entendi que essa peça deveria ter sido sempre sua. No fundo, vai encontrar as Letras S e B são as iniciais dele, mas também são as suas.-  Olhou Vincenzo- Ou eram.- Sorriu.- Dentro da caixa de prata vai encontrar uma Matrioska, não é um presente meu, é do meu condado. Para lembra-la que sempre será bem vinda lá, você e seu sorridente marido.- Olhou Vincenzo que se lembrou do exato momento em que Yuri o expulsou de lá. Um calor encheu seu peito, se sentiu leve e feliz. Sorriu para seu novo amigo quase conde.

__Obrigado, Yuri. Pela confiança e principalmente pelo carinho com minha esposa. Será um imenso prazer testemunhar seu casamento com essa minha amiga valiosíssima.- Olhou Leninha.- E você…. Obrigado.- Olhou em volta.- A todos vocês.- Sofia que até então só chorava emocionada, recebeu a caixa das mãos do Vovô, se voltou para a família e disse:

__Já sofri muito, por muito tempo, achei que nunca seria feliz. Um dia quando pensei que nunca conseguiria escapar do mundo que estava, um lindo rapaz todo ferido repetiu um nome que eu já havia escutado muitas vezes. Ele estava desacordado e repetia sem parar aquele nome. Por alguma razão que não sei explicar, entendi que aquele rapaz, salvaria minha vida. Me daria a vida que eu achei que só existiam nas histórias dos livros. Mesmo depois que ele se foi, eu tinha certeza que era ele que me levaria de volta para casa, para a minha família.- Olhou para todos com os olhos cheios de lágrimas.- Quando eu o reencontrei, encontrei também o dono do nome que significava minha esperança.- Olhou Alex.- Como eu tinha imaginado, meu primo protetor era a família que eu tinha procurado. Além disso, ainda encontrei uma irmã.- Olhou Clara emocionada.- E ainda toda uma família com mães maravilhosas, tios queridos, avôs bondosos e pais carinhosos.- Soluçou. Fazendo todos chorar. – Sem contar nessas lindas e alegres crianças.- Sorriram para ela. Quando pensei que já tinha mais do que merecia, meu melhor amigo, aquele que confiou em mim apesar de ter razões para não confiar, me deu seu cachorro, seu lar, sua família, seu nome. Me deu seu coração.- Sorriu para Vincenzo.- Eu não precisava de mais nada. Então, me chegam vocês.- Olhou Yuri.- Amigos improváveis de alguém como eu, e contrariando toda lógica, trazem para mim uma relíquia de família. Da sua família. – Olhou os convidados.- Desta família.- Olhou a caixa que seu avô havia feito.- Da minha família.- Sorriu.- Quero agradecer a todos vocês. Todos de algum modo me mostraram seu carinho, sua proteção, sua dedicação. Todos me deram sua amizade sincera, sem levar em conta as maldades que sofreram dos homens com os quais convivi. Vocês sempre serão a minha família.- Olhou Alex. Sorriu.- Agradecer você, meu jovem e sábio primo. Seu nome sempre foi minha fonte de esperança. Me dava força para acreditar que se podia existir um gênio doce e gentil que tinha o meu sangue, eu também poderia me salvar.- Os olhos de Alex marejaram.- Eu estava certa, olha o que a família que você me deu fez para mim. Me deu raízes.- Ela suspirou, respirou fundo e se voltou para seu marido. Sorriu tímida, parecia Alex.- E agradecer você.- Ele a olhou um pouco confuso. Sempre tinha achado que ele era que devia agradecer. Sofia era organizada, diligente, econômica, sabia cuidar da casa, do cachorro, das finanças, tinha aptidão para línguas e sabia cozinhar. Era gentil, carinhosa, as crianças a amavam e era linda, linda, linda. Antes que pudesse dizer qualquer coisa Sofia disse:- O que seria de mim se você não tivesse aberto esses lindos olhos e me visto naquele quartinho na Vila Ciro? E se não acreditasse na minha inocência? Talvez até conseguisse me libertar, mas quanto tempo isso ia levar? Mesmo que nunca viesse a me amar,  minha vida sempre lhe pertenceria. Você me trouxe a luz.- Ele a abraçou.

__Ah, meu amor. Não mereço isso tudo. Não mereço você.- Olhou Alex com Clara nos braços. Sentiu-se exatamente como Alex havia lhe dito que se sentia tempos atrás. Voltou-se para ela e disse;- Tomando emprestado as palavras de um amigo. Eu não mereço você, mas farei qualquer coisa pela sua felicidade, porque te amo e não suporto te ver sofrer. – Olhou seus amigos, seus parentes, sua família .- Concordo contigo.- Sorriu para todos.- Vocês são maravilhosos. São a melhor família que eu e minha linda esposa poderíamos desejar. Estamos muito gratos por tudo que preparam com tanto carinho  para nós.- Sorriu para sua amada. – Agora é nossa vez. Espero que gostem.- Deixou a caixinha de Sofia em cima da mesa de presentes e caminhou segurando a mão dela para trás da casa, voltou de lá empurrando um carrinho de servir cheio  de suculentas plantadas em xícaras elegantes com pires. Tinham um bilhetinho com os nomes as datas e um lembrete: ” Eu preciso de pouca água e muito amor.” As crianças amaram, tia Lia e o Ruivo então, nem se fala. Para Clara, Vanessa, sua mãe e Nina um terrário com vinte mudas das mesmas plantas de tipos e cores diferentes, de muito bom gosto.

__Quando estávamos escolhendo o que  dar para amigos tão maravilhosos, minha linda esposa, achou que vocês que cultivam plantas com o mesmo carinho que as amizades, gostariam destas lembrancinhas. Concordei, afinal Alex já me ensinou que é sempre melhor concordar com as mulheres inteligentes.- Todos riram.-  Mas sempre fui e sempre serei um motoqueiro, então ela doce como é, me permitiu escolher um outro mimo para vocês. – Sofia distribuiu para todos miniaturas  perfeitas de motos feitas de madeira. Para Beto, com quem Sofia morou até o casamento, Sylvie, seu amigo e patrão, Alex e seu pai, Vincenzo entregou uma peça um pouco maior de uma moto antiga com farol redondo, muito bem feito. Filipo, pai de Vincenzo chorou quando pegou seu presente.

__Ah, bambino. Pensei que nunca mais veria você fazer isso.- Vincenzo abraçou o pai dizendo.

__Não chore, papa. Foi por uma boa causa, não acha. E não me machuquei.

_Foi você que fez , Vincenzo?- Perguntou Vovô Rodolfo admirando os detalhes. Vincenzo sorriu, olhou seu pai e disse:

__Meu papa e meu nonô sempre foram excelentes marceneiros. Faziam brinquedos de madeiras para nós. Eu e meus irmãos gostavamos muito. Durante muito tempo eu também fazia, mas meu gosto pela cozinha, que herdei de minha mama falou mais alto.- Sorriu.- De vez em quando ainda fazia alguma coisa, mas um dia me cortei e achei melhor não trabalhar mais com ferramentas tão afiadas para não me atrapalhar na cozinha. Mas gosto de fazer, acho que se tomar cuidado vale a pena fazer alguns para ocasiões especiais. O senhor gostou?

`__É linda. Você é um artista.- Disse Vovô.

__Não é tão valiosa como seus presentes, mas foi feita com muito carinho para vocês.

__Está enganado.- Disse Yuri.- Não é um brinquedo, é uma obra de arte. Você é um excelente artesão. Como o avô de sua esposa.

__Não é brinquedo?- Disse Cisco chateado.- Então não vou poder brincar com ela?- Todos riram novamente. A alegria pairava sobre todos eles. Tudo foi muito lindo. Os noivos tinham poucos convidados, mas a festa foi ótima, a mesa de presentes, estava lotada de pacotes, mas esses pelo menos estavam identificados. Vovô Rodolfo deu de presente ao casal, uma viagem para o Caribe de 10 dias como Lua de Mel. Eles quase não acreditaram. Outra grande surpresa foi um presente que todos os convidados se juntaram para dar a eles. O carro que Rick usou para buscar Sofia, era um Nissan vinho, disseram que Vincenzo não poderia continuar carregando Sofia de moto para sempre.  Ficaram pasmos, e ainda nem tinham visto as prendas dentro da caixinha. Antes de anoitecer começou a chover. Parecia que tudo ia acabar, mas pelo contrário, todos começaram a dançar na chuva, foi bem lindo. Clara e Gigio fizeram fotos lindas para o álbum do casal. Sofia aprendeu bem o português, bem mesmo, se tornou perita nele. Fez um teste de proficiência, colou um grau após outro e começou a fazer a faculdade de letras. Vincenzo se tornou um chefe conhecido e reconhecido ao lado de Sylvie. A vida do jovem casal continuou cheia de surpresas. Um tempo depois  do casamento aconteceu algo louco.  Foi quando deixaram numa caixa de papelão, um bebezinho negro recém nascido na  porta dos fundos do Aimê. Talvez quem deixou pensou na Vanessa como provável mãe para o pequeno, mas Sofia tinha ido levar um documento para Vincenzo assinar e encontrou o bebê perto da lixeira grande. Se apaixonou imediatamente por Marco, como chamou-o desde o primeiro instante, segundo ela o  nome italiano de seu amigo na Russia.  Vincenzo viu que ela não conseguiria se separar do garotinho. Ele também ficou emocionado com o bebê. Passaram a visita-lo todo dia no abrigo para onde foi levado pela justiça. O processo tinha tudo para ser complicado, mas o casal ganhou uma ajuda de uma equipe muito eficiente, advogado, juíza, assistente social, coordenador de orfanato, pedagogos, enfim. Pouco mais de quatro meses e Marco já tinha seu bercinho feito de madeira pelo próprio Vincenzo instalado do lado da cama do casal, com Apolo de olho nele o tempo todo. Foi então que outra novidade apareceu. Sofia estava grávida. Precisariam enfrentar uma boa batalha. Mas estavam imensamente felizes e fariam isso juntos. E tiveram seus amigos para ajuda-los. Ben conseguiu um bom preço no loft.  Giu e Gigio, um bom apartamento de três quartos em um dos edifícios que estavam terminando de construir perto do do terreno de Clara. Todas as mudanças que queriam, puderam ser feitas ainda na planta. Vincenzo vendeu sua amada moto e o carro que ganharam ao se casar.  Nem pensou em vender as joias de Sofia, disse que eram um símbolo do amor desta família, não iria se desfazer delas. Só em último caso. Pagou o apartamento á vista, negociando um desconto com a Encorporadora. Desconto esse que seria usado para compra de móveis e tudo o que faltava para montar seu novo lar. Seria, porque os italianos capricharam na decoração do quarto dos meninos, disseram que era um presente para os amiguinhos de Pietro. Ruivo, fez o jardim, na varanda, maravilhoso como sempre. Nina fez questão de presentear o casal com um novo jogo de quarto. Jorge com uma sala maravilhosa colorida, com direito a uma televisão maior que a que Vincenzo tinha antes. A cozinha de Vincenzo, ficou por conta dos Vogelmamn, que disseram não ter gastado nada porque todos os utensílios Vincenzo tinha, só mandaram Gigio planejar os espaços.  Alex cuidou de toda a segurança do novo apartamento, como já era de se imaginar.  O casal não teve como recusar, estes eram seus amigos, sua família. Vincenzo pensou em usar o dinheirinho que economizou na compra do apartamento para comprar um carro mais velho e simples, mas que coubesse sua nova família. Faria isso logo depois da mudança. Todos os amigos vieram ajudar na mudança, afinal Sofia já estava de 8 meses, e Marco que tinha 11 meses agora, já começava a andar desengonçado por todo lado. Numa única manhã, tudo estava no lugar, com direito a casinha de Apolo montada,  almocinho do chefe Sylvie, guloseimas na geladeira, crianças escutando tia Lia ler e tudo mais. Na tarde seguinte, quando Vincenzo desceu para ir trabalhar, foi avisado por seu novo porteiro Senhor Sérgio, que umas coisas tinham sido entregues para ele, e foram colocadas na garagem dele. Vincenzo pensou que fossem coisas do antigo apartamento, achou mesmo incrível que tinham conseguido colocar tudo o que tinham antes e tudo o que ganharam no novo apartamento. Quando chegou a garagem, o carro de Liv, o de Ben  e uma Titan prata antiga, mas muito conservada estavam estacionados. Ben saiu de seu carro e explicou.

__Oi amigo. Então, comprei um novo carro para Liv semana passada, ele chegou faz três dias. Ela está eufórica, mas não tenho onde guardar o antigo, resolvi levar  para vender num estacionamento, quando ela me viu manobrando a moto, para tirar o carro, me disse para traze-la para você. É antiga, mas quase não foi usada. Tem que fazer algumas manutenções porque não anda a muito tempo, mas está em boas condições. Liv disse que você poderia usa-la para ir trabalhar. Ela tem razão, eu nunca uso, e moto precisa andar, né?  Não é tão bonita quanto a sua antiga, mas pode ser útil. Depois você pode troca-la. Gostaria de ficar com ela?

__Sim, gostaria muito, vai ser muito útil.- Sorriu.- Quanto quer?

__Você não entendeu.  Ninguém usa essa moto, Liv não quer que ela fique mais lá em casa parada. Eu não quero mais a moto, ela é sua. E o carro de Liv também.- Ele arregalou os olhos.-  Se quiser, é  claro. É um bom carro.  Principalmente se Sofia for aprender a dirigir. Liv ficou com as cadeirinhas das meninas, mas eu já coloquei umas azuis para Marco e o bebê.

__Você colocou cadeirinhas?

__Sim, eu encontrei daquelas que você vai tirando os módulos quando eles vão crescendo. Liv, disse são melhores, dá para aproveitar mais.- Vincenzo o olhou.

__Ok, Doutor, quanto quer pelo carro e pela moto. Estou interessado nos dois. A moto é simples, mas não preciso de nada além disso para ir trabalhar. E o carro é o ideal para minha família.

__São usados, Vincenzo. Não quero que pense, que estou te dando essas coisas porque não prestam. Estão muito bons, podem servir muito bem ainda. Mas eu nunca tenho tempo para andar de moto, e Liv ia precisar de um carro maior.- Sorriu.- Está grávida de novo.- Sorriu mais.

__Verdade! Puxa que legal!

__Também acho. Parece que Sasha não será o ultimo falcãozinho do ano. – Sorriu orgulhoso.- Vincenzo, fique com o carro e com a moto. É um presente. Eu e Liv, achamos muito bonito você vender sua moto e seu carro para conseguir um lugar melhor para seus filhos. Todos os falcões acharam. Cada um contribuiu como pode para ajuda-los. Eu já ia mesmo trocar o carro dela, e depois veio a gravidez,  e admito, tinha até esquecido da moto. Por favor, aceite, é de coração.

__Eu não posso aceitar. Sei que querem me ajudar, mas não é justo. Já me ajudaria bastante se você parcelasse para mim. Pode ser assim?

__Feito. Qual valor  de parcela seria confortável para você pagar?- Vincenzo achou que ele aceitou muito rápido, devia estar armando alguma, mas precisava dos veículos. E o carro de Liv era muito bom e estava muito bonito. A moto prata também parecia nova, na verdade, parecia que nunca tinha sido usada. Ficou até com dó. Combinaram 20 parcelas fixas. No dia seguinte Ben trouxe os documentos atualizados. As parcelas seriam depositadas em uma conta que Vincenzo julgou ser pessoal. Realmente, era pessoal no nome de Marco e de Alexander, ou Sasha o bebê de Vincenzo que ganhou o nome russo de seu antigo rival e agora melhor amigo Alex. Mas Vincenzo só descobriria isso, quando Marco chegasse a idade de ir para faculdade e seus rendimentos e os do seu irmão na bolsa de valores, devidamente cuidados pelo seu advogado ruivo.

Quando Sasha nasceu, Clara e Alex foram visita-los. Foi Clara que colocou no pequeno bebê rosado sua pulseira com o rastreador, colocou também uma no pulso gorduchinho do sorridente Marco, encantado com o irmãozinho. Apolo era o mais feliz de todos, não sabia qual bebê cuidar primeiro. Diante da cena feliz dessa jovem família, Alex quase ficou com inveja. Vincenzo já estava casado e tinha dois filhos, Yuri também já estava casado e Leninha era uma condessa Chefe muito feliz. Ainda faltava muito para sua formatura chegar. Olhou sua linda loira sorridente com o bebê no colo, esperaria por ela toda a vida.

A construção do restaurante de Clara demorou mais de um ano para ficar totalmente pronta, mas valeu a pena, ficou lindo! Como tinha sonhado, não melhor. Muitas janelas, muitas flores, muitas fotos. O ambiente mais a cara de Clara no mundo. Desde o estacionamento até a cozinha tudo da escolha dela. Giu não tinha aceitado a diferença entre o valor do terreno e o apartamento de Alex. Disse que era um presente de casamento antecipado. Os projetos foram presente de Gigio.  Não poderia ter ficado melhor. Mais bonito que o restaurante de Clara, só o amplo apartamento em cima. Quarto quartos, sala espaçosa, escritório para Alex, cozinha e churrasqueira para Clara, uma área de serviço funcional, um jardim de inverno de cinema. Todos os cômodos foram decorados. Cada ambiente de uma cor. Clara queria alegria em seu apartamento. Só o escritório de Alex que era todo branco. Ele preferia para encontrar suas coisas mais rapidamente. Tudo acabou bem mais aconchegante que ele imaginava, e as flores sempre presentes em todas as janelas e sacadas. A vista do mar era deslumbrante. Quando tudo finalmente ficou pronto Faltava um mês para a formatura dos dois. Clara se ocupou então em contratar seu pessoal e provar seus vestidos. O de formatura, dourado puxado para o bronze, com saia ampla de voile, corpete de renda italiana, com decote ombro a ombro e mangas cumpridas, muito elegante.  E o branquíssimo de noiva, feito de cetim semi fosco, sem nenhum bordado nem brocado, liso. Uma saia ampla com efeito de pregas mais comprida atrás, um corpete ajustado com decote em V com alças largas. Só.  Foi este que ela escolheu e pediu que Nina fizesse para ela. Nina chorou diante do pedido da filha. Ela podia ter o vestido que quisesse, do estilista que quisesse, mas queria um vestido simples, que sua mãe fizesse para ela. Nina se superou, o corte ficou elegantíssimo. E Clara parecia uma rainha. O cabelo loiro fora marcado com os cachos grandes  e presos um pouco da frente, fazendo uma pequena onda que abrigava uma Tiara de brilhantes que vovô Rodolfo desenhou para ela. Brincos pequenos e uma pulseira que combinavam com seu lindo anel de noivado, que encontrou dentro de sua caixa de prendas foram seus ornamentos. O casamento seria no dia depois da formatura. Todos os preparativos estavam prontos. Clara fazia questão de se casar no seu restaurante. Toda a decoração para a ocasião foi minuciosamente pensada e escolhida por ela.  Luzes, flores, fotos, músicas, seu bolo branco com flores brancas e fitas de coco. O casalzinho sentado no banco da casa do Ruivo trocando um beijinho, no topo do bolo fez o maior sucesso. Tudo muito simples e sofisticado.  As toalhas brancas com brocados gelo, louças brancas e copos em forma de lírios.  Arranjos florais de mosquitinho brancos. Todas  as daminhas e os pajens vestidos de branco. Os vestidos das meninas eram bufantes com brilhinhos nas imensas saias de tule, um cinto de uma fita com arabescos prateados e uma singela tiara de strass.  Os ternos dos meninos não tinham nem uma coisinha colorida. Só os olhos dos garotos sorridentes e as gravatas borboletas do mesmo tecido do cinto das meninas. Todas as crianças da família estavam ali. Não escolheu padrinhos, disse que todos os seus parentes e amigos seriam testemunhas de seu casamento.  Quando Beto entrou com ela pela porta da frente do Medeiros, o seu restaurante, ás 7:00 em ponto como o combinado, Clara não sabia se ria ou se chorava ao ver todos os seus parentes vestidos com  a mesma cor fazendo um cordão humano com buques de mosquitinhos e rosas brancas nas mãos. Todos vestidos de branco a sua cor favorita. Os homens com ternos completos e gravatas borboletas iguais aos pequeninos. As mulheres com longos tipo sereia de renda francesa com um forro da cor da pele. Todas de coque e com uma pequena presilha de strass no cabelo. Alex a esperava emocionado, ele  e Beto eram os únicos que não estavam de branco. Os dois vestiam chumbo, mas o colete e as gravatas eram brancas, como Clara havia escolhido. E a rosa na lapela era branca, como o lindo buque de rosas brancas com cabo comprido que Clara empunhava. Foi lindo. Um momento maravilhoso, ver Alex fazer seus votos corajosamente na frente de todos, Clara o amou ainda mais. Foi o dia mais lindo da vida de Clara, pelo menos até meses depois quando descobriu que estava grávida de gêmeos. Depois quando seus gêmeos nasceram, bivitelinos, um loirinho de olhos negros e o outro de cabelos negros e olhos azuis, como seu pai e seu tio.  Foi tudo muito louco, porque Diana também teve gêmeos em seguida.  Quando estava se acostumando a sua rotina maluca de mãe de dois, Chefe de cozinha e esposa apaixonada, se viu grávida de novo. Achou que precisaria parar de trabalhar. Mas como era de se esperar, os falcões vieram para ajuda-los, e um dos mais jovens falcões, Rody, passou a ser seu braço direito no restaurante. Todos os seus meninos são lindos e saudáveis, Luiz Roberto, o loirinho, Luiz Ricardo de olhos azuis e Luca, a cópia fiel de Alex. Inclusive no gosto por robótica e eletrônica. Os três estão sempre juntos. Dormem no mesmo quarto, fazem questão. Nunca brigam, nem parecem de verdade. Alex diz que um esconde a arte do outro. Deve ser verdade. Mas seria um dia muito importante, era a primeira vez que eles iriam para a escola sozinhos.

__Alex, será que não é melhor esperar mais algum tempo?- Clara estava preocupada.

__Não amor.- Alex sorriu.- Os gêmeos tem sete anos e Luca já tem seis. Todos os primos e os tios vão para a escola  sozinhos. Lembra quando você reclamava que os falcões não deixavam você ir para a escola sozinha?

__É, mais eu tinha 17 anos.- Alex riu.

__Clara, a van vai pega-los aqui. A Prestes de Medeiros  é quinze quadras daqui. Pode ir correndo até lá se quiser. Mas sabe que Ruivo continua la, todo protetor como sempre. Sofia é a professora dos gêmeos, e sua avó de  Luca. Pietro, Calebe, Marco e Sasha estão no mesmo corredor, meus irmãos, na mesma sala dos gêmeos, Caio e Anelise na sala ao lado de Luca. Sem contar nos primos maiores. Todos estudam lá faz tempo.  E nunca tiram as pulseiras. A segurança da escola é exemplar. Além disso, todos os falcões continuam rondando a escola todo tempo. Fique tranquila. – Ela suspirou e viu seus meninos chegarem na cozinha rindo para tomar café da manhã.

__Mamãe, é hoje que vamos de van, né?- Disse Luiz Roberto o Lube, como os irmãos o chamavam.

__Sim querido.

__A senhora vai ficar triste se não levar a gente, mamãe?- Esse era Luiz Ricardo, Luck.

__Não, meu amor.- Ele franziu a testa, era muito esperto.- Ok, talvez um pouco, mas vou aprender. Vocês vão cuidar um do outro, né?

__Claro, mamãe. -Disse Luca o protetor, beijando seu rosto.- Não se preocupe, vamos ficar juntos, não vamos atravessara rua, vamos obedecer a tia Célia da van e contar tudo quando voltarmos. Prometo.- Clara olhou seus meninos.

__Eu sei, vocês são filhos maravilhosos. E vão ter um dia de aula ótimo. Aqui está o lanche delicioso que mamãe fez para vocês.- Eles sorriram. E se foram. Depois que entraram na van, ela acenou sorrindo até que contornaram a rua:

__Pronto. – Disse Alex.- Já pode chorar agora.- Clara olhou seu marido, seu amor. Ele a conhecia, a amava, estava ali ao seu lado como prometera. Chorou nos braços dele, feliz por ele ter escolhido ser o seu falcão.

__Me sinto uma idiota chorando porque eles não precisam de mim para leva-los para a escola.- Olhou para Alex encabulada.

__Não é nada disso. É uma mãe linda, que cuida de seus meninos com muito amor e carinho. Não esperava nada menos de você, minha linda loira.- Tocou os cabelos dela.- Pode me dizer como pode estar mais linda agora, do que no dia que te conheci? Como posso ter mais vontade de te beijar agora, do que tive naquele dia?

__Teve vontade de me beijar naquele dia?

__Muita vontade.- Sorriu.

__E porque não fez?

__Porque não te conhecia. Não sabia se eu interessava você. E também eu tinha prometido a mãe não me envolver com ninguém, você sabe.- Clara o olhou sedutora:

__Mas me beijou na escola no primeiro dia.

__Não pude evitar. A emoção que senti ao ouvi-la me defender com tanta força me entorpeceu. O problema foi manter minha promessa depois.- Sorriu.- Sonhava com aquele beijo, com aquele sabor toda noite.

__Verdade? Demorou tanto para me beijar de novo. Pensei que não queria mais fazer isso. Achei que não tinha gostado.

__Eu fiquei louco. Era só um garoto. Não sabia como controlar tanto desejo. Não podia te perder, mas não podia ficar com você. E você não era só a garota mais linda que eu conhecia, era também a mais inteligente, a mais doce, a mais alegre. Eu queria te beijar todo o tempo. Fui ficando cada vez mais apaixonado. Então Liv foi sequestrada e você me chamou para ajudar você. Fiquei muito contente de ver você confiar em mim. Vi o amor que sua família demonstrava uns pelos outros. Entendi você. – Ele acariciou o rosto dela.- Você era o fruto daquela família cheia de amor. Foi aí que meu dilema aumentou. Eu nunca seria digno de alguém como você, mas meu amor ficava cada dia mais forte. O Ruivo entendeu minha situação, tentou me ajudar, dizia para acreditar no meu valor e no seu amor, mas era difícil para mim. Acho que só entendi que nunca conseguiríamos ser felizes separados no dia que Vincenzo te beijou. Nunca senti tanto medo na vida, nem no dia da bomba no shopping. Ter você gelada, tremendo, com o coração batendo tão fraco no meu colo me desesperou de um jeito que nem sei explicar. Jurei no meu coração nunca mais deixar de beijar você.

__ Mesmo? Então,  porque não me beija agora?- Clara beijou o queixo dele.- Então?

__Seu desejo é uma ordem, minha linda esposa.– Um beijo longo, depois outro e outro.

__Alex, você treinava atirar facas?- Ele surpreso com a pergunta.

__O que? Por que?

__Desde de aquele dia no shopping, eu fiquei pensando nisso. Eu nunca vi você treinar, e você acertou exatamente onde queria.- Ele sorriu.

__Não. Eu não treino. Não preciso. Quando descobri quem era o meu genitor, fiquei muito chateado. Nem olhava para facas. Então um dia peguei uma faca de cozinha da tia Deise para descascar uma laranja. Laila era pequena e veio correndo para a cozinha e escorregou caindo no chão. Eu fui acudi-la e meu primeiro reflexo foi atirar a faca na pia, longe das meninas. Morávamos juntos numa casa térrea nesta época. A pia estava a uns 5 metros. Eu acertei sem nem olhar direito. Depois disso, eu fiz outros testes. Mais distâncias, facas mais leves, mais pesadas. Descobri que conseguia colocar a faca onde queria. Mesmo um alvo a vários metros. Quando estava sozinho, as vezes treinava, depois percebi que na verdade, precisa apenas me concentrar. Nunca gostei disso, mas sou tão bom atirador de facas, como sou bom em montar coisas. Dois talentos que herdei dos meus parentes bandidos.

__Ei! Não era para ficar triste. Perguntei, porque estava pensando em comprar uns dardos para os meninos brincarem. O que você acha? Pensei em colocar na casa da árvore deles.

__Podemos perguntar o que acham?- Olhou Clara com todo amor de sempre.- Já que está tão animada em alegrar seus meninos hoje, poderia me fazer um favor?

__Claro, amor! O que quer?- Ele sorriu.

__Mousse de Chocolate!- Riram.

__Novidade.-

__Certo, então quero outra coisa, um pouco mais difícil e meio chata para você.- Disse sério.

__O que, meu amor?- Disse disposta a qualquer coisa.

__ Beijar você. A manhã toda, depois a noite toda, a vida toda.

Falcão por opção

eCapítulo 20

__Muito bem, senhor Vincenzo.- Dizia o Dr Tales.- O senhor está de alta, mas nada de movimentos bruscos e nem carregar peso. Faça compressas frias pelo menos uma vez por dia. A receita com os analgésicos e os antibióticos está aqui. Qualquer dúvida, pode me ligar. -Antes de sair o médico disse.- Gostei do novo visual.- E saiu rindo. Deise ficou com Vincenzo no quarto.

__Então? Quem virá busca-lo?- Vincenzo não tinha pensado nisso. Lembrou também que sua geladeira estava vazia. Estava indo ao mercado quando os bandidos o pegaram.

__Eu não posso pegar um táxi? Meus parentes estão longe, eu moro sozinho.

__Você não pode sair sozinho do hospital. E se passar mal no caminho?
__Eu levo ele, tia Deise.- Deise e Vincenzo olharam a porta. E lá estava o menino tímido sorrindo para sua tia. Deise correu para ele como uma garotinha.

__Você veio, meu amor.- Beijou e abraçou Alex toda contente.- Fiquei furiosa com minha escala, não pude buscar você com os outros. Dalia foi?- Perguntou zombeteira. Alex riu.

__Não pode ir no aeroporto, mas almoçou conosco no jardim lá de casa. Chegou um pouco atrasada, mas foi.- Acariciou sua tia.- Está linda, tia.

__Ah! Meu  querido. Que saudade. Já viu todo mundo?

__Sim. – Olhou Vincenzo.- Quer dizer, quase. Vim visitar Vincenzo, mas não consigo encontra-lo. Sabe onde foi parar toda aquela cabeleira?

__HA!HA!HA!- Disse Vincenzo.- Tão engraçadinho esse garoto.- Alex caminhou para ele. Sentou-se na cadeira ao lado da cama.

__Então, como se sente?- Vincenzo suspirou.

__Estou vivo.- Olhou Alex um pouco sem jeito.- Escute Alex….- Deise o cortou.

__Olhe rapazes. Sei que tem muito para conversar. Mas precisam liberar o quarto primeiro. Alex, ajude Vincenzo a se vestir e leve-o para casa. A receita está com ele, vai ter que passar na farmácia. Tem dois medicamentos que só encontrará lá. Está de carro, ou quer que chame um táxi?

__Estou com o carro da mamãe.

__Certo. Ele não pode fazer movimentos bruscos e nem carregar peso. Seu apartamento tem elevador?

__Sim.

-__Ok.- Beijou Alex.- Desculpe amorzinho, tenho que ir trabalhar.- Promete que vai em casa?- Alex se levantou, tirou do bolso uma caixinha.

___Prometo, se prometer colocar o pingente que trouxe para você na sua gargantilha e não tirar nunca. Mesmo que não gostar. Promete?- Deise tirou o pingente da caixinha. Lindo com uma pedra verde água como os olhos do sobrinho.

__Coloque para a titia, coloque!- Disse rápido tirando sua correntinha para fora do jaleco branco. Alex fez o que ela mandou.- Aposto que também deu algo assim para as outras, não foi? Que coisa mais bonita. Obrigada, fofo! Você tem tanto bom gosto. Cunha não sabe escolher joias femininas. Ai não posso conversar mais. Prometi que não vou tirar, você vá em casa, ouviu?- Saiu apressada. Alex olhou Vincenzo e ambos riram.

__Me desculpe, mas as mulheres de sua família são todas mandonas e meio loucas.- Riram mais.

__Eu sei. Mas aprendi que é melhor obedece-las. Onde estão suas roupas?- Vincenzo se lembrou que suas roupas estavam rasgadas e sujas de sangue quando chegou.

__Eu não sei. – Alex abriu um armário e encontrou três sacolas de papel reciclado. Em uma delas, uma camisa de manga comprida amarela quase creme com umas bolinhas minúsculas marrom e uma calça jeans azul. Na outra cueca, meias, e uma sacola pequena, dentro pente de cabelo, escova de dentes, pasta de dente, sabonete, xampu, tudo de banho. Na terceira sacola, um par de sapatênis marrom e cinza. Alex trouxe tudo  para ele e também uma toalha de banho do hospital.

__- Você consegue se virar sozinho, ou quer que ajude.- Vincenzo olhou para ele por um instante sem acreditar no que ouvira.

__Como essas coisas apareceram aqui? Não são minhas?

__Com certeza é coisa da Tia Lia. Ela nunca esquece nenhum detalhe.- Sorriu.- E então, precisa de ajuda?- Vincenzo entrou no banheiro, tomou um banho demorado, um pouco atrapalhado, mas conseguiu se secar e  vestir a boxe preta e a calça, menos a camisa, que precisava erguer os braços e seu abdomêm doía muito. Saiu com a camisa na mão. Alex desligava o telefone.

__Então, tudo bem?

__Sim. Mas não pude colocar a camisa.- Alex veio ajuda-lo e reparou nos grandes hematomas.

__- Está doendo muito?

__Só nas costelas. O médico disse para fazer compressas uma vez por dia e passou alguns remédios. Disse que está melhorando rápido. Ainda bem que não perfurou nenhum órgão._ Suspirou._Alex, desculpe. Eu não sabia que ele estava fugindo. Ele me disse que queria fazer as pazes com você.  Eu achei estranho, mas não podia imaginar que eram assim tão violentos.

__Eu sei. Eles são assustadores.

__Alex, eu não acredito que aquele louco pode ser seu pai. Você não tem nada dele. Você é exatamente o oposto. A única coisa que vocês dois tem em comum, é um ruivo na família.- Alex riu.

__Vincenzo. Não se preocupe. Sei que não tinha a intenção de ajudar aquele mostro. Você está todo quebrado como prova disso. Ele não presta.- Ele terminou de colocar os sapatos, que tinham velcro em vez de cardaços. Tia Lia pensava em tudo mesmo.- Bem, qual é seu endereço mesmo?

__Rua José de Abreu  1255,  Edifício Magenta. Apartamento 305 no 4º andar. Olha, eu posso pegar um táxi.

__Não ouviu tia Deise? Não pode ir sozinho.- Saíram do quarto. Vincenzo ainda andava devagar. Enquanto assinava os papéis de saída, viu que Alex fez outras ligações. Alex ajudou Vincenzo a entrar no Creta de sua mãe. Guiou com calma e habilmente para o Edifício Magenta. Quando estavam chegando Vincenzo disse:.

__Acabo de me lembrar que estou sem as chaves de casa e sem o controle do portão.- Alex sorriu.

__Imaginei.- Vincenzo viu incrédulo o portão da garagem se abrir e Alex encostar na vaga certa. Depois, viu Alex abrir o porta-malas e tirar várias sacolas de dentro. Subiram pelo elevador da garagem. A surpresa de Vincenzo foi ainda maior, ao ver que Alex tinha uma chave mestra que abriu facilmente seu apartamento. Apolo, seu cachorro correu para ele.

__Olá amigo.- Se abaixou com dificuldade e roçou as orelhas dele.- Deve estar com fome, né?

__Deixa que eu cuido disso.- Disse Alex. – É melhor se sentar um pouco. – Alex olhou o apartamento pequeno. Um loft sem paredes de divisão. Os móveis eram escuros, uma cama, um armário de roupas, uma escrivania, uma mesa com 4 cadeiras, um sofá de três lugares bem em frente a uma TV gigante, e uma cozinha bem montada tomando uma parede inteira do lado esquerdo. Só a lavanderia e o que Alex imaginou ser o banheiro estavam separados. Deixou as sacolas na pequena mesa. Escolheu uma entre elas, tirou um saco de ração médio de dentro e caminhou para a lavanderia. Estava um pouco bagunçado, mas limpo. Parece que o cachorro fora bem treinado, não por Vincenzo é claro. O apartamento estava todo bagunçado, roupas para todo lado, sapatos, parecia que um tornado tinha passado dentro do espaço. Só a cozinha e seus utensílios estavam limpos, mas nem todos no lugar. Alex voltou para a sala no momento que tocava o interfone. Atendeu e falou com o porteiro. Depois disse.

__Fique aqui, vou descer um instante, mas já volto.- Vincenzo, estava com dor, nem se mexeu no sofá. Adormeceu. Teve a impressão de só fechar os olhos. Acordou com Alex chamando por ele. Estava com sua bandeja de rodinhas, que usava para servir os aperitivos para os amigos. Nela, uma sopa de abóbora, um pratinho de queijos e outro de pão, uma salada de frutas e um suco de laranja.

__Você cozinhou para mim?- Disse Vincenzo.- Eu nem tinha todas essas coisas aí?- Alex riu.

__Não sei fazer sopa de abóbora. Foi Clara que mandou. Mandou também algumas outras que estão nos potes dentro da geladeira. Ela me disse para deixar só duas em baixo para você esquentar no microondas, e as outras estão no freezer. Tem também umas sobremesas, umas frutas e umas saladas, que ela e as outras já deixaram prontas. Segundo tia Deise, é melhor você comer essas coisas por enquanto. Depois que terminar, pode tomar estes três comprimidos, um é o anti-inflamatório, o outro o antibiótico e o amarelo é analgésico. Não pode tomar de estômago vazio. Eu trouxe leite e suco. Não sabia sua preferência então trouxe os que eu gosto.- Sorriu. – O chaveiro já veio, fez uma chave nova para o apartamento e uma para a moto. Tio Beto já mandou sua moto, pelo que parece ficou igual antes, mas não vai poder usa-la por algum tempo. Já configurei um controle novo para a garagem ele também vai destrancar a trava da porta que eu coloquei. Mandei dar banho no cachorro. O porteiro disse que é lugar que você sempre leva, eles vieram busca-lo e  voltaram faz uns 10 minutos, ele gostou, está dormindo agora.- Vincenzo olhou seu loft. Tudo no lugar, nenhuma meia sequer, nenhum garfo, nenhum grão de nada fora do lugar. Tudo limpo e cheiroso. Inclusive seu Border colie. Sua cama feita e o varal na lavanderia cheio de roupas estendidas. Tinha até umas flores pequenininhas brancas em cima da mesa. E um vaso de orquídea azul na mesinha ao lado da porta.- Tia Lia mandou as flores. São mosquitinhos. Ela disse que ajudam na recuperação. Ela mandou trazer também a orquídea azul que Sylvie mandou no hospital. – Vincenzo olhou de volta para Alex:

__Quanto tempo eu dormi?

__Quase duas horas.- Disse olhando o relógio.

__E você fez tudo isso em menos de 2 horas? Limpou minha casa, lavou minha roupa, alimentou meu cachorro, deu banho nele, mandou fazer novas chaves para mim, buscou os remédios na farmácia, abasteceu minha geladeira e esquentou comida para mim. Esqueci algo?- Alex sorriu tímido.

__Bem, chamei o chaveiro do seu condomínio, o pessoal do pet shop disse que o banho do Apolo já estava agendado, liguei para a farmácia no hospital, eles vieram entregar. Clara, Tia Lia e as outras mandaram a comida pronta. Eu passei no mercado antes de chegar no hospital. Tio Xande disse que você logo receberia alta. Minha intenção era vir ao seu apartamento antes de te trazer. Eu me lembro de como deixava o banheiro.- Riram.- Achei que seria bom dar uma arrumada em tudo, você não poderia fazer isso por enquanto. Minha tia enfermeira, sempre me ensinou que para sarar o doente precisa estar num lugar limpo e organizado. Achei  também que não iria ter muita coisa na sua geladeira, você esteve fora.- Riu.- Mas eu ia pedir para você primeiro.

__Claro que ia, não é? Alex, porque você é assim, tão bonzinho  com todo mundo? Tão legal comigo? Pensei que me odiasse. Eu tentei roubar sua namorada.

__Noiva!- Disse.- Ela agora é minha noiva.- Olhou Vincenzo.- Eu amo Clara. Mais que minha vida. Não consigo respirar sem ela. Mas se ela quisesse você, eu deixaria ela ir. A felicidade dela é mais importante para mim.  Mas ela não quer você. Vincenzo, Clara me ama. De verdade. Eu já sei disso a muito tempo disso.  Só que se te dissesse você não acreditaria. Então deixei você agir como achou melhor. Foi doloroso, admito. Mas nunca tive dúvida da reação dela as suas investidas. Conheço a força do caráter dela e do que ela sente por mim.  Quem ficaria com um cara que tem um pai bandido e violento como o meu se não fosse desesperadamente apaixonada? Aquele monstro cortou o pescoço dela na minha frente, Vincenzo. Eu nunca tinha sentido um desespero tão grande. Naquele momento, entregaria ela para qualquer um que a quisesse, se isso significasse que ela nunca mais fosse correr esse tipo de risco outra vez. Sou louco por ela. A segurança dela vale toda a minha dor.

__Só que ela não quer deixar você, certo?- Disse ele.- Era isso que queria que eu visse. Clara nunca vai deixar você. Por nada, nem por ninguém.

__Sei que doe não ser correspondido…

__Sabe?- O cortou.- Como? Pelo que soube, ela sempre quis você? E não fiquei sabendo de outras namoradas.

__Vi o Ruivo sofrer por minha mãe, escutei todas as histórias dos falcões, sei  o que uma dor por amor pode causar. Não tive minhas próprias experiências. Deus me deu Clara.- Sorriu.- O que quero dizer é que sei que sofreu e não fico feliz com isso. Também acho que ela merecia alguém melhor que eu, mas não posso desistir de Clara, Vincenzo. Eu não suporto vê-la sofrer. – Aquela frase foi forte. Atingiu o coração de Vincenzo. Clara tinha razão. Alex era mesmo um homem de verdade, e amava aquela mulher acima de tudo.- Ficamos noivos hoje. Ela quer terminar a faculdade primeiro, antes de nos casarmos.

__Mas você estará aqui quando ela quiser se casar. Não importa quando vai ser, certo?

__Certo.- Disse firme.- Eu não quero nenhum mal a você, Vincenzo. Fiquei muito triste de saber o que aqueles bandidos fizeram contigo. Mas preciso que entenda, não vou mais deixar você magoar Clara como fez aquela noite. Podemos ser até amigos se quiser, mas não quero você perto dela outra vez. Você me entende?- Vincenzo entendeu. Ele deixou Vincenzo fazer o que queria antes, mas isso não se repetiria mais.

__Não se preocupe. Já entendi. Vocês se amam, eu estou sobrando.- Suspirou. Olhou em volta outra vez.- Mudando de assunto.  Quanto você quer para vir faxinar meu loft uma vez na semana?- Riram.

__Você precisa aprender a ser mais organizado. Como vai cuidar de sua cantina se não tira nem a sujeira do cachorro? Ainda bem que Apolo é bem educado.

__Cara, tem toda razão. Preciso aprender com você. Pode me fazer uma lista de como organizar as coisas?- Disse começando a comer a sopa.-  Gente que delícia! Essa Clara é de mais mesmo.-Olhou Alex.- Você nunca vai passar fome. Como ela consegue esse sabor com uma simples abóbora.

__Nunca diga isso a ela! Isso não é uma simples abóbora. E um caldo de flor de abóbora madura. Como Chefe, devia saber.- Riram. Depois de comer e tomar seus remédios, Vincenzo resolveu tomar outro banho, para dormir. Quando saiu vestindo um pijama e trazendo suas roupas e sua toalha, viu Alex guardando as roupas que estavam na lavanderia. Nunca suas gavetas estiveram tão arrumadas. O telefone tocou, era Dona Marília, a mãe de Vincenzo. Enquanto conversavam, viu Alex lavar e estender mais aquelas peças. Depois que se despediu de sua mãe sem contar exatamente o que lhe tinha acontecido. Disse apenas que caíra de moto, mas que já estava tudo bem, que seus pais não precisavam interromper a viagem e nem chamar suas irmãs para cuidar dele.  Mandou uma foto do apartamento arrumado, do cachorro bem cuidado, da geladeira cheia e de seu rosto sorridente. Quando sua mãe  quis saber porque tinha cortado o cabelo. Ele disse que era para ajudar as crianças do hospital do câncer. Ela acreditou, afinal era mesmo verdade. Quando desligou o aparelho, notou uns arranhões atrás e um risco  na tela. Lembrou-se que não estava com ele no hospital. Alex foi se despedir.

__Vincenzo, precisa tomar os mesmos remédios de manhã e a noite. Não se esqueça. Programei seu celular para avisa-lo. Se sentir dor, pode tomar o analgésico de 6 em 6 horas. O médico deixou o telefone dele para qualquer dúvida. Pode ligar também para tia Deise ou Tio Xande. Registrei os números para você.

__Onde estava meu celular?- Perguntou Vincenzo.

__Foi encontrado perto  da moto. Não estava funcionando direito, com a queda deve ter desconfigurado e alguns….- Parou de falar e olhou Vincenzo que parecia confuso.- Bem eu consertei.

__Você consertou meu celular?

__Sim. Não precisei de nenhuma peça nova, só dei um jeitinho. A tela está com um risco, mas está funcionando bem. Depois você pode troca-la se quiser.- Disse com a mesma calma de sempre.-  Estou indo embora agora, mas antes quero te lembrar que não deve abrir a porta para estranhos, nem se disserem que vieram entregar alguma coisa em nome dos Medeiros ou de Sylvie. Lothar ainda não foi pego. Eu coloquei uma câmera na entrada da garagem, outra no corredor em frente a sua porta. Elas vão transmitir para seu notebook.- Mostrou na tela para ele.- Estão bem escondidas, não terá problema com o sindico. Se alguém tocar sua campainha sem ser anunciado, olhe na câmera e se achar qualquer coisa esquisita, ligue nesse número.- Apontou a tela.- É do Tio Cunha. Ele tem uma equipe preparada que fica alocada perto daqui.- Tirou uma caixinha do bolso.-  Você usa pulseiras?

__O que?

__Eu e meus tios usamos. Ben, tio Rick e Vovô Rodolfo não gostam muito, mas também estão usando uma igual a essa. Ela tem um rastreador, vai localizar você onde estiver no planeta. O sinal será transmitido para mim. Poderei te encontrar, se for preciso, mas tem que usar todo tempo. É de aço cirúrgico, não tem perigo de contaminar nada, e também você pode regular para não te atrapalhar cozinhar. O fecho é a prova de quedas. Mas repito, para que eu possa encontra-lo precisa usa-la todo o tempo. Ok?- Vincenzo ficou olhando Alex com a pulseira na mão. Aquele cara era de verdade?

__Esse é seu invento? O que estava negociando na Alemanha? Você criou um rastreador?

__Sim. Ele tem algumas vantagem sobre os que existem no mercado. Por isso negociei ele muito bem. Mas não se preocupe, este era um dos meus. Está numerado. Não terá problemas com a companhia que comprou.

__Alex, vai me dar isso? Quer que use um dos seus dispositivos?

__Vincenzo, é para sua proteção. Se esse maluco aparecer, eu saberei, poderei te ajudar. Não sei se ele virá atrás de você outra vez. Mas pode ser que venha. Ele não vai desistir enquanto não me pegar.  Por favor, use a pulseira. Depois que prenderem Lothar, você resolve se quer usa-la ou não, mas por enquanto, faça esse sacrifício.

__Sacrifício? Alex, você acabou de chegar de viagem. Em vez de estar com sua família, com sua noiva, está comigo, cuidando de mim, me protegendo, um cara que foi um traíra contigo. Ainda me deu um negócio seu , muito caro. Nem tenho dinheiro para pagar um rastreador desses. Aliás, nem sei onde anda a minha carteira, deve estar com o Lothar, eu acho.

__Ben já mandou cancelar seus cartões, e entrou com um recurso para pedir estorno de tudo o que foi  pago com eles nos dias em que esteve com Lothar. Já fez o boletim de ocorrência com o testemunho do Tio Xande e do Tio Cunha. Deu entrada em documentos novos. Vai levar alguns dias para ficar pronto, essas coisas demoram um pouco. Mas ele virá falar contigo.

__Como ele conseguiu fazer tudo isso?

__Ben é muito eficiente. Ele é mesmo muito bom no que faz.

__Igual a você, né? É por isso que Lothar quer você. Porque você é um gênio da eletrônica. Com você ele poderia entrar em qualquer lugar. Ele não quer matar você, como eu pensei, ele quer te usar.- Alex olhou o tapete cinza no chão encabulado.

__Quando minhas tias estavam na Alemanha, foram com meus tios no consulado verificar nossos parentes pelo sobrenome. Descobriram que o avô do Lothar era um engenheiro mecânico que trabalhou para a KGB. O pai dele foi membro da Piramida a máfia russa, depois foi da Bratva. Os máfiosos não gostam de traidores nem dos que migram para outra facção. Ele foi caçado. Fugiu para a Alemanha. Teve os filhos lá. Morreu numa explosão num laboratório clandestino. Estavam fazendo armamentos. Dois dos filhos eram muito bons em montar coisas, como eu, e os outros dois são os que você conheceu. Não entendem muito de máquinas, mas são bandidos conhecidos e atiradores de facas temidos em vários países.  Dirk, o mais novo estava foragido há muitos anos. E Lothar esteve várias vezes preso no Brasil. Eles conheciam meu avô Gerard Vogelmamn, o pai de minha mãe. Ele também trabalhava no tal laboratório, mas mudou de ramo, começou a trabalhar com drogas.  Veio para o Brasil antes do laboratório ir pelos ares.  Pelo visto, eles ficaram muito tempo sem se encontrarem. Lothar nem sabia da relação dele com minha mãe. Meu avô era mesmo alemão, mas toda a família que tinha foi morta numa emboscada, durante uma disputa de drogas. Pelo que minhas tias apuraram, eles não eram pessoas ruins, mas pagaram pelo erro do filho. Gerard vendeu tudo o que tinham pegou todo dinheiro que conseguiu e foi montar seu negócio no Brasil, no morro do Alemão. Eu nunca fui visita-lo na prisão. Mas ele sabia da minha existência. Nunca demonstrou nenhum interesse. Lothar apesar de ter tentado me pegar no hospital quando eu nasci, só fez isso para se vingar da minha mãe, ele também não tinha nenhum interesse no filho da negrinha. Até descobrir que eu ….-Parou um segundo. E Vincenzo completou.

__Que você é um gênio da eletrônica, como o pai e os irmãos dele. – Vincenzo ficou com pena de Alex. Seu dom, era também sua fonte de tristeza. Aqueles bandidos o queriam por causa da habilidade dele. Como se ele fosse uma ferramenta, não uma pessoa.

__Tanto meu avô como o Lothar achavam que tinham direito sobre a herança genética que me deram. Meu avô morreu faz alguns anos. E o monstro veio atrás de mim na escola. Foi quando feriu Clara e foi preso.

__E os outros, os que eram como você?

__Um morreu na explosão com o pai, o outro perdeu as mãos. Devia ser preso quando saísse do hospital, mas fugiu. Parece que continuou no crime, ele assaltava bancos. Morreu em um tiroteio com a polícia faz uns 10 anos. Disseram que ele estava usando próteses inteligentes que ele mesmo tinha feito. Muito mais avançadas que todas as que estão no mercado até hoje.

__Acha que é isso que Lothar quer fazer agora, assaltar bancos?- Olhou Alex, depois a tela do note que mostrava as imagens das câmeras.- Bem, não se pode negar, ele é esperto.  Com você no time dele realmente facilitaria as coisas.- Riu.- Eu vou usar a pulseira. Se desconfiar de qualquer coisa, aviso seu tio. Obrigado por tudo que fez por mim. Não vou esquecer. Não sei ser tão bom amigo como você, seus parentes e os Medeiros, mas eu vou aprender. E vou aprender a cuidar do meu apartamento também. Obrigado, mesmo! – Alex sorriu.-

__Tente dormir o máximo que conseguir, precisa descansar. E não se esqueça das compressas. Tem uma bolsa de gelo no freezer, e uma na sua mesinha. Foi Tia Lia que mandou. -Sorriu. Ia saindo quando Vincenzo chamou.

__Alex. Eu juro, não vai ser fácil, mas a partir de hoje, Clara será como uma das  minhas irmãs para mim. Eu prometo a você.- Alex balançou a cabeça compassivo.

__Ok, eu acredito em você.- Sorriu.- Se tiver algum problema com a camisa.- Eles riram.- Pode ligar para mim. Virei te ver. Até mais, Vincenzo. Se cuida.- Assim que ele saiu, Vincenzo o viu passar pelo corredor e tomar o elevador pela câmera. Depois o viu entrar no carro na garagem. Apolo subiu na cama com ele.

__Eu sei garoto.- Disse para o cachorro.- Também ficou agradecido por ele cuidar de você, né? Viu como ele deixou o apartamento? Sempre ouvi dizer que os gênios são desorganizados, mas ele é diferente. Ele é mesmo um bom amigo. Vamos agradece-lo, não é? E aprender com ele. Tenho que tirar Clara  da cabeça de qualquer jeito, Apolo. Eles se amam. E ele não merece que eu os magoe de novo. Sabe amigo, eu estou muito cansado. Vou dormir, tá? Quer ficar aqui? Certo.- Adormeceu e Apolo também.

Alex chegou no apartamento de Beto as 8:30. Clara estava no jardim, sentada no balanço admirando seu anel. Ele chegou devagar.

__Você é  linda.- Ela sorriu apaixonada. Esperou que ele chegasse perto dela para beija-la.

__Como está Vincenzo?

__Ferido, mas alimentado limpinho e dormindo. Está também arrependido de ter falado com Lothar, de ter chateado você, de deixar a casa bagunçada.- Sorriu.- Mas por outro lado, parece estar curtindo o cabelo novo. Agradeceu sua sopa, disse que você é de mais. Mal podia acreditar quando tirei as roupas da sacola que tia Lia tinha comprado para ele. – Riu.- O queixo dele quase caiu quando me viu entrando na garagem dele sem o controle.- Balançou a cabeça.- Fez uma cara de espanto quando viu o apartamento limpo e a imagem das câmeras de segurança que coloquei, que foram hilárias.- Clara riu.

__Ele não faz ideia do que você é capaz de fazer. Só o que viu foi você ensinar as crianças a fazer um aviãozinho. – Ela acariciou o rosto dele.- Estava com tanta saudade de você. De te ver assim de pertinho.- Beijou-o, um beijo longo, doce.- Disse de novo a ele para não me tocar nunca mais se não eu vou quebrar o braço dele e você vai quebrar a cara dele?

__Ahã.- Disse Alex continuando o beijo.

__E que agora sou sua noiva, e que vamos casar assim que acabar a faculdade?

__Também.- Virou ela de posição fazendo-a se sentar em seu colo no balanço. E o beijo se seguiu.

__Disse que sabe que eu jamais me afastaria de você.- Alex encostou a testa na dela.

__Disse, amor. Disse que se ele quiser podemos ser amigos, mas eu não vou deixar ele magoar você outra vez.- Acariciou o rosto dela.- Deus, como consegui ficar tanto tempo sem te tocar?

__Eu tentei não chorar todas as noites no colo do papai, mas muitas vezes eu não consegui ser muito forte.- Ele  pegou o queixo dela.

__Eu também chorava.- Clara abriu um pouco os olhos negros.- Não te disse antes para que não ficasse mais triste ainda, mas quando a sua imagem ia sumindo da tela, eu queria jogar o note na parede.  Eu ia ter que esperar até a noite de novo e não poderia nem te tocar. Doía de mais. Mas acabou. Nunca mais vou para longe de você.

__E se precisar viajar por causa dos negócios? Papai e vovô viajam. Ben também.

__Ou você vai comigo, eu quem quiser que venha onde nós estivermos.

__E se eu precisar viajar?

__Vou com você.- Simples assim.- Nunca mais vou passar um dia inteiro sem te ver, sem te tocar. Eu  preciso de você, amo você, Clara. Já fiz meu sacrifício por nosso futuro, nunca mais me afasto de você, amor. – O beijo agora foi ainda mais intenso.

__São tão lindos juntos, não acha Beto?- Disse Nina nos braços do marido, olhando pela janela. Beto sorriu.

__Sim, minha ruiva. Não poderia estar mais feliz. Minha linda menininha encontrou um amor tão forte como o nosso. Esse garoto vale o peso em diamantes.

__Essa joia que ele distribuiu a todos, não é só um presentinho, né?

__Não. Ele colocou um rastreador nelas, ele pode nos encontrar se alguma coisa ruim acontecer. Todos nós, Nina. Inclusive o Vincenzo. Era assim que ele sempre sabia onde Clara estava, ela já usava um desde que ele foi para a Alemanha. Estava no anel que ele deu a ela. E Diana também tinha um na gargantilha que ela sempre usa. Ele foi para longe, mas deixou as duas protegidas. Não é maravilhoso? Esse é o homem que vai casar com nossa filha. Nunca descuida de quem ama.

__Ele é um doce. É isso que ele estava negociando?

__Sim. Deve ter feito uma boa grana. Nem me ofereci para ajuda-lo a administrar. Ruivo deve estar orientando o menino muito bem. Acho que Ben também. Seja como for, ele pediu para dizer que nunca tire o pingente de perto do seu corpo. Se quiser pode trocar de gargantilha, por na pulseira, mas nunca deixe de usar. Eu imploro que faça isso, minha linda. Quando vi o Vincenzo todo machucado com aqueles caras, me bateu um pavor de que eles pegassem uma de vocês, ou os meninos, Deus eu…

__Eu vou usar, Grandão. Juro. É lindo, e mesmo que não fosse, eu usaria agora que sei para que serve. Ele colocou na pulseira que deu a vocês também, né? Tem que fazer Ben usar a dele todo dia, ele não gosta de pulseira, e Rick também.

__Eles vão usar. Minha linda ruiva encrenqueira. Não poderia sobreviver sem você, sabe disso não é?

__É bom mesmo. Vou falar com Lia, ela vai conseguir fazer vocês não tirarem essas pulseira nunca mais. E tem os pequenos, ele deu uma  para eles também, né? Será que tem como regular para eles não perderem?- Beto beijou sua linda ruiva. Sempre amou essa mulher, e sabia que sua filha também tinha um homem que a amaria para sempre também.

Passaram-se 8 dias. Vincenzo já estava bem melhor. Já conseguia cozinhar para si. Procurou seguir a ordem de arrumação que Alex lhe mandou. Percebeu que  meia hora era suficiente para deixar tudo em ordem e ainda por sua roupa para lavar. Descobriu que não sabia tomar banho direito. Ou quase isso. Alex lhe mandou o passo a passo de tudo que fazia desde que entrava no banho. Vincenzo chegou a conclusão que na verdade, era muito mais fácil do que imaginava. Até Apolo sabia deixar seu espaço na lavanderia mais arrumado que ele. Isso definitivamente precisava mudar. As flores que tia Lia mandou começaram a murchar. Ben já tinha vindo vê-lo, trouxe seus novos cartões, o novo talão e as segundas vias dos documentos. Eficiência devia mesmo ser o segundo nome dele. Contou como estava a  situação dele quanto ao ataque de Lothar. Disse que ele ainda estava foragido. Mas nem tudo era notícia ruim, Ben trouxe também o certificado de conclusão de curso da Menu. Vincenzo não pode comparecer a formatura, mas os Chefes mandaram toda a documentação de direito dele. E Sylvie mandou o contrato de admissão para Vincenzo ler e ver se concordava com os termos.

__Ele vai me contratar? Mas eu nem posso trabalhar ainda, parece que tenho que esperar mais uma semana, e depois ficarei meio sem poder fazer força? Porque ele faria isso?- Ben ficou em silêncio.- Vocês pediram a ele.

__Liv pediu. Clara tinha dito que você cozinha muito bem.  Sylvie comprovou isso nos dias antes dessa loucura acontecer. Ele vai se casar logo. Liv disse a ele que seria necessário ter um sub-chefe para substitui-lo quando isso acontecer. Seria melhor que fosse alguém que ele mesmo tivesse treinado. Para que os pratos saíssem igual na ausência dele. Liv disse a ele que você não poderá fazer movimentos bruscos e nem carregar peso por um tempo, mas pode observar e anotar tudo o que ele faz. Depois vocês poderiam inverter, você cozinha e ele anota tudo para ver se você aprendeu. Disse  que seria uma boa saída para ele contratar você.

__E Sylvie concordou? Assim?

__Na mesma hora.- Riu.- Vincenzo, Sylvie conhece Liv a muito tempo, foi apaixonado por ela. Ele sabe que Liv é tão inteligente quanto Tia Lia, a mãe dela, ela tem a mesma memória. A única diferença, além da cor dos olhos, é que Liv é mais reservada. Não se expõe, mas quem a conhece, sabe que elas são parecidas. Nunca deixamos de ouvi-las. Elas tem uma visão muito apurada para resolver situações de crise.

__Como falcões.- Sorriu.

__Sim, como falcões. Enfim, o contrato é bom. Está de acordo com o mercado. Tem benefícios interessantes também. Sylvie é um bom empregador, mas é exigente. E quando ele precisar de você, terá que atende-lo.- Disse Ben.- A decisão é sua, claro, mas não vi nada errado legalmente.

__Você analisou o contrato?

__Ué? É isso que faço, sabe? Sou advogado, analiso contratos, faço investimentos, defendo você judicialmente. Você me nomeou. Lembra?

__Pensei que fosse apenas para o caso com o tal Lothar.

__Bem, se você tem outro advogado, não tem problema. Posso mandar o contrato para ele ver, é só me mandar o contato dele. Ou me diga quem é eu procuro para você.- Vincenzo ficou bobo. Essa família não existia de verdade, não era possível.

__Certo, procure aí, Benjamim Medeiros, já viu falar? Nos tribunais o chamam de ‘o guerreiro ruivo’.- Ben o olhou com seus olhos de esmeralda e sorriu.

__Vejo que conhece minha fama.

__Chefe Vitor me falou dela. Me aconselhou a não desafiar você no seu campo de batalhas.- Sorriu.- Aonde assino, doutor?- Depois dessa visita Vincenzo já podia comprar novas flores para sua mesa, frutas para geladeira e ração para o Apolo. Ligou no pet shop, explicou que estava acidentado, perguntou se podiam mandar a ração do Apolo. Fez o mesmo no seu mercado preferido, mandou a lista por whatsapp como a atendente lhe ensinou. Fez uma transferência online para cada estabelecimento. Ligou na floricultura perto de casa. Mandou flores iguais as que Tia Lia tinha dado para ele, para a casa de Lia, de Liv, de Alice, das tias de Alex, de Ritinha, de dona Elisa e dona Aline. Para casa de Clara e Nina, mandou que entregassem dois ramalhetes e na casa de Diana, um de mosquitinhos e outro de rosas brancas. Lembrou que Clara havia mencionado algo sobre essas serem as flores preferidas de Alex. Foram essas que pediu que lhe fossem entregues em seu apartamento e que fossem levadas para Sylvie no Aime. Todos tinham único cartão que dizia.

__”Muito obrigado, por tudo.”

Suas compras foram entregue na portaria. O porteiro avisou. E Vincenzo explicou que não podia descer por causa dos ferimentos. O porteiro entregou em sua casa muito curioso para ver os machucados. O homem disse que não estava sabendo. Ficou compadecido. Disse que se precisasse de ajuda era só chamar pelo interfone.

__Na verdade, S. Jurandir, eu estou precisando de uma ajudinha sim. Apolo está sem passear desde que eu me acidentei. Será que o senhor, ou senhor Elias, podiam levar ele para dar uma volta? Eu pago um cafezinho, mas preciso que coloquem ele no elevador de volta para mim.

__Imagine Seo Vincenzo! Pode me dar a guia dele. Eu levo ele na minha ronda. Ele vai andar pelo condomínio e me fazer companhia. Só não posso leva-lo, na terça e na sexta. São meus dias de folga. Mas eu vou falar com meu folguista.

__Não precisa. Se o senhor puder levar ele já é o suficiente, só até eu melhorar um pouco mais e poder caminhar pelo condomínio.- Assim foi.Tinha acabado de guardar a coisas e colocado suas rosas branca num vaso que nunca tinha usado antes das flores anteriores, quando seu alarme de mensagens começou a apitar. Primeiro, Alice, depois Deise, então Ritinha,  Aline, Elisa, Dalia, Liv, Lia, Nina, Clara, Diana e por último Sylvie e Alex. Todas mensagens singelas de agradecimento pelas lindas e delicadas flores. Sylvie, chegou a dizer que colocaria suas rosas brancas na entrada do Aime para saldar todos os clientes. E Alex disse que colocou as suas em seu quarto ao lado do computador. Na verdade mandou uma imagem dele perto do vaso com as flores. Vincenzo se sentiu muito bem. Não fazia ideia de como aquilo seria libertador. Então mandou um e-mail para Leninha e Yuri.

“Querida amiga.

Desculpe não ter escutado seus conselhos. Você estava certa todo tempo. Eu fui um idiota. Não podia ter feito o que fiz com você. Não queria magoa-la, mas não soube lidar com a rejeição que estava sofrendo e feri você. Perdoe-me. Estou muito feliz por você e Yuri. Ele é um cavalheiro. Algo que eu jamais conseguirei ser. Você merece o melhor. Obrigado por tentar me ajudar, mesmo eu não conseguindo entender isso. Estou torcendo por você minha amiga. Seja muito feliz, sempre.

 

Seu amigo para toda vida”.

Vincenzo

 

P.S. Diga ao alemão que se ele for idiota como eu e magoar você, boto pimenta no suco dele na primeira oportunidade.

P.S. # Estou morrendo de saudade da sua moqueca de palmito. Ninguém no mundo faz igual.

Quinze minutos depois recebeu a resposta.

 

“Amigo Idiota

Não se preocupe. Quem vive de passado é museu. Ou essa gente desse Castelo aqui. Nem te conto as coisas que descubro a cada vez que venho passar uns dias. Ainda bem que tem Yuri para compensar. Imagino que você já está melhor, se até está com vontade de comer minha moqueca. Infelizmente, não poderei ir ao Brasil tão cedo. Mas quando eu for, está marcado, moqueca para todos. Fica com Deus, amigo idiota. Sempre que quiser contar as suas idiotices, pode me chamar. Também estou torcendo por você.

 

De sua amiga, quase Tia Lia”

Leninha.

 

P.S. Se Yuri aprontar alguma, eu mesmo ponho a pimenta.

P.S.# Yuri disse para você não se preocupar, ele gosta de pimenta, mas gosta muito mais de mim. Não é fofo?! KKKKK

Vincenzo se sentiu ainda melhor e riu até suas costelas doerem. Quando Apolo voltou, quase estava mais feliz que o cachorro.

Tia Lia estava preocupada. Já se passara mais de  um mês que Alex tinha chego. Vincenzo já estava trabalhando com Sylvie, as crianças já estavam no final das férias,  Ritinha já estava perto de dar a luz, Clara e Alex já estavam para começar as aulas na faculdade, e Lothar ainda não tinha sido pego. Os Medeiros e os Vogelmamn já tinha usado toda sua influência, mas não tinham conseguido encontrar o canalha.  Giulliano e Gigio estavam morando com Giu, pelo menos até Pietro nascer. Os dois guardavam Ritinha como lobos. Dalia mantinha um vigia  no Edifício. Todas as escolas, o orfanato, as empresas, as casas eram monitoradas por Alex. Ninguém tirava seus rastreadores em nenhum momento. A polícia cogitou a possibilidade de Lothar ter saído do país, mas Alex sabia que ele viria atrás dele. E pior, ao que tudo indicava, Lia também achava isso. Ela andava muito preocupada e fazia questão de ligar para Alex todas as manhã e todas as noites para saber tudo o que acontecia com ele. Ela estava esperando por algo. Então, numa tarde Alex  viu o rastreador de Clara enlouquecer, ao mesmo tempo o de Vovó Aline e Vovó Elisa, de Gigio e de Ritinha começaram a dar sinais de situações de risco. Correu para seu computador e viu que estavam juntos no Shopping. Procurou pelas câmeras e antes de conseguir as imagens, Giu já estava ligando dizendo que algo errado estava acontecendo com Ritinha e que ela tinha ido ao  Vilhena com as Vovôs e Gigio, que não estava atendendo ao telefone. Assim que alcançou o sistema  do Shopping recebeu uma chamada de um número desconhecido.

__Sim.

__Alex!- Era Clara gritando.- Ele trabalhou ainda mais rápido.-

__O que foi amor? O que está acontecendo?- Encontrou facilmente o sinal dela.

__Alex!- Ela gritou de novo.-  Alex!- Gritou pela terceira vez.-Me solta seu monstro!- Alex não precisava de mais nada. Dois segundos ele já tinha invadido o sistema de segurança do shopping, já os tinha encontrado no  segundo nível do estacionamento subterrâneo.  Ritinha estava deitada no chão,  Vovó Elisa estava com ela. Ao lado delas Gigio no chão  parecia ferido, segurava uma das mãos e tinha uma mancha escura na calça jeans. Vovó Aline esta com a cabeça dele em seu colo. Transferiu as imagens para seus tios e para Giu.

__Clara, o que houve?- Sentiu o telefone mudar de mãos. Viu pela câmera Lothar empurrar Clara para perto de Ritinha.

__A loira está comigo. As vovozinhas, a grávida e o italianinho envocado também. Troco todos por você, meu filho querido.- Riu.- Se não chegar em 30 minutos, vou matar um deles a cada cinco minutos .

__Onde você está? Irei agora. Não machuque ninguém. Estou indo. Me diga aonde estão?- Alex estava ganhando tempo. Já tinha mandado todos os detalhes que via, mais a possível dica de Clara que eram 3 homens e a localização exata deles para Cunha e também para Xande. Avisando que Gigio estava ferido e Ritinha provavelmente estava em trabalho de parto. Antes do Lothar responder, ele já tinha avisado os Medeiros,  e Giulliano, Vincenzo e Sylvie.- Por favor, diga aonde estão?- Viu que Vincenzo estava perto do Shopping, mandou uma mensagem exclusiva para ele enquanto ouvia Lothar.

__Vou te dizer, mas não avise a polícia. Nem fale com mais ninguém. Se não, já sabe, facas vão voar.- Riu.- Estamos no segundo piso do Subsolo do shopping.

__Cara, seja mais especifico, tem uns dez shoppings na cidade. Estou nervoso, não consigo pensar direito, está com minha garota, não machuque ela.  Por favor?

__No Vilhena. Venha rápido.- Desligou.- Alex olhou de novo a cena. Era chegada a hora de enfrentar esse bandido. Pegou suas coisas e saiu rápido, no carro ligou seu viva voz. Logo todos começaram a ligar.

__Alex. – Disse Ruivo.- Espere, não pode chegar lá sem um plano.

__Eu já tenho um, pai. Por favor, me ajude? Eu preciso de você.

__Filho!- Ouviu o Ruivo bater em algo.- Droga! Estou chegando, me espere. – Depois foi Cunha.

__Alex chegamos em dois minutos, vamos nos posicionar. Não o enfrente, deixe a polícia fazer o trabalho dela.

__Tio, preciso fazer isso. Se eu não enfrenta-lo, ele continuará voltando. Isso tem que acabar. Tio, coordene a equipe, proteja as mulheres e Gigio. Giu vai chegar primeiro, vai estar tresloucado, já perdeu uma esposa grávida antes. Preciso dele calmo. Por favor, ajude-o, faça com  que se acalme. E Gigio estava sangrando. Precisam de uma equipe de emergência.

__Filho, me ouça. Você não é culpado disso. Quando sua mãe souber o que pretende fazer…

__Tio! Eu preciso! Ela terá que entender. Já chegaram?- Cunha suspirou.

__Sim. Estou posicionando todos.

__Certo. Chego aí em 3 minutos, enquanto isso proteja eles, tio. Tia Lia acha que talvez tenha alguém deles aí fora também.- Enquanto isso no estacionamento.

__Branco!- Gritou Lothar para um dos comparsas.- Fique de olho nessas loucas. E Jefinho cuide do portão, nossa galinha dos ovos de ouro está chegando. O carro dele é um Creta meio bronze. Não deixe outro carro passar. Para todos os efeitos estamos em obras.

__E se for os home.- Ele perguntou.

__Passe fogo! E nós acertamos essas belezas aqui.

__Senhor. – Disse Gigio meio gemendo.- Minha cunhada está tendo o bebê. Deixe ela ir para um hospital? Por favor? Não era a hora da criança nascer ainda. Ela pode ter complicações. Por favor, senhor?- Lothar olhou seus companheiros e riu. Chegou perto de Gigio e chutou as costas dele.

__Cale a boca, seu molenga!

__Pare seu monstro.- Disse Clara se levantando na frente de Gigio.- Ele está ferido. Não pediu por ele, mas pela cunhada grávida. O que você sabe sobre ser forte, seu canalha?-  Lothar ficou vermelho.

__Vejo que meu filho gosta de mulheres perigosas.- Chegou perto de Clara.- Ainda tem a marca do nosso último encontro, loira? Sabe que não deve me provocar. Quero o garoto, mas você só precisa estar viva até ele chegar,  e não precisa continuar assim tão linda. O que acha de uma cicatriz bem no meio desse rostinho?

__E você, Lothar? Não se lembra do nosso último encontro? Sou uma atleta, e não tenho medo de você. Sei que gosta de bater em mulheres, mas eu não sou uma mulher comum. Gosto de bater em homens. Não é porque tem essas suas faquinhas, que pode me vencer numa luta justa. O problema com você é que não luta limpo, não é.-

__Sua…- O Tal Jefinho gritou.

__O carro bronze está chegando!

__Salva pelo gongo.- Disse Lothar se afastando de Clara.- Fique quieta, cadela. Ou mato você. Depois que o garoto estiver aqui, nenhum de vocês tem valor para mim. Entendeu, loira?- Clara entendeu, ele iria matar todos. Então tinha que ter uma rota de fuga. Clara abriu um pouco mais os olhos, eles deviam ter um olheiro, alguém lá fora. Precisava avisar Alex, mas como?  O carro de Alex parou na entrada do subsolo. Os vidros escuros não permitiam a visão dentro. Jefinho gritou;

__Abra os vidros!- Alex abriu. Jefinho apontou a arma para dentro do carro. – Quem é  ela? Era para vir sozinho! –Lothar chegou perto do portão.

__Ela é minha tia. Estava comigo no carro quando ligou, eu vim o mais rápido que pude. Não tive tempo para deixa-la. Ela pode cuidar da minha prima grávida.  Eu estou aqui como pediu, disse que não machucaria mais ninguém se eu viesse logo.- Lia abriu a porta e desceu. Foi caminhando para a abertura do portão.

__Ei? Onde vai pequena?- Disse Lothar.

__Senhor, a menina está em trabalho de parto. Imagino que isso não faça diferença pra o senhor, mas para nós faz. E para Alex. Olhe para mim? Que perigo poderia oferecer ao senhor? Pelo contrário sou mais uma refém que o senhor tem. Deixe-me  ver a menina?- Lothar fez sinal para o portão abrir. Tanto Lia como Alex viram que outra pessoa abriu o portão. Alguém que não estava lá embaixo. Que deixaria apenas quem Lothar mandasse sair. Lia e Alex se olharam, um entendimento foi compartilhado. Lothar iria matar todos, talvez até seus homens,  planejou sair dali só com Alex. Alex estacionou onde Lothar indicou. Antes de sair do carro disse em voz baixa.

__ Acho que ele planejou matar todos. Está com um temporizador na mão. Deve ter algum tipo de explosivo em algum lugar. Talvez nas vigas, para fazer parecer acidente. Os dois caras aqui se parecem com ele, devem ser descartáveis. Tem alguém lá fora controlando o portão e falando com ele num ponto eletrônico.- Saiu deixando as portas do carro abertas. Lia já tinha chegado até Ritinha.

__Como está, Ritinha?- Clara que respondeu

__Contrações de 15 em 15 Tia Lia.

__Eu estou bem, Tia Lia.- Disse ela.- Mas é muito cedo para Pietro.

__Fique calma. É cedo, mas ele já pronto para nascer. -Olhou a roupa molhada com liquido aminótico .- O processo já começou.

__Tia Lia, eu estou com medo, Giu….

__Não se preocupe, querida. Pense só em ficar calma para trazer Pietro ao mundo. Seu marido é forte, vai saber se controlar. Estará pronto para tira-la daqui.- Olhou nos olhos dela.- Acredita em mim?- Ritinha sorriu de leve.- Vamos trabalhar juntas.-Olhou Elisa.- A senhora segura o tronco dela, Dona Elisa.- Olhou Ritinha novamente, vinha vindo a contração.Veio forte e comprida.- Conte Clara!- levantou-se e foi onde Gigio estava. Ele tinha um ferimento na coxa esquerda, um corte de 10 centímetros, fundo no meio e mais raso nas laterais. E outro um pouco menor, mas com as mesmas características na mão direita. Sangrava bem, mas estavam estancando com o lenço de Aline.

__Ela está bem tia Lia? O bebê? Tia Lia eu tentei…

__Xiii!- Disse perto do ouvido dele. Fazendo como se fosso medir a temperatura.- Ela vai ficar bem. E Pietro também.- Olhou nos olhos dele.- Precisa se acalmar. Está perdendo muito sangue. Não se agite.- Cortou um pedaço do lenço com os dentes e amarrou na coxa. Fez o mesmo com a mão. E disse baixinho como se soprasse no ferimento.- Continue deitado. Precisa estar pronto para chegar até o carro quando for a hora. Consegue?- Ele balançou a cabeça displicente.- Ela voltou rapidamente para Ritinha.

__Estamos bem?-

__Sim, Tia.- O tal de branco não tirava os olhos delas. Até que Alex chegou no centro do pátio, dois metros na frente com Lothar.

__Então. Como você está filho?- Alex o encarou. Sua voz saiu firme, poderoso.

__Já estou aqui. Deixe eles irem. – Lothar riu.

__O que houve com o galinho medroso?

__Morreu antes de nascer, numa noite escura, chuvosa e fria. Você matou, lembra-se?

__Olha! Tem resposta para tudo hoje? Que bom!- Deu dois passos para Alex. Alex não demostrou medo, mas deu os mesmos passos para trás.- O que foi?- Então, Alex deu dois passos na direção dele de queixo erguido e num movimento muito rápido, atirou na direção dele uma faca. Ela bateu com o cabo nas botas de Lothar. Era um desafio. Lothar conhecia o gesto. Olhou Alex com os olhos assassinos brilhando.- Não! Está mesmo me desafiando?

__Se eu ganhar, nunca mais voltará a me procurar nem minha família. Se você ganhar, eu vou com você obedientemente, faço tudo o que quiser, construo o que quiser, abro o mecanismo que quiser, desde que deixe eles saírem agora.

__E se eu preferir matar todos?_Alex, tirou outra faca e pôs a ponta sobre seu próprio peito.

__Então morremos todos.- As avós se ressaltaram. Gigio olhou Tia Lia e Clara, estavam atentas e concentradas, elas sabiam de algo. Resolveu agir como elas. Lothar ficou olhando Alex por alguns segundos, segurando um sorriso irônico.

__Silêncio!- Gritou. Alex entendeu que ele falava com quem estava lá fora, no ponto eletrônico. Olhou Branco e Jefinho.- Parece que terão um pouco de diversão antes de irmos rapazes.- Olhou Alex.- Menos pescoço e coração. Só para garantir nossos futuros trabalhos.- Riu. Chutou a faca de Alex que estava no chão para o ar e depois para  Alex, que a pegou habilmente.- Muito bom, garoto. Só duas facas para cada. Não quero machuca-lo, muito.

__Ai meu Deus. Disse Ritinha.- Eles vão mesmo lutar?

__Ritinha, preste atenção.- Disse Lia baixinho.- Temos que colocar você no carro. Giu está esperando. Pode nos ajudar?- Ritinha olhou profundamente para ela, depois disfarçadamente para o vigia deles.- Não se preocupe com nada. Só em ficar calma para nos ajudar a correr para o carro.

__Que comece a luta! _Disse Lothar.

__Não! Deixe eles irem. Minha prima vai ter o bebê. Meu primo está ferido. Deixe minha tia leva-los embora.

__Meu filho. Acho que não entendeu, ninguém vai sair daqui!- Lothar atacou Alex que se esquivou. No segundo golpe que Lothar tentou, Alex se esquivou e gritou .

__Agora!- Clara se levantou com muita rapidez e acertou o queixo de vigia de baixo para cima com toda força, ele ficou zonzo, ela chutou as partes do cara  que soltou a arma que Lia chutou para longe. Ela e Elisa já estavam de pé apoiando Ritinha e Aline apoiando Gigio eles correram para o carro. Lothar percebeu e lançou uma de suas facas na direção de Clara. Alex gritou.

__ Cuidado Clara!- Ela se abaixou instintivamente, a faca acertou o tal Branco no braço. Clara correu para o carro também.- Alex avançou sobre Lothar para detê-lo.

__Jefinho!- Ele chamou. Só então notou Jefinho imobilizado por Ruivo no portão.- Isso não vai adiantar, garoto. Já que eu não vou sair daqui com você, então ninguém vai sair daqui.- Pegou o temporizador, Alex viu o botão que ativaria a explosão. Não pensou duas vezes, mirou as mãos de Lothar e atirou suas duas facas. A primeira derrubou o aparelho no chão cortando a palma da mão esquerda superficialmente, a segunda cortou tendões, veias e ossos quase decepando a mão direita. Tudo aconteceu em segundos. Vovó Elisa e Vovó Aline já estavam no banco de trás com Ritinha deitada em seus colos. Gigio já estava no banco do passageiro na frente e Giu já estava arrancando com o carro para o hospital onde  Xande já tinha avisado a equipe de emergência e Deise esperava na porta. O Portão ainda estava fechado, Ruivo puxou o Jefinho para o lado e Giu bateu com toda a velocidade no portão de ferro fazendo um barulho enorme e quebrando parte da grade permitindo sua passagem. Os policiais entraram em peso. Imobilizando de vez todos os bandidos. Clara correu para Alex.

__Você está bem, amor?- Ele perguntou.

__Sim. E você?- Ele parecia tão calmo como se nada tivesse acontecido. Então viram tia Lia caminhar para uma coluna bem no meio do estacionamento. Os olhos preocupados dela se abriram mais. E ela gritou:

__Parem todos!- Houve um silêncio total. Ela olhou Alex.-É um explosivo com uma numeração que está diminuindo. O shopping está cheio de gente. Ele é louco, não ia matar só a gente, ia matar todo mundo! – Alex correu para onde ela estava no pilar central. Com seu olhar de especialista começou a dar uma volta rápida  pelos pilares próximos. Encontrou outro artefato.  Lia perguntou:- Alex consegue, desligar isso? – Olhou o mecanismo.

–É difícil saber. Tenho que tentar desmonta-los primeiro.

__Vou chamar o esquadrão antibombas. -Disse Cunha.

__Não vai dar tempo!- Disse Lia.

__Tio, tire todos daqui. Evacue o shopping. Isole a área. Agora!- Cunha olhou nos olhos de seu sobrinho. A dor foi  evidente, mas o dever falou mais alto. Cunha avisou o perigo pelo rádio, foi tirando todos do local. Alex olhou Ruivo, profundamente.- Disse que lutaria pela minha felicidade sempre. Por favor, pai.  Preciso de sua ajuda. De sua força, agora. Faça isso por mim, por favor?- Ruivo o olhou já com lágrimas nos olhos.

__Não. Não posso.

__Pai, por favor, se me ama tem que fazer isso, agora.  Preciso ter certeza que estará protegida. Tire ela daqui. Por favor.

__Alex não posso fazer. Sabe que não posso. Eu…

__Pai!- Ele gritou.- Agora!- Clara entendeu. Se agarrou a ele chorando.

__Não! Não pode me fazer sair daqui! Se vai desmontar essa coisa, tem que me deixar ficar. Alex! Você jurou ficar comigo para sempre!

__ Meu coração ficará. Eu te amarei para sempre. Juro! Mas preciso salvar essas pessoas, por minha causa elas podem morrer. Eu te amo mais que minha vida, minha linda. Me perdoe, mas não posso fazer isso com você aqui.- Pegou Clara com força e colocou-a no colo do Ruivo._ Leve-a, pai.  Rápido! Vai!- Ruivo saiu chorando, arrastando sua irmã que gritava desesperada.

__Não! Alex! Não! Me deixe ficar! Por favor! Não! Ruivo, não!  Me solte, Ruivo! Não! Alex!!- Alex respirou fundo. Precisava desmontar o projetil. Ao virar-se, deu de cara com Tia Lia.

__Pronto para começar? Não sei muito desse tipo de coisa, mas tenho boa memória, é só dizer uma vez.- Sorriu.

__ Tem certeza, Tia Lia? –  Ela sorriu de novo. Alex sabia que ela era a pessoa ideal para isso. Ele teria mais chance com ela ao seu lado agora.

__Eu sabia que ia chegar a hora de retribuir o bem que me fez, meu querido.- Alex sorriu.- Vamos lá?- Alex rapidamente começou a fazer seu trabalho. A polícia lá fora fazia todo o possível para tirar as pessoas do shopping. Os Medeiros, começaram a chegar. Clara chorava desesperada, nos braços de um Ruivo devastado, que não sabia o que diria a sua amada esposa quando ela soubesse que ele deixara seu filho único no meio de duas bombas. Confiava nas habilidades de Alex, mas o tempo estava contra ele. Quando  Clara viu seu pai descer do carro com Ben, Jorge e Rick, correu para ele. Cunha contou o que estava acontecendo rapidamente e de repente Rick olhou em volta:

__ Espere! Lia também estava aqui no Shopping. Onde  ela está?- Perguntou. Clara disse aos soluços:

__Ela ficou com Alex, Tio. Ele não me deixou ficar….- Chorou.

__O que?- Rick virou-se para Cunha.- Minha mulher está lá dentro?- O pavor estampado em seus olhos.

__Senhor…. Eu … Ela quis ficar…. Queria ajudar Alex…Sabe como ela é decidida eu….- Rick começou a ficar sem ar. As informações sendo rapidamente digeridas por seu cérebro ágil. Ele começou a tremer. O segundo sinal de que seu desespero estava saindo do controle. Jorge trocou um olhar de angustia com o  Ruivo que chorava debaixo de seu braço esquerdo. Beto colocou Clara nos braços de Ben e tentou abraçar o irmão. Rick se esquivou, ergueu o corpo na direção da viatura do Siate onde Xande enfaixava as mãos feridas de Lothar. Marchou para lá totalmente alucinado. Tirou Lothar da viatura aos sopapos. Os bombeiros tentaram detê-lo, mas ninguém pode para-lo, nem seu musculoso irmão e nem seu filho, o maior dos falcões, que também levou uns golpes antes de Rick colocar Lothar contra a parede e prender a mão ferida, torcida, nas costas do bandido. Lothar gritou de dor.

__Me larga. Está louco! Me ajudem! Ele está louco!Ai! Ai!

__AH! Não sabia? Eu…. sou…. louco! Sempre fui. Não faz ideia das loucuras que posso fazer! E nem serei preso por isso. Sou doente! – Riu sarcástico.-Vou cortar você em pedaços pequenos com essas suas próprias facas, vou começar pelos membros para que sofra bastante. Vou arrancar as suas tripas, uma por uma com você vendo. Faço questão que sofra muito, desgraçado!

__Socorro! Ele é louco! Me ajudem!

__ Só tem um  jeito deles me pararem. Vão ter que atirar em mim. Acho que não farão isso. – Disse bem baixinho no ouvido de Lothar.-Diga como parar essa bomba, agora. – Gritou.- Diga!

__Não direi nada! Seu louco. Ai! Ai!- Rick apertou o braço dele.

__Se minha mulher morrer lá dentro, eu serei um homem morto mesmo, não tenho nada a perder. Se prefere que eu te arrebente, faço com todo gosto, faz tempo que quero fazer isso mesmo, tudo bem. Espere! Acabo de ter uma ideia bem melhor.- Começou a caminhar  arrastando o bandido com ele na direção da entrada do estacionamento do shopping. Lothar começou a se debater e gritar;

__Socorro! Polícia! Ele vai  me matar! Polícia!

__Ninguém vai me impedir. Eles sabem que não vou parar. Se Lia vai morrer hoje, eu e você também vamos. A decisão é sua.- Já estavam perto da entrada.

__Está bem! Vou falar! Pare! Mechaniker! Se conseguir abrir e desmontar a caixa vai ter um teclado, é só digitar. Mechaniker. Pare!- Rick gritou para Cunha.

__Diga a eles, Cunha! Nós ficamos aqui, amiguinho. Se você mentiu, morremos. E  livramos a humanidade de dois loucos.

__Eu disse a verdade! E se eles não tiverem tempo? Me solta, seu louco!

__Já disse a eles, Cunha?__ Cunha soltou os ombros tensos e começou a respirar com força em vez de responder. Clara se soltou do irmão e correu chorando na direção deles. Passou pelos dois como um vento e se jogou no colo de Alex. Não disse uma palavra, só chorava. Rick só largou Lothar quando sentiu o perfume de Lia. Lothar correu para os guardas que o levaram de volta para Xande.

__Rick.- Lia chamou suave. Ele se virou devagar, quando  a viu perdeu todas as forças. Ajoelhou-se, chorando. O desespero de perder seu grande amor, cobrando seu preço. Lia chegou perto dele e Rick agarrou-se ao corpo dela tremendo compulsivamente. Ele como Clara, não conseguia falar. Angustia e alívio se misturando em doses imensas destroçando todo equilíbrio desses falcões. Lia acariciou o cabelo negro e vistoso dele dizendo:

__Acabou, meu amor. Está tudo bem, agora. Alex era o único capaz de desmontar aquela coisa, ele foi genial, mas precisava de ajuda. Alguém capaz de seguir suas instruções sem se confundir e esquecer nada. Eu tive que ficar com ele, amor. Muita gente dependia disso. Desculpe, não queria te assustar, mas não tive alternativa. Então percebemos que precisávamos de uma senha para desligar o mecanismo. Se não fosse você, meu lindo príncipe, talvez não tivéssemos o tempo suficiente. Mas é claro que você, o mestre dos enigmas, saberia que era necessário uma senha. Quem diria, 30 anos depois e você me salvou outra vez. Parece que sempre dependerei do seu amor para ter vida.-Sorriu. Ele ainda soluçava muito.- OH, meu amor, olhe para mim.- Rick ergueu os lindos olhos azul cobalto, toda a agonia estampado nos olhos inchados e vermelhos. Como ele podia continuar tão lindo?__Estou bem, todos estamos, graças a Alex e a você.

__Isso tudo porque fiquei em casa revisando um livro. Eu  devia ter aprendido da outra vez que saiu sem mim e foi parar no hospital. Chega! Nunca mais te deixo sair sozinha.- Disse Rick e suspirou. Lia sorriu.

__ Certo, amor. Como quiser. Estou cansada, quero ir para casa, pode me levar?- Rick se levantou ainda choroso, beijou a esposa com todo amor, depois caminhou ainda trôpego para seus parentes. Alex fez o mesmo caminho dizendo baixinho para Clara ainda chorando no seu colo.

__Está tudo bem, meu amor. Já acabou. Estou aqui. Desculpe te fazer chorar. Mas não tive escolha, precisava me concentrar, não conseguiria com você correndo perigo. Não vou te deixar. Estou aqui, amor. Não chore mais. Te amo… Te amo… Te amo… Não chore…Estou aqui….- Chegaram perto dos outros.

__Vocês estão bem?- Perguntou Ben nervoso, enquanto Ruivo e Beto choravam e beijavam Clara e Alex.

__Estamos bem, querido.- Disse Lia, acariciando o rosto dele, depois o de seu filho emocionado. Cunha mandou imediatamente fazerem a varredura necessária.

__Ben, podemos ir embora?- Perguntou Alex, olhando Clara em seus braços.- Ela está muito nervosa. Precisamos ir a delegacia?

__Acho que terão que ir.- Olhou compassivo para sua irmã e para seu tio.- Vou ver o que consigo.- Do outro lado junto com Xande, Lothar gritou:

__Esse louco me agrediu! Todo mundo viu! Eu quero fazer uma queixa!__Rick virou-se para ele com um olhar assassino, Lothar ficou com medo e Rick e disse com uma voz amedrontadora:

__ Reze para nunca mais sair da cadeia, desgraçado, porque no dia que pisar fora dela, eu mato você.

__ Vocês ouviram, ele me ameaçou!- Já estava tremendo o canalha. Ben respondeu tranquilo:

__Ele é esquizofrênico. Não pode ser responsabilisado por seus atos ou suas palavra num momento de crise.- O bandido ficou vermelho:

__Mas Alex não é louco, né? E ele me esfaqueou! Quero fazer uma queixa!-  Xande o jogou com força para dentro da ambulância dizendo:

__ Já ouviu falar em legítima defesa? O subsolo tem câmeras. -Tirou o capacete.- Se lembra de mim? Sou o socorrista que entrou no quarto por acaso no dia que você tentou tirar Alex do berçário. Também fui eu que encontrei Diana ferida na beira da estrada. Alex tem 19 anos, isso quer dizer que o crime ainda não prescreveu.- Virou-se para Ben.- Sabe, acho que também quero fazer uma queixa.

__Pode provar tudo isso, Capitão Alexandre?- Disse Ben.

__Com certeza! -Sorriu. Lothar tentou sair do lugar .- Fique bem quietinho aí. Estou louco para esquecer minha patente e fazer igualzinho tio Rick.- Virou-se para ele.- O senhor é meu herói, tio Rick. Quero ser igual ao senhor quando eu crescer.- Sorriu, olhou Alex.- E você, garoto, é um orgulho. – Colocou o capacete de volta e ia fechando a porta quando Lothar viu Lia.

__Você! _ Ele disse. E Lia sorriu tímida.

__Pois é.- Respondeu.- Parece que eu podia mesmo atrapalhar seus planos, né? Bem, na verdade meu marido. Sabe Lothar, não se deve subestimar alguém por sua aparência.  Sei que achou que meu marido fosse um escritor inofensivo, mas ele é um falcão, um caçador hábil, o mesmo se pode dizer de Clara. E eu e Alex, embora não nascemos nessa família de guerreiros, também sabemos lutar. Você nunca foi páreo para Alex, nem nas facas.- Mostrou as feridas dele.- Nem na genialidade dele. Para seu próprio bem, espero que aceite o conselho gentil de meu marido e fique preso para sempre. Nunca mais tente fugir. Tem muito mais sobre essa família que você desconhece.- Lia o olhou de uma forma que fez o bandido tremer. Xande fechou a porta entrou na viatura direto para o hospital,  levando um Lothar receoso. Assim que a ambulância  saiu:

__Esperem! _Disse Lia.- Pegaram o comparsa? O que estava aqui fora, com quem Lothar falava no ponto? O que comandava o portão? Conseguiram encontra-lo? -Cunha ia responder negativamente quando:

__É ela, Tia Lia.- Disse Vincenzo segurando uma garota com cabelos castanhos meio ruivos, enrolados presos num rabo de cavalo mal feito. Muito magra, mal vestida com uma camiseta muito larga e shorts rasgado, suja, com algumas cicatrizes nos braços e nas pernas. A garota com um tênis velho de cada cor nos pés, parecia ter uns 13 anos e esperneava apavorada, mas não dizia uma palavra. Vincenzo explicou:- Quando Lothar me pegou, eu vi essa menina ir a casa onde fiquei, ela levava coisas para eles. Acho que ela não me reconheceu. Talvez por causa do cabelo. Quando Alex mandou o aviso, eu estava passeando com Apolo aqui perto. Corri para cá. Chegamos antes de todos. Alex me disse para encontrar o olho deles aqui fora. Ela já estava aqui quando chegamos,  falava com alguém com isso.- Ele deu um controle remoto e um fone de ouvido.- Acho que ela não é daqui. Falava em alemão. Talvez nem fale nossa língua. Parece bem nervosa, mas não disse uma palavra.- Alex olhou a garota, reconheceu alguns traços e  também o medo nos olhos dela.

__Você fala nossa língua, português?- Disse Lia.- Ela negou com a cabeça. Alex desceu Clara no chão, mas a manteve ao seu lado. Falou com a garota em alemão.

__Você é filha de Dirk?- Ela o olhou rápido. E respondeu num fio de voz desesperado.

__Sim. Por favor. Eles me disseram para apertar o botão quando o carro marrom chegasse, depois eu devia  ir embora. Eles são muito maus comigo, mas eu não conheço ninguém aqui. Se não obedeço não posso comer. Meu pai não aparece a meses, eu não tenho para onde ir.- Alex viu que ela também era uma vítima, como ele.

__E sua mãe.- Ela baixou os olhos.

__Morreu quando eu era pequena.

__Quantos anos tem?

__18 anos.- Todos se espantaram. Menos Vincenzo  e os outros que não entendiam alemão.

__Quanto tempo está aqui?

__Eu cheguei com meu pai em dezembro.- Foi quando Lothar fugiu, e depois atacou Vincenzo.- Eu vivo com meu pai desde menina, ele não é bom com as pessoas, mas comigo é um pouco. Nunca ficamos muito num lugar. Ele disse que não ia ficar muito aqui, mas ele sumiu.

__Como é seu nome.

__Sofia.

__Sofia, Dirk foi preso. Ele não vai sair.

__Ai meu Deus! Onde eu vou ficar? Também vão me prender?  Eu vi o moço de cabelo comprido machucado, mas eu não sabia o que estava acontecendo. Disseram que era um deles. Eu não sei direito o que fazem, sei que deve ser algo ruim, mas não sei o que é. Por favor, eu não sei o que fazer, eu….- Chorou- Jorge chegou perto dela, falou como fazia com as crianças.

__Sofia. Fique calma. Não vou mentir para você, está numa situação bem complicada. Seu pai é um bandido perigoso e procurado. Ele e seu tio Lothar sequestraram Vincenzo.- Ela olhou Vincenzo.- Ele foi torturado, ficou muito ferido. Você viu, não foi?- Ela balançou a cabeça.-  Se você quiser se afastar deste mundo ruim, infelizmente terá de denunciar seus parentes. Tera que testemunhar em um tribunal. Sei que parece muito ruim, mas é o que precisa ser feito.

__Eles cortaram o cabelo dele. Ele tinha um cabelo tão bonito. Eu fiquei com pena, perguntei porque, mas meu tio me bateu e eu tive que sair.

__Testemunharia, Sofia?- Disse Ben. Ela olhou Alex, insegura.

__Você é filho do tio Lothar?

__Ele violentou minha mãe e eu nasci. Geneticamente somos primos.

__Dirk também abusava da minha mãe. Quando eu nasci ela estava nas ruas de San Petesburgo. Ele nos encontrou de novo, ela morreu em Moscou e eu fiquei com ele. Eu tinha cinco anos, não entendi direito, mas acho que foi num laboratório de armas durante um tiroteio. Parece que o pai deles também morreu num laboratório assim na Alemanhã. Eu ficava em casa, eles não me deixavam sair. Eu nunca fui ajudar eles. Eu ia comprar comida e cozinhava, mas nunca roubei nada nem feri ninguém. Eles me deram uma faca.- Tirou do bolso uns trocados.- Eu vendi, olha, é todo dinheiro que tenho. Não sei usar aquilo, não como eles. Eu queria fugir, mas não sabia direito como sair daqui.- Os Medeiros se olharam. Alex disse a Cunha.

__Tio, ela é filha de Dirk, a mãe também foi violentada, mas acabou ficando com Dirk, pelo jeito era russa e vivia nas ruas, morreu quando Sofia era pequena. Ela disse que comprava e cozinhava comida para eles, e sabia que eles eram pessoas ruins, mas não sabia o que eles faziam. Eles disseram para ela que Vincenzo era um deles que estava sendo castigado. Segundo ela, eles nunca a deixavam vir com eles, hoje foi a primeira vez, ela devia abrir o portão para um carro marrom e ir embora. Disse que queria fugir, mas não conhece nada aqui, não sabia como.

__Quantos anos ela tem?- Cunha perguntou.

__18 anos.- Voltou-se para ela e perguntou em alemão.-18 anos completos?- Ela balançou a cabeça.

__Pobre criança! –Disse Beto.- Não podemos ajuda-la?- Perguntou para Ben e Cunha. Ambos se olharam, e Cunha perguntou a Vincenzo.

__Você pode comprovar que foi isso mesmo que viu, Vincenzo? Ela cozinhar e trazer comida para eles?

__Bem, eu não sei direito. Estava meio desmaiado.- Sofia olhou para ele parecendo entender que sua vida estava na mão daquele rapaz de sorriso bonito e jeito engraçado. Faltou implorar para ele lhe ajudar. Neste momento, Apolo soltou da coleira e correu para ela, Sofia sorriu com a traquinagem do boder colie, se abaixou e acariciou as orelhas do cachorro. Todos viram a alegria dela com o cão, e Apolo parecia dizer que ela era mesmo uma boa pessoa. Vincenzo sorriu.- Acho que sim. Não vi tudo muito claramente, mas senti cheiro de comida quando ela estava lá. Parecia salsichas e alguma massa assada.

__Ben,- Disse Cunha.- Se ela continuar aqui, terá que comprovar toda essa história e terei que prende-la por enquanto. Todos vocês terão que ir para delegacia agora para prestar depoimento. Jorge é o único que pode voltar para casa. Mas ela tem 18 anos, não pode ser acolhida no seu orfanato, sabe disso melhor que eu Jorge.

__Eu levo ela para meu apartamento.–Disse Vincenzo.- Ela pode tomar um banho, comer e vocês podem ver o que podemos fazer para ajuda-la quando terminarem na delegacia.  Se eu não precisar depor também, é claro.

__Só se você quiser acusa-la de estar no seu cativeiro, porque os policiais não pegaram ela aqui.- Disse Lia.- Ela é só mais uma curiosa que ficou vendo o tumulto. Certo, Cunha?- Vincenzo entendeu. Se ele não dissesse nada, ela estava livre. Alex também pediu com seu olhar protetor de sempre, que Vincenzo ajudasse a menina.

__Alex, diga a ela para vir comigo, e esperar por vocês. Diga que pode tomar um banho e comer enquanto espera. Não vamos poder conversar, eu não falo alemão e nem russo.- Sorriu. Alex falou com Sofia, ela o olhou insegura por um segundo, depois pegou Apolo no colo e se aproximou de Vincenzo. Os Medeiros foram para delegacia. Jorge deixou Vincenzo e Sofia no Prédio dele. Entraram pela garagem. No apartamento, Vincenzo separou uma toalha, uma camiseta preta e um shorts de ginástica. Apontou o banheiro. Ela pareceu meio sem jeito, mas pegou e entrou. Vincenzo riu ao ouvir ela trancar a porta ruidosamente.  Foi preparar um spaghetti para ela. Não sabia seu gosto, mas caprichou. Quando ouviu ela abrir a porta do banheiro, virou-se com a panela do molho na mão. Ela era branquinha e tinha sardas pelos braços e no rosto, e o cabelo enroladinho muito ruivo, quase cor de cenoura, molhados encobriam os olhos negros e tímidos. A camiseta preta que Vincenzo emprestou, ficou menos larga que a que usava antes, mas era muito grande e o shorts também, mas Vincenzo achou Sofia linda, principalmente quando sorriu para Apolo. Assim que acordou de seu transe íntimo, Vincenzo apontou os pratos na mesa. Levou uma travessa com o macarrão, depois o molho e suco de laranja. Ela esperou que ele servisse os dois então começou a comer, Vincenzo percebeu que ela devia estar faminta, mas notou que ela gostou da comida. Ficou satisfeito. Assim que acabaram, ela levou os pratos para a pia para lavar. Vincenzo resolveu olhar o banheiro, e estava tudo arrumado. Ela era mesmo prima de Alex. Escutou sua máquina de lavar funcionando, ela estava lavando as roupas sujas dela. Os tênis dispares e surrados estavam no canto da lavanderia, olhou Sofia lavando a louça, ela estava descalça. Os pés eram pequenos e Apolo estava deitado perto deles. Ligou o tradutor do celular em alemão e disse:

__Vou sair. Volto logo. Fique com Apolo. Não abra a porta para ninguém.- Ela ouviu a tradução em seu idioma, olhou o cachorro e repetiu:

__Ficar Apolo.- Balançou a cabeça.- Vincenzo sorriu. Quando ele voltou, Sofia e Apolo estavam dormindo no sofá. Vincenzo a achou ainda mais linda. Os cabelos secos eram ainda mais cor de cenoura. Parecia a princesa Valente do desenho.

__Sofia.- Chamou. Ela abriu os olhos um pouco assuntada, depois sentou rápido.- Está tudo bem.- Passou umas sacolas para ela e usando o tradutor disse.

__São para você. Pode ir colocar.- Ela entrou no banheiro. Meio encabulada. Demorou um pouco para sair. Quando enfim o fez, estava usando um vestidinho azul marinho cheio de florzinhas vermelhas. Um modelo casual, com a saia godê até os joelhos o corpete ajustado por elásticos nas costas tinha decote reto com mangas bufantes com punho. Um cinto costurado na frente e amarrado atrás ajudavam ainda mais ajustar o vestido no corpo dela. Uma presilha pequena, azul escuro, prendia a frente dos cabelos e nos pés uma sapatilha charmosa vermelha, com um laço na frente. Sorriu vergonhosa para ele. Parecia uma menininha. Vincenzo torceu para ter acertado o tamanho da lingerie  da cor da pele, que comprou da mais confortável para a garota que parecia uma criança abandonada.

__Danke.- Disse e sorriu para ele.

__Não tem de que.- Ela caminhou com as roupas dele na mão para a lavanderia.- Não.  Não precisa lavar.- Ela não o entendeu.- Vai ser difícil.- Colocou as roupas no cesto da lavanderia, pegou a mão dela e levou-a para o sofá.- Certo. Eu sou Vincenzo.- Ligou o tradutor.

__Vincenzo?- Ela disse.- Italiano….Invocado.- Ele riu.

__Mais ou menos isso.

__Marco.- Ela disse.- Amigo. Italiano. Russia.

__Você tinha um amigo italiano, Marco?

__Si.- Disse sorrindo.- Marco. Bom. -Pensou. Tocou o rosto dele mostrando a barba.

__Ele tinha barba? AH! Sim, ele era velho? Digo, idoso.- Ela balançou a cabeça.

__Marco. Cuidado. Eu.

__Entendi. Ele cuidava de você. Você era pequena?

__Ja.- Balançou a cabeça.- Si.- Vincenzo sorriu.

__Marco ensinou você a falar italiano? Marco ha insegnata o parlare a italiano?

__Un Po.- Ela respondeu.

__Certo!- Vincenzo sorriu, disse em italiano.- Então minha amiga, Sofia, acho que podemos conversar um pouco. Entende?- Ela balançou a cabeça alegre.- Muito bem. Você gostou da roupa que comprei para você?

__Sim.- Baixou a cabeça.- Mas não posso pagar. Não tenho trabalho. Mas gostaria muito de agradecer sua ajuda. Quando puder, eu prometo pagar pela roupa e pelos sapatos tão bonitos. Mas nunca poderei pagar por acreditar em mim. Por não me deixar ir para prisão.- As lágrimas escorreram por seu rosto.- Muito obrigado, Vincenzo.- O som de seu nome naqueles lábios, mexeu muito com Vincenzo.

__Ei! Não chore. Vou achar que não gostou das coisas que comprei para você, ou do meu macarrão.- Ela sorriu.

__Você cozinha muito bem. Nunca comi um macarrão tão gostoso. Marco, sabia cozinhar também, ele me ensinou, mas não era assim.

__Que bom que gostou. Esse é o meu trabalho, eu sou cozinheiro. Trabalho em um restaurante.

__Verdade! Então é por isso que tem uma cozinha tão linda.

__Gostou da cozinha? Gosta de cozinhar?

__Sim. E do cachorro. Apolo.- Riu. E o cão ao ouvir seu nome correu para ela.- É tão fofo.

__Ele também gostou de você.- Ela o olhou profundamente.

__Obrigada, Vincenzo. Por tudo.

__Eu aceito sua gratidão. Sabe, não faz muito tempo, eu fui muito tolo, e fiz umas coisas muito idiotas que machucaram pessoas muito boas.- Ela abriu um pouco os olhos.- Nada igual Lothar e Dirk e os outros. Mas coisas que machucaram os sentimentos de algumas pessoas. Mas essas pessoas me perdoaram, foram caridosas comigo. Isso foi muito bom para mim. Jurei aprender do exemplo deles. Alguém também precisou comprar roupas para mim,  cozinhar para mim, cuidar de mim. E até do Apolo. Eu também fiquei muito grato, e sem entender porque faziam aquilo. Agora entendo. Meu coração está muito feliz de te ver assim. Um pouco mais feliz.

__E limpa.- Disse de cabeça baixa. Ele ergueu o rosto dela.

__Sim. Limpa, alimentada, e protegida. Sofia, vi que tem alguns machucados, eles batiam em você?- Ela balançou a cabeça.

__Bastante. Mas eu conseguia evitar a maior parte das vezes.- Uma revolta subiu pelo corpo de Vincenzo.- Vincenzo, acha que posso aprender português, e conseguir um emprego?

__Claro. Você aprendeu italiano, alemão. Não era nessa língua que sua mãe falava com você, né?

__Não. Minha mãe era russa, como eu. Falava russo. Mas eu fiquei com meu pai desde pequena, e Marco cozinhava para eles. Não sei se era como eles, mas cuidava de mim. Ele sorria muito. Como você. Eu gostava muito dele. Ele morreu faz uns 3 anos.- Olhou Vincenzo.- O que preciso para conseguir um emprego?- Vincenzo olhou aquela menina tão corajosa.

__Espere os Medeiros chegarem. Eles são muito inteligentes e espertos. Conhecem muita gente e gostam muito de ajudar quem precisa.  Contamos a eles o que você disse, juntos poderemos encontrar algo para você. Fique tranquila.

__Foram eles que ajudaram você?- Ela era esperta, era mesmo prima de Alex, que droga!

__Sim, foram eles.

__Pode me contar o que aconteceu? Se quiser, é claro. -Ela baixou os olhos. Vincenzo achou que ela ficaria sabendo de qualquer modo. Era melhor que fosse por ele.

__Eu me apaixonei por Clara, a noiva de Alex. – Ela levantou a cabeça rápido e encarou Vincenzo.- Alex estava na Alemanha estudando e eu…. Bem para resumir, fiz de tudo para conquista-la. Quando percebi que ela não desistiria dele tentei fazer ele desistir dela. Magoei muito Alex e muito, muito mais Clara. E magoei também uma amiga que estava apaixonada por mim e que de certa forma eu usei para me aproximar de Clara. Foi muito chato. Me arrependi muito depois, mas sou meio orgulhoso, não conseguia dar o braço a torcer. Então o tal Lothar veio falar comigo, me enganou para conseguir saber de Alex. Ele me sequestrou  na noite antes do dia que Alex devia chegar. Me feriu bastante, cortou meu cabelo, você viu. Depois tentou me trocar por ele. Mas Alex não tinha vindo naquele voo. Os Medeiros estavam preparados, seu pai foi preso e Lothar conseguiu fugir. Fiquei um pouco no Hospital. No dia que ia sair, Alex foi me buscar. Ele me trouxe para cá, limpou meu apartamento, trouxe comida pronta para mim. Abasteceu minha geladeira, cuidou de Apolo. As Medeiros me mandaram de tudo, inclusive roupas para que eu pudesse sair do hospital. Eles conseguiram novos documentos para mim, trouxeram minha moto de volta, até o emprego que tenho agora, foi uma indicação deles. Sou muito grato. Acho que eles podem ajudar você a encontrar alguma coisa. Pode confiar. E se for preciso, você fica comigo e com o Apolo.- Ela riu. E Vincenzo se viu perdido naquele sorriso.

__Você não está mais apaixonado pela noiva de Alex?- Vincenzo pensou profundamente no que ela perguntou. Clara sempre seria a mulher mais linda que conhecera, mas olhando aquela menina tão delicada e desprotegida, cheia de sardas encantadoras em sua frente, já tinha sua resposta.

__Não. Clara é uma amiga agora. Alguém, que respeito muito. Ela me ensinou que vale a pena se sacrificar por um amor. Não vou negar que doeu muito desistir dela. Mas Alex é o melhor amigo que alguém pode ter na vida.  Tenho irmãos e irmãs, todos são ótimos, mas Alex é o irmão que meu coração escolheu. Entende? Ele é um cara fora do normal.  O que tia Lia disse dele hoje, é tudo verdade. Todos  os Medeiros são assim, fiéis, bondosos, lutam uns pelos outros, destetam uma injustiça, amam crianças.  Mas Alex é humilde, é compassivo. Meu melhor amigo. Superei minha paixão por Clara, mas mesmo antes disso, já tinha jurado a ele respeita-la como uma irmã.- Sorriu para ela.- Agora que te contei algo pessoal, chegou sua vez. Você tem namorado, ou está apaixonada por alguém?- Ela corou.- Não adianta se fazer de tímida. Somos amigos, já cozinhei para você e você já até usou minha camiseta, pode ir me falando tudo.- Ela riu. O som fez o coração dele tremer de novo.

__Não tenho namorado. Já gostei de um rapaz na Bélgica, ele era alegre e sorridente, mas… _ Ficou quieta.

__Vamos, russinha, continue. Não tenha medo de dizer. É pior que tentar roubar a namorada de um cara genial como seu primo?- Ela riu de novo.

__Ele era como Dirk. Quer dizer, devia fazer o mesmo tipo de coisa. Um dia ele desapareceu. Não sei se está vivo, ou preso. Eu vi uma foto dele num jornal um dia. Mas não sei ler, não sei o que dizia.

__Você não sabe ler na sua língua?

__Eu nunca pude ir a escola.

__Então aprendeu dois idiomas sem ir a escola?- Ela balançou a cabeça envergonhada.

__Você deve ser tão genial quanto Alex, eu fui anos na escola e devo dizer que sou um péssimo aluno.- Riu. Ela também. O porteiro avisou que seus amigos tinham chegado. Quando entraram e viram Sofia banhada, vestida e calçada como uma menina, sorriram para Vincenzo. Ele ficou um pouco acanhado, mas gostou do que viu nos olhos deles. Principalmente, nos de seu amigo Alex. Alex chegou perto dela, segurando a mão de Clara.

__Sofia, você está bem?

__Sim. Vincenzo me deixou tomar banho, me emprestou suas roupas e me deu comida. Depois saiu e comprou essas roupas para mim. Ele foi muito bom. Eu estou muito bem.

__Que bom.- Alex sorriu carinhoso.- Essa é Clara, minha noiva.- Ela olhou Clara. Entendeu a razão da paixão de Vincenzo, e do imenso amor de Alex.

__É muito linda.

__Obrigada, querida. Você também é. Desculpe não ter falado contigo antes. Eu estava muito nervosa.- Sorriu, animada.- Mas já passou. Pronta para ir para casa comigo?– Sofia olhou Vincenzo, depois Alex.

__Como? Para casa?

__Sofia.- Disse Alex.- Este é Beto. O pai de Clara. Ele ofereceu para você um quarto na casa dele. Ao lado do quarto de Clara. Você poderá conversar com ela sempre. Achamos que você gostaria de ter outra garota por perto enquanto não aprende o nosso idioma direito.

__Mas eu não vou atrapalhar?

__Claro que não, menina.- Disse Beto bondoso.- Clara sempre quis ter uma irmã. Por favor menina, venha conosco, será um presente para nós ter outra ruiva em casa?- Sorriu.

__Todos falam meu idioma?- Ela perguntou surpresa.

__Minha mãe, a outra ruiva em questão, não. Mas ela fala italiano e francês.

__Eu falo italiano, um pouco.- Olhou Vincenzo.- Tive outro amigo italiano antes.- Respirou fundo.- Gostaria de conseguir um emprego. Vincenzo disse que talvez vocês conheçam alguém que possa me ajudar. Eu não sei falar sua língua, mas sei lavar, passar, limpar,cozinhar.- Olhou Vincenzo de novo.- Não cozinhar como ele.- Todos riram.- Ela virou para Vincenzo e disse em italiano.- Você é profissional, não sei cozinhar como você.- Vincenzo riu.

__Ainda bem. Pelo menos sei fazer alguma coisa direito.

__Você gosta de crianças, Sofia?- Disse Tia Lia.

__Sim senhora. Gosto muito.- Lia olhou para Ben.

__Você acha que consegue os documentos dela?

__Vai ser um pouco demorado. O caso dela é complicado, mas posso conseguir.- Olhou sua tia entendo o que ela queria dizer.- Mas posso fazer um contrato empregatício , ela poderia conseguir um emprego  legalmente.- Olhou o Ruivo.- Você tinha dito que estava abrindo uma vaga?

__Sim, mas é na limpeza. Ela é tão novinha.- Olhou a ruivinha.- Sei lá, parece Mari vestida assim. Vou me sentir um explorador de menores.- Riu.

__Sofia.- Disse Alex.- Esse é meu pai.- Ela o olhou desconfiada.- Melhor, esse é o marido da minha mãe, que eu amo como meu pai.- Ela sorriu para o Ruivo.- Ele é diretor de uma escola, eles estão precisando de uma pessoa para trabalhar na limpeza, meu pai acha o serviço muito pesado para você…- Ela o cortou, chegando rápido perto do Ruivo.

__Senhor, eu quero. Por favor, eu preciso muito. Vou me esforçar. E vou aprender seu idioma, prometo.- Ruivo olhou a pequena, e sorriu. Olhou seu gêmeo. Sofia acompanhou o olhar.- Vocês são gêmeos?

__Sim.- Disse Ruivo.-  Fazer o que?- Riu.- Lindinha, aquele gêmeo ali, é advogado, vai fazer um contrato para você poder trabalhar para mim na escola.  Quando seus documentos chegarem, vamos conseguir alguma coisa melhor para você, ok?- Ela sorriu.

__Sim.- Ruivo olhou tia Lia.

__Aquela linda senhora ali, segurando a mão daquele senhor de olhos azuis, é minha tia e uma de minhas professoras. Ela dá aulas para adultos aprenderem a ler e escrever. Se quiser poderá frequentar as aulas dela. Logo aprenderá o português e poderá continuar a estudar.

__Sim!- Disse feliz. Ruivo olhou para Ben.

__Agora é com você.

__Vocês são todos parentes?- Sofia perguntou.- Eles também são parecidos.- Disse apontando Beto e Rick.

__Somos irmão.- Disse Rick.- Os gêmeos e Clara são filhos dele.

__E aquele que me trouxe para cá, junto com Vincenzo,  é seu filho?- Ela falava de Jorge.

__Sim. – Disse Lia.- Jorge é nosso filho. É a cara dele, né? Temos mais dois filhos, um garotinho pequeno e uma moça, Liv. Ela é casada com Ben.- Apontou para ele. Sofia pensou, olhou Alex e Clara, depois perguntou para Vincenzo:

_Todos os brasileiros se casam com parentes? Todos riram.

 

 

 

 

 

Falcão por opção

Capítulo 19

Vincenzo chegou contente para trabalhar no Aimê. Mau conseguiu acreditar quando a Metre ligou pedindo que fosse fazer um teste naquela tarde. Era seu sonho de consumo trabalhar naquele famoso restaurante do Chef Francês mais conhecido da cidade Sylvie Janviê. Foi instruído a entrar pela porta lateral que acesso ao segundo salão, o reservado. Quando entrou, Sylvie e Vanessa a Metre estavam sentados esperando. Assim que passou pela porta ela foi fechada bruscamente e Vincenzo viu atrás de si os tios de Alex com os braços cruzados nada amistosos para ele. Em seguida viu todos os falcões no fundo do salão se aproximando mais dele. Os Fazzanos e Yuri também. E no meio de todos esses homens, Diana, Lia e Clara.

__Bem.- Disse debochado.- Parece que os clientes chegaram antes de mim. Estou atrasado?- Clara se adiantou.

__Seu idiota! O que disse a ele? Vamos, diga logo! Ou mato você, desgraçado.

__Disse a quem? Não faço ideia do que está dizendo. Só entendi o idiota e o desgraçado, e não gostei.- Clara tentou avançar sobre ele. Estava furiosa. Lia a segurou.

__Vincenzo. Lothar esteve na Menu. Falou com você. Precisamos saber o que você disse a ele. Ele é perigoso, estamos correndo perigo. Todos nós, inclusive você.

__Desculpe, senhora. Acho que está enganada.

__Vincenzo.- Disse Diana.- Ele me violentou, eu só tinha 11 anos. Não satisfeito ele quebrou vários ossos do meu corpo, me cortou em vários lugares, algumas cicatrizes nunca desapareceram, olhe. – Levantou a blusa e mostrou um sinal  do lado esquerdo pouco a cima do umbigo.- Eu quase morri. Este monstro voltou a me procurar quando soube que eu sobrevivi e podia denuncia-lo. Tentou levar Alex do berçário quando ele tinha dois dias de vida. Como se isso não bastasse, voltou a pouco mais de um ano, queria levar Alex outra vez, cortou o pescoço de Clara para obriga-lo. Vincenzo, ele é um bandido, não tem escrúpulos. Sei que você ficou ferido com o que aconteceu na Alemanha, mas você não é como ele. Você é um bom rapaz, eu vi você com as crianças do orfanato. Aquele monstro quer pegar Alex. Para isso, vai machucar quem for preciso. Por favor, acredite.

__Vincenzo. Escute Diana.- Disse Lia.-Este bandido, pode e vai se voltar contra você. Deixe-nos proteger você. O que disse a ele?

__Me proteger? Desculpe Dona Lia, mas sua sobrinha acabou de dizer que vai me matar. Além do mais, eu não sei do que estão falando. Quem é esse Lothar que foi na escola?-  Beto não se aguentou, passou a frente, ergueu Vincenzo do chão pelo colarinho da camisa e disse furioso.

__Escute aqui, seu moleque. Da última vez, ele protegeram você de mim, tiraram você do Castelo antes que eu pudesse te dar um corretivo a altura.- Vincenzo tentou se soltar.- Fique quieto ou vou te machucar. Escute o que elas tem para lhe dizer com respeito. Diana está mostrando toda consideração contigo que magoou o filho dela. Lia nem te conhece direito, e está tentando te ajudar e Clara, não preciso nem explicar, né? Mostre que não é tão tolo como parece. Elas estão tentando salvar sua pele, e nem é de mim.- Soltou Vincenzo com força, ele precisou de dois passos para se equilibrar. Olhou todos com ódio e disse.

__Eu não faço ideia do que querem! Já não fui humilhado por vocês o suficiente? Fui desprezado, enxotado do Castelo, ameaçado de expulsão da Menu.- Olhou Clara.- O que? Não sabia, querida? É dona da escola, seu amado irmão advogado ameaçou os chefes caso eu não me afastasse de você, ele tomaria a direção da escola e eu seria expulso.- Clara olhou Ben com carinho.

__Você foi a escola?- Beto sorriu para o filho e olhou seu pai.

__ Você passou nossas ações da Menu todas para Clara. Assim ela seria sócia majoritária . Este garoto é genial. Viu o que ele fez pai?- E Rodolfo.

__Foi muito mais habilidoso que nós dois. Se continuar assim, logo será melhor que nós dois juntos. Imagino que Máximo deve ter ficado muito satisfeito, quer que Clara trabalhe com ele a tempos.

__E Vitor então.

__Eu não passei as ações, ainda.- Olhou Clara.- Você nunca disse que queria dirigir uma escola. Sempre sonhou com seu restaurante. Então eu não mencionei suas ações e nem as da família. Mas se ele bancasse o engraçadinho outra vez, a escola seria sua e as decisões também.- Clara riu.

__Simples assim?- Ben sorriu, Vincenzo viu, ele amava sua irmã, estava tentando protege-la. Ben olhou Vincenzo.

__Olhe Vincenzo, eu já lhe disse uma vez, sei como é não ser correspondido, entendo sua dor, mas isso não lhe dá o direito de ferir outras pessoas. Eu apenas dei a Clara a chance de se defender de você. Você se manteve no seu lugar e tudo continuou igual.

__Igual? Eu fui tratado como um leproso! E tudo que fiz foi me apaixonar por sua irmã, doutor.

__Não é verdade.- Disse Ruivo.- Você traiu a amizade dela, e pior feriu Alex. Planejou aquela cena tosca apenas para magoa-lo. Queria que ele se sentisse inapropriado para ela. Conseguiu, atingiu Alex bem em cheio. Só não contava que a reação dos dois fosse aquela que viu. Clara desesperada por medo de perde-lo e Alex sangrando disposto a tudo para protege-la.

__Vincenzo.- Disse Rick.- Lothar já viu isso também.  Ele sabe que Alex faria qualquer coisa para proteger Clara. Está usando isso agora. Tem tentando atrair Alex para cá.

__Vincenzo.- Disse Lia.- Não sabemos exatamente o que Lothar quer com Alex, mas o histórico dele não é dos melhores. Por favor, nos ajude? É sua chance de se redimir.- Ele pensou e disse.

__Desculpe, senhora. Mas realmente não tenho nada a dizer. Se esse bandido esteve na escola, eu não o vi.- Clara explodiu.

__Seu burro! Não vê? Alex está protegido. Está fora. E quando voltar, tem todos os falcões para protege-lo. Nenhum deles deixará que se machuque. E Alex conhece esse monstro, sabe do que é capaz. Ele pode se precaver. Já você está totalmente vulnerável. Não entende? Ele vai se voltar contra você! E estará sem nenhuma proteção, seu idiota! Estamos tentado te ajudar.

__Calma, Clara.- Disse Lia carinhosa.

__Tia, eu já me cansei. Esse tonto está jogando fora mais essa oportunidade de amizade que estou lhe estendendo. Só estou fazendo isso porque a senhora, Ben e Alex insistem em dizer que ele não é má pessoa. Mas pelo visto, é orgulhoso de mais para perceber  que queremos ajuda-lo. Deixe ele se virar com o tal Lothar.  Vamos!- Saiu pisando duro. Na porta disse:- Obrigada Sylvie, desculpe atrapalhar seu trabalho. Mas seja como for, Vincenzo é bom cozinheiro, vai te ajudar a compensar seu atraso.

__Não se preocupe, menina.- Piscou para ela. Os Medeiros foram seguindo ela, mas Diana e Lia não se moveram.

__Vincenzo.- Disse Diana.- Tenha cuidado. Lothar é muito perigoso.- Saiu devagar. Lia esperou que se distanciassem um pouco.

__Vincenzo, não acho que ele queira apenas dinheiro. Acho que é algo mais sério. Talvez Alex esteja mesmo correndo risco de vida. Se é assim, Clara também está. Concordo com Alex. Você é um bom rapaz, só lutou por Clara de um jeito equivocado, mas foi só isso. Na verdade, só chegou tarde na vida dela. Ela ainda está chateada com você, mas é porque Alex está sendo ameaçado. Ele é a vida dela. Mas ela está preocupada com você também. Vincenzo, Lothar já feriu Clara antes, mas ela não está preocupada consigo.. Está nervosa por Alex e por você. Ela não quer mau a você.- Sorriu para ele.- Pense bem, bambino.- A voz dela soou para ele como a de sua mãe.

__Vamos, amor.- Disse Rick esperando ela na porta.- Obrigado Sylvie, até mais.- Vanessa os acompanhou a porta e Sylvie permaneceu no mesmo lugar.

__E agora?- Disse Vincenzo para ele.- Vou embora?

__Claro que não. Temos o menu para preparar. Preste muita atenção. Não permito que os pratos saiam diferentes da cozinha.

__Vai querer que fique? Pensei que tinha me chamado só para ver os Medeiros?

__Sim, eles me pediram para fazer um teste com você para poderem conversar contigo. Mas na verdade pediram isso para protege-lo. Poderiam ter ido a sua casa, ou telefonado para você encontra-los em outro lugar. Mas se o tal bandido estivesse seguindo você, não acharia estranho ver você entrar num restaurante.- Olhou Vincenzo.- Olha rapaz, eu não conheço você, mas Clara disse que é bom cozinheiro e Tia Lia me disse que você é um bom rapaz. Parece que se apaixonou por Clara e levou como vocês brasileiros dizem “um toco”.- Sorriu.- Eu também já estive muito apaixonado por uma Medeiros e também levei um. Na verdade vários. Um dia Tia Lia me disse algo parecido com o que te disse ainda a pouco. Me disse que Liv amava outro rapaz, disse que ele era a vida dela. E que ele a amava muito também. Me disse para esperar que um dia eu encontraria alguém para mim.  Liv continuaria minha amiga, sempre torceria pela minha felicidade,  todos os Medeiros continuariam meus amigos, mas para isso eu não poderia ameaçar o verdadeiro amor da bailarina.

__Então o senhor deixou o caminho livre para o Doutor Ben. Assim, fácil?

__Eu não diria fácil. Mas você já viu Liv e Ben juntos? O amor deles é algo assim palpável. Eu não tinha como competir com isso. Sabe, os falcões tem uma lenda, que eles nunca se separam de suas amadas, preferem a morte a isso. Eu amava Liv, muito. Ela sempre foi delicada, sensível, tão inteligente como Tia Lia, e dançava como uma pluma. Eu queria ela viva, feliz. Se eu não poderia fazê-la feliz, porque eu atrapalharia o homem que ela escolheu? Um homem que a amava intensamente, capaz de dar a vida por ela? Em resumo, servi o casamento deles, e muitas outras ocasiões para a família. Em um dos jantares beneficentes da Medeiros e Medeiros eu conheci a luz da minha vida- Sorriu para Vanessa que entrava no salão.-  Agora sou muito feliz, trabalho no que amo, tenho uma noiva maravilhosa que eu amo e que me ama, e um casal de amigos fiéis que de quebra me trazem duas fofuras sorridentes para almoçar todo segundo domingo do mês. Duas meninas lindas que me chamam de Tio e me beijam com todo carinho. Bem, essa é minha história, agora é com você escrever a sua.- Vincenzo pensou, se levantou e disse:

__O senhor me daria 5 minutos?- Lá fora no estacionamento.

__Deus, estou muito nervoso.- Disse Beto.

__Estou vendo.- Disse Rick rindo.- Novidade….

__ Tão engraçadinho.

__Meninos, se comportem.- Disse Lia.

__Tia, o que fazemos agora?- Perguntou Ben.

__Esperamos, Ben.

__Estou preocupada.- Disse Clara.- Se Vincenzo não se proteger, aquele Lothar pode machuca-lo.

__Está mesmo preocupada comigo?- Disse Vincenzo chegando com a doma na mão. Parecia surpreso, talvez até emocionado.

__É claro, seu idiota. Não quero encontrar você com uma faca atravessada em seu corpo. É um tonto, mas não merece isso. Eu acho.- Olhou Profundamente nos olhos dele.- Olhe Vincenzo, estou nervosa, aquele bandido é perigoso. Sabemos que na verdade ele quer Alex, mas para chegar a ele, Lothar pode machucar qualquer um.

__Vincenzo. -Disse Lia.- Fale conosco, caro. O que disse a ele?- Vincenzo suspirou.

__Só disse que Alex chegaria dia 12 da Alemanha. Que ele estava estudando lá. Olha, ele me disse que estava arrependido, que tinha sido solto e que estava indo para longe, que queria fazer as pazes com o filho antes de partir. Não disse nada de vingança, nem de ferir ninguém.

__Mesmo assim você achou estranho, não foi?- Disse vovô Rodolfo.

__Achei esquisito. Porque ele não procurou Doutor Ben? Eu não sabia direito a história dele. Só o que Alex contou na Alemanha, fiquei confuso.

__Mas estava ainda com raiva, não é?- Disse O Ruivo.

__Sim. Estava sim. Mas não sou um bandido. Nunca imaginei que ele iria ferir alguém. Achei que talvez ele criasse algum desconforto, mas nada de trágico.- Olhou Diana.- Não sabia direito o que ele tinha feito  com a senhora. Tenho estado muito confuso nos últimos tempos, mas não sou criminoso.- Diana chegou perto dele e acariciou seu rosto, como fazia com Alex.

__Eu entendo. Sei que não tinha a intenção de machucar ninguém, mas Lothar não é assim. Ele é mau. E você também está correndo perigo.

__Vincenzo.- Disse Clara tocando o braço dele.- Foi só isso que disse, que ouviu eu dizer a Leninha que Alex viria dia 12?

__Sim.- Olhou-a.- Ele perguntou pela loira que tinha acabado de sair. Disse que era nora dele.

__Mas que safado!- Disse Jorge.-

__Bem, agora precisamos nos organizar.- Disse Lia.- Falcões, todos sabem como proteger as escolas, os trabalhos, as crianças, as mulheres. Cunha, avise a polícia, ele vai tentar chegar perto de Alex assim que ele chegar. Xande, avise Dalia e deixe os magistrados cientes. Vovô e Yuri, já sabem seu papel. Ninguém anda sozinho a partir de agora. Até pegarem esse bandido.- Olhou Vincenzo.- E você? – Olhou Rick.- Como protegemos ele?- Rick olhou  Sylvie chegando.

__Ele pode ficar aqui no restaurante.  Eu aviso os seguranças, e qualquer coisa suspeita chamo vocês. O restaurante está movimentado está época, teremos bastante trabalho. E quanto mais tempo ele ficar aqui, mais protegido estará.- Vincenzo não podia acreditar, estavam lhe oferecendo um trabalho, um estágio no Aimê?

__Certo. Então tudo bem. _ Disse Clara.- Vincenzo fica com Sylvie até pegarem o Lothar e Alex chegar. Ninguém anda sozinho. Eu e você precisamos nos acalmar.- Disse para Diana.- Vai dar certo.- Sorriu para Vincenzo.- Até que você não é tão idiota assim.- Fez cara de surpresa e ele de bravo. Depois riram como faziam antes.

__Vincenzo. Você ainda não está seguro.- Disse Cunha.- Esse cara não presta. Se ele se aproximar de você, me chame.- Deu um cartão com um telefone.

__Precisamos ir. Temos muito trabalho. – Disse Yuri. Vincenzo não entendeu direito o que isso queria dizer, mas quando Yuri passou por ele perguntou:

__Como está Leninha?- Yuri o olhou poderoso e disse:

__ Madalena para você.  Sou diplomata, mas não sou tão compreensivo como Alex. Não quero você perto dela.  Mas fique tranquilo. Ela está feliz. – E se foi. Vincenzo se sentiu mesmo um idiota, perdeu Clara que nunca o quis para o garoto bonzinho e Leninha que o queria para o conde bonzinho. E agora ainda tinha um lunático na sua cola.

__Foi muito bonito o que fez, Vincenzo.- Disse Vanessa tirando -o de seus devaneios.- Sabe, nem sempre é fácil admitir um erro, mas faz muito bem para a alma.- Sorriu para ele.- Venha. Vamos trabalhar?- Sylvie sorriu para ele. E assim começou sua primeira noite no Aimê. Os dias passaram rápido. Logo o dia 12 chegou, os falcões estavam no aeroporto na hora marcada, muito beijos e abraços para os viajantes. A estrada que dava acesso a rodovia para quem saía do aeroporto era muito conhecida e visitada.  Em certo de trecho de um quilometro  mais ou menos a mata totalmente fechada, nesta época do ano era florida por inúmeras árvores coloridas, todas muito frondosas. Era quase um cartão postal. Quando os carros dos Medeiros avançaram, o carro de Ben que os liderava fez uma manobra evasiva brusca, quase um cavalinho de pau e freou em seguida. Os outros carros  frearam atrás. Assim que saíram dos carros para ver o que tinha acontecido, notaram Ben conferindo o pneu direito da frente. Ele tirou uma faca dele, e o outro dianteiro também tinha uma. Neste momento saíram do mato quatro homens armados, dois com armas de fogo, e dois com facas. Estes dois ruivos e bem parecidos. Um era conhecido deles, careca e tatuado, com a barba ruiva por fazer e um sorriso sarcástico no cara feia evidenciando a cicatriz. Lothar gritou.

.__Saíam todos dos carros! __Eles obedeceram. Lothar olhou todos e gritou de novo.- Onde está meu menino?- Silêncio encheu a rua.- Onde!- Nada.- Certo, viu Dirk, disse que eles não iam querer entregar meu menino.

__Ainda bem que temos uma moeda de troca.- E riu o bandido.- Jota, traga a troca.- O tal de Jota, magrelo, cabelo comprido todo bagunçado, saiu para rua arrastando um Vincenzo todo ensanguentado, olhos feridos, lábios partidos, com uma parte do cabelo cortado todo desigual. A roupa toda rasgada e suja. Ele devia ter apanhado muito, parecia meio zonzo, mas quando viu os falcões e Clara gritou:

__Desculpe! Eu devia ter acreditado em vocês! Eles são bandidos! Desculpe! Por favor Clara, desculpe-me! Eu… Ai! foi atingido de novo.

__Pare seu monstro! – Disse Clara.- O que quer?

__Ora, minha linda norinha. Quero meu Filho. Onde ele está?

__Não está aqui!!- Disse Uma voz vinda da mata.__ E vocês estão presos!- Era Cunha. Os policiais saíram da mata. Os bandidos reagiram.  Se Alana estivesse presente, diria que era coisa de filme. Mas a realidade é sempre muito feia. Um bandido foi morto, o magrelo que segurava Vincenzo, os outros dois, um negros baixinho e o ruivo foram pegos, já Lothar se embrenhou no mato e foi perseguido, mas não puderam pega-lo. Xande chegou logo e levou Vincenzo para o hospital. Horas depois, Vincenzo abriu os olhos, estava todo dolorido, parecia que tinha levado uma surra, então se lembrou que tinha apanhado mesmo. No canto do quarto estavam Lia e Clara.

__Acordou, querido.- Disse Lia.- Como se sente?

__Meio zonzo.- Olhou Clara.- Onde está Alex?

__Ele ainda não chegou. Ele só vai chegar depois de amanhã.- Ele pareceu confuso. Lia explicou.

__Quando falamos com você, já sabíamos que Alex não viria mais hoje, alguns investidores pediram outra demostração. E depois que você do que nos falou, Vovô e Yuri entraram em contato outros empresários.  Mais gente ficou interessada. Ele precisou apresentar o projeto  novamente. Conseguiu um negócio ainda melhor, mas só vai poder chegar aqui dia 14, amanhã.

__ Mas mesmo assim foram ao aeroporto.

__Sylvie avisou que você não chegou para trabalhar, Jorge e o Ruivo foram até seu apartamento, o porteiro disse que você saiu para ir ao mercado e não voltou, ele achava que você tinha ido direto para o trabalho. Eles avisaram Cunha. A polícia encontrou sua moto de madrugada. Ben acionou o departamento de trânsito e viu eles baterem em sua moto e arrasta-lo para o carro do Lothar. Mas as câmeras perderam vocês perto do tunel.

__Cunha achou melhor preparar uma emboscada para eles. Era lógico que tentariam pegar Alex na saída do aeroporto.- disse Clara.- Ficamos nervosos, mas era nossa melhor chance de resgatar você.

__Foram todos até lá, por mim?

__Claro! Os falcões se protegem, não sabia.- Disse simplesmente. Neste momento os outros chegavam.

__Oi, Vincenzo, – Diana sorriu para ele.- Como se sente?- Vincenzo olhou para ela, depois para todos os falcões, viu sorrisos amigos e olhares preocupados, viu também gestos protetores, todos estavam ali por ele. Não eram seus parentes, mas agiam como se fossem. Ficou emocionado.

__Eu estou muito bem, Dona Diana.

__Mentira!- Leninha entrou linda, sorridente de mãos dadas com Yuri.- Ele está todo dolorido. Mas é muito machão para dizer. Meus irmãos também fazem assim.- E riu. Vincenzo viu que ela estava feliz com seu Conde. Percebeu Yuri colocando o braço na cintura dela, demarcando o território. Sorriu torto.

__Ok.- Disse.- Estou todo dolorido. Parece que levei uma surra.- Riram todos.- Mas estou vivo. Achei que não conseguiria sair dessa. Então, vendo por esse lado, estou ótimo.

__Mais ou menos.- Disse Xande.- Você teve duas costelas quebradas, alguns cortes e hematomas. Elas bateram muito em você. Vai se recuperar, mas precisa de repouso. O médico virá vê-lo logo. Vai te orientar. Mas acredito que logo poderá voltar para casa. Sem esforços e trabalhos pesados, é claro.

__A polícia pegou eles?- Estava preocupado. Entendeu agora o que eles poderiam fazer com Alex, ou pior, com Clara.

__Todos menos Lothar.- Disse Ben.- Mas Cunha ainda está procurando.- Nisso chegou o médico.

__O que é isso, senhor Vincenzo? Uma festa?- Sorriu amistoso.- Desculpem amigos, mas o paciente ainda está muito debilitado, precisa descansar. Vocês precisam ir.

__Todos nós?- Perguntou Diana.- Mas ele vai ficar sozinho?- Olhou Ruivo.- É perigoso.- Ruivo olhou seu irmão.

__Pode conseguir com Cunha uma escolta para ele? Diana tem razão, aquele maluco pode armar alguma.

_E se um de nós ficar, Doutor?- Perguntou Giu.- Não seria problema, não é? Podemos nos revesar.

__É uma ótima ideia. – Disse Rodolfo.- Mas o rapaz precisa descansar. Se ficamos aqui, vamos acabar conversando com ele. O Doutor tem razão, é melhor todos irmos e voltarmos só no horário de visitas. Quando ele estiver melhor.

__Falou a voz da experiência.- Disse o médico.- Escutem o avô de vocês. Qual de vocês é o parente mais próximo que se responsabilize por ele? Tenho alguns papéis que preciso que assinem.- O médico também achou que fossem a família dele.

__Não são meus parentes, são…- Olhou para aqueles olhares bondosos e não soube como responder.

__Somos amigos.- Disse Beto, e Ben completou:

__E eu sou Benjamim Medeiros, o advogado dele. Pode deixar que assino a internação.

__Ah!-Disse o bom doutor.- Que bom que está aqui. A polícia chegou, veio ouvir o paciente. Eu não quero que ele se esforce muito. Acredito que é o senhor que pode conseguir isso?- Ben sorriu. __Ok, então amigos, vão para casa e só voltem para visitas, e um de cada vez.

__Doutor, podemos chamar Getúlio?- O médico olhou Diana, reconhecendo-a.

__Você é a irmã da Deise, a chefe de enfermagem?- Olhou Vincenzo, sorriu.- Bem, se ele quiser, mas nada de muito esforço.

__Quem é Getúlio?- Vincenzo perguntou.

__É um enfermeiro, ele também é cabeleireiro, e trabalha com crianças no hospital do câncer.- Disse Tia Lia.- Há alguns anos eu precisei acertar meu cabelo aqui no hospital, ele fez um bom trabalho.

__Ele é muito bom- Disse Diana.- E se quiser pode só acertar. O que ele cortar, ele leva para fazer perucas para as crianças.- Ruivo abraçou Diana, sorrindo.

__Amor. Vincenzo não é nosso filho. Não pode trata-lo como Alex, decidindo assim por ele, talvez ele nem queira cortar o cabelo.

__Mas ela tem razão.- Disse Lia.- Não precisa cortar muito.  E pode ajudar as crianças.- Agora foi Rick que abraçou sua esposa, e disse calmo como sempre.

__Parece que Vincenzo encontrou mais uma mãezinha.- Sorriram um para o outro. Rick olhou Vincenzo.- Pelo visto  não tem muita escolha, elas estão resolvidas a cuidar de você, como cuidam dos filhos delas. E todo filho de Lia, automaticamente é meu também. Podemos trazer Getúlio, filho?- Vincenzo não podia acreditar, estavam tratando  ele como tratavam Alex. Nem o conheciam direito, ele tinha armado aquela confusão com Alex e mesmo assim agiam com todo  carinho. Eles não podiam existir de verdade. A polícia veio. Foi cansativo. Quando se foram, deixaram um sentinela na porta. Vincenzo estava muito sonolento. Não soube direito o quanto dormiu. Só o que realmente lembrava, era de ter se sentado e pedido ao tal Getúlio para cortar seu cabelo bem curtinho, com pezinho atrás e tudo, deixando só um topete alto e estruturado, e que levasse todo o seu cabelo para as crianças.

Enfim o esperado dia  da volta de Alex chegou. Todos estavam ansiosos.  Claro que os falcões cuidaram da segurança com muito esmero. E Clara foi linda e com um ramalhete imenso de rosas brancas esperar seu amado. Quando o avião aterrissou, todos os passageiros desceram, menos ele. O coração de Clara apertou. Quando olhou assustada para seus avôs que tinham chego dias antes, eles sorriram para ela. Foi então que notou todos os falcões, os Vogelmamn e os Fazzanos sorrindo para ela. Então ouviu no sistema de som do aeroporto.

__Minha linda namorada.- Era ele. Todas as telas exibiram as imagens dela. Sempre linda, sorrindo com sua família e seus amigos. Dançando de bailarina. Cozinhando. Fotografando. –  Não existem palavras para expressar a imensidão do que sinto por você. No momento que te vi pela primeira vez, lhe entreguei meu coração. Não fazia ideia do que isso significava. Mas fiz. Desde então pertenço a você e passei a ter um pavor incontrolável de não te ter. Troquei todos os meus outros sonhos, enfrentei todos os meus medos para ter você. Então, como sempre acontece quando um amor é maior que a própria vida, Deus me deu seu coração. Neste instante, jurei lutar para merecer seu amor.  Sangrei, mas venci. Estou de volta amor, por você e para você. Não nasci um falcão como você. Mas escolhi ser um na primeira vez  que sorriu para mim. Eu te amo. Por favor, case-se comigo.- Todo o aeroporto bateu palmas. E Clara virou-se para encontrar um lindo príncipe ajoelhado com uma caixinha branca com um anel de diamante dentro. E ele repetiu.- Por favor, case-se comigo?- Ela ficou sem fala. As lágrimas escorreram por seu rosto e pararam eu seu lindo sorriso. As crianças gritaram:

__Clara tem que dizer sim! –Rody.

__Verdade! – Disse Elis.- Eu quero ser daminha!- Todos riram. E Clara saindo de seu transe, estendeu sua mão para ele e disse:

__Acho que terei que aceitar. Afinal Elis quer ser daminha.- Fez uma uma cara de enfado. Alex tirou o anel da caixinha. Uma peça linda, todo o aro tinha a forma de um cabo de rosa com umas folhinhas espaçadas cravejado de pequenos brilhantes e em cima uma rosa perfeita também cravejada servia de suporte para um diamante lindo. Vovô Rodolfo ficava cada vez mais delicado em seus projetos. Mas esse, foi totalmente baseado no desejo de Alex, que pediu também alianças que combinassem com este anel. Elas já estavam prontas há semanas. Alex sorriu  para sua amada dizendo:

__Sabe que não é obrigada, mas depois que eu colocar esse anelzinho no seu dedo, não deixarei ninguém tirar, nem você. Vai ter que arrancar o coração do meu peito para me afastar de você. Pense bem.- Ela fez uma cara dramática de dúvida. Depois jogou as flores para cima se ajoelhou na frente dele beijando-o. Foi muito bonito. Ele levantou ela do chão e rodopiou com ela pelo saguão sob os aplausos de todos. Gigio gravou tudo. Foram todos para casa do Ruivo para um almoço de família. Menos Deise que estava de plantão. Logo que chegaram, Alex reuniu as crianças e deu um presente a todas. Uma pulseira com nome de cada um. A corrente era estruturada e com fechos a prova de queda. Disse que nunca deviam tirar do braço, era um pacto de primos. As crianças amaram. Depois foi até as mulheres, deu a todas uma gargantilha com um pingente de gota com uma pedra de jade, delicada com um brilho verde singelo. Disse para elas sempre usarem, se quisessem colocar o pingente numa pulseira, ou outro acessório, não tinha problema. A joia tinha sido preparada para isso. Depois enquanto as mulheres riam na cozinha, ele se juntou aos homens no escritório e distribuiu a eles pulseiras iguais a sua de aço cirúrgico.

__Sei que nem todos gostam de usar pulseiras, mas estás são diferentes. Tem nela um rastreador. Já configurei todos. Se acontecer algum problema, eu poderei encontra-los. Mas para isso, precisam usa-las todo o tempo. Se elas ficarem mais de uma hora sem mandar o sinal para a minha central, um alarme é disparado. Se seus corações baterem num ritmo perigoso, também.

__Alex.- Disse Ruivo.- Este é seu projeto?

__Sim, pai. – Sorriu.

__Deus, isso deve ter sido um sucesso total. – Disse Beto.- Eu vou querer uma para Nina. Pensando bem acho que vou precisar de uma dúzia. Pode me conseguir?

__Eu já coloquei um rastreador no pingente dela. Todas elas e as crianças já tem um agora. – Seus parentes o olharam com orgulho.

__Alex, Bela já tem o que você me cedeu antes.

__Mas esse é mais avançado. E ela pode usar todo tempo, não precisa tirar no avião, nem nada. Eu trouxe um novo para a mamãe também. Já anulei o outro sinal.

__Isso deve ter custado uma fortuna._ Disse Cunha.-  Espero que seja presente. Sou policial, não posso pagar por esse equipamento, e tenho mulher e três filhos.- Todos riram.

__E eu então.- Disse Xande.- Sou bombeiro.- Riram mais ainda.

__Do que serviria meu talento se não fosse para proteger vocês, que são quem sempre me amaram?- Seus tios se emocionaram.

__Oh, meu menino.- Disse Xande abraçando Alex.- Você sempre foi um presente na minha vida. Sempre será o filho que eu não pude gerar, meu primeiro orgulho paternal. Sabe disso, não é?

__Eu não sou tão velho quanto Xande.- Disse Cunha. Os outros riram.- Mas sabe o que você significa para mim e para sua tia.

__Alex.  _Disse Rick.- Eu poderei saber se meus filhos estão bem em qualquer momento? Mesmo os casado? E meus netos? E Lia?- Os olhos azuis de Rick brilharam, ele também compartilhava o pavor de Alex, de perder sua família. Era tão protetor quanto ele.

__Sim. Para isso vai precisar acessar um código que eu vou passar para o senhor. Mas tem que usar com cautela por que o sistema é muito sensível e….- Não conseguiu terminar. Rick o abraçou com força aos prantos, Alex nunca o tinha visto assim.

__Ah! Alex. Eu tenho pavor de perde-los, eu tento deixa-los livres para fazer suas escolhas, mas…. Mal consigo respirar antes de ter certeza que estão todos em casa, bem. Sempre lutei contra esse medo, mas depois que aquele maluco sequestrou Alana e a  doida da mãe dele levou Liv e deixou Lia ferida eu…- Chorou. Jorge acariciou as costa de seu pai com lágrimas escorrendo por seu rosto. Todos sabiam o quão valente Rick era, mas também conheciam sua maior fraqueza.- Obrigado Alex. Nunca poderei pagar o acaba de me dar.

__Nem eu.- Disse Jorge com a voz embargada. Alex olhou todos ali e viu as mesmas palavras em seus olhos.

__Certo.- Disse.- Mas para funcionar direito, não podem tirar. Ok?

__E você, meu bravo e genial neto-genro?- Disse Beto.- Quem pode encontrar você caso alguma coisa aconteça? Fora Clara.- Ele sorriu e olhou Ruivo.

__Meu pai.- Foi a vez do Ruivo chorar.

__Deus? O que fiz para merecer você, meu filho?- Abraçou Alex feliz.-  Sabe que  sempre pode me chamar, né? Sempre que precisar de mim, estarei lá para você?- Alex o olhou profundamente.

__Eu sei.- Olhou todos.- Eu sei que posso contar com todos vocês. – Suspirou.- Por isso quero que me digam o que estão escondendo de mim.- Ele era esperto.- Vamos, sei que algo aconteceu. Digam.

__Lothar sequestrou Vincenzo.- Disse Ben.- Bateu bastante nele, e tentou troca-lo por você.

__Onde ele está?

__Lothar está foragido.- Disse Xande.- Vincenzo no hospital.

__Os comparsas dele foram pegos, mas em todos os endereços que deram não encontramos Lothar. – Disse Cunha.- Ele não é bobo, está se escondendo bem. Mas vamos acha-lo.- Alex pensou.

__Porque ele pegou Vincenzo?- Antes mesmo de lhe responderem ele olhou pela janela e viu Clara rindo com as crianças.- Ele foi atrás de Clara na Menu.

__Foi isso.- Disse Ruivo.- Mas não falou com ela, papai tinha ido busca-la. Enganou Vincenzo, disse que estava procurando você para fazer as pazes. Vincenzo disse a ele que você estava estudando fora e que voltaria dia 12.

__Vincenzo ouviu Clara falando com Leninha no telefone antes de embarcarmos.- Disse Yuri.

__Ele ainda estava muito ferido com o que aconteceu na Alemanha, mas não acredito que quisesse machucar ninguém.- Disse Jorge.

__Na verdade.- Disse Vovô Rodolfo.- Eu acho que ele não podia imaginar que existem pessoas tão ruins de verdade. Também já fui ingenuo assim.

__Como ele está?- Perguntou Alex.

__Quebrou umas costelas, tem hematomas para todo lado, alguns cortes de faca.- Disse Cunha e Alex prendeu os dentes na boca.- Mas ele vai ficar bem.

__Só os cabelos que não vão se recuperar tão cedo.- Disse o Ruivo.

__Como?- Perguntou Alex.- Eles cortaram o cabelo dele?

__Não dá para dizer que cortaram.- Disse Giu.- Parece que pegaram uma faca e passaram como se fosse em uma corda. Ficou todo desigual de um dos lados.

__Ele deve ter sentido muito, cuidava tanto daquele cabelo.- Disse.

__Na verdade mandou cortar todo o resto para mandar para as crianças do hospital do câncer.- Alex encarou Ruivo.- Verdade. Foi ideia da sua mãe e de Tia Lia, mas ele pediu que cortassem bem curto. Só sobrou um topete. Parece outra pessoa.

__ Na verdade está com o corte parecido com o seu, a cor é quase igual. Não fosse a barba e os olhos dele e o seu tamanho, pareceriam irmãos.- Disse Yuri.

__Ele está muito preocupado com você.- Disse Ben.- E com Clara. Se sente culpado por ter falado com Lothar. Acha que vocês estão correndo perigo por causa dele.

__Quando tempo ele vai ficar no hospital?

__Não sei.- Disse Xande.- Acho que pouco. Está machucado, mas no caso dele é melhor se cuidar em casa.

__Os pais dele estavam viajando, já voltaram?

__Eu acho que não.- Disse Gigio.- E ele mora sozinho. Parece que tem um cachorro.

__Até onde sei, os irmão dele também moram longe. – Disse Yuri.

__Sim. -Disse Giu.- Ele  me disse que veio para cá para estudar na Menu.

__Não acho que seja um rapaz ruim.- Disse Vovô Carlos.- Só um pouco desorientado. E temos que reconhecer, Clara é linda, pode virar a cabeça de qualquer um. E ainda é inteligentemente bem-humorada.- Riu.- Já lhe disse o que uma outra Clara com esses mesmos atributos fez comigo.- Alex olhou Clara novamente.

__Acho que Vincenzo tem razão.- Olhou para eles.- Estamos em perigo. Todos nós. Na verdade, todos vocês. Lothar quer a mim, e fará qualquer coisa para conseguir me pegar. Ele me quer vivo, mas pode machucar, ou até matar qualquer um de vocês para conseguir isso.

__Porque acha que ele quer você, bambino.? Disse Giulliano.

__Ele não quer exatamente a mim, Tio.- Olhou triste para as crianças no gramado.- Ele quer o meu talento.

 

Falcão por opção

Capítulo 18

__ Quando você chega?-disse Clara no celular. Ele ouviu Clara falando e se escondeu atrás da parede.- Virá antes de Alex, então? E Yuri, como conseguiu tanto tempo para viajar?- Certo Alex  viria então. Mas quando?- Ok, querida. Estou morrendo de saudade. Dê um beijo em Yuri por mim, sim?…Não seja boba. Lógico que ele pode ficar em casa. Na verdade pode ficar onde ele preferir, todos os falcões oferecerem seus lares. Até Giu, que jura que consegue terminar a reforma até quarta feira.- Riu.- O quarto do Pietro está lindo. Giu é mais organizado ainda que Ritinha. Pietro vai nascer só em março, e  de acordo com Giu, até o começo de dezembro tudo já estará pronto para quando ele chegar….. Minhas aulas acabem semana que vem…Sim na terça….Que ótimo, então sua formatura será esse fim de semana antes da minha?…. Que legal. Quando precisam voltar?… Entendo. Mas estarão aqui, no dia 12 quando Alex chegar, ele não pode vir antes por causa do projeto?-…Que bom…. Certo querida. Preciso ir, meu pai já chegou. Olha, o quarto de Yuri já está pronto. Se ele preferir ficar com Giu, não vou ficar brava. Mas ele pode ficar com a gente sempre, e você também. Vamos combinar o almoço das famílias. Beijo,beijo, beijo.- Desligou e correu na chuva para o carro de Beto.  Leninha estava chegando na próxima quinta feira. Seria dois dias depois da última prova. A formatura seria no dia 16 de dezembro. Alex já estaria de volta, chegaria dia 12. Era a hora certa de por todos os pingos nos is. Ficou todos aqueles meses planejando essa conversa. Não seria humilhado por uma família  de frouxos. Homens que se deixavam guiar por mulheres. Não seria desprezado por uma filhinha de papai empinada, que se achava no direito de insulta-lo. Não seria vencido por um poltrão, filhinho de mamãe que causou toda sua desgraça. Essa gente iria ver com quem estavam lidando.

Chegou o dia, Giulliano e Gigio também vieram. Apesar de toda a torcida de Clara, ficariam os três no apartamento de Giu mesmo. Leninha foi direto para a casa dos pais com Yuri. Só a noite que as amigas puderam se encontrar. No apartamento de Ritinha.

__Ei! Mas esse apartamento não era pequeno,  o que houve com ele, a multiplicação de espaços? – Leninha era sempre a mesma.

__Obra de engenharia minha cara.- Disse Giu.

__Sei.- Riram. Giu comprou o outro apartamento ao lado do deles. Agora tinham uma sala muito ampla, uma sala de jantar com uma mesa oval de patina muito chic com cadeiras confortáveis. Além do lindo quarto de bebê todo azul claro como os olhos do papai, tinham um quarto de hóspede muito inteligente, onde as camas viravam uma cama de casal ou quatro de solteiro. Giu realmente era um excelente engenheiro. Aproveitou o fato dos dois apartamentos serem exatamante iguais, mas com as plantas espelhadas. As duas portas de entrada que ficavam uma ao lado da outra, foram trocadas por uma porta só com um metro e meio de vão. Ele retirou a parade que dividia os apartamentos ganhando muito espaço nas duas salas. Não mexeu na divisão das varandas, para não mudar a fachada do prédio, mas  fez outro jardim que ficava de frente para a mesa. As cozinhas que também ficavam na mesma parede foram unidas, Ritinha ganhou mais espaço e Giu uma churrasqueira e um forno a lenha. Ele seguiu o mesmo padrão de movéis que Gigio havia escolhido para a primeira reforma, parecia que tinha sido planejada originalmente assim.  Na lavanderia antiga ele não mexeu, mas transformou a nova em um lavabo muito elegante. Mudou o seu escritório para o quarto ao lado do de hóspede, e colocou todo seu amor no quarto de Pietro, o antigo quarto de Alex.

__Seu apartamento  é mesmo muito lindo.- Disse Yuri.

__Ficou muito bom, mesmo fratello.- Disse Gigio.

__Segui as linhas que você deixou.- Disse sorrindo para seu irmão.

__Eu não projetei o quarto de Pietro. Nem a cozinha, e nem este belo jardim.

__O jardim foi tia Lia. Ela já tinha feito o outro para Dona Diana, só veio aqui um dia e no outro chegou os jardineiros contudo o que precisavam, foi incrível. Numa tarde, tudo pronto.- Disse Giu.- Eles são meio malucos esses falcões.- Riu.- Vieram todos.  Jorge, Liv, Ben , o Ruivo, Tio Beto, Tio Rick, até o vovô Rodolfo. As crianças ficavam encantadas plantando as florzinhas e escutando Tia Lia contar as histórias sobre elas. Para eles era como uma festa.

__Verdade?- Disse Giulliano.

__Sim papa. Nunca vi uma família tão unida. Agora entendo porque Clara é tão alegre, porque todos são tão felizes. Eles gostam de estar juntos. Gostam de ajudar um ao outro. De fazer o outro feliz. Fizeram isso nesses jardins.

__Que foto, linda!- Leninha falava da foto que fizeram no jantar com os celulares.- Como conseguiu essa imagem? – Olhou Clara, não tinha dúvida que era dela.

__Alex me mandou a imagem que ele printou direto pelo note. Eu tratei  a imagem com as fotos que tiramos, para ficar bem nítido. Ficou bem legal, né? Mas a ideia dessa pose foi do Giu.  E a foto foi do Alex. Eu só trabalhei a imagem e ampliei. O Giu quis colocar no corredor oposto.  Ao lado dessa barriga de cinco meses que ninguém sabe de quem é?- Riu. A foto da barriga nua de Ritinha com as mãos do casal sobre ela, ficou muito artística.

__Quero saber se vão me deixar tirar uma foto linda assim de Pietro, para colocar ao lado dessas que Clara fez?- Disse Gigio.- Estou ficando com ciúme fotográfico.- E riram como sempre. Durante o jantar de pizzas feitas por Giu, os amigos conversaram e riram felizes. Leninha contou a reação de seus pais ao noivado, Yuri sobre como andavam as espectativas sobre o casamento, Gigio sobre o final glorioso de sua faculdade. Giulliano sobre a alegria de ficar perto de seu filho a espera de um neto. E Giu da felicidade de viver com Ritinha. De ser pai. De encontrar tudo o que realmente queria. Clara ficou muito feliz por eles. E Alex estava chegando, faltava só duas semanas. Mau podia acreditar que aquele inferno de distância estava chegando ao fim.

__Bem meus amores. _ Disse Leninha.- Já é tarde. Precisamos ir. Vou deixar Clara na casa dela e vou para casa dos meus pais. Amanhã nos encontramos no estaleiro como combinado.

__Você está de carro?- Perguntou Ritinha.

__Não, vim com a minha moto. Estava morrendo de saudade dela.

__Não é perigoso. Está tarde?- Disse ela.

__Sempre andei a noite aqui, Ritinha. Mas tomarei cuidado. Clara não tem medo, nem poderia sendo filha do motoqueiro mais gato que conheço.-Riu de novo.

__Por favor, tomem cuidado.- Disse Ritinha.-

__Pode deixar. -Disse Clara.- Não deixo ela correr.- Depois das despedidas, se foram. A cobertura de Beto era perto. Não levaram nem 5 minutos para chegar, mas Clara teve a sensação de estarem sendo seguidas por um carro escuro. Quando elas entraram na garagem, Leninha disse:

__Quem era aquele cara? Você conhece?

__Qual?

__Aquele que estava seguindo a gente.- Olhou Clara apreensiva.- Pelo amor de Deus Clara, não me diga que não conhece o cara? Ele ficou encarando a gente. Parecia que queria até nos assustar. Será que queria roubar? Mas minha moto é velha, não vale a pena.

__Olhe, não sei. Eu achei estranho, mas não vi quem era. Vamos fazer o seguinte. Ligue para os seus pais. Diga que achamos meio tarde para você ir embora. Que você vai dormir aqui comigo. Pode guardar a moto com a do papai. Falamos o mesmo para os meus e para Yuri amanhã. Não queremos preocupa-los, mas você fica e nós duas ficamos mais tranquilas e seguras. Ok?- Leninha nem reclamou, estava com medo, nunca tinha sido seguida antes.  Clara ficou muito intrigada, mas não podia contar para ninguém, se isso chegasse até Alex, ele já acharia que era seu pai biológico. Mas o bandido estava preso, não estava?

No dia seguinte a visita ao estaleiro foi muito legal. Clara fotografou muito. Depois foram para a casa de Ben para almoçar e ir a praia. Mais fotos. Combinaram de jantar com Diana e o Ruivo. A noite terminou muito agradável para os primos italianos, Yuri e as meninas. Viram o talento do Ruivo nas telas e no jardim. Dessa vez Gigio já tinha alugado um carro, foi com o pai para o apartamento de Giu, enquanto ele deixava as meninas em casa. Yuri e Leninha estavam distraídos namorando durante a viagem, mas Clara viu o mesmo carro escuro com faróis azuis seguindo o carro de Giu. Achou que fosse coisa de sua imaginação, mas notou um amassado do lado direito que também tinha visto na noite anterior. Deixaram ela primeiro. Clara não sabia o que pensar, nem se devia contar para alguém. Na manhã seguinte, um sábado, encontraram-se no orfanato. Foi maravilhoso. Conheceram as crianças, a casa de Jorge, almoçaram juntos, foi o máximo. A noite jantaram na casa de Clara com Beto e Nina. No domingo, todos os falcões se reuniram no apartamento do Vovô Rodolfo, os Vogelmamn também vieram e os Fazzanos e Yuri e Leninha. Uma farra para a criançada. Foi tão divertido que Clara esqueceu o carro amassado que estava lhe intrigando. A noite, Yuri pegou o carro de Gigio e foi jantar com os sogros. Diana e Ruivo, convidaram os Fazzanos para ir ao cinema, Clara foi com eles.  Ela voltou a ver o carro, dessa vez resolveu agir, tirou uma foto da placa com o celular. Quando jogou o número na internet descobriu que era uma placa fria. Na segunda, tinham combinado visitar a escola de artes e a biblioteca que ficava na antiga casa azul, de Nina. Quando Yuri e Leninha se divertiam assistindo Liv dando aula, Clara olhou pela janela e o viu. Tomou um susto que até saltou. Disfarçadamente olhou em volta para ver se alguém tinha percebido. O casal ria das meninas, Nina e Alice conversavam sobre a aula. Liv estava muito ocupada com as crianças e Tia Lia e Tio Rick estavam numa reunião do conselho na Prestes de Medeiros. Se um deles estivesse ali, ela não conseguiria esconder deles. Nem do vovô Rodolfo, mas o velho falcão e todos os outros falcões, estavam no trabalho. Clara olhou pela janela novamente. Não podia ver o rosto, estava usando uma agasalho surrado, escuro com um capuz. Mas ela jamais poderia esquecer o jeito como se movia. Nem as mãos que agora seguravam algum objeto pequeno, parecia um… Ai! Deus! O coração de Clara disparou. Era um canivete. Suas mãos suaram, mesmo assim pegou o celular e tirou uma foto com cuidado.

__ E você Clara? – Perguntou Yuri.- Também é bailarina? – A aula das crianças tinha acabado. Estavam todas tirando suas sapatilhas. E Clara viu entrando pelo corredor, Ritinha com os Fazzanos.

__Ela dança muito bem.- Disse Alice.- Mas não gosta.- Riu.

__Eu gosto.- Disse Clara se afastando da janela.- Só não gosto tanto quanto vocês.

__Só por isso que não ficou tão boa quanto Liv.- Disse Alice.

__Alice tem toda razão.- Disse Liv sorrindo.- Podia dançar para nós hoje, querida?

__Agora?- Perguntou.- Mas eu nem trouxe minhas sapatilhas e nem me aqueci.- Nina a olhou com a famosa sobrancelha ruiva levantada.- Certo. Tudo bem.- Entrou na sala de Nina.  Foi ao armário de sua mãe, tirou uma malha vestiu rapidamente, colocou um velho par de sapatilhas suas que ficavam por lá, antes de sair, olhou pela janela da sala. Não viu o sujeito, mas  sentiu que ele ainda estava lá. Um pânico a atacou. Precisa se acalmar. Decidir o que fazer. E pelo menos por enquanto, não podia deixar ninguém perceber, principalmente Alex. Olhou seu anel. Se  ela não se acalmasse logo, ele ligaria em minutos. Ela pegou seu celular, tocou no dispositivo. Alex estava no Instituto. Ela precisava se acalmar antes que ele pudesse conferir seus batimentos cardíacos. Respirou várias vezes e saiu pendendo o cabelo num coque em cima da cabeça.

__Que bela!- Disse Giulliano.- Parece sua mama.

__Devo concordar Clara.- Disse Leninha.- Eu  não me lembro de já ter te visto vestida assim? Você sabe mesmo usar essas sapatilhas?

__ Que engraçadinha!- Disse provocando a amiga. Clara se concentrou, precisava se acalmar. Se não fosse perfeita, se não dançasse como sempre, sua mãe e suas professoras saberiam que algo estava errado. Precisava de tempo para pensar exatamente o que deveria fazer. Foi para a posição inicial de seu solo. Sua música começou a tocar. Moveu-se com cuidado, delicadeza, e força. Todas as terminações deveriam ser perfeitas. Se elas percebessem que seu coração estava apavorado, Alex seria prejudicado. Com certeza largaria tudo e viria para casa. Para protege-la. Sim para protege-la. Seu lindo nerd, largaria tudo pelo qual vinha lutando bravamente no último ano, para cuidar dela. Clara sorriu. Sabia o quanto aquele menino tímido podia ser poderoso quando a segurança dela ou de sua mãe estava em jogo. De repente se lembrou de Diana. Será que aquele monstro estava atrás de Diana também? Tinha que descobrir. Não poderia fazer isso sozinha, precisaria da ajuda dos falcões. Mas se o Ruivo soubesse de algo, cabeça quente como era, tudo estaria perdido no mesmo instante. Tinha que ter cuidado em escolher seus lutadores. Estava no meio de sua coreografia. Leninha estava de boca aberta. Não podia imaginar que Clara dançasse tão bem. Ritinha já tinha visto ela dançar, mas os primos e Yuri estavam maravilhados. Liv e Alice sorriam, Clara era muito boa, tinha o corpo para dança, embora fosse curvilínea. E Nina se martirizava por não conseguir fazer de sua linda filha, uma amante da dança. Clara se aproximava do final de seu solo pensando que se o patife estava nas ruas, Ben já deveria ou ficaria  sabendo logo. Precisava falar com ele o quanto antes. Mas como vigiar Diana sem assusta-la? Não podia pedir isso a Ritinha nas condições que ela estava. Neste momento, sentiu um par de mãos grandes e habilidosas em sua cintura. Não estava esperando por um parceiro. Por isso abriu os olhos e virou -se para ver quem era. O sorriso largo e carinhoso do mais alto e forte dos falcões, acalmou de vez seu coração. Jorge a levantou como se ela fosse uma pena e a fez cair leve e graciosa sobre as pontas. Depois a rodopiou como as bailarinas de caixinha de música. Em seguida terminaram a rotina com Jorge ajoelhado como um príncipe, segurando uma das mãos dela e Clara  em tendu, um movimento com as pernas esticadas e separadas com graça, um dos braços para o alto e o rosto voltado para a posição oposta a que Jorge estava. Todos aplaudiram de pé. Até as crianças.

__Não acredito que perdi isso?- Disse Ben sorridente.- O que Clara fez, mamãe?

__Ei!- Disse trombando nele de brincadeira.

__Não entendi? – Disse Yuri.

__Clara odeia dançar tanto quanto eu. Se está dançando é porque está de castigo. Com certeza fez alguma traquinagem.- Ele ria-. Quero saber o que foi? Deve ter sido uma das grandes. Você viu aquele jeté perfeito, Jorge?- Riam os dois.

__Ei!_ Disse Nina.- Que negócio é esse de dizer que balé é castigo?- Os dois se olharam. Jorge se voltou para as crianças.

__Dançar não é castigo. É uma benção. Eu amo. Sempre serei bailarino, mesmo que não dance todo dia.- E sorriu cutucando Ben.

__Ele tem razão, crianças.- Disse Ben.- Dançar faz bem a saúde e para a alma. E ter uma bailarina em casa é um presente único. Eu sou muito sortudo, tenho três.- Sorriu.- E antes de me casar já era muito sortudo, tinha duas. Maravilha não acham?- As crianças riram e foram caminhando para fora da sala. Liv chegou perto dele e disse:

__Se saiu bem com as crianças, meu advogado.- Beijou-o.- Quero ver como vai amansar sua mãe.- Riu.

__Muito bonito, Benjamin. Isso é coisa que se diga?- Nina estava brava.

__Desculpe, mamãe. Tem toda razão. Esqueci, que não estávamos sozinhos. É que quase nunca vejo Clara dançar em público.

__Agora a culpa é minha?- Disse ela provocando ainda mais.- Foi sua mulher e sua tia que me obrigaram, sem contar naquela sobrancelha ruiva.

__Ela fez a sobrancelha para você?- Fez cara de espanto.- O que você fez? Sua arte deve ter sido muito grande mesmo.- Riram os dois, pareciam dois irmãos pequenos, como as gêmeas de Ben. Ele a abraçou dizendo.- Você estava linda, docinho. – Ben a apertou firme em seus braços. Clara entendeu, ele já sabia. Tinha vindo avisa-la, protege-la. E trouxe Jorge com ele. Ben escolheu a melhor saída como sempre. Escolheu um dos mais calmos e maior dos falcão para ajuda-los. Jorge poderia vigiar Diana sem que ninguém percebesse, se fosse preciso, pelo menos até Alex chegar. Olhou os olhos cor de esmeralda de seu irmão lutador. Ele sorriu e disse:- Quando conseguir sair de dentro dessa mortalha, digo malha.- Riram.- Preciso que assine uns papéis para mim.

__Então veio ver tia Clara, papai?- Perguntou sua moreninha esperta.

__Sim.- Disse pegando ela no colo.- Coisa de advogado. Mas posso aproveitar para beijar duas fofuras lindas e uma mamãe professora maravilhosa também.

__E você, amor?- Perguntou Alice.- Não deveria estar no orfanato? Como aparece assim lindo descalço dançando com a bailarina fugitiva.- Todos riram.

__Eu fui a reunião do conselho. Vou aproveitar o encontro com o advogado para arrasta-lo ao orfanato para ver uns papéis. Já que ele precisava falar com Clara resolvi  vir beijar você e ….Alana se jogou em seu colo.- Opa! Oi minha linda. Gostou de me ver dançar com Clara.- A garotinha gesticulava muito contente.

__Sou obrigada a admitir, Clara. Você até parecia uma bailarina de verdade.- Riu.

__Mui Bela.- Disse Giulliano.

__Esse Alex é um sujeito de sorte mesmo.- Gigio.

__Eu que sou. _ disse Clara sorridente.

___Mas eu sou mais.- Clara ouviu a voz dele e procurou pela sala com o coração disparado. Então Giu ergueu o celular, mostrando Alex em uma chamada de vídeo.- Você dança muito bem, amor.- Sorriu.

__Ah! Giu. Você é mesmo muito carinhoso.- Disse Alice.

__A ideia foi de Ritinha.- Se defendeu.- Achei que Alex gostaria de ver o show. Porque foi um show.- Sorriu.

__Obrigada.- pegou o celular de Giu e caminhou mais a frente.- Oi amor, gostou? Faz tempo que não danço assim.

__Estava linda. Você é linda.- Respirou.- Clara, você está bem, amor?- Ele percebeu alguma coisa.

__Sim. Porque? Aconteceu alguma coisa?

__Não. É só que…Seu coração. Não sei, tive a sensação que…- Ele respirou, balançou a cabeça.- Não é nada, amor. Você estava dançando linda, e eu é que sou paranoico. Graças a Deus que isso está acabando.- Sorriu.- Como está a visita dos primos e Yuri ao Brasil?- Os dois riram.

__Ai Alex. Eles são loucos. E você, não tem aula agora?

__Tenho. Não vou poder ficar mais olhando você, tenho que ir.- Olhou-a.Parecia sentir alguma dor.- É tão difícil deixar de te olhar.- Ela riu.

__Não diga? Gostou dessa minha roupinha, foi?- Riram.- Vai meu lindo. Nos falamos mais depois, tá? Te amo.

__Eu também, minha linda. Beijos.- Desligou. Clara devolveu o aparelho para Giu, entrou na sala de sua mãe trocou de roupa rapidamente. Quando abriu a porta, Ben e Jorge a esperavam.

__Clara, podemos entrar?- Disse Ben.

__Sim. – Eles entraram e ela trancou a porta. Eles repararam e a olharam em entendimento.- Ele está me seguindo.

__Como?- Disse Jorge. Ela olhou Ben.

__O tal Lothar. Ele vem me seguindo desde que Leninha chegou. Quer dizer eu não vi antes. Mas no dia que jantamos juntos na casa do Giu, ele nos seguiu até em casa. Eu não tinha visto que era ele. Mas depois tive a impressão que era ele. E hoje..

__Hoje?- Disse Ben.- Você o viu, hoje?

__ Sim.- Mostrou a foto no celular.

__Quando foi isso?

_Um pouco antes de dançar. Eu o vi lá embaixo, do outro lado da rua. Foi por isso que você veio não foi? Avisaram você que ele saiu da cadeia?

__Ele fugiu.- Disse Ben.- Houve uma fuga, no presídio a alguns dias. Não tinham dado pela falta dele, até ontem. Me avisaram de manhã. Eu ia avisar o Ruivo, mas resolvi falar com Jorge primeiro.

__Diana, tem ficado até um pouco mais tarde, por causa da gravidez de Ritinha.- Disse Jorge.- Acho que devemos contar ao Ruivo. Vou cuidando dela é claro, mas quando souber que não falamos para ele, ele vai ficar furioso. E com razão, ele tem esse direito.

__Diana também tem. Mas não sei se devemos assusta-la assim.- Ben estava certo.

__Dalia vai ficar sabendo, se ainda não sabe. O que fazemos? Pedimos para ela não contar?- Disse Jorge.

__Eu ia pedir. – Disse Ben.- Pelo menos até Alex voltar. Isso pode atrapalhar o garoto. Mas depois do que Clara disse, não sei se devemos esconder isso dos falcões. É muito sério. Se ele está seguindo Clara, é porque está procurando algo. Se quisesse pega-la, teria aproveitado quando estava sozinha com Leninha.

__Verdade. E Diana é esperta, se ele a estivesse seguindo, ou alguém estivesse, ela teria percebido.- Disse Jorge.- Talvez não contasse de cara para o Ruivo, mas tenho certeza que teria me dito.

-__Ele quer Alex.- Disse Clara pálida. Eles a olharam.- Ele quer se vingar dele. Não quer me pegar, ou Diana, quer saber quando Alex vai chegar.-Correu para seu irmão. Os olhos se encheram de lágrimas.- Alex o enganou. Depois o denunciou. Ben, ele vai machuca-lo!- O ar lhe faltou.- Não deixe Ben, por favor?- Ela começou a tremer. Ben a abraçou. Ela tinha razão. O bandido tinha escapado e queria pegar o garoto que o colocou na prisão. Queria se vingar dele. Ben olhou Jorge e a essência dos falcões aflorou nos dois.

__Não se preocupe, docinho. Não vou deixar que ele machuque Alex.- Ela começou a chorar.

__Não chore, minha loirinha.- Disse Jorge.- Alex está bem, está protegido. E vai continuar assim. Os falcões vão cuidar disso. Vamos fique tranquila.

__Tem razão.-Ela respirou fundo, soltou o ar com calma, depois de novo.- Preciso me acalmar, se não Alex saberá. E se souber voltará  antes de poder fazer isso.

__Como Alex saberá?- Ben ficou intrigado.

__Ele pode contar meus batimentos cardíacos. Se desconfiar que estou nervosa ele…

__Como ele pode fazer isso?- Perguntou Jorge.

__Ele fez um dispositivo, que conta meus batimentos, e transmite minha localização. É assim que ele sempre sabe onde eu estou. Quando estivemos na Alemanha ele me deu um para saber onde ele está também.- Pegou seu celular e mostrou os batimentos de Alex e a localização dele.

__Esse garoto é um gênio.- Disse Jorge.

__É mesmo. Isso vai fazer muito dinheiro.- Disse Ben. Olhou Clara.- Ele já vendeu esse projeto, né? Por isso, não veio com os primos. Está negociando. Tem que ficar lá até dia 12, para assinar o contrato?

__Sim. Todo o trabalho dele está em jogo. Ele não pode voltar antes disso. Não é justo. Mas se ele souber que esse monstro está a solta, vai voltar na hora.- Ficou em silêncio.- Cachorro! É isso que ele quer! Que eu fique com medo, e traga Alex para ele.- Olhou os falcões.- Precisam me ajudar.

__Claro.  – Disseram juntos.

__Vamos para o orfanato.- Disse Clara.

__Porque? – Perguntou Jorge?

__Falar com Diana.

__ Tem certeza?- Disse Ben.

__Sim.- Clara foi firme.- Ligue para o Ruivo, diga para ele nos encontrar lá. Não contem nada para as meninas ainda. Mas vamos precisar de todos os falcões.-Jorge ligou para seu pai. Ben para o Ruivo e para seu avô. Saíram da sala dizendo que precisavam ir ao orfanato, os Fazzanos e Yuri quiseram acompanha-los. Para não chamar atenção, deixaram. Lá Clara chamou Diana para casa de Jorge. Todos os falcões foram chegando e estranhando a reunião. Então Rick e Lia chegaram.

__Tia Lia?- Ela olhou Clara.

__Acho que chegou a hora de retribuir o bem que o anjo de olhos cor de água me fez. Não é?- Todos pareceram surpresos.

__Aconteceu alguma coisa com Alex?- Perguntou Diana aflita.- Ruivo você está sabendo de …- Ele a abraçou.

__Não minha flor, calma. – Olhou Ben com fogo nos olhos.- Diga  logo o que está acontecendo, pelo amor de Deus.

__Fiquem calmos.- Disse Lia.- Precisam agir com calma, todos vocês. – Olhou Clara.- Eu li no jornal que houve uma fuga de presos no presídio do Cantão.

__E o que isso ….- Dizia Beto.

__Ai meu Deus!- Disse Diana.- Aquele monstro fugiu! Era lá que ele estava, não era Ben? Ai meu Deus!- Ruivo a apertou mais. Olhou Ben.

__Porque não me disse antes? -E Ben.

__Porque só soube hoje.- Clara chegou perto de Diana.

__Diana, precisa se acalmar.  Tente se controlar, por favor. Sei que tem seus motivos, mas se não ficar calma, Alex saberá.- Diana a olhou. Abriu mais os olhos.

__Você o viu! Ele tentou machucar você outra vez?

__O que? – Disse Beto.

__Beto!_ Disse Vovô. _ Fique calmo. Não aconteceu nada. Sua filha está bem. Não vê. Fiquem em silêncio, todos. – Olhou Diana.- Moça bonita. Clara tem razão. Precisa se acalmar e escutar o que eles tem para nos dizer. Se não Alex será prejudicado. Se o menino achar que estão em perigo, ele virá embora, e todo o seu projeto será protelado. Beto, tenha calma. Clara, explique o que está acontecendo.

-__Sim. A alguns dias tive a impressão de ser seguida. Eu estava com Leninha.- Olhou Leninha.- Lembra?

__Sim. Um carro um pouco amassado, né?

__Isso. Depois eu vi o carro outras vezes. Então tirei uma foto da placa. Fiz como Alex me ensinou e procurei na rede. A placa é fria. Hoje porém, vi um sujeito a distância. Estava com roupas escuras e com um agasalho com capuz. Ele estava do outro lado da rua da Escola de dança. Tirei essa foto com o celular. _Mostrou.- Não da para ver o rosto direito.

__Se você não viu o rosto, como sabe quem era? _Perguntou Gigio, totalmente envolvido com a história se sentindo da família. Clara respirou, precisava ficar calma.

__ Eu vi as mãos, ele brincava com um canivete.

__Ai meu Deus!- Disse Diana.- Desculpe. Desculpe.Desculpe. Eu…

__Ei!- Disse Clara segurando as mãos dela.- Desculpar o que? Não foi culpa sua.

__Ele não teria entrado na sua vida se não fosse por mim.

__Nem Alex! Diana, se você não tivesse entrado em nossas vidas, eu não teria Alex.

__E eu poderia ter perdido Alana.- Disse Jorge.

__E eu, Liv, e toda a minha vida.- Disse Ben.- Diana. Sem você eu não teria minhas filhas. E nem poderia ver meu irmão feliz, completo, como pode imaginar que seria melhor que você não tivesse entrado em nossas vidas?

__Diana.- Disse tia Lia.- Você é a vítima. Mas é forte. Não foi vencida pela dor. Como eu.- Sorriu.-  E como eu, foi recompensada. Ganhou um filho maravilhoso que te ama e se preocupa muito com você. Um filho capaz de deixar tudo para proteger você e a mulher que ele ama.- Tia Lia era mesmo imbatível.- Diana esse sujeito, não quer Clara, ele quer apenas usa-la, para chegar a Alex.

__Diana, entende porque precisamos ficar calmas?- Disse Clara.- Se Alex perceber alguma coisa, ele virá.

__Precisam se controlar ao falar com ele, então, pelo menos até pegarmos esse idiota.. _ Disse Beto.

__Não vai ser suficiente.- Disse Diana respirando, devagar. Olhando nos olhos de Clara. Passou a mão na gargantilha.- Ele sabe quando não estou bem.

__Que belo. O Bambino sabe quando sua mama, não está bem.- Giulliano estava emocionado.

__Sim, papa. Mas não é só isso.- Disse Giu e olhou Clara.

__O que Giu quer dizer?- Rick perguntou para as duas.- Como Alex sabe como vocês duas estão se sentindo?

__É o projeto dele, não é?- Disse Lia.- Ele criou algum dispositivo com essa capacidade? Alguma coisa que pudesse avisa-lo quando vocês não estão bem?

__Alguma coisa que conte os batimentos cardíacos de vocês?- Disse Rick.

__O anel! – Disse Rodolfo.-  Ele colocou um dispositivo rastreador no anel que te deu. Por isso você não estava com ele na viagem. E na gargantilha de Diana.- Olhou Diana.- Você também não estava com ela durante os voos. Deve atrapalhar os instrumentos.- Diana olhou Clara.

__É assim que ele faz? Sei que faz isso, mas não sei como.- Clara sorriu e balançou a cabeça.

__Ele colocou um componente que conta seus batimentos cardíacos na sua gargantilha e um no meu anel, ele tem um chip no celular que recebe um sinal, assim ele sempre sabe onde nós estamos e como esta nossos corações.-Sorriu.- Ele não quis invadir sua privacidade, mas não conseguiria ficar tanto tempo longe de você sem saber que está bem. Ele nunca se afastou de você, Diana. A mãe que ele tanto ama e valoriza.- Diana chorou.- Diana precisa se acalmar. Se não,  em menos de um segundo…..- O telefone de Diana tocou. Elas se olharam. _

__Não posso mentir para ele, Clara. Ele me conhece, saberá.

__Precisa atender. Se não atender ele vai buscar sua imagem pelo satélite. Vai descobrir que estamos todos aqui.- Disse  Clara. O novo toque parecia ainda mais aflito. Jorge pegou o telefone e atendeu.

__Oi garoto.- Todos ficaram em silêncio.

__Oi, Jorge. Tudo bem?

__Sim. Quer dizer mais ou menos.- Riu.- Atendi, porque Diana está no banheiro. Sabe se sua mãe tem alergia a algum alimento?

__Não. Porque? Ela não está bem?

__Não sei direito. Ela já está lá a algum tempo. Estávamos provando uns produtos doados, Ritinha não pode por causa do bebê, sobrou eu e ela. Mas acho que está bem sim, ela estava rindo, acho que comeu doce além da conta, ela quase nunca come doce. Por favor, não conte ao Ruivo? Ele vai me matar?- Alex riu.

__Certo. Quando ela estiver melhor,  pode pedir para ela me ligar, por favor?

__Claro. Talvez demore um pouco. -Riu e Alex também.

__Ok. Estou entrando em uma reunião agora. Diz para ela ligar quando estiver em casa, então. Por favor? Obrigado, Jorge…..Jorge, vocês estão todos bem, mesmo, né?

__Sim. Olhe o Yuri e os Fazzanos estão chegando com as meninas, quer esperar um minuto e falar com Clara?

__Quero! Muito! Mas não posso. Diga que deixei um beijo. Sim? Obrigado. Tchau Jorge.

__Tchau, garoto. Boa reunião.- Olhou Clara.- Achei que ele podia ver que você também estava aqui.

__Você foi genial, Jorge.- Abraçou seu primo.- Obrigada. Ele não pode saber. Não por enquanto. Essa reunião é muito importante, está vendendo seu invento. Vai conseguir uma bolsa de estudos, talvez até um emprego. O futuro dele está em jogo. Ele não pode vir agora. Fez tanto esforço para chegar a esse ponto, não pode desistir de tudo assim.

__E se os investidores já viram o produto. -Disse Yuri.- Ele não pode vir sem concluir as negociações. Poderia perder direitos importantes.

__Mas se ele souber que vocês estão correndo algum risco, virá, Clara tem toda razão.- Disse Rick.- A primeira providencia então é com vocês duas, precisam manter a calma.

__A segunda é achar esse desclassificado.- Disse Beto furioso.- Devíamos ter arrancado o couro dele da última vez.

__Na verdade, Beto.- Disse Lia.- Não será preciso. Ele já conseguiu o que ele queria. Talvez nem procure mais Clara. E se fizer, será só mais um meio para assusta-la ainda mais. Provavelmente vai voltar a se esconder, pelo menos até Alex chegar.

__Tia Lia. Acha que ele vai atacar Alex?- Perguntou Ritinha. Quer dizer ele é o….-Ritinha parou olhou Diana e o Ruivo.- Desculpe, não quis dizer isso, foi bobagem minha. Mas é que Alex é tão querido, tão generoso, tão carinhoso, como alguém pode querer machuca-lo?

__Ainda mais alguém que deveria  ama-lo, né?- Disse Diana.- Meu pobre menino. Sempre preocupado em me proteger, em saber onde eu estou para cuidar de mim, agora sendo cercado por um bandido.- Olhou Clara, ela ergueu o queixo e disse:

__Diana. Esse sujeito não vai machucar Alex. Não vai! Eu não vou deixar.

__Nem eu.- Disse Ben.

__Nem eu.-Disse Jorge.

__Nem nós. – Disse Giu, ele Gigio e Yuri se levantaram. O Ruivo sorriu.

__Dona Diana.- Disse Giu.- Tenho rezado para que Deus me abençoe com um filho amoroso e corajoso como o seu. Ele é um amigo valioso. Minha Bela já tinha me dito, e embora eu já tinha visto do que ele era capaz, não podia imaginar o tamanho daquele coração. Quando soubemos que Bela estava grávida, eu fiquei muito feliz, mas minha primeira esposa também ficou grávida antes de toda aquela tristeza acontecer. O pavor foi tomando conta de mim. Ritinha sabia do anel de Clara e comentou comigo tentando me acalmar. Depois de um pesadelo, liguei para ele desesperado, para que fizesse um dispositivo para Ritinha. Estava disposto a pagar qualquer quantia. Ele simplesmente me disse onde tinha deixado o primeiro protótipo que fez para sua gargantilha. E em dois minutos  baixou todos os comandos para o meu notebook. Eu perguntei se ele não teria problemas com seu contrato, ele disse que os produtos tinham componentes diferentes. Simples assim. Quando eu lhe perguntei o preço, ele disse que eu já tinha pago ao lhe contar a novidade antes de todos. Ele me deu o invento dele, que vale milhões. E não queria cobrar nada. Só porque me viu apavorado, por  eu não saber se Bela estaria bem fora da minha vista. Ele tirou toda a angústia que eu estava sentindo em menos de cinco minutos. E ainda me deu um bônus.- Tirou seu celular do bolso.- Veja, este é o coração de Bela, e esse batendo rápido e forte, é o coração do meu filho.- Os olhos dele rasas d’água,- Sei que só tem este filho, e eu só tenho um irmão de sangue, mas desde este momento, eu sou irmão de seu filho. Lutarei por ele, como lutaria por Gigio. Não vou permitir que ninguém machuque Alex.- Gigio parou ao lado do irmão emocionado.

__Dona Diana. Nada que faça, vai pagar o que Alex fez pelo meio irmão. O que ele fez por nós. A senhora tem mais dois filhos agora.

__Três.- Disse Yuri. Diana sorriu para eles. Sabia que seu filho merecia todo aquele carinho.

__Vê, meu amor.- Disse Ruivo carinhoso.- Nosso menino não está sozinho. Tem muitos falcões lutando por ele. Todos os de sangue e vários por opção. Nenhum desses falcões permitirá que aquele covarde machuque nosso filho. E tem mais, Alex não é mais um menino indefeso. Ele é um homem,  um falcão poderoso, valente e inteligente. Ele já enganou aquele idiota uma vez, se for preciso pode vence-lo, não tenho dúvida. Confie nele, amor.- Neste momento Dália chegou a casa de Jorge junto com Xande e Cunha, entrou e abraçou a irmã:

__Ben já te contou, né?

__Sim.- Xande chegou perto dela como um pai e disse:

__Não se preocupe, meu raio de sol. Nada vai acontecer com você, nem com Alex.

__Já avisei no departamento.- Disse Cunha.- Estão todos de olho.- Ruivo sorriu.

__Mais dois.- E Lia disse:

__Acho que ele não vai procurar Diana. Ele vinha andando atrás de Clara, mas parece que era para amedronta-la, na verdade ele está atrás de Alex.

__Por causa da última vez que foi preso?- Perguntou Cunha.

__Parece que sim.- Lia parecia um pouco incerta agora.

__O que foi amor? Alguma dúvida?- Perguntou Rick. A habilidade de analisar uma situação de Lia era famosa.

__Que ele está atrás de Alex é certo. Mas essa história é meio esquisita. Falta algum elo. Ele fugiu da cadeia, porque estaria se mostrando para Clara, correndo o risco de ser reconhecido? Porque não veio atrás de Diana nenhuma vez? Ou atrás do Ruivo?  Ou de Ben o advogado que seria facilmente encontrado. Ele sabia que Alex não estava no país? Como? A fuga foi a vários dias, porque começou andar atrás de Clara só agora?

__Por causa de Leninha. – Disse Clara.- Ele sabia que Leninha estava de volta.- Olhou sua tia nos olhos.

__Desculpe.- Disse Leninha.- Mas eu não conheço esse homem. Nunca o vi. Na verdade só entendi que ele é o pai…- Parou.- O pai biológico de Alex.  Eu não sei nada sobre esse cara. Só sei que ele atacou Clara, por causa do sinalzinho que ela tem no pescoço. Eu vi, fiquei curiosa  e ela me contou. Porque esse cara estaria atrás de mim?

__Ele não estava atrás de você Leninha.- Disse Giu.- Só queria saber se Alex realmente ainda não tinha vindo.

__E.- Disse Tio Rick.- Como ele sabia que você ia chegar?- Lia e Clara ainda se olhavam. Algum entendimento estava passando pela cabeça de tia Lia e Clara precisa da informação.

__Diga tia.- Disse ela.- Por favor? O que acha que está acontecendo realmente.- Lia fechou os olhos. Respirou fundo, e os abriu. Olhou seu marido, depois vovô Rodolfo.

__Fale meu anjo.- Disse ele.

__Lothar não teria como encontrar Alex, ele não está no país. O mais provável é que procurasse Diana. Ela poderia dar as informações sobre o paradeiro de Alex.  Mas ele não iria a escola, por causa do Ruivo e dos seguranças que ele já conhece.  O  lógico, seria vir procura-la no trabalho. Mas ele não veio aqui. Prova que ele sabia que aqui também encontraria outro falcão guardando Diana.  Isso mostra que ele não queria topar com os falcões.- Olhou seu filho.- A outra fonte de informação seria Clara. Ele não entraria no seu prédio. Imaginando que ele a seguiu de casa, teria sido mais fácil acua-la na escola de gastronomia. Ele fugiu a quase 15 dias, porque não foi a escola enquanto Clara ainda tinha aulas?

__Ele sabia que eu estava buscando ela  e que Senhor Praxedes a pega dentro da Prestes de Medeiros.- Disse Beto.- Talvez tenha tentado algum dia e me viu por lá. Então não chegou perto dela.

__Uma ótima conclusão Beto.- Disse Lia.- Ele não falou com Clara, mas mesmo assim, estava do lado de fora do apartamento de Giu, esperando as meninas saírem. Interessante que nem Cunha, nem Xande, nem Dalia viram nada estranho aquela noite. Se houvesse um sujeito suspeito por perto, Cunha teria percebido. Ele estava bem escondido, até elas chegarem num ponto que pudessem estranhar a presença dele, mas nenhum dos falcões pudesse pega-lo. E tem outro ponto, Clara sempre vem a escola de dança, porque só hoje ele veio ronda-la?

__Porque eu e você não estávamos na escola. – Disse Rick.- Ele sabia que estivéssemos lá ela nos contaria. Correria o risco de descobrirmos o que ele queria fazer.

__Desculpe.- Disse Giulliano.- Eu não estou conseguindo entender, stampa.

__Nem eu.- Disse Beto.- O safado queria assustar Clara, mas não queria pega-la. É isso?

__Sim, filho.- Disse Rodolfo.- Ele queria assusta-la e com isso enlouquecer todos nós e forçar a volta de Alex para prejudicando-lo.

_É nesse ponto que entra a minha dúvida.- Disse Lia. Ela fez um pequeno silêncio. Estava juntando argumentos como era próprio de seu raciocínio lógico. Então encarou Clara.- Lothar é um bandido. É movido a dinheiro. Se quisesse tirar dinheiro de nós, já teria ameaçado Clara, ou Diana, porque está esperando Alex?

__Porque está com raiva dele?- Disse Yuri.

__Verdade. Ele tem raiva de Alex que causou sua prisão. Mas Lothar tem pouco tempo. A polícia está procurando os fugitivos. É um patife, mas não é bobo. Precisa se esconder, fugir para longe. Não pode ficar por aqui muito tempo. Sabe dos contatos de Dalia e de Cunha. Sabe do poder do Vovô Rodolfo e dos conhecimentos de Ben. Ele já enfrentou essas forças antes, sabe que não pode vence-las. Porque está esperando?

__Porque ele quer pegar Alex.. Mas precisava saber exatamente quando ele estaria aqui. Para isso precisava ter informações precisas.- Disse Vovô Rodolfo.- É isso anjo? Você acha que tem mais alguém envolvido nessa história? Alguém que daria as informações para prejudicar Alex, alguém que não goste dele.

__Mas Alex é um doce.- Disse Dalia.- Não tem inimigos.

__Na verdade. -Disse Giu.- Tem um.- Um silêncio correu a sala.

__Eu mato esse cachorro! – Disse Clara.

__Calma Clara!- Disse Rick.- Não temos provas.

__Não temos provas? Como esse Lothar sabia que Alex não estava no país? Ele estava preso, não acho que tinha essas informações. E como sabia onde me encontrar esses dias? – Clara parou olhando fixamente para Lia.- Espere! Tia…..- Fechou os olhos e se concentrou, como Lia tinha lhe ensinado.

__Pense com calma.- Disse Lia com a voz tranquila.- Tente se lembrar. Em algum momento falou de Alex em algum lugar público? Ou no telefone..- Clara abriu os olhos rápido.

__Com Leninha! Falei no dia da chuva que alagou o túnel Rua Saturno, com Leninha pelo telefone. Estava esperando papai chegar. Eu estava debaixo da marquise na entrada da frente. Falei o dia que Leninha chegaria, que os primos ficariam com Giu, que Alex não podia vir antes por causa do projeto e o dia que ele chegaria. Eu achei que estava sozinha do lado de fora.

__Querida.-Disse Lia.- Precisa forçar um pouco mais. Tinha alguém lá? Ou no estacionamento, ou por perto que pudesse ouvir você.

__Tinha um carro com um dos lados amassados e com farol baixo meio azul, estacionado perto da lixeira.- Disse Beto.- O vidro do passageiro estava um pouco aberto e estava chovendo. Não tinha ninguém dentro, por isso chamou minha atenção.- Lia sorriu para ele.

__Muito bem, grandão.- Olhou Clara.- Minha linda. Lembra se tinha alguém?

__Eu não me lembro tia. Estava distraída com Leninha e a chuva.

___Certo deixe -me tentar ajuda-la.- Lia se concentrou.-  Feche os olhos Clara. Na frente da Menu, tem uma porta larga que abre no meio para os dois lados. Do lado esquerdo fica o alambrado  do estacionamento com saída para a rua lateral.  A marquise onde estava  deve ter uns 3 metros , depois tem os degraus são 5 largos, do lado direito a parede de tijolos continua até um corredor com um portão alto de madeira pintado de branco. Tem um espaço entre o portão e a parede e dois vasos grandes de gerberas.

__Tinha alguém lá, tia!- Disse Clara no susto.- Estava chovendo, entrei rápido no carro, mas tinha alguém ali. Não vi quem era, mas era homem e não muito alto. A maioria dos alunos já tinha ido embora, e só quem sai por aquele portão são os chefes que sempre estão de branco. Não era nenhum deles.

__Tem certeza?- Disse Rick.-Se o Lothar estava te rondando na escola, no dia dessa chuva, isso foi logo depois que fugiu, se ele ouviu seu telefonema, pode ter criado esse plano louco para assustar você?

__Sim. Mas tinha outra pessoa lá. Dentro da escola. Ele passou pela porta quando o carro do papai fez a curva. – Olhou sua Tia.-

__A moto envenenada estava do outro lado do alambrado.- Disse Beto.- Eu mato esse Vincenzo!- Levantou-se furioso. Rick e Jorge entraram na frente dele.

__ Beto! Pare!- Disse Rick tentando segura-lo. Ben, parado com as duas mãos no peito do Ruivo dizia:

__Não! Você tem que se controlar.- A fúria tomando conta do Ruivo.- Pense em seu filho. Em sua mulher. Precisa se acalmar, Ruivo.

__Eu quero arrancar as cabeças deles.- Disse baixo, aterrorizante.

__Ruivo está assustando sua mulher. Seu filho será prejudicado.

__Deixei você cuidar disso da outra vez. Dessa vez eu vou mata-lo.

__Não!- Disse Ben firme.- Você não vai mata-lo. Ele vai voltar para a prisão. E Vincenzo vai ter o que merece também. Olhe para mim Ruivo! Precisa se controlar.- Diana estava abraçada a Dalia, Xande mantinha os braços sobre as duas. Lia olhou Clara e disse:

__Esperem! Não sabemos exatamente o que aconteceu. Clara acha que viu Lothar perto na Menu, Beto acha que viu o carro amassado, Clara acha que Vincenzo estava atrás da porta e ouviu sua conversa, Beto acha que viu a moto no estacionamento. Mas nada disso prova nada. E Lothar não fez nada também. Se pressionarem, ele pode dizer que esta arrependido que quer se desculpar, que quer se aproximar do filho e aí? O que farão?

__Prende-lo outra vez? – Disse Beto

__Sim, mas ele pode fugir de novo.  E será sempre esse desespero. Dessa vez temos que fazer diferente. Ele precisa achar que cruzar o caminho de Alex outra vez será um erro para ele.

__Se me der cinco minutos com ele, tenho certeza que ele saberá.- Beto não conseguia se acalmar.

__Beto!- Disse Ela.- Controle-se. Sua filha precisa de você. Você conseguiu se lembrar de tudo o que viu aquele dia, isso foi muito importante para ajudar Alex. É desse Beto que precisamos agora. Deixe seus músculos para a acadêmia. Preciso que me diga se lembra o modelo do carro e a cor, para que Cunha possa procurar-lo. Clara disse que a placa é fria, então precisamos de outros detalhes.- Olhou Ruivo.- Ruivo, precisa manter Diana calma, só você vai poder fazer isso.

__Ele está tentando machucar meu filho outra vez, tia. Eu avisei que ele iria se arrepender se chegasse perto dele de novo.

__Ele vai querido. Eu juro.- Lia disse firme. Sem lugar para dúvida.- Ruivo, Alex vai querer falar com  vocês dois mais tarde. Ainda não teremos conseguido controlar essa situação. E Ele ainda não pode voltar. Você e Diana terão que engana-lo. Terão que fazer isso até quinta feira.- Ruivo olhou a chorosa Diana. Sua tia tinha razão, precisava mostrar sua força. Soltou o ar com força e caminhou para Diana, tomou-a nos braços.

__Certo, tia. Espero que saiba o que está fazendo.- Ela sorriu.

__Não gosto de mentir, nem de enganar, e odeio a violência. Mas esses dois mexeram com minha família, com meus sobrinhos. Esse Lothar pensa que pode nos intimidar, mas está enganado. E se Vincenzo, se aproveitou de uma situação que ele desconhece para se vingar de Alex, é um tolo.

__Acha que é isso Tia?- Disse Clara.

__Isso o que?- Disse Giulliano.- Ainda não entendi?

__Lothar fugiu da prisão, pensou em assustar Clara e conseguir um dinheiro para ir para longe. Foi a escola, mas não conseguiu falar com ela, Beto chegou, e é um covarde, não enfrentaria Beto nem com sua famosa faca. Vincenzo escutou Clara falando com Leninha, queria se vingar mas não sabia como.  Pode ter visto o estranho rondando a escola, o interpelou  e descobriu que o cara estava atrás de encrenca. Acabou ligando ele com Alex e Clara, pode ter dado as informações para Lothar assustar Clara, para que Alex voltasse e perdesse seu negócio. Ou quem sabe ainda para que assustasse Alex na frente de Clara para humilhar o menino. Não acredito que Vincenzo entenda que Lothar é um bandido de verdade, ainda deve estar cego pelo despeito. Seja como for, ele está ajudando um fugitivo. E se for mesmo assim, está sendo cruel, merece pagar pelas consequências.- Todos olhavam Lia, com a admiração de sempre. Mas Giulliano, Yuri  e Gigio estavam sem palavras. Ela havia juntado todas as peças em segundos, e continuou.-  Lothar tem agora informações importantes. Sabe que Alex está chegando e tem condições de oferece-lhe dinheiro também. Além disso, Alex tem conhecimentos interessantes para qualquer criminoso. E é muito valioso para essa família. Lothar acha que tem duas opções, ou pega Alex e o troca por uma soma bem alta, ou fica com ele e o obriga a ajuda-lo em seus crimes. Em qualquer das opções, precisava esperar Alex  voltar e preparar uma armadilha para ele. Só que está ficando sem tempo, a polícia está procurando por ele. Por isso tentou assustar Clara, para obrigar Alex a vir antes.

__Eu insisto tia Lia.- Disse Cunha.- Por favor entre para a polícia?- Todos riram.

__Eu acho que a senhora deveria governar esse país.- Disse Yuri.- Com essa inteligência seria imbatível.

__Já tenho muito trabalho nessa família.- Disse ela. E riram outra vez.

__Acha mesmo, que aquele pulha, não queria machucar Clara, tia Lia?- Disse Diana.

__Olhe Diana. Lothar é mau. Acho que no começo ele só queria dinheiro para fugir. Se tivesse conseguido já teria ido. Mas agora ele sabe que Alex esta fora, que está voltando com um projeto vendido. Não sei exatamente o que ele quer, mas seja o que for, ele quer com Alex. Talvez até queira tentar alguma coisa ruim, não vou te enganar, mas não vamos deixar. Sabe que lutaremos por Alex. Já Clara, não corre perigo real, nem você. Mas precisamos ter cuidado, se tentarmos acua-lo ele pode reagir muito mal. Da última vez, cortou o pescoço de Clara.

__Então, o que faremos?- Perguntou Diana. Lia sorriu.

__Vincenzo.

 

Falcão por opção

Capítulo 17

Vincenzo tinha ficado muito curioso e preocupado com o que tinha acontecido com Leninha. Quando deixou o Castelo, enxotado pelos Medeiros, ficou furioso com tudo e com todos. Nem respondeu as mensagens da podre Leninha, que estava apavorada com a desinformação que se encontrava com respeito ao seu trabalho. Vincenzo sabia que Leninha  vinha arrastando uma asinha para ele. Mas muitas meninas estavam na mesma. Ele nunca tinha se importado com isso. Mas Leninha era uma boa amiga. Era divertida, bonita, gostava de motos e cozinhava muito bem. Depois de uns dias sentiu remorso por tratar assim a amiga roqueira. Foi quando viu as fotos do Baile Eltz. Tratavam Leninha como a namorada de Yuri, mas Vincenzo sabia que ela estava apaixonada por ele. Então isso devia ser especulação jornalística. E tinha visto até a doce Ritinha nos braços de Giu como se fossem apaixonados. Fotos  podem mesmo ser manipuladas. Mas Clara e Alex aos beijos no jardim devia se mesmo verdade. Ficou morrendo de ódio. Não respondeu as mensagens de Leninha. Não deu o endereço da Cantina de seu primo. Nem explicou que ele havia se enganado e que ela não iria trabalhar no lugar da sub-chefe que ia se casar. Ela iria trabalhar como sub-chefe no restaurante da empresa de consultoria onde um dos consultores se casaria com uma chefe de cozinha. Em resumo, ele não levou Leninha,  então precisou cobri-la. Trabalhou feito um escravo todos os dias desde que saiu do Castelo. Serviu almoço no lugar de Leninha durante toda semana folgando apenas no domingo, e serviu o jantar na Cantina de seu primo todas as noites, folgando nas quartas. Nunca tinha trabalhado tanto. Quase perdeu o voo de volta de tão cansado que estava. Não viu nem Clara nem Leninha no avião. Mas também dormiu toda a viagem. Estranhou que Leninha não aparecesse na aula no primeiro dia. Depois ela não voltou mais. Então se sentiu muito culpado. O que teria acontecido com ela? Depois da conversa com Clara, achou que talvez Ritinha pudesse ajuda-lo. Resolveu espera-la perto do ponto de ônibus do  orfanato. Tomou um susto quando a viu sair linda com os cabelos soltos toda arrumada e caminhar sorridente para  um Alfa Romeo cinza poderoso. Teve outro susto maior ainda, quando viu Giu sair do carro, passar o braço na cintura dela e beija-la. Não pode ouvir o que diziam, mas seja lá o que for, fez a pequena corar e o italiano rir. Entraram no carro e se foram sem nem perceber um cabeludo boquiaberto do outro lado da pista. Voltou para seu apartamento muito confuso. O que teria acontecido nessa viagem depois que eles se separam? Fez o que qualquer um pode fazer hoje em dia. Procurou na internet pelo nome de Giócomo Fazzano, Engenheiro. Achou  fotos da construtora, de construções, dele com o pai e o irmão, com a falecida esposa e com a nova esposa. Ritinha toda linda, vestida de noiva com o por-do-sol do mar do norte no fundo e Giu ajoelhado em sua frente beijando a mão dela com a aliança.

__Não acredito! Eles se casaram. Mas como….? -Procurou mais e descobriu que a construtora dele estava construindo o novo estaleiro. Então eles estavam morando na cidade a dois meses. Precisava falar com Ritinha, queria notícias de Leninha. Dois dias depois, voltou a porta do orfanato. Ritinha saiu igualmente linda, mas desta vez o viu. Fechou a cara e Giu saiu rápido do carro.

__O que foi, Bela mia?- Disse trazendo ela para perto de seu corpo todo protetor. Ela olhou na direção de Vincenzo.  Giu acariciou o rosto dela, beijou a boca carinhoso e colocou-a com cuidado dentro do carro. Atravessou a rua e cumprimentou Vincenzo.

__Como vai, Vincenzo?

__Oi, Giu.- Olhou Ritinha.

__Não.- Ele disse firme.- Não pode falar com ela. Ela não quer.- Vincenzo o encarou, eram da mesma altura com tipo físico parecido, mas Giu não parecia intimidado embora não demonstrasse estar irritado, era evidente que não deixaria Vincenzo falar com Ritinha.

__Olhe, eu não quero problemas.

__Então, porque está aqui Vincenzo? Se um dos meus primos te vir aqui, você terá sérios problemas.

__Ei! Eu só quero conversar. Quero notícias de Leninha. Eu não sei o que aconteceu com ela depois que fui embora. Eu estou preocupado.

__Com remorso!- Disse Ritinha de pé atrás deles. Olhou seu marido. Ele lhe estendeu a mão.

__Tem certeza, Bela? Não precisa fazer isso.

__Se eu não falar com ele, Vitta,ele vai acabar procurando Clara. Sabe que isso não vai acabar nada bem.- Giu virou-se para Vincenzo com um olhar de tigre.

__ Certo. Se você magoar minha moglie, é um homem morto.- Vincenzo viu que ele dizia a verdade.

__Já disse, só quero conversar.

__Vamos para casa. Se Jorge te vir aqui, vai ser muito ruim. Xande vai receber uma condecoração hoje. Os Vogelmamn não estão no edifício. Não vamos encontra-los.- Disse ela.- Pode nos seguir.- Foi se dirigindo para o carro. Vincenzo mal podia acreditar que aquela era a mesma Ritinha de antes. Chegaram ao prédio, simpático, mas simples, que não combinava com o carrão italiano de Giu. Entraram pela garagem. Quando Vincenzo entrou no pequeno apartamento, viu tudo muito claro, com linhas clássicas e de bom gosto. Uma decoração bonita e com toque de experiência.  Era a casa de um engenheiro. Mas também tinha um jardim lindo na varanda e uma cozinha de sonho. Não entrou no quarto, mas viu no corredor três molduras douradas cheias de brocados, muito chic, em a uma foto que tinha visto no jornal  envelhecida, na outra um desenho feito a lápis, do casal sentados debaixo de uma árvore, coisa de artista. E na última uma foto que devia ser a continuação da que tinha visto na internet, não aparecia na imagem o rosto todo deles, mas usavam as mesmas roupas e estavam se beijando. A foto estava em preto e branco, mas as alianças e o anel de noivado nas mãos deles ficavam em evidência, coloridos. Um trabalho muito bem feito.

__É um apartamento muito bonito. Parabéns.

__Também gosto.- Disse Giu.- Tem boas estruturas, e Alex cuidou muito bem dele antes de me vender.- Ele tinha comprado o apartamento de Alex, mas poderia ter construído ou comprado um maior, recursos para isso não lhe faltariam. Mas Vincenzo entendeu imediatamente porque ele fez isso, quando Ritinha voltou da cozinha trazendo suco de goiaba em uma bandeja para eles. Ele fez por ela. Ali era a casa dela.- Muito bem, Vincenzo. Você tem 25 minutos para esclarecer suas dúvidas. Depois precisa ir. Eu vou para faculdade, tenho aula presencial da minha pós hoje. O que quer saber?

__O que houve com Leninha?

__Depois que chegamos da casa de show, Leninha achou que precisa ir atrás de você, mas não conseguiu falar contigo, ela estava preocupada com o trabalho.- Disse Giu..- Então Yuri conseguiu uma entrevista para ela num restaurante perto do Castelo. Ela ficou trabalhando lá durante as férias. A sub-chefe ficou grávida, parece que teve problemas numa outra gravidez, então resolveu pedir demissão. O Chefe contratou Leninha em definitivo e ela ficou na Alemanha.

__Ficou lá? Mas e o curso na Menu?

__Ben e o Professor Carvalho, conseguiram uma transferência para uma escola de culinária perto de Eltz. Ela não perdeu a parte do curso que já tinha feito, está terminando lá.- Vincenzo ficou surpreso, mas ainda não estava totalmente satisfeito.

__E aquela história de ser namorada de Yuri que saiu no jornal? Era verdade?- Foi Ritinha que respondeu.

__Não, Leninha não é namorada de Yuri. É a noiva dele.

__O que?- Ele não podia acreditar. Ritinha se levantou foi até o corredor, abriu uma gaveta e trouxe um álbum de fotos com capa dura muito elegante. Deu  a Vincenzo.

__Abra. – Quando abriu, viu muitas fotos de Ritinha e Leninha juntas, começando aqui no Brasil no orfanato, depois lá na Alemanha durante as férias, nas últimas os dois casais juntos. Vincenzo viu Leninha nos braços de Yuri rindo, algumas fotos de beijos e por fim, uma foto em que Ritinha e Leninha mostravam suas mãos.- Este é o anel de noivado dela. Tem o brasão da família de Yuri. Segundo as leis do condado dele, ele tem que ter pelo menos um ano de noivado antes de se casar.- Ritinha respirou fundo, olhou nos olhos dele e disse:- O que você fez, não se faz. Deixou uma amiga na mão. Ela precisava trabalhar aquelas semanas. Precisava daquele dinheiro. Você sabia disso. Se ela não tivesse ido para a Alemanha, teria ficado trabalhando aqui. Ela não tinha outros recursos financeiros. Tudo tinha sido combinado antes. Se não fosse por Yuri ter encontrado um emprego para ela, quando voltasse para cá, ela não teria como pagar a mensalidade da Menu. Lógico, que se isso tivesse mesmo acontecido, todos nós teríamos ajudado ela. Mas foi muito injusto o que você fez. Você a enganou. Não tinha nenhuma chefe que ia se casar e precisava ser substituída.

__Não. Eu me enganei. A chefe era noiva de um dos consultores da empresa em que Leninha iria trabalhar. Eu me confundi. Eu trabalhei no lugar dela. Eu….Olhe, eu não queria prejudica-la. Pensei em dar o dinheiro para ela. Mas eu não consegui encontra-la no aeroporto e nem quando cheguei. Quando perguntei dela na secretaria da escola, eles não quiseram me dar nenhuma informação. Eu expliquei que tinha que entregar um dinheiro para ela,  provavelmente ela pagaria a mensalidade com isso, mas mesmo assim não me disseram nada. E Clara… Bem, ela nem me olha.

__O que você esperava!- Disse Ritinha.- Ela foi sua amiga, levou você para dentro da família dela. Tratou você como um irmão. E você tentou tirar dela quem ela mais ama. Vincenzo, entenda uma coisa. Clara ama Alex. Mesmo que ele não a quisesse mais, ela não deixaria de amar a ele. Eles são assim, todos os Medeiros. São como os falcões, amam só uma vez. Quando conheci o Professor Jorge, ele tinha acabado de voltar da Holanda, tinha passado 6 anos longe da Professora Alice. Ela tinha se casado com outro, tinha tido uma filha, muitas coisas tinham mudado na vida deles, mas ele nunca deixou de amar essa mesma mulher. Vincenzo, ele viu a mulher que amava ficar noiva de outro, viu eles se beijarem muitas vezes, foi embora porque não tinha forças para ver ela se casar. Mas nunca deixou de ama-la. Ele virou um leão quando a viu sofrer. Lutou pela felicidade dela, mesmo tendo certeza que ela não ficaria com ele. Está me entendendo Vincenzo? Nada do que você fizer, vai mudar o que Clara sente por Alex. Nem mesmo se ele a magoasse, isso aconteceria. Eu vi Dr Ben quase enlouquecer diante da possibilidade de perder a noiva e o Diretor Carlos se entregar ao desespero ao se separar de Dona Diana. Mas nenhum deles deixou nem de amar, nem de lutar pela felicidade delas. Se você conseguisse separar esse dois, não iria adiantar nada para você, não vê? Só o que conseguiria é o ódio mortal de Clara para sempre.- Giu abraçou sua esposa.

__Chega, Bela.- Disse calmo, acariciando a barriga dela.- Não quero que se canse.- Vincenzo olhou os dois.

__Você está grávida?- Ela olhou seu marido e sorriu.

__Descobrimos essa semana.- Sorriu tímida.-

__Parece que não perderam tempo, não é? Desculpe, nem parabenizei vocês pelo casamento. Estou contente que estejam tão bem. – Giu olhou para Vincenzo, identificando uma ponta de sarcasmo, e outra de inveja. Achou que já era hora dar fim a essa conversa.

__Certo. Você queria saber o que aconteceu com Leninha. Agora já sabe. Ela esta trabalhando num restaurante na Alemanha. Também está terminando seu curso de gastronomia numa escola por lá. Está noiva de Yuri.

___E não está mais apaixonada por você.- Disse Ritinha, assustando até Giu.- Sim, eu percebi. E Alex também. Por isso ele não disse nada quando descobriu que a história da Chefe que ia casar estava errada.- Vincenzo firmou os olhos.

__Ele descobriu? O que isso quer dizer?

__Que Alex conheceu o consultor em uma reunião do Instituto, ele convidou Alex e a namorada para seu casamento. Quando Alex ouviu a história do trabalho de Leninha, achou semelhante. Procurou saber os detalhes. Descobriu que algum engano tinha ocorrido, mas não contou nada para Leninha. Achou que talvez você tivesse se enganado com alguma coisa, ou mudado de planos em algum momento. Não quis acreditar que você tinha apenas usado Leninha para ficar perto de Clara. Ele viu o interesse dela por você, e também viu que você sabia. Mas Alex não costuma atribuir má intenção as pessoas. Ele achou que você estava verdadeiramente apaixonado por Clara, por isso não se interessou por Leninha, mas que você não tinha a intenção de usa-la, nem de magoa-la. E muito menos que você quisesse magoar Clara. Alex achou que você provocaria ele, não que forçasse Clara. Ele é um cavalheiro, isso não passa pelo raciocínio dele. Mesmo depois de tudo, Alex ainda acha que você estava apaixonado, e que agiu como achou melhor para mostrar a Clara o que era capaz de fazer por ela. Ele acha que você não fazia ideia de como isso iria feri-la, como isso poderia magoa-la. Para dizer a verdade, até ontem, Alex era o único dentre todos nós com quem falei sobre este assunto que acreditava nisso. Mas vendo você agora, eu acho que ele tem razão. E ele tem razão em outra coisa também. Se algum dia você teve alguma chance de conquistar o coração de Clara, você destruiu essa chance quando beijou-a naquela noite. Você desafiou a força do amor dela por ele. Desafiou um falcão. – Ergueu os ombros.- Perdeu.

__O que quer dizer com falcão? Porque sempre dizem isso?

__Os Medeiros, segundo dizem.- Explicou Giu.- Só se apaixonam uma vez. Todos permanecem junto de seus parceiros até a morte. E quando perdem seu par ficam sozinhos até seu próprio fim. Todos os que se tem registro, são assim. O pai do senhor Rodolfo, morreu de tristeza depois que perdeu sua amada esposa. O Avô dele, morreu no dia seguinte que enterrara sua amada. O tio dele, perdeu sua noiva antes de se casar. Nunca se casou com outra, eles nem sabem se ele namorou de novo depois que ela morreu. Senhor Rodolfo se casou pouco tempo depois que conheceu Dona Elisa, eles não tinham nada em comum, mas como deve ter visto, são totalmente apaixonados até hoje. O mesmo aconteceu com Senhor Roberto e Senhor Ricardo, os gêmeos ruivos e Jorge. Todos são evidentemente, completamente apaixonados por suas esposas. Não fazem a menor questão de esconder isso de ninguém. Nunca se afastam delas. Como os falcões. Os falcões são o símbolo da fidelidade. Um falcão nunca deixa sua parceira. Se perdem seu par, ficam solitários para sempre.

__Então é por isso.- Disse Vincenzo.

__Sim.- Disse Giu.- Também tem outro motivo. Os falcões são excelentes caçadores. Tem uma visão privilegiada, são muito precisos no ataque, mas não são violentos. Não precisam ser. Sabem exatamente quando agir. E embora cacem sozinhos, dividem o tem sem problemas e sabem trabalhar em equipe. Estou descrevendo falcões de verdade, mas essa descrição caberia exatamente nos Medeiros, concorda?- Vincenzo não podia negar.- A muitos anos, o pai de Senhor Rodolfo os chamou assim pela primeira vez, Dona Elisa escreveu um livro com esse tema. O livro ganhou um Pulitzer. Todos os Medeiros se consideram um falcão. E Clara também é uma.

__Por isso você perdeu qualquer chance que poderia vir a ter Vincenzo. Você desafiou a essência dela, sua índole, ela defenderá seu amor com todas as forças. Está me entendendo agora?- Ritinha disse com muita calma. Como se explicasse a uma criança teimosa, porque não por a mão no forno ligado. Isso irritou Vincenzo. Ele se levantou e disse:

__Bem, obrigada pelo suco e pelas informações sobre Leninha. Poderia me dar o número dela para que possa entrar em contato, para mandar o dinheiro dela?

__Não se incomode.- Disse Giu.- Ela não está precisando dele, e acredito que Yuri não iria gostar nada disso.

__E Leninha também não.- Disse Ritinha.- Ela ficou muito chateada com tudo. Se sentiu muito usada e menosprezada com sua atitude. Ela sabia que você estava afim de Clara, mas não podia imaginar que a deixaria sem rumo daquele jeito.

__E por isso ficou noiva do Conde, certo?- Disse com o sotaque de Giu.

__Não.- Disse Ritinha segurando o braço do marido.- Yuri foi gentil e prestativo quando ela precisou de ajuda. E é um homem correto e  da muito a valor aos amigos. Sem contar que é muito bonito também.

__E rico.- Disse Vincenzo.

__Verdade.- Disse ela.- Giu também. Acha que foi por isso que me casei com ele tão rápido? – Vincenzo ficou em silêncio.- Não foi. Me casei com ele, porque encontrei alguém capaz de me respeitar, me apreciar, me amar pelo que eu sou. Mesmo com minhas estranhezas. Alguém diferente de mim, mas ao mesmo tempo igual. Alguém que me completa. Que me faz feliz. E que eu também faço feliz. Foi por isso que Leninha ficou noiva de Yuri. Você viu as fotos. Ele a faz feliz e é muito feliz com ela. – Giu disse:

__Chega.- Disse firme.- Seu tempo já acabou Vincenzo. Já sabe tudo o que queria. Agora, siga seu rumo. Espero que não incomode mais minha moglie. Se voltar a acontecer, terei que tomar outras providencias. Legais.- Disse a última palavra marcada. Vincenzo se sentiu novamente enxotado, como na noite do beijo, em Eltz. Saiu sem olhar para trás. Estava com raiva de novo. Ritinha tinha se casado com o primo italiano de Clara, e estava grávida! E Leninha, imagine, estava noiva do quase Conde! E ele, além de perder Clara, tinha também perdido as duas. Embarcou para a Alemanha garanhão, voltou de lá odiado por todas as mulheres que o admiravam, até a doce Ritinha. Como se não bastasse, todos agora achavam que podiam ameaça-lo. O engenheiro, o advogado, o diretor da Menu, mas que droga! Isso não ficaria assim. Acelerou sua moto e sumiu no meio dos carros.

__Você está bem, Bela?- Giu disse com sua pequena esposa grávida no colo. – Aquele cabeludo chateou você?- Ela riu.

__Não. Estou bem. Eu disse umas verdades que estavam entaladas na minha garganta. Ele precisava ouvir. Folgado, enganou Clara, usou Leninha e magoou Alex.

__Está brava, não é?- Ele riu.- Nunca vi você brigar antes, estou achando muito ….Como é mesmo que você sempre diz? Muito fofinho.- Riu mais, ela também.- E o bebê? Está bem?- Ritinha sorriu.

__Sim. Muito bem. Vitta, podemos chamar os Medeiros aqui, para jantar a então contar a eles? Sei que o apartamento é pequeno, mas podemos dar um jeito, alguma comida que se possa comer sem estar na mesa? – Giu sorriu.

__Fale com Clara, pergunte o que ela sugere. Marque o quanto antes.- Beijou a testa dela.- Preciso ir, se sentir alguma coisa, por favor me chame? Virei como o vento.- Beijou-a outra vez. Assim que ele saiu, Ritinha ligou para Clara.

__Sim, Prima Ritinha.- Riu.-

__Oi Clara, tudo bem.

__Sim querida. E com vocês?

__Tudo ótimo. Clara, eu queria chamar todos falcões para jantar aqui em casa. Eu sei que o apartamento é pequeno, mas eu gostaria muito que todos estivessem aqui. Menos Alex e o Seu avô que não vão poder mesmo, né? É que eu quero fazer um comunicado.

__Ai meu Deus! Não me diga que vão para a Itália?

__Não seja tão curiosa. Todos devem saber juntos.- Riu.- O que acha que posso servir? Giu pediu para falar com você. Me diga o que é melhor, e encomendamos. Sabe se os falcões tem tempo no fim de semana?

__Acho que estarão todos na cidade amanhã. Que tipo de comida gostaria?

__Uma que fosse bem gostosa, que pudesse ser comida sem estar a mesa. E  que posso encomendar em algum lugar.- Riu.- Tem alguma ideia?

__Na verdade tenho, amanhã é sexta, a que horas sai do orfanato?

__As cinco. Mas posso pedir para sair mais cedo de vez em quando.

__Ótimo. Ligue para o Jorge e combine isso com ele primeiro. O jantar deverá ser as 8:00 horas. Está anotando?

__Sim. O que mais?

__Convide os falcões por ordem alfabética. Vai chamar as tias de Alex?

__Sim.

__Certo. Vou te dar um telefone, é de uma distribuidora de embalagens?

__Como?

__Vai entender. Quero que ligue para eles agora e peça que separem 250 embalagens de acrílico cristal de 150 ml em forma de tulipa com colherzinha. 50 embalagens de acrílico cristal em forma de taça com colherzinha. Diga para entregarem para você amanhã  no seu apartamento as 6:00. Vou te dar também um telefone de uma amiga, Dona Josefa, diga que é minha prima, peça para ela 40 escondidinhos de frango e 40 de carne seca. Diga que precisa deles as 6:00 horas. Que vai servi-los as 8:00. Ela entenderá.

__Porções individuais! Por isso as embalagens?

__Exato. Separe  as suas taças e as bandejas, também algumas colheres de sobremesa  e outros talheres. Usaremos a mesa para colocar as coisas. Cada  um se serve como preferir. Separe também os guardanapos que gosta. Não esqueça que temos muitas crianças.- Riu.

__Não precisa de salada, nem de sobremesa?

__A sobremesa deixe comigo. Se quiser fazer aquela salada que fizemos juntas,  aquela com nozes, lembra? Como é de pedacinhos, fica bom. Mas não pode temperar antes da hora de comer. Tem que deixar os temperos misturados num decantador. Vai precisar pedir mais 40 embalagens, eles tem uma quadradinha bem bonitinha, essas peça com garfinhos.

__Para beber?

__Suco para nós as crianças.- Riu.- Deixe o vinho por conta dos homens. Eles se viram. Só separe os copos.

__Certo!- Disse com o sotaque de seu marido. As duas riram.- Muito obrigada, Clara. Não poderia fazer isso sem sua ajuda. E é muito importante para mim que estejam aqui.

__Oh, minha linda! Não tem de que. Eu gosto muito de te ajudar.

__Clara. Vincenzo me procurou.

__O que?

__Queria saber de Leninha. Ele está com remorso de te-la largado lá daquele jeito. Eu disse  umas verdades a ele.- Riu.- Gostei muito, estava entalada. Foi ótimo.- Riu mais.

__Então está tudo bem, né? Giu estava com você?

__Estava. Ele também disse poucas e boas para ele.

__Gostei! Esse é meu primo casado preferido!

__E Jorge?

__Jorge é meu primo -tio, é diferente.- Elas riram.

__Ah! Clara, só você.- Se despediram e Ritinha começou a fazer como Clara tinha dito. Ligou para a casa de embalagens, depois para a tal Dona Josefa, depois para Jorge. Então para todos os falcões em ordem alfabética. Depois para as tias de Alex.  Então procurou em suas anotações a receita da salada. Fez como Clara ensinou e multiplicou pela quantidade que  precisava para servir 40 convidados. Não seriam precisos todos esses, mas deveriam fazer alumas sobras. Percebeu que precisava de alguns itens. Olhou o relógio. Não eram nem 8:30. Resolveu ir ao mercado duas quadras dali para buscar. Não levou nem 30 minutos, entrou pela porta da frente do prédio com as compras numa sacola ecológica. Assim que a porta do elevador abriu no seu andar, viu um certo alvoroço no corredor.  As tias de Alex e seus maridos todos ao telefone e as meninas apreensivas num canto segurando o pequeno Marcelo pela mão. A porta de seu apartamento aberta.

__O que houve?- Perguntou aflita? -Todos a olharam aliviados, então Giu saiu pálido de dentro do apartamento com o telefone na mão.

__Graça Dio!- Correu para ela abraçando-a tremendo.

__O que aconteceu, Vitta? Alguém entrou no apartamento? Eu deixei alguma coisa ligada?- Ele só tremia.

__Não.- Disse Dalia sorrindo.- Foi só um susto. Está tudo bem, querida.

__Mas o que houve? _ Deise sorriu.

__Você assustou seu marido, Ritinha. Foi só isso. – Disse abraçando Cunha.- Eles ficam perdidos sem nós.- Riu. Giu explicou.

__Quando cheguei a porta estava destrancada, com a chave pelo lado de dentro, mas você não estava. Seu documentos, sua bolsa e seu celular estão aqui, mas sua carteira de dinheiro não. Você não costuma sair a noite eu…  Não sabia aonde estava. Fiquei ….- Ele ainda tremia.

__ Ah, Vitta. Desculpe. Não achei que ia demorar tanto. Fui ao mercado buscar umas coisas. Sempre esqueço o celular e estava tão distraída com minha lista que esqueci a porta. Não vai mais acontecer. Deixarei um recado se precisar sair de novo, sim? Pode me perdoar?  E Xande disse:

__Bem, está tudo certo. -Sorriu.- A bonitinha está bem, em casa e não aconteceu nada. Vamos entrar e descansar. As crianças tem aula amanhã e nós adultos, trabalho.- Olhou seu cunhado.- Pelo menos alguns.- Riu provocando Cunha.

__Tão engraçadinho. HA!HA!HA!- Os Vogelmamn riram e Ritinha também. Mas Giu ainda estava nervoso.

__Obrigado por me ajudarem.- Disse sincero.- Desculpe se assustei as crianças.- Olhou os pequenos se abaixou e completou:- Italianos são mesmo escandalosos, não é?- As meninas riram e Marcelo bocejou.- Ei, piccolo. Está com sono, não é?

__Sim, primo. Mas tinha que encontrar a Bela primeiro, né?- Um doce. Giu sorriu e beijou a bochecha gordinha dele. Depois beijou as meninas.

__Vão dormir, Bambini, muito obrigada por me ajudar. Grazie!- Todos entraram. E Ritinha quis se desculpar outra vez.

__OH! Vitta. Perdoe-me. Não quis te assustar. Eu realmente não percebi o tempo passar. – Disse se ajeitando no colo dele.

__Você não demorou, Bela. Graças a Deus. Só tive duas aulas. Eu que voltei antes. Bela, eu fiquei apavorado. Corri para as portas das tias de Alex. Se alguma coisa tivesse mesmo acontecido eu… Rita, não posso passar por isso outra vez. Já perdi uma mulher que eu amava, não tenho condições de perder outra. Não vou suportar.

__AH, meu amor. Eu estou aqui. Estou bem. Não aconteceu nada. Está tudo bem, Vitta.- Beijou-o.- Olhe, pedirei para Alex um anel igual ao de Clara, certo?- Disse Imitando ele.- Assim você sempre saberá onde eu estou. Que tal?- Ela queria acalma-lo. Até que conseguiu um pouco.

__Alex fez um rastreador para Clara?

__Sim. Mede os batimentos cardíacos dela. Quando estávamos na Alemanha, ele deu para ela um chip para colocar no celular, assim ela saberia onde ele estaria também. É o projeto dele. Parece que é muito bom. Ele consegue encontra-la pelo satélite se for preciso.

__Consegue imagens?

__Eu não vi. Mas eu acho que sim.- Giu riu.

__Vou querer dois. Um para você e outro para o bebê. Não importa o preço. Pode encomendar.- Riram.

__Acho que ainda não está a venda, mas ele vai conseguir vender o projeto com certeza.

__Ele é mesmo um gênio, não?- Giu beijou sua mulher.- Eu sou louco por você, sabia? Dez minutos achando que você tinha sumido e quase derrubei o prédio. Eu te amo, minha Bela.

__Eu também te amo, meu italiano escandaloso.- Riram.- Eu não sabia que você tão comportado, era capaz de um auê.

__O que é auê?- Riram junto. De madrugada Giu acordou assustado. Tinha tido um pesadelo. Estava perdendo Mia no hospital e de repente ela era Ritinha. Acordou suando. Olhou de lado e Ritinha dormia tranquila, com a mão na barriga. A imagem o acalmou um pouco, mas precisava tomar uma atitude. Pegou o celular e foi para seu escritório. Ligou para Alex.

__Olá primo Giu.- Disse Alex.

__Ciao Alex. Desculpe ligar a essa hora, você pode falar?

__Sim. Estou no laboratório. Aconteceu alguma coisa, você parece aflito.

__Eu estou. Preciso de sua ajuda.

__Diga.- Esse era Alex.

__Alex preciso que faça para Rita, um rastreador igual ao que fez para Clara. Sei que seu produto ainda não está no mercado, mas estará logo, tenho certeza. O caso é que não posso esperar. Rita está grávida.

__Jura! Meus parabéns.

__Obrigado. Fiquei muito feliz, mas não posso evitar ficar muito assustado. Descobrimos a doença de Mia quando ela perdeu nosso bebê. Bela está bem e o bebê também, só tem 4 semanas mas tem um coração forte. O médico disse que não tem com o que se preocupar. Mas eu não consigo. Preciso saber onde ela está e se está bem. Por favor me ajude? Pago o que for preciso, pelo dispositivo e para transporta-lo para cá.- Alex ficou em silêncio.- Por favor, Alex? Eu imploro? Sei que deve estar negociando seu invento, mas eu realmente preciso dele.

__Giu.  Escute com atenção. Está no seu escritório?

__Sim.

__Ótimo. Era meu antigo quarto. Tem um espelho cego de luminária, no alto perto da esquadria da janela, embaixo da cortina. Sei que continua ai mesmo depois da reforma. Abra-o, dentro vai encontrar uma caixa fina, pequena. Pegue e ligue seu computador. Estou indo para minha sala. Você tem cinco minutos para isso. Não desligue o celular.- Giu encontrou o que Alex disse. Era uma caixinha pequena embrulhada num papel filme. Ligou seu computador. Segundos depois a imagem de Alex apareceu na tela.

__Ok.- Giu percebeu que Alex estava comandado seu computador.- Estou baixando para você o arquivo que vai precisar e os acessos. Vai levar só mais um minuto. Pode desligar seu celular. Abra a caixa. Dentro vai encontrar um chip, veja se esta tudo bem se não oxidou.- Giu abriu.

__Parece ótimo. Tem um outro componente embrulhado, do tamanho de um comprimido.

__Eu sei. Beleza. Tudo ok. Coloque o chip no seu celular, no lugar do chip reserva. Vai aparecer uma luzinha verde brilhando no canto.- Ele fez.- Então? Apareceu?

__Sim. E agora?

__Agora é contigo. Precisa escolher uma senha, infelizmente ela vai ficar registrada nos meus arquivos também. Não tenho como bloqueá-la sem interferir na transferência de dados. Mas depois, talvez você possa muda-la. O outro componente, você leva para o joalheiro. Este, era para colocar num pingente. Eu fiz para minha mãe. Mas eu não tinha dinheiro para uma joia. Então guardei ai. Quando consegui juntar eu tinha desenvolvido um outro um pouco menor, acabei usando o outro. Está na letra D, na gargantilha dela. Você pode colocar em qualquer peça, mas as que ficam perto mais perto do corpo, mandam um sinal melhor. No seu computador com sua senha, poderá encontra-la pelo satélite, a imagem não dura muito, porque o satélite se mover rápido, mas o suficiente para saber que ela está bem.  Não entre no satélite toda hora, se não logo terá que explicar como conseguiu o dispositivo. Mas poderá saber a localização dela na tela do celular e contar os batimentos cardíacos e neste caso do bebê também.

__Jura? Do bebê também?

__O mecanismo, entende que é a mesma pessoa. Então vai achar que é um eco, como batem diferente, vai registrar aos dois, por não saber qual é a sombra. Mas o do bebê vai ser sempre mais rápido.

__Alex, eu nem sei como agradecer, eu..

__Ei. Tudo bem. Eu entendo. Desenvolvi esse dispositivo, porque tinha medo que o bandido do meu pai biológico levasse minha mãe. Depois fui aperfeiçoando, para outros usos, e por fim fiz o de Clara. Também preciso saber onde elas estão todo dia. Preciso saber que estão bem. Não busco as imagens delas sempre, só se for realmente necessário, mas não é por falta de vontade.- Riu.- Sei como se sente.

__Não vai ter problemas? Já deve ter vendido seu projeto, não é? Ou já está quase lá. Vou te causar algum desconforto?

__Não. Vendi o projeto do anel de Clara. Todos os componente estão bem explicados e especificados. Não são iguais ao do dispositivo da mamãe e da Ritinha. Funcionam do mesmo jeito, mas são diferentes.

__Sua mãe sabe que usa um rastreador?

__Não, exatamente.-Riu.- Ela sabe que fui eu que dei a gargantilha para ela. Por isso usa o tempo todo. Quando viajamos voltando do casamento dela, eu disse que ela não poderia usar a gargantilha durante o voo. Mas não expliquei todos os detalhes. Ele entendeu mais ou menos. Enfim é isso. Ritinha também não deve viajar com o rastreador, pode causar interferência nos instrumentos do avião.

__Certo. Quanto lhe devo?

__Já fui pago. Soube da notícia antes de toda família.- Sorriu.- É para isso o jantar hoje, né? Clara está curiosa. Acha que vão para Itália.

__Caríssimo. Não posso aceitar. É o seu trabalho. Tenho que pagar por ele.- Alex já ia negando quando Giu o cortou.- Certo. Eu aceito, com uma condição. Que me deixe usar meu trabalho para  ajudar você também.

__Isso seria como?

__Com a construção do restaurante de Clara. Vocês custeiam o material, mas o meu trabalho e o de Gigio, será livre. Aceita? Lembre-se, também sou bom de eletrônica, não como você, mas  também posso invadir seu computador, e conseguir as senhas de seu banco. Posso até depositar em sua conta o que achar equivalente ao bem que acaba de me fazer.- Sorriu.- O que prefere? – Alex sorriu.

__Não tenho escolha, não é?- Olhou a tela.- Pronto, pode colocar sua senha. Já escolheu uma? – Giu sorriu grato e escreveu

CUGINO FALCO. (Primo Falcão)

Alex o olhou sorrindo. Nunca mais deixariam de ser amigos, sabiam disso. Durante o jantar muito elegante, com uma mesa bonita forrada com uma toalha branca de brocado, cheia de copinhos lindos com cinco sabores diferentes de sopas. Também dois sabores de escondidinhos em potes individuais, mais uma salada colorida e saborosa em potinhos quadrados com um decantador com o tempero dela. Os copos, as bebidas e outros apetrechos estavam no aparador. Tudo muito bem arrumado e perfumado. As sopas de Alice de abóbora, de Liv de milho, Lia de brócolis e  de Diana de mandioca chegaram com Clara no fim da tarde, e estavam deliciosas. A que Clara fez, junto com Ritinha assim que chegou era rápida fácil e saborosíssima de mandioquinha salsa. O dois escondidinhos também fizeram sucesso e a salada de Ritinha, foi muito elogiada. Sem contar a musse de chocolate de Clara, sempre sucesso. Quando todos estavam rindo felizes, Giu foi ao seu escritório e trouxe seu note, ligou e Alex, Giulliano, Gigio, Leninha e Yuri, Vovô Carlos e Vovó Aline apareceram na tela. Cada um em um lugar diferente. Uma vídeo conferência para ninguém por defeito.

__Bem minha família querida. -Disse.- Pedimos para que todos vocês estivessem conosco hoje poque temos algo para contar para vocês. Certo, Bela?

__Certo.- Todos riram dela imitando seu marido.- Queria muito que todos estivessem aqui, porque descobri uma coisa muito importante para mim, para nós essa semana. Eu estou grávida.- O assombro feliz foi geral. Os homens rindo parabenizando Giu. As mulheres chorando como já é próprio delas, as crianças gritando, uma loucura. Jorge abraçou e beijou Ritinha como se fosse ser avô. E Giulliano chorava o tempo todo. Giu pegou Ritinha pela mão e ficou mo meio de todos. Olhou para o note e disse:

__Vocês estão gravando, certo?- Olhou seus amigos.- Poderiam por favor, todos vocês, posicionarem seus celulares em volta de nós? Quero marcar esse momento tão feliz nas nossas vidas.- Todos fizeram como ele disse, então ele ficou atrás de Ritinha e colocou no pescoço dela, uma gargantilha de ouro com um coração brocado daqueles que se abrem para guardar uma foto, escrito com uma caligrafia muito bonita MAMA.- Para minha Bela moglie, a mama do mio Piccolo.- Foi muito bonito. Clara editou as fotos, fez surgir  uma imagem casada, simultânea. Ficou muito bonita. Giu guardou todas as outras fotos daquele dia. Disse que eram as primeiras fotos do bebê.