O ruivo solteiro

Capítulo 4

O Fórum foi um sucesso. No restante da semana foram apresentados encenações, textos, teatro de  fantoches, a Juíza Corregedora da Vara da Infância, Dalia Vogelmann foi entrevistada por Clara. Foi um dos pontos mais interessantes. Dona Elisa, levou uma coletânea de  texto dos alunos e de escritores já conhecidos que foram editados e publicados numa versão de livro de bolso, com ilustrações de  alunos e de sua própria ilustradora. Ela mesma tinha mandado fazer. Foi emocionante ver a alegria dos alunos que tiveram seus textos publicados. Os professores tiveram muito trabalho, mas ver o progresso dos alunos animou a todos ter o mesmo projeto para o próximo ano. Alguns alunos receberam prêmios por sua participação. E todos receberam notas boas nas avaliações, e bônus de  participação. Agora só restava ver se tinham aprendido a conviver com as diferenças como viram nesta semana. Enfim,  acabou. Todos trabalharam muito para o êxito alcançado, mas se tinha alguém que realmente tinha se desgastado nestas semanas, este alguém era o Ruivo. Carlinhos estava acabado. Na sexta a noite não teve nem coragem de sair para comemorar. As nove estava na cama e só acordou as nove da manhã do dia seguinte. Levantou- se tomou um banho demorado. Relembrou tudo o que tinha acontecido nesta semana, depois de todas as suas avaliações, apenas dois arrependimentos lhe sobraram. Primeiro, não teve tempo de malhar direito durante esta semana, precisava correr atrás do prejuízo. Segundo, os pensamentos nada inocentes que teve quando Diana apareceu no palco usando aquela roupa de secretária. Riu sozinho. Não dava para negar a queda que sempre teve por meninas certinhas. Aquelas que todo mundo acha sem graça. Que são sempre pacatas, que usam roupas do tempo da vovó. Mas Diana não era nada sem graça. Tão alta, com cabelos tão cumpridos. Será que aqueles cabelos cheios de tranças eram naturais? Hoje em dia qualquer um pode ter cabelos lindos daquele jeito. E a postura elegante, a maneira de andar, os olhos tão penetrantes, e quando ela viu o filho na platéia eles brilharam. E então pode ver o lindo sorriso branco. Chacoalhou a cabeça com força de baixo do chuveiro. Não podia ficar pensando em Diana assim. Ela era o braço direito de Jorge agora. Era amiga da família. Ben tinha uma dívida de gratidão com a família dela. E tinha Alex, não podia magoar um garoto tão bom. Nunca tinha levado a sério nenhuma de suas ex namoradas. Diana não era garota de um fim de semana. Ela era mãe. Merecia seu respeito em dobro. Resolveu que não ficaria pensando nela, nem no jeito que sua linda cintura ficava marcada pelo casaquinho azul. Deus! Precisava mesmo, urgentemente malhar.

Assim que chegou da academia e tomou outro banho frio, encontrou em sua escrivaninha um bilhete de sua mãe dizendo que estavam na casa de Rick e Lia, e que Clara estava no orfanato, se ele poderia busca-la para o almoço. Chegando lá o Ruivo encontrou Jorge na entrada disse que Clara estava na cozinha ensinando as meninas menores a fazer pão de queijo. Ao se aproximar da porta ouviu a pequena Gabi dizer:

__Ter irmão mais velho é muito chato. Eles só querem mandar na gente.- Ouviu risadas e a voz de Diana.

__Não pense assim. Gabriel talvez só esteja passando por uma fase. Logo ele se cansa de chateá-la.

__Você só acha isso porque só tem irmãs. Os meninos são uns chatos.

__Sabe Gabi.- Disse Clara.-As vezes os irmãos são mesmo muito mandões. Mas na maioria das vezes é porque querem nos ajudar.- A garotinha fez cara de dúvida.- É verdade eu tenho dois irmãos mais velhos. Todos os dois as vezes são bem mandões, principalmente o mais velho. Mas eu sei que ele só quer o meu bem, ele quer me proteger. Se alguma coisa de ruim acontecesse comigo, ele sofreria muito. Porque ele me ama muito.

__Como sabe que não é só para implicar com você?

__Eu sei, porque eu o amo muito. E se alguma coisa ruim acontecesse com ele, com qualquer um dos dois, eu sofreria muito. Então se eu pudesse evitar que coisas ruins acontecessem com eles, eu faria. Eles também, quando acham que podem evitar que alguma coisa ruim aconteça comigo, eles se esforçam muito para isso. Deve ser assim com seu irmão também.- A menina ainda incerta.

__Não sei não.

__Olhe vou te contar uma coisa. A algumas semanas eu estava bem triste achei que ia perder um amigo por causa de uma maldade que algumas pessoas estavam fazendo. Meu irmão me viu chateada, ficou furioso quando contei o que estava acontecendo. Moveu céus e terras para me ajudar. Juntou outras pessoas legais que podiam ajudar, falou com meu amigo, falou com as pessoas que estavam causando o problema. Não descansou enquanto não me viu sorrir de novo. Precisou trabalhar muito para arrumar toda a situação, mas fez isso porque me ama e não quer que eu sofra. É claro que se perguntar a ele, vai dizer que não foi só por minha causa. Os irmãos mais velhos não gostam de admitir que são loucos pela gente. Mas eu sei. Porque também teria feito por ele. Igual a você e Gabriel.- A garotinha sorriu.

__É tem razão. Faria qualquer coisa por ele, mesmo ele sendo um chato.- Elas riram. O Ruivo sentiu um calor no coração, sua irmãzinha era mesmo muito esperta. Merecia um beijo. Entrou de supetão para assusta-las.

__O que essas lindas estão aprontando!- todas saltaram e gritaram

__Que  susto ruivo!- Disse Clara.- Pensando bem Gabi, os irmãos mais velhos são mesmo uns chatos!

__O que é isso foi só um sustinho de nada. – E riu- O que essas princesas estão cozinhando?- Chegou perto das pequeninas.- Você sabe fazer pão de queijo?

__Clara me ensinou.- Sorriu- Ficou gostoso, quer um?

__Sim!-Sorriu. Depois de experimentar.-Que delicia! Como essas mãozinhas tão pequenas conseguem fazer algo tão gostoso?- Neste momento entraram correndo pela porta Alana e o pequeno Cisco. E logo atrás Alice.

__Vimos seu carro, e as crianças correram para te ver- Os pequenos já estavam empuleirados nele.- Vai almoçar conosco?- Disse Alice beijando o sobrinho.

__Vim só para pegar Clara.- Olhou para as crianças- E beijar algumas fofuras e comer pão de queijo.-As crianças riram.

–Podíamos almoçar aqui. Depois ir assistir aquele filme que você prometeu me levar.- Disse Clara.- Eu ajudo Alice a cozinhar.- O ruivo entendeu que Clara já tinha tudo calculado. Suspirou e disse:

__Avise mamãe.- Pegou mais um pão de queijo, levantou Cisco no colo. E se encaminhou para fora.- Vou falar com Jorge, e vocês meninas são ótimas cozinheiras.- Depois que saiu ainda ouviu:

__Seu irmão é tão legal.- Disse Gabi. E Mirela outra menininha disse:

__Pena que eu nunca sei quando é um ou o outro. Você sabe Diana?

__Carlos é mais alto.- Carlinhos parou ao ouvir o comentário. Era verdade, Ben era um centímetro menor que ele. Mas era tão pouco, como ela tinha reparado isso? _E os olhos dele tem uns desenhos na iris, parece uns arabescos um pouco mais claros, os de Ben não tem.- Gente, era mesmo! Nunca ninguém tinha reparado neste detalhe. De repente o ruivo percebeu que Diana vinha reparando nele, seu coração disparou dentro do peito.

__Não vamos ver o papai?- Cisco estava impaciente.

__Sim, é claro. Só um instante fortão.- Foi ouvindo.

__Você tem reparado nos  olhos dele Diana? Sabe que olhar nos olhos do Ruivo é igual olhar para a medusa, a diferença é que não vai virar pedra, mas pode se apaixonar.- Disse Alice.

__Não corro esse risco.- Diana disse rapidamente.- Seu sobrinho tem olhos lindos e encantadores, mas eu não posso amar mais ninguém, além de Alex é claro.

__Não diga isso Diana. – Disse Clara. – É tão jovem, merece ter um homem lindo aos seus pés.- Elas riram

__Não sei se gostaria de ter homens aos meus pés.

__Ela está brincando, Diana. Mas de certa forma tem razão, você é jovem, linda, merece ter alguém. O amor é maravilhoso na vida de qualquer pessoa.- Houve um certo silêncio.

__Eu já tenho todo o amor que quero para mim.- Disse firme.- Bem eu estarei de folga hoje a tarde, estou indo para minha sala para deixar tudo adiantado. Certo?- O ruivo se apressou em sair do corredor. Chegou a sala de Jorge intrigado. Depois de meia hora já estava de papéis até os cotovelos:

__Desculpe Ruivo. Imagino que nunca mais irá passar aqui no sábado, não é?- Jorge riu.- É que você é ótimo em matemática financeira. Eu precisava que alguém auditasse antes de mandar para Ben e Tio Beto.

__Fique tranquilo.- Sorriu.- Na verdade está muito bem feito. Já estou quase acabando. Você mantém tudo muito organizado, esse é o segredo para dar tudo certo. E também para descobrir quando algo vai ou está dando errado.- Fechou o relatório, assinou atrás.- Já terminei. Está tudo certo. Se me permite, apenas faria uma alteração, separe os gastos de saúde do restante. Peça a Ben para descobrir se eles não podem ser revertidos em algum tipo de benefício para as crianças. Eu estive pensando, podíamos matricular as crianças do orfanato na Prestes de Medeiros.

__Como? São 30 crianças. Sei que seria ótimo para elas, mas você não poderia absorver todo esse gasto.

__Verdade, eu não teria como fazer essa conta bater, mas e se alguns empresários ‘adotassem’ alguns alunos?

__Como é?-Sorriu.- Você está tentando encontrar parceiros para adotar a educação dos meus órfãos?- O Ruivo sorriu.- Deus! Você já consegui!

__Eu tive essa ideia faz tempo. Falei com uns amigos. Eles podem deduzir do imposto de renda, é interessante para eles. Disse que falaria com você, não sei se é melhor eles conhecerem as crianças ou continuar anônimos. Nunca cuidei de órfãos em situação de risco. Não sei qual o melhor. Mas já tenho 30 voluntários dispostos a pagar a educação das crianças. Eu analisei os custos e reduzi ao essencial, assim todos podem estudar conosco.

__Parece que você já tem tudo resolvido. – Sorriu para o primo.

__Na verdade ainda tem um problema, o Orfanato não tem veículo para levar todas as crianças para a escola juntos. Você tem alguma ideia?

__Não. Mas teremos. Obrigado Ruivo. Imagino que não foi tão fácil convencer seus amigos de farra, a cuidar de crianças carentes.- Riram.

__Não seja cruel. Foi só dar uns beijinhos.-Riu mais.

__Cachorro! São todas suas ex-namoradas? O que prometeu de volta?

__Nada que seja doloroso garanto. _ Os dois quase morreram de rir.

__Estou brincando. Não namoro garotos. Só gosto de meninas, fazer o que? São na maioria ex-professores e  ex-alunos. Alguns me perguntaram sobre o orfanato. A maioria não tem interesse em adotar uma criança, mas gostariam de ajudar a educa-las. Tem algumas ex-namoradas, mas já estão casadas agora. Não beijo mulheres casadas. Só as que são parentes.- Riu.

__Mentira, já vi você beijar as irmãs da Diana.- Riu.

__Por falar na Diana, você sabe se ela tem namorado?- Jorge abriu um pouco os olhos.

__Olhe Ruivo, não é uma boa ideia mexer com Diana. Ela é linda, é boa amiga, mas ela não vai aceitar muito bem uma investida romântica.

__Ei? Eu só estou perguntando porque nunca vi ela com ninguém. Ela é linda. É estranho, só isso.  Qual é o problema?

__O problema é que eu te conheço. Você nunca é subjetivo. Se está perguntando dela é porque está interessado. Mas devo avisa-lo como amigo e primo. Diana divide os homens em duas classes: amigos e inimigos. Os amigos, ela defende, confia, conversa, compartilha, elogia,  tem afeto. Os inimigos ela odeia. Quando conhecemos ela, Diana achava que eramos dessa classe. Por isso não confiou em nós e ficou do lado de Flávio. Depois de tudo o que houve, ela nos respeita, nos admira e está disposta a nos ajudar e a compartilhar a vida conosco. Mas só existe uma pessoa do sexo masculino que tem o coração de Diana.

__Alex.

__Exato. Os outros homens, mesmo os que ela confia, os cunhados  que ela tem muita gratidão, não chegam perto de seu coração. Diana sofreu muito, foi abusada pelo homem que mais confiava, mais amava.

__O pai dela.

__O pai dela a vendeu para um traficante. Quando fez isso, ele sabia que ela seria entregue para a prostituição. Ela era uma menininha um pouco mais velha que Alana. Ela tem pavor de qualquer homem que a toque. Foi um dos motivos que a levou a estudar psicologia. Ela estava tentando, se libertar deste trauma. Ela melhorou, pelo que me contou, odiava todos os homens, menos Xande, e Alex claro. Hoje até trabalha comigo, que segundo ela, seria impossível anos antes. Xande a trata quase como pai, e Cunha como irmão mais velho. Todos são amorosos, mas quase nunca a tocam. Mesmo as irmãs, são amigas, cuidam uma da outra, mas não as vejo se abraçarem e beijarem como as nossas. Só quem tem liberdade para isso é Alex. Ela sabe que não somos culpados de sua tragédia, acha bonito que somos carinhosos com nossas crianças e nossas mulheres, diz se emocionar com a maneira que nós homens nos tratamos, mas não se acha capaz disso. Diana é muito carinhosa com as crianças, e trata muito bem Alice e todas as mulheres de nossa família. Na verdade, acho que elas a ganharam. Mas ela não cederia a um homem. Nem a um de nós. Ela gosta de você, acha-o competente, admira a forma que luta pela crianças, mas vai escorraça-lo se tentar chegar perto dela.

__Não confia no meu charme?- Disse brincalhão tentando parecer leve, mas estava chateado com as conclusões de Jorge.

__Não tem nada haver com seu charme Ruivo, ela é uma garota sofrida. Não vai baixar a guarda para você. Seu charme não vai convence-la, como convence as outras garotas. Não vai funcionar assim. Na verdade vai assusta-la.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s