O gêmeo mais novo

Capítulo 11

Os jovens saíram para buscar o almoço.

__Diana, não estava falando da aparência diferente de você e seu filho.- Disse Carlinhos. -Queria mesmo dizer que te acho muito jovem para um filho desta idade. Desculpe se a chateei. Acha que ele ficou bravo comigo?

__Tudo bem, não se preocupe. Alex é um menino maduro, e está acostumado a que estranhem nosso parentesco.- Suspirou- E na verdade, sou mesmo muito jovem para ter um filho da idade dele. Tenho 27 anos.- Todos estranharam. Menos Jorge que já conhecia esta história.
__Espere!- Nina disse.- Você teve ele com doze anos?

__Sim.- Baixou o olhar.- Um absurdo, não? E a história triste por trás disso é ainda pior.- Respirou fundo- Mas graças a Deus, ganhei um maravilhoso presente. Alex é a razão de minha vida. -Sorriu.- Claro que sempre preciso explicar como uma negra tem um filho branco. Já perdi a conta de quantas vezes disse que meu pai era alemão, muito branco.  Depois o pai de Alex, também era europeu. Ele tem meu tipo sanguíneo AB positivo, e pelo visto será alto como eu. No mais, não parece nada comigo.

__O sorriso é igual. -Disse Carlinhos. Diana pareceu surpresa.- É verdade. Quando sorriu para você, o sorriso tímido chegou aos olhos. Parece com seu jeito de sorrir.

__Obrigada, Diretor. – Sorriu para ele.

__Moça bonita.- Disse Rodolfo.- Sei que não deve ser muito agradável falar do seu passado, mas estamos muito nervosos. Se importaria de contar sua história para nós? Gostaria de saber. E vai me ajudar a me acalmar, estou precisando. E com certeza, Jorge já a conhece, por favor, compartilhe conosco também? Não se preocupe, embora essa família seja cheia de personalidades diversas, somos bons em guardar segredos, e por incrível que pareça, todos sabemos ser discretos.

__Certo. Na verdade já foi muito pior antes, hoje acho que tudo acabou sendo muito válido. Vamos lá: Meu pai era um traficante. Já era no seu país de origem. Quando chegou no Brasil, morou em São Paulo, numa favela. Minha mãe era muito jovem quando eu nasci, tinha 17 anos, mas ela já tinha outros 3 filhos. Meu pai era violento, quando  minha irmã mais velha tinha 13 anos, fugiu, não queria viver naquele mundo. Meu irmão pelo contrário passou a trabalhar com meu pai. Numa disputa por território um dia, foi morto.  E meu pai perdeu seu ponto de vendas mais forte. Minha mãe enlouqueceu. Passou a usar mais drogas que meu pai. Vivia alucinada. Minha irmã acima de mim foi vendida para pagar a dívida dela com o novo dono  do morro.

__Como vendida? – Disse Nina.

__Neste mundo isso é comum, Dona Nina. Ela iria pertencer a um cafetão.  Só tinha 12 anos. Tentei avisar minha irmã mais velha. Ela estava numa instituição de proteção a criança. Quando consegui, Dália lutou para que as autoridades fossem acionadas. Os policiais tomaram o morro umas semanas depois.  Minha irmã foi levada para a instituição. Muita gente foi presa, meu pai entre eles. Outros morreram, minha mãe desapareceu.

__Ficou sozinha? _Perguntou Beto.

__Antes tivesse.- Pareceu amarga.- O cafetão achou que podia trocar minha irmã por mim. Para ele não fazia diferença, desde que recebesse a mercadoria pela qual pagou.

__O que?- Carlinhos parecia horrorizado.

__Eu só tinha 11 anos, mas como Alex, era bem alta para a idade. Enfim, fiquei no lugar dela. A clientela dele era selecionada. Me tiraram do morro e colocaram num apartamento cheio de mulheres de idades e aspectos físicos variados. Fui muito bem limpa, perfumada e vestida.  Digamos que tive algumas experiências bem traumatizantes para uma menininha tão nova. Na última delas, o carrasco falava a língua do meu pai, uma língua  que eu não entendia direito,  não sabia o que queria que eu fizesse, isso o deixou irritado. Ele me feriu bastante. Quando foi embora fiquei desacordada pelo resto da noite. O cafetão, estava viajando, as outras não sabiam o que fazer. Não podiam chamar um médico. Acharam que eu ia morrer. Quando amanheceu, a mais velha, chamou um outro cafetão, eu nunca o tinha visto. O sujeito tirou umas fotos minhas toda ferida, e me deixou num mato bem longe da estrada. Jogada, sem documento, nem dinheiro, nada.

__Meu Deus!- Disse Rodolfo.

__ Me tratou como lixo. Mas na verdade foi a melhor coisa que poderia ter feito para mim. Eles acharam que eu morreria. Por isso o cafetão tirou as fotos para mostrar ao cliente. Para que ele pudesse cobrar o prejuízo da mercadoria estragada.- Sorriu- Mas eu não morri. Fiquei ali deitada no chão o dia inteiro, estava chovendo muito. Choveu durante a noite toda também, foi apavorante, mas eu dormi mesmo assim, estava muito cansada. Acordei de manhã molhada, com muito frio, suja de sangue, com fome, muito dolorida e muito fraca.  Mesmo assim consegui me levantar. Caminhei com dificuldade e alcancei a rodovia. Por providência  Divina, uma ambulância, voltava para o hospital. O motorista parou na hora e me levou para o hospital mais próximo. Fui atendida. Estava com muito medo. Mas então, conheci uma assistente social Dona Elisângela. Ela me acalmou, me ajudou. Naquele instante decidi que queria ser como ela. Contei a ela sobre minhas irmãs. Antes mesmo dela conseguir encontra-las, o médico veio avisar sobre minha gravidez.  Tinha dado positivo no exame de sangue. Ele queria fazer uma ultrassom para ter certeza, não podia mais usar a pílula do dia seguinte. A gravidez foi comprovada. E minhas irmãs chegaram. Todos queriam que eu fizesse um aborto, mas eu não podia. Sabia que ele seria meu tesouro. O médico explicou que seria uma gravidez de risco, muito complicada. Disse que eu poderia morrer e o bebê também. Mesmo assim não desisti. Minha irmã mais velha ficou do meu lado. E a Dona Elisângela também.Tive que ficar de repouso por quase toda a gravidez na instituição. Durante este tempo comecei a estudar tudo sobre a profissão dela. -Sorriu.- Minha profissão. Li todos os livros que encontrei sobre o assunto na biblioteca e online. Depois que Alex nasceu, voltei para a escola e nunca mais parei de estudar. Me graduei em Serviço Social com 21 anos, depois fiz Psicologia. Minhas irmãs também estudaram, Deise é enfermeira, trabalha aqui neste hospital há vários anos. É ela que teve o bebê, que vim visitar. O marido dela é o Cunha o agente que cuidou do quarto de Alice daquela vez. Ele está de licença, cuidando das minhas sobrinhas. É um bom homem, honesto e cuida muito bem delas. Minha irmã mais velha é Juíza.

__ Juíza Dalia Vogelmann, certo?- Disse  Ben. mais atento .

__Sim, atuava na vara da família em Santa Catarina. A conhece?- Ergueu uma sobrancelha, meio matreira.

__Sabe que conheço. Tivemos um entrevero a uns dois anos. Ela é uma juíza durona, jovem e muito boa de briga, mas eu estava certo. Tive que recorrer. Ela não ficou muito satisfeita, me chamou de arrogante filhinho de papai.- Sorriu- Mas eu gostei muito  dela. Luta pelo que acredita.

__Igual é você.- Disse Diana solidária.- Tenha fé, Doutor.- olhou no fundo dos olhos de Ben.- Eu estava deitada naquela grama molhada, certa de que meu mundo tinha acabado. E na verdade aquela era minha libertação. O homem que dirigia a ambulância aquele dia, é o marido de Dália. Ele ficou muito preocupado comigo. Me visitou várias vezes. Quando fomos para o abrigo, ele também nos visitava. Deu o primeiro presente que Alex ganhou, a pulseira que usa com seu nome. Quando o meu bebê nasceu, era branquinho e tinha olhos  claros, achei que era parecido com ele. Por isso, e pela gratidão que sentia por ele, dei o nome dele ao meu filho. Ele chorou quando soube. Xande é estéril, já sabia disso na época. Sempre tratou Alex com todo carinho, como se fosse sua família. Era um tipo de homem que eu não conhecia. Um homem igual a vocês.  Bem mais pobre é claro.-Riu. O que quero dizer Doutor, é que sempre há esperança.

__Acha que devo acreditar que vai tudo acabar bem?- Ben estava muito inseguro.

__ Doutor Benjamin, já vi coisas muito feias, já pensei que não conseguiria suportar. Mas quando tudo estava contra  mim, eu ganhei a coisa mais valiosa que tenho. E ainda encontrei amizade verdadeira. Sim! Acho que deve acreditar. Não foi fácil criar uma criança sendo uma criança. Mas tive ajuda de pessoas maravilhosas que lutaram por mim. Precisei lutar bastante também. Mas acreditei que iria conseguir. Não acabei meu trabalho ainda, mas Alex é um filho maravilhoso. Não escolheria passar por tudo que passei, mas para tê-lo aceitaria qualquer agrura. Ele vale a pena. Olivia também.  Tenho certeza que faria qualquer coisa por ela.-Sorriu para ele.

__Ela tem razão filho. Sua noiva merece sua esperança.- Disse Beto. Ben os olhou a todos

__Sei que tem razão. Mas…- Estava sufocado, os olhos inundaram.- Eu não suporto mais esperar. E se a machucarem? Ela é tão delicada. E eu estou aqui. Não posso fazer nada além de esperar. Eu…Estou tentando me controlar, mas não é da minha natureza ficar aqui sentado enquanto…- Suspirou- Deus estou enlouquecendo.- Sua voz era pura angústia. Beto  sentado ao seu lado, colocou o braço por cima do ombro do filho. Jorge mudou de lugar e sentou-se do outro lado de Ben.

__Olhe Ben, sei como se sente. Estive neste mesmo inferno ano passado. Sei que é difícil, mas precisa acreditar. Também estou agoniado, sabe o que Liv representa para mim, também quero sair atrás dessa gente. Mas não podemos, precisamos esperar.- Carlinhos ajoelhou-se na frente do irmão. Diana percebeu que esse era um sinal entre eles. O Ruivo sempre fazia isso quando ia confortar alguém. Ele pôs uma mão no joelho de Ben e começou.

__Ei meu querido gêmeo mais novo.-Sorriu.- Não está sozinho desta vez. Na verdade, nunca esteve e nunca estará. Sempre estarei contigo.- As lágrimas contidas de Ben desceram.- Quer chorar de desespero por sua amada Liv? Chore. Estou aqui para chorar contigo. Quer gritar de dor por que um desgraçado qualquer prendeu-a, só por dinheiro? Faça isso. Estou aqui para gritar com você. Quer matar quem a pegou? Não poderei defendo-lo, afinal você é o advogado.- Sorriu- Mas pago sua fiança.- Ben riu.- Sabe que estou aqui. Não precisa esconder sua dor. Não conseguirá fazer isso outra vez. Sei que está desesperado, sei que tem pavor de viver sem ela.  Sei que daria qualquer coisa, para trocar de lugar com ela agora mesmo. Sei que esta angústia, está cortando seu peito. – Olhou firme para ele.- Põe para fora. Aprendi com Vovô Rodolfo, que chorar acalma, nos ajuda a pensar. De nós dois, você sempre foi o que pensa, então meu caro, por nossa salvação, chore! Muito! Sua Linda bailarina merece seu desespero. Um amor assim, vale toda a dor. Mas tenha certeza, meu irmão, ela vai voltar para você.- Ben pôs as duas mãos nos ombros de Carlinhos, as lágrimas rolando com força agora, entre soluços disse:

__Jura?- Diana entendeu. Carlinhos estava dando a seu gêmeo, sua força, sua confiança, seu poder. Ben estava ferido, precisava de Carlinhos. Eles pareciam mesmo um, ou os ruivos como a família os chamavam.- Acredita mesmo que ela vai voltar pra mim? Que não vou perde-la?

__Juro! Sim ela vai voltar para você. E estará linda ouvindo você cantar a música que escolheu para ela,  no dia de seu casamento.- Ben abraçou seu irmão e chorou. Diana também estava muito emocionada com a cena, ao olhar em volta viu Seu Rodolfo abraçando Nina que também chorava. Beto e Jorge enxugando suas próprias lágrimas mantinham cada um uma mão nas costas de Ben. Como se mostrassem que também estariam ali. Ben havia passado sozinho toda tristeza de amar Liv sem ser correspondido. Tinha escondido seu sofrimento da família por anos. Mas nunca seu desespero chegou ao ponto da loucura como agora. Não poderia suportar esta agonia sem eles. Não poderia enfrentar isso sem o Ruivo. Deixou vazar toda sua angústia, precisava se acalmar. Precisava recuperar suas forças. Precisa lutar por Liv.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s