O cavaleiro de olhos azuis

Capítulo 3

 

A semana foi bem animada. Depois da tarde de  segunda, em que foi encontrar sua família na escola, não teve nenhum dia que ficou sozinho, nem por uma hora sequer. Primeiro que seus primos estavam loucos para ficar com ele. Depois tinha o pequeno Rody, encantado com o irmão em casa outra vez. Seus pais amorosos e saudosos mereciam sua atenção. Seus avôs tão carinhosos, não estavam por menos. Também tinha Carlos, que era como uma inspiração agora para ele, e Aline. Sem contar Nina e Beto discutindo o tempo todo sobre as escolhas profissionais dele. E ainda tinha Clarinha, que chegou de uma excursão com a escola na quarta, e foi direto para casa de Rick para ver seu primo de olhos azuis, como dizia. No meio de toda essa loucura, já era segunda outra vez e ainda não tinha tido tempo de conversar com sua querida irmã, á sós. Pensou em pega-la na saída do trabalho, assim poderiam tomar alguma coisa e conversar. Mandou um recado pelo celular, ela concordou e marcou o horário.  Jorge chegou, 10 minutos antes na antiga moto de Beto. Ainda não tinha tido tempo de providenciar um veículo para si. Estacionou a moto e deu a volta por trás da escola, para esperar Liv na porta dos fundos. Ao fazer a curva, viu um cara segurando com força o braço de uma mulher. Ele parecia violento, e ela amedrontada. Não via o rosto da mulher só o contorno do corpo. Foi se aproximando com cuidado. Ouviu o cara com a voz ríspida dizer:

__Porque achou que poderia fazer isso e sair impune, hein? – O cara ergueu o braço em punho, ia bater na mulher, mas não na frente de Jorge é claro. Ele segurou o braço do covarde e disse:

__ O que você pensa que está fazendo, cara? – Quando olhou quem era a mulher, seu sangue ferveu. Viu os olhos cor uísque dela cheios de lágrimas. Empurrou Flávio com força afastando-o de perto dela. Flavio, estava mais gordo, com o mesmo cavanhaque ridículo, mas não cheirava a álcool. O que poderia explicar então o que acabava de ver?

__Ora, ora, o pequeno bâmbi esta de volta. – Disse desdenhando. – Você não estava aprendendo a tricotar na Europa? – Tentou chegar perto de Alice. Jorge entrou em sua frente, e o encarou. – Sabe que ela é minha mulher, não sabe? Pode por gentileza sair da minha frente e ir cuidar das suas sapatilhas, mocinho?- Riu zombando, Jorge agora estava ainda mais irritado. E era muito mais alto e mais forte que Flávio, e para falar a verdade, sempre quis bater nele. Mas resolveu dar-lhe uma última chance.

__Sei que Alice é casada com você, mas isso não te da o direito de bater nela. É uma pessoa, não um saco de pancadas. Se vocês tem algum desacordo, devem resolver como adultos  civilizados.

__Quem você pensa que é para se intrometer assim na minha vida? Seu moleque engomadinho, pensa que não me lembro de você babando por ela antes de viajar? – Alice até então quieta, gritou.
__Pare Flávio! Deixe-o em paz. – Olhou Jorge nos olhos e disse: – Desculpe Jorge. Está tudo bem. Flávio está um pouco nervoso hoje, por que perdeu o emprego. Não aconteceu nada. Não precisa se preocupar. – Jorge a olhou incrédulo.

__Está brincando, não é? Acabei de ver esse idiota tentar bater em você. Acha mesmo que não vou ficar preocupado com você e com Alana? – Os olhos de Jorge escureceram. – Ele já bateu em você antes?  – Ela não disse nada. Olhou para ele desolada. Foi o suficiente. Jorge virou para Flávio enfurecido. Mesmo um tolo não enfrentaria Jorge agora. Flávio pareceu entender o perigo, deu dois passos para atrás dizendo:

__Bem, já que não temos privacidade aqui, falaremos em casa. Eu posso esperar. – Suas últimas palavras selaram o desfecho. Jorge avançou sobre ele, pegou-o pelo colarinho da jaqueta jeans que usava, levantou-o do chão dizendo com uma voz baixa ameaçadora:

__ Elas irão para casa hoje Flávio, e nada vai acontecer de ruim com elas. Porque se alguma coisa acontecer. Se qualquer uma das duas quebrar uma unha que seja, eu vou atrás de você. Sou bailarino Flávio, mas também aprendi a lutar. E vou te contar um segredo, bato muito melhor do que danço. Nunca subestime um bailarino. _ Flávio esperneou para ser solto e Jorge o largou.

__Esta me ameaçando, bâmbi?

__Não é uma ameaça, é uma promessa. Se machucar qualquer uma delas, quebro essa sua cara debochada em dois segundos. Sempre fui um atleta Flavio, sempre gostei de me exercitar, mas nada me dará maior prazer que fazer fazer picadinho de você. Acho melhor que suma da minha frente, agora. Antes que  cumpra a minha promessa, sem te dar o benefício da dúvida. Mas não esqueça, se elas se ferirem, mesmo que tente se esconder, vou me acertar contigo. – Os dois se encararam. E Flavio se foi. Alice estava pálida. Baixou o rosto e começou caminhar para dentro. Jorge segurou seu braço com cuidado:

__Espere. Porque não contou aos seus pais? Carlos teria…

__Contar o que?

__Como assim, Alice? Seu marido machuca você. Sei que seu pai não permitiria isso.

__Ele tem a vida dele. Já não é mais tão jovem. Eu sou adulta tenho que resolver meus problemas sozinha.

__Certo. Mas isso não inclui um marido violento.

__Ele não foi sempre assim, …

__Por favor Alice, não vai defende-lo, vai? – Suspirou. – Só me diga uma coisa, ele bate em Alana também? – Ela o olhou desconfiada. – Vamos Alice, ele bate nela? Se ele bate nela..

__Não! – Gritou.- Eu não deixo! – Ela começou a chorar. – Eu não deixo. Eu…não… deixo. – Jorge a abraçou. E Alice chorou todas as suas frustrações nos braços dele. – Por favor não conte ao meu pai, ele está idoso. E a saúde não está tão bem. Não quero  que ele fique preocupado comigo. E minha pobre mãe, nada poderia fazer para me ajudar. Ela tentou me alertar antes do meu casamento, mas eu não quis ouvi-la. Todos tentaram me avisar. Eu não escutei nem sua mãe, fui uma idiota. Agora não posso causar esse desgosto para meu querido pai. Meu paizinho tão amoroso, morreria de tristeza se soubesse que… – a voz sumiu. -Por favor, Jorge? – Ele não podia compactuar com isso, mas entendia seu dilema.

__Alice, não concordo com nada disso. Mas a vida é sua, realmente não posso obriga-la a se abrir para sua família, nem denunciar este covarde. Só posso me colocar a disposição para ir com você falar com seu pai e denunciar Flávio na delegacia. Espero que ele não machuque você novamente, mas se isso acontecer por favor, eu imploro que tome esta atitude para o seu bem, e até para o dele. Sempre fui seu amigo Alice e continuarei sendo. Não vou contar para ninguém o que vi aqui até que você queira. Repito, acho isso um erro, mas farei o que me pede por enquanto. Mas se ele bater em você, ou encostar um dedo em Alana, eu não respondo por mim. Sou um educador, não tenho a intenção de machucar ninguém, pelo contrário, mas  como já disse, se ele machucar a menina, nada será capaz de me segurar. Você entendeu Alice? – Ela olhou naqueles olhos azuis tão profundo, tão protetores. Se sentiu segura novamente, como a muito não se sentia. Jorge estava disposto a defender sua filhinha a todo custo. A emoção que sentiu foi maior que todas  que já sentido até aquele instante.

__Sim, eu entendi. – Sorriu para ele como já não se achava capaz de fazer a muito tempo. E disse surpreendendo até a si mesma. – Por que demorou tanto para voltar? Senti muito sua falta. Precisei muito do seu ombro para chorar. Precisei muito do seu bom humor para me fazer sorrir. Do seu abraço para me sentir forte e protegida. Onde você esteve? – Ele acariciou seu rosto e disse mais sincero do que esperava.

__Estava longe, lutando para sobreviver a uma ferida de morte. Uma ferida que julgava ter cicatrizado, até agora. _Neste momento a porta do fundo se abriu e  alguns bailarinos saíram para o estacionamento. Todos rindo e falando sobre a aula. Ao vê-lo as bailarinas já se adiantaram:

__Olá! – Disse a loirinha. – Sou Eduarda. Você é irmão da Professora Olivia, certo?

__Sim. Vim buscá-la. A aula já terminou?

__Sim. Ela já deve estar chegando. – Alice viu os olhares das moças, principalmente Eduarda. Achou que era sua deixa para sair.

__Bem, devo entrar. Foi bom vê-lo novamente Jorge. E por favor não esqueça o que me prometeu.

__Não se preocupe Alice, herdei um pouco da memória da mamãe.  – Sorriu. – Quero ver  é se você tem boa memória? _ Ela caminhou para a porta e topou com Olivia saindo.

__Seu irmão te espera.- Olharam para ele. – Rodeado de um secto de bailarinas. – As duas riram. E Olivia calmamente arrematou.

__Pena que a única bailarina que ele sempre quis, não está disponível para ele.- Disse sem tirar os olhos de seu irmão. – Uma pena realmente. – Olhou para uma Alice meio surpresa  e disse:  Até amanhã Alice. – Foi até Jorge, em seguida seguiram para o estacionamento de motos. Quando chegaram ao bar, Olivia disse:

__Então, o que está acontecendo com Alice?

__Como assim? – Fingiu inocência.

__Certo, ela anda sempre estressada. Pelo que soube, Alice não dança desde que a menina nasceu. Cheguei a quase um ano, ela nunca quis sair para conversar. Eramos amigas, ela só fala comigo de trabalho. Nunca aparece nas reuniões de família. E parece muito assustada todas vez que Flavio da as caras.

__Ele vem sempre?

__Não. Mas quando vem ela sempre sai  com ele. – Pensou. – Jorge se te disser uma coisa, jura que não vai matar o cara?

__O que? – Ela se refreou. – Vamos começou, termine logo. – Ela respirou fundo:

__Eu acho que Flávio bate em Alice. Um dia eu a vi tirar o lenço que sempre usa no pescoço e tinha uma mancha roxa muito estranha. Passei a prestar mais atenção, a alguns detalhes, ela só usa roupas que cubram os braços e as pernas. Nunca vai a praia ou a piscina. Os cabelos estão sempre bem presos, como para  evitar que alguém possa segura-los.  A menina não ouve e não fala, mas é muito inteligente, só que parece sempre assustada. Só se solta com Rody. Não sei… Alice é tão triste e sozinha agora. Nem parece aquela garota radiante de antes. É como se a luz que ela tinha fosse apagada. Falei tudo para a mamãe, ela acha que deveria contar para o Tio Carlos, mas eu não tive coragem. E se contar para Tio Beto, ele vai matar Flávio, mesmo antes de sabermos se é mesmo verdade.

__É verdade. Eu quase vi acontecer hoje no estacionamento. – Liv arregalou os olhos. – Não deixei ele tocar nela, mas se não tivesse chegado a tempo… -Suspirou – Ela não quer contar para ninguém, nem denunciar o desgraçado. Mas eu deixei ele bem avisado, se machuca-la de novo ele vai se arrepender. Ela me fez jurar, que não ia contar nada para ninguém.

__Mas você contou para mim.

__Mas você não conta. – Riu. – Somos geneticamente iguais.  É como se fossemos a mesma pessoa. – Riu outra vez.

__Eu não tenho essa montanha de músculos. – Riu também. – Senti tanto sua falta. -Acariciou seu braço. – Diga-me, o que sentiu quando viu Alice segunda passada?

__Não sei direto. Primeiro um leve palpitar, depois uma tristeza ao vê-la tão rígida,  no meio disso teve a alegria de ver toda família aparecendo  simultaneamente. Os sentimentos foram se misturando, e aí uma ternura imensa ao conhecer Alana. – Os olhos azuis dele viajaram. E enfureceram de repente. – Como aquele estrupício tem coragem de feri-las? Se ele tocar na menina eu vou mata-lo!

__Você se apaixonou pela pequena, não foi? – Disse sorrindo. – Terá de disputa-la com Rody. – Riu. Jorge também.

__E você se apaixonou por alguém na minha ausência?

__Não. – Suspirou.

__E o Sylvie? O francês educado, irmão do Colin é bem apanhado . – Riu.- Já foi conhecer o restaurante dele?

__Não, ainda não tive tempo. E você sabe que ele não me interessa assim.

__E não conheceu ninguém interessante na escola? Ou quando saiu com os Ruivos?

__Não. Acho que não existe ninguém para mim, afinal já nasci com minha alma gêmea.- Sorriu.

__Não seja boba. – Acariciou sua mão delicadamente. – O sem graça que vai te roubar de mim está por aí. Deve estar esperando eu me distrair, tenho certeza. – Riram juntos outra vez. E neste instante sentou-se ao lado de Jorge, Ben sorrindo para seu primo.

__Então, demorei? Onde está Carlinhos? Pensei que estivesse atrasado?- Era ótimo estarem juntos.

__Com certeza deve estar chegando. Quer beber alguma coisa?

__Sim.- Chamou o garçom. Foi servido e pediu a bebida de seu irmão.- Então sobre o que falavam?

__Eu estava perguntando a Liv, se ela se apaixonou por alguém na minha ausência. – Ben parou o copo a meio caminho da boca, olhando para ela de relance. Depois entornou devagar e disse:

__Ah, e qual foi a resposta? Temos um novo primo?

__Que primo?- Perguntou Carlinhos sentando-se ao lado de Liv. Beijou-a sorrindo.- Desculpe o atraso, docinho. Muitas crianças para cuidar, sabe como é.- Riu.- Quem é o primo em questão?

__O namorado de Liv. – Disse Ben levando o copo a boca novamente.

__Namorado? Não vi você com ninguém? Não sei se gosto desta história. Como assim você está namorando alguém que não conhecemos? Olha Liv, não quero me meter, você é linda, inteligente, nem sei porque ainda estava sozinha. Mas eu fico preocupado. Não gostaria que você se afastasse da gente, como Alice fez.

__Alice se afastou de vocês? -Jorge parecia não acreditar.- Mas ela sempre foi louca por vocês. Não acredito. Ela fazia de tudo para ficar junto com a gente, para passar todo o tempo livre com vocês?

__É verdade, Jorge.- Ben parecia muito preocupado, como se pressentisse algo. – Tia Alice mudou muito nos últimos anos. Aquele traste do marido dela separou ela da gente. Afastou ela até da Vovó Aline. O cara tem ciúme até da sombra. Não podemos negar que o intercâmbio no Canadá, justamente quando ela estava para ter Alana, também atrapalhou nossa convivência. Ainda bem que ela trabalha na escola de artes, assim podemos vê-la de vez em quando, e nos aproximar da fofura que é Alana.- Sorriu.

__Ela é linda mesmo.- Sorriu também.- Vocês falam em libras?

__Eu aprendi no meu curso.- Disse Carlinhos.- Faz parte da grade, mas ela ensinou Ben e os outros. É uma criança maravilhosa. Um pouco arisca no começo, mas depois é um doce. Também é muito inteligente, tem muitas habilidades, as professoras dela a elogiam todo tempo. – Riu.- Ela acha muito esquisito as pessoas me chamarem de Diretor Medeiros, diz que sou muito novo para isso. Também acha muito engraçado as pessoas chamarem Ben de Doutor.- Eles riram apaixonados pela priminha.

__Incrível o que uma decisão ruim pode fazer com a vida de uma pessoa, não é mesmo?- Disse Liv, parecia seu pai falando. Olhou seu irmão e seus primos.- Não precisam se preocupar comigo. Não estou namorando ninguém. Nem estou interessada em ninguém. E quando isso acontecer, se acontecer, tomarei cuidado para que seja alguém a altura dos homens que amo e que confio.  Se me envolver com alguém, faço questão que seja parecido com vocês. Vocês são trabalhadores diligentes, são verdadeiros, são carinhosos, alegres, apaixonados por crianças. A mulher que tiver a sorte de ter um de vocês, será imensamente feliz, como nossas mães são. Não aceitarei ser menos amada que elas.

__Sendo você minha irmãzinha linda, não tenho dúvida que vai conseguir.- Disse Jorge sorridente.

__Se ele não for como você merece, arrebento o desgraçado.- Disse Ben, muito sério.

__Só não vai conseguir um ruivo assim tão bonito.- Disse o Ruivo rindo.- Sabe esse tipo de genes não é muito comum. -Riu mais ainda, fazendo todos rirem com ele.

 

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