Lucélia

 

Capítulo 18

Terça tinha aulas vocacionais separada de Nina. Notou que Rick não estava nas suas aulas em comum, mas não queria vê-lo mesmo. Sabia que ele não viria dançar de manhã, só estranhou ele matar todas as aulas sendo tão CDF quanto ela. Ia virando o corredor quando ouviu Nina, Beto e Carlos conversando, Nina parecia chorar.

__E Rodolfo? – Disse Carlos. – Deve estar péssimo.

__Está destruído, acha que é tudo culpa dele que se tivesse feito as coisas diferente, nada disso estaria acontecendo. Não suporta vê-lo sofrer assim. Na verdade eu também não. Ele é tão gentil, tão bondoso eu não sei o que fazer.

__E se falássemos com Lia? Eu posso…

__Não. Ele me fez jurar que não falaria com ela. Rick sabe que não esconderia nada de você, mas não quer que contemos a Lia. Acha que ela tem o direito de rejeitá-lo. Talvez até ache que mereça tudo isso. Sabe como a cabeça dele funciona. E ela? Como está? Não deve estar sendo fácil para ela também. – Lia sentiu um carinho enorme por aquele loiro grandalhão agora. Ela acabara de ouvi-lo dizer que seu amado irmão estava sofrendo e ela era a razão, e mesmo assim ele estava preocupado com ela também.

__Não  é fácil para ninguém, mas ela tem as cartas. Sabe que se estalar os dedos ele vem correndo. O que papai? Não me olhe assim, é verdade. Lia é minha irmã de coração, eu a amo muito. Mas mesmo que não seja de proposito, ela tem o poder agora. Rick a ama desesperadamente. Vai fazer o que ela quiser.

__O pior é que vai mesmo. Ela quer que ele se afaste, é exatamente isso que …

__Oi Lucélia. – Disse Bruno, o redator do jornal da escola.

__Oi. – Respondeu sucinta.

__Estive procurando Rick, eu não o encontrei sabe onde posso acha-lo?

__Não falei com ele hoje, mas Beto está logo ali. – Caminhou com Bruno até o grupo.

__Oi gente! Beto, onde está o Rick, ele ficou de me trazer uma pesquisa? Eu não o vi por aí. – Disse olhando o topo da cabeça de Lia, era mesmo um bom repórter.

__Ele não veio hoje, mas mandou sua pesquisa. – Tirou um envelope de dentro do caderno. – Já ia te entregar.

__Ele não veio? Estranho, está doente? – Beto sorriu e respondeu calmamente.

__Não ele está ótimo, está trabalhando em um novo livro. -Bruno muito animado.

__É mesmo? Legal, posso publicar esse furo? – Beto refletiu:

__Bem, acho que pode sim.

__Legal vou rodar as prensas. Ah! Agradeça a ele pela pesquisa por favor, obrigado. – Saiu todo contente. Nina encostou em Beto.

__Rick não vai achar nenhuma graça nesta mentirinha. – Puxou de leve a orelha dele.

__O que queria que eu fizesse? – Riu. – Além do mais ele está sempre trabalhando em um  livro.

__Então, Rick não está escrevendo nenhum livro? – Lia perguntou sem nem perceber, assustando seus amigos.

__Oi pequenina, eu nem falei com você depois de tudo o que aconteceu. – Disse abraçando Lia. – Então, está melhor hoje? – Os olhos dela lacrimejaram. Ela sorriu para ele.

__Estou melhor, obrigada. Descobri muitas coisas esquisitas ontem, mas acho que a mais estranha foi saber que um homem deste tamanho tem medo de água. – Beto soltou uma gargalhada.

__Ai! É realmente muito bom saber que você, minha pequenina, não perdeu seu senso de humor. Estou muito orgulhoso de você, é mesmo muito corajosa.

__Sabe de uma coisa? – Disse Carlos. – Vou almoçar com vocês na cantina hoje. Assim fico perto das minhas duas filhas.

__Ah! Já tomou posse, não é? – Beto fez cara de mau e todos riram. Na cantina, tudo parecia quase normal, não fosse a falta gritante de um par de olhos azuis fantástico a observa-la.

Na biblioteca tudo correu como sempre. Chegou a noite em casa Nina a esperava com o jantar pronto jantaram e foram descansar. O sono custou a vir. Dançaram as duas novamente na manhã seguinte. Nina parecia mais inquieta que de costume. O dia foi exatamente como sempre, mas sem Rick outra vez. Ele não foi de novo a escola. Nem na quinta, nem sexta. Lia não estava conseguindo dormir, já era tarde teria que trabalhar bastante neste sábado tinha muitos livros em devolução.Sábado era sempre complicado, mas o sono não vinha. Levantou-se na intenção de ir para a cozinha. Ouviu Nina chorando, chegou perto da porta entreaberta. Ela falava no celular:

__Ele não quer nem dançar comigo, Beto. Nunca o vi assim.  – Chorava.-Isso tem que acabar. – Chorava mais.- Eu sei… Eu sei mas…Não. Não disse nada… Não sei. – Soluçou. – Não consigo  vê-lo assim tão sem vida… Quando partem? – Aquela pergunta… Quando partem? … Ele iria para longe, como seu pai fez quando perdeu sua mãe. Será que era por isso que Nina estava chorando.

__É melhor irem logo, não sei quanto tempo mais isso pode continuar. Esse sofrimento não é normal Beto. Nem para ele. Estou com medo. O que o médico disse? – Médico! Nina ficou escutando, depois não disse nada só chorou. Lia achou que não devia estar ali e saiu. Mas o pouco que ouviu levou seu sono embora de vez. Afinal, o que estava acontecendo? Precisava descobrir.

Sábado foi o inferno de sempre e ela estava exausta da noite mal dormida. Quando saiu da biblioteca, estava muito cansada, mas reparou no carro de Dona Elisa parado no outro lado da rua. A senhora a viu, saiu do carro, parecia nervosa, se dirigiu até ela.

__Oi princesinha, posso falar contigo um momento? Prometo não demorar, parece um pouco cansada. – Disse muito rápido. -Me escute eu imploro, estou desesperada, preciso que me ajude. – Os olhos dela derramaram muitas lágrimas em seguida. – Sei que está chateada, mas ….por favor, eu não sei mais o que fazer.

__O que houve, senhora? Está me assustando.

__Entre no carro, por favor, vou explicar tudo. – Fizeram isso  e Elisa começou. – Quando soube que estava grávida de gêmeos fiquei muito feliz. Sabia que seriam diferentes, os médicos me avisaram, e eu os amei ainda mais. Quando nasceram foi tudo perfeito, mas conforme cresciam, um deles foi ficando isolado, silencioso, fechado. Eu não sabia o que estava acontecendo, achei que fosse da personalidade dele, mais introvertido como o pai. Mas os anos foram passando e o isolamento foi aumentando. Levamos ele ao médico, mas não conseguiram um diagnóstico exato, até que aconteceu sua primeira crise, ele tinha 4 anos. Foi a primeira vez que quase o perdi. – Chorou. – Morávamos numa casa com um grande quintal e com duas piscinas , uma rasa de criança, para os meninos. Eles estavam brincando nela num domingo, estávamos todos perto deles, Beto escorregou, bateu a cabeça e se cortou, Rick gritou pelo pai e puxou o irmão para fora da água.Rodolfo chegou rápido, verificou Beto que estava ensanguentado chorando, mas não era nada sério. Quando nos viramos para Rick, ele estava trêmulo sem ar,depois ficou estático com os olhos desfocados.

__Catatônico! Ele é esquizofrênico? – Lia estava surpresa.

__Você é mesmo muito inteligente. O caso dele é raro. Os médicos demoraram para encontrar informações corretas para nos dar. Meu marido precisou estudar, pesquisar, viajar, para conseguir as respostas que precisávamos. Enquanto isso, meu doce menino sofria. Ele achava que não era igual aos outros, que era esquisito, que o mundo dele era diferente do dos outros, que ele nunca poderia viver com as outras pessoas. Todas as vezes que os meninos caçoavam dele, ele tinha uma crise. Fez todas as terapias, todas as aulas, todos os tratamentos e cursos possíveis, para ajudá-lo. Foi difícil.  Beto e Nina foram uma benção, amavam Rick sem restrições.  Mas as coisas só melhoraram quando ele começou a escrever. Graças a Deus ele herdou minha vocação,  isso o ajudou a se expressar. Com o tempo ele aprendeu a se controlar, a reconhecer os sintomas e contorná-los. As crises foram ficando mais raras, até que pararam. Mas sabemos que ele nunca estará totalmente livre desta doença. As vezes, alguma coisa pode disparar o gatilho novamente e…

__Ele teve uma crise! Eu vi acontecer, eu só não sabia que… ai meu Deus! Ele voltou sozinho de carro, ele está bem? – O pavor tomou conta de Lia. – Está ferido?

__Está muito ferido, mas não como pensa. Voltou para casa com cuidado na segunda. A crise alcançou seu ápice em casa, imagino que ele tentou controlá-la até que estivesse lá. O cérebro dele é muito veloz, mas seu coração sofre sem freio. E quando vocês se desentenderam, ele tentou encontrar o caminho para se estabilizar, mas não teve como segurar por muito tempo. O que sente por você é muito intenso e poderoso. Ele não tem forças para ficar longe de você. Acontece que foi isso que você pediu a ele. Então é isso que ele tem feito. Mas…tem sofrido terrivelmente… ele não pode suportar mais. Pediu ao pai que o tire daqui. Rodolfo tem tentado esperar para que você se acalme e perceba que ele não agiu por mau. Mas ele não vai aguentar, nem eu.- Chorou. – Desculpe incomoda-la, mas…

__Ele está em casa? Eu posso vê-lo? – Elisa chorou ainda mais.

__Obrigada. Sabia que ia me entender. Olha, se realmente acha   que não devem ficar juntos, não está obrigada a isso, eu só peço que deixe ele ficar perto de você, ser seu amigo. É um bom menino um amigo fiel. A vida me ensinou que amigos verdadeiros não tem preço.

__Não se preocupe Dona Elisa. Podemos ir agora? – Ligou o carro e saiu, levando consigo a esperança de alívio para seu menino, seu pequeno príncipe. Chegando no apartamento, tudo estava silencioso. No corredor parado com a cabeça encostada na porta do quarto de Rick, estava um Rodolfo devastado. Toda a culpa do mundo pressionando seus ombros. Lia sentiu pena dele, sofria mais que o filho com certeza.Quando ele as viu, seu olhar astuto de falcão, passou rápido de uma para a outra e parou em Lia. Caminhou até ela e falou baixo, sofrido.

__Jamais poderei agradecer o suficiente por vir. – Desviou o olhar dizendo. – Será que algum dia poderá me perdoar por não ter cuidado dela quando pude? – Notou os olhos azuis cheios de lágrimas de remorso. – Se não puder entendo, também não consigo. Meu coração doe todo dia por não ter tentado impedir o sofrimento dela. Principalmente depois que soube de você, meu anjo. Mas poderia, quem sabe, por favor, me permitir cuidar de você, para diminuir essa ferida dentro do meu peito que nunca vai sarar? Se tivesse me casado com Olivia, você seria minha filha. Deixa eu cuidar de você assim. Por favor? Por favor? – Olhou nos olhos dele, era tão carinhoso quanto Beto, só não demonstrava sempre. Era tão gentil quanto Rick e sofria do  mesmo jeito. Deu mais um passo chegando bem perto dele.

__Provavelmente,  Professor Carlos não vai gostar muito disso. – Sorriu para ele. – Ele disse que não vai ceder nenhuma de suas meninas para o senhor. Mas talvez possam dividir. – Rodolfo a fechou em seus braços dizendo:

__Obrigado minha linda menininha. Você me encantou desde a primeira vez que te vi com aquelas maria-chiquinhas vermelhas. E não se preocupe com Carlos, dou um jeito nele. – E sorriu, enquanto Elisa só chorava em silêncio.

__Concordo, mas tenho uma condição, terá que me ensinar a lidar com essas crises do Rick. Para que possa ajudá-lo se acontecer outra vez. – Rodolfo a apertou em seus braços e chorou.

__Deus é mesmo muito bom para mim, mesmo não merecendo, primeiro me deu a esposa mais compreensiva do mundo, depois me deu os filhos mais carinhosos . E agora me trouxe você. Um anjo para me salvar do meu desespero. Você é mesmo muito especial, minha pequena princesa. Concorda Elisa?

__Sim, ela é mesmo incrível. Por isso meu príncipe está tão apaixonado.

__Ele está no quarto? Posso entrar? – Perguntou ainda nos braços de Rodolfo.

__Pode meu anjo, ele está esperando.

__Por mim? – Perguntou incerta.

__Por um milagre que o tire de sua dor. Ele aprendeu a lidar com ela, a respirar quando a crise vem, mas seu corpo inteiro doe. O cérebro trabalha rápido de mais tentando libertá-lo, mas não encontra uma saída. E as vezes trava. Quando volta, ele tem um tempo lento de recuperação.  Foi uma crise muito forte e está demorando muito a melhorar. Ele tem estado sentado na janela sem animo, esperando.

__O que posso fazer para ajudá-lo? – Rodolfo sorriu grato.

__Já fez. Entre. – Ela entrou devagar, o quarto claro, tudo muito arrumado, inclusive uma estante que tomava toda uma parede repleta de livros. A cama escura simples e elegante, coberta com lenções e colcha branca. Sua escrivaninha também escura, impecável. Uma parede tomada por  um mural de cortiça cheio de fotos, convites prêmios, diplomas, reportagens, avisos e outras coisas. Tudo numa ordem invejável. Como Rodolfo disse, ele estava sentado no nicho da janela abraçando as pernas. Vestia uma camiseta azul  e um moletom cinza, estava descalço. Olhando para o parque muito quieto, muito isolado, muito triste. Ela caminhou até ele com o coração apertado. Como estava desde que viu Elisa no carro do outro lado da rua. Como não percebeu que aquela reação dele a tudo que tinha acontecido, era diferente do normal. Tinha visto aquele mesmo olhar antes. Como pode esquecer? Talvez porque estava tão brava com ele. Porque mesmo estava tão brava com ele? Por encontrar sua história? Por não lhe falar nada? Por não mostrar sua mãe dançando como havia prometido? Tudo parecia tão idiota agora. Queria ver sua mãe, mas será que era motivo para tudo isso? Chegou bem perto , a respiração dele mudou, mas ele não se virou. Rick fechou os olhos devagar.

__Desculpe.  – Disse ele. -Pedi que não te chamassem, mas devia ter imaginado que acabariam fazendo isso. – Respirou fundo ainda com os olhos fechados. – Devia ter lhe contado antes da minha doença. Tudo aconteceu muito rápido. Já fazia muito tempo que não tinha uma crise, tinha a ilusão que elas não voltassem mais. – Abriu os olhos, mas não virou para ela. –  Desculpe, não deviam ter assustado você. Estou melhor, juro. Não precisa se preocupar. Não foi culpa sua, eu fiquei muito nervoso e isso quase sempre acaba assim.  – Foi virando devagar, soltando as pernas e se apoiando no assento, como se estivesse reunindo forças para enfrentar uma batalha. Olhou para ela com seus magníficos olhos azul cobalto. O cabelo estava um pouco despenteado, e a barba por fazer marcava o maxilar perfeito e a boca bem desenhada. Era tão lindo. Lia se perdeu no cheiro de limpeza e sândalo que exalava dele. Por que tinha brigado com ele mesmo? Por que jogou este homem tão gentil, para fora de sua vida? Este mesmo homem que apesar de estar sofrendo, estava tentando poupá-la? Parece que sempre seria assim, tudo o que era realmente bom em sua vida, ela acabava perdendo. Antes culpava a circunstancias, depois esse avô cruel, agora culpava a si. Não podia dizer que Rick  não tentou falar, se explicar, ajeitar as coisas, mas ela havia estragado tudo. Não ouviu aquele apelo tão sincero dele. Ainda condenou o rapaz. Como os outros sempre faziam com ela. Ele firmou os olhos para olha-lá:

__Lia, você está bem? -Ela parecia tremer. Ele percorreu o corpo dela com os olhos verificando se estava tudo bem, preocupado com aquele silêncio prolongado dela. Usava uma saia rodada preta com bolinhas brancas, uma camisa branca sem mangas, com gola de alfaiataria e botões na frente. O primeiro botão estava aberto, e podia ver a gargantilha que lhe deu. Nos cabelos cheios de cachos negros, tinha uma tiara delicada de pérolas de bijuteria . E nos pés, sapatos vermelhos, ela estava mesmo querendo matá-lo. Já estava louco para beijá-la. Quando sentiu seu perfume no quarto, pensou que estava enlouquecendo de vez, mas então sentiu seu calor se aproximando dele. Seu pai, ou Beto deviam tê-la trazido. Não, eles haviam prometido, não quebrariam uma promessa. A não ser que fosse…Sim sua mãe, Dona Elisa com certeza há tinha trazido. Deve ter dito que ele estava morrendo por causa dela. Lia deve ter acreditado e veio ajudá-lo. Claro que viria, é bondosa, mesmo que não o quisesse mais não queria que ficasse sofrendo. Fez um esforço imenso para não agarrá-la assim que a viu. Mas agora ela parecia…longe. _ Lia. – Repetiu, nada. – Lucélia! – Ela piscou algumas vezes.

__Desculpe._ Disse. – É que… Droga! Isso  sempre acontece. Me perco em meus pensamentos de vez em… quando… – Olhou para ele – Quase sempre. Desculpe. Você se sente melhor então? – Perguntou decidida. E Rick um pouco incerto do que aconteceria a seguir confirmou com a cabeça devagar. – Ótimo, acha que pode me ajudar a resolver um problema então? Estou aqui por que preciso muito, muito de sua ajuda.  Me disseram que você não estava muito bem, não queria incomoda-lo, mas ninguém mais pode me ajudar.- Ele abriu mais os olhos, pensou que ela estava ali para ajudá-lo. Deus o que teria acontecido? Esteve longe quase uma semana! Seus instintos protetores dispararam. Levantou-se rapidamente de janela.

__O que aconteceu? – Olhou fundo nos olhos dela, estava preocupado, a voz tranquila  e firme de sempre. Os olhos de Lia marejaram, entendeu o que Sr Rodolfo queria dizer.
Rick agia sempre por amor, por isso Beto e Nina conseguiam tirá-lo da letargia, ele os amava. O mesmo acontecia com seu pai e sua mãe. E agora com ela. Mesmo que seu corpo doesse e seu cérebro estivesse confuso, seu amor o movia a ação. Seu coração era frágil, mas muito valente. Por isso sua mãe o chamava de príncipe. Ele era valente. Agora tudo se encaixava, Beto tinha medo de água, não por que caiu quando criança, mas porque quase perdeu o irmão por causa de sua queda na piscina aquele dia. Nina chorava não por que Rick não queria dançar com ela, mas porque isso significava que ele não estava conseguindo vencer sua batalha interna, e ela não conhecia outra forma de ajudá-lo. Seu pai e sua mãe sabiam que tinham que esperar, confiavam que ele valentemente venceria sua doença, mas era muito doloroso vê-lo sofrer. Sabiam que o único jeito capaz de apressar sua reação, era ela. Porque ele a amava, e lutaria pela felicidade dela, mesmo que isso significasse sua própria dor. Lia começou a chorar.

__Posso tocar você? – Ela disse soluçando.

__Ai meu Deus! – Tomou-a nos braços. – O que houve, meu amor, me diz? – Ela chorou ainda mais.- Rick sentou-se de novo na janela com ela em seu colo. Ajeitou-a com cuidado._ Vamos meu amor me diz o que aconteceu, por favor? – O retumbar do coração dele em seus ouvidos, aquela voz tranquila, apaixonada, como pode ser tão idiota e descartá-lo assim. Chorou mais forte. Ele começou acariciar suas costas, seu cabelo. – Fale, minha princesa, por favor? Está me assustando. – Sussurrou.

__Aconteceu de novo. -Soluçou.

__O que, meu amor? – Disse baixo em seu ouvido.

__Perdi. – Virou- se em seu colo para que pudessem se olhar. – Isso sempre me acontece, sempre que penso que uma coisa é totalmente certa, eu a perco. Antes achava que eram coisas da vida, ou da minha falta de sorte, ou dos imprevistos, depois que soube do passado de minha família, achei que meu avô era o culpado de tudo de errado que me acontecia. Mas aí… – olhou para ele e as lágrimas se intensificaram, – Descobri que eu sou a culpada de toda minha desventura afinal.

__Do que está falando amor? Aquelas desocupadas te fizeram mais alguma coisa? Algum problema com a faculdade, não foi aceita onde queria? Prestou algum concurso ou algo assim? – Ela balançou a cabeça. – Foi demitida é isso? Olha, conheço o diretor da biblioteca, falarei com ele?

__Não é nada disso. – Firmou um pouco os olhos sorrindo.- Embora seria interessante ver a cara do diretor se intercedesse por mim. Imagine, o escritor famoso defendendo a estagiária da biblioteca. – Os dois riram, e aquele som tão íntimo a tocou de novo. – Foi isso que perdi. Não soube compreender e perdi. – Baixou os olhos, e mordeu o lábio inferior.  Ele suspirou:

__Desculpe amor, mas acho que esta última crise realmente deve ter sido mais forte do que imaginava. Não faço ideia do que está falando. – Passou a mão no rosto dela com carinho, enxugando as lágrimas que caiam. – Terá que me dizer o que posso fazer para ajudá-la? – Ela sorriu ainda com a cabeça baixa,  ergueu os olhos, mergulhou no azul dos olhos dele e disse:
__Volte para mim, meu príncipe. Por favor? – O segundo seguinte passou muito lentamente. Lia pode ver todas as emoções passarem por aqueles lindos olhos. Surpresa, desconfiança, medo, esperança, amor, muito amor e enfim felicidade.

__Nunca deixei você, meu amor. Só me afastei como me pediu.

__Poderia então desconsiderar o meu pedido tolo e substituí-lo por um novo?

__Qual? – Sussurrou.

__Pode por favor, por favor, por favor… – Respirou. – Por favor, pode me beijar agora? – No mesmo instante sentiu os lábios  dele. O mesmo sabor, o mesmo calor, a mesma urgência. O mesmo toque, o mesmo carinho, o mesmo amor. A única diferença era que nunca mais deixaria esse privilégio escapar. O cheiro marcante dele nunca mais a deixaria .O beijo não queria ter fim, tanta saudade. Tanta dor. Tudo sarando a cada toque. Um bálsamo para os apaixonados. Rick mau podia acreditar que era mesmo real. Tinha estado sagrando por todos aqueles dias, certo de que nunca mais a sentiria em seus braços. Que nunca mais conseguiria respirar direito outra vez. Resignado com a dor que carregaria para sempre, implorando a Deus que cuidasse dela, que a protegesse para ele. Juntando forças para ir para longe dela.  Num instante, ver aquele desespero que rasgava seu peito sem trégua, ser tragado num único gesto. Como sentira falta de beijá-la. De tê-la  assim. De sentir seu cheiro, seu calor.

__Desculpe. – Disse ela. – Fiz você sofrer sem um motivo real. Estava brava com meu avô e com toda aquela história horrível. Acabei descontando em você. Sei que não fez por mau. Normalmente, não sou tão cruel com as pessoas, sabe? Mas acho que talvez tenha uma pontinha do sangue ruim do meu avó. Por favor, me perdoe, prometo não fazer mais isso. – Se ajeitou em seus braços encostando a cabeça em seu peito. – Amo ouvir seu coração, é tão… bom. Não poderia sobreviver se não pudesse ouvi-lo mais. Acredite, estou muito arrependida de ter brigado com você. Por favor me deixe ouvi-lo sempre. Não suportaria saber que está tão longe de mim que não poderia correr para você e ficar assim ouvindo seu coração. Eu preciso muito disso. Eu preciso de você para ser feliz. Eu amo você. Muito. Acredite por favor.

__ É tão bom ouvir isso. Ah, minha linda!Pensei que fosse enlouquecer. – Contornou o rosto dela com o indicador suavemente. Era tão linda. – A dor não diminuía. Eu precisava te ver, mas você disse para não ir.  – Suspirou, sabia que não podia prende-la ao seu lado. -Sabe que minha doença, nunca vai sarar totalmente, não sabe? Talvez tenha outras crises e…

__Minha mãe era esquizofrênica. _ Ela disse simples como sempre.

__Como? – Disse surpreso.

__Ela sempre foi eu acho. Não tinha nada sobre isso em suas pesquisas?

__Não. Os prontuários falavam de desgaste mental, esgotamento físico, mas nunca usou nenhum dos termos para esquizofrenia. – Respondeu ainda tonto.

__ Seja como for, depois que meu pai morreu ela piorou muito. Precisava de medicação regular.Tinha episódios  catatônicos frequentes e longos. Eu era muito pequena, mas precisei aprender a lidar com ela. Você toma alguma medicação? – Perguntou calma e suave.

__Não. – Respondeu num sopro. – A muito tempo não preciso.

__Mas sua última crise foi bem forte, você mesmo disse, talvez precise… – Ele a beijou rindo.

__ Minha medicação chegou a alguns minutos, e beija muito bem obrigado. – E riu, ela também, mas depois fez cara de brava e ;

__Tudo bem, por hora. Mas se for necessário…

__Tomarei todos os cuidados que o médico mandar, qualquer coisa para ficar muitos e muitos anos com você assim no meu colo ouvindo meu coração que bate por você e para você. Nunca pensei que pudesse amar tanto assim, mas amo você intensamente. Desculpe não ter te dado os detalhes do que estava pesquisando sobre sua mãe. Queria proteger você. Tudo o que descobria era tão triste, tão cruel. Precisava ter certeza antes de te falar. Pode me perdoar por isso? Não farei mais. Normalmente  – Disse imitando Lia, que beliscou de leve sua barriga. – Não sou tão idiota assim, sabe. – Sorriu, depois voltou a ficar muito sério. -Não consigo ficar longe de você, meu amor. Não posso te perder. Minha vida.  Minha princesa Lucélia.Vinha tentando encontrar uma maneira de me manter longe, mas não tinha como fazer isso por mais tempo. Não tinha como suportar essa agonia. Nem com todas as drogas do mundo.

__Não vai precisar delas, estarei sempre aqui. Prometo. Também não poderia suportar ficar longe de você. Mesmo que quisesse, e não quero. Na verdade nunca quis realmente.- Ele sabia que era verdade, olhou em seus olhos, beijou a ponta do seu nariz completamente apaixonado e disse:

__Tenho uma coisa para lhe mostrar. – Levantou-se, deixou-a sentada em sua cama,   foi até sua estante, pegou um pen drive que estava numa caixinha ao lado da estatueta que ela tinha lhe dado e colocou  no notebook. Trouxe para ela. Uma linda bailarina apareceu na tela e começou a dançar no palco do municipal. – Quase tão linda quanto você. Tinha gravado para lhe entregar, mas não tive chance antes. – Ela olhou para a tela fascinada, sua mãe linda, dançando como uma pluma. Lia sorriu. Rick sentou-se atrás dela, ela aconchegou-se nele, ambos assistindo Olivia dançar.

__Ela era linda, Rick!

__Você tem a quem puxar.

__Eu amo você, Ricardo.

__Eu amo você, Lucélia.

__Só esclarecendo bem, você continua sendo meu namorado, certo?

__Por toda a minha vida. Sou um falcão, te amarei para sempre. E você, continua sendo minha namorada?

__Por toda a minha vida.

__Combinado então.

__Promete não me esconder mais nada, nunca mais?

__Prometo. Com exceção de presentes e festa surpresa.- Riu.- Você também, ok? Principalmente se eu fizer algo que não goste. Vai dizer o que aborreceu você, mas não vai mais me deixar.- Apertou-a contra seu peito.- Jura?

__Sim.- Pensou.- Rick, o médico veio  ver você?

__Sim. Disse que eu devia procurar você, tentar me explicar.- Riu- E me deu um calmante natural para dormir.

__O que mais você descobriu sobre meu avô?- Rick poderia estranhar a mudança de assunto, mas entendeu que ela quis se assegurar que estava tudo bem antes de perguntar.

__Ele era violento com a esposa também, por isso ela passava a maior parte do tempo na casa da chácara que você herdou. Mas ela era muito boa e inteligente. Tinha vocação para muitas coisas, pena que era muito infeliz. Ela era filha única, e o velho Martino, usou o dinheiro da família dela para fazer fortuna. Foi um casamento por acordo comercial. Sua avó não teve escolha. Ele enganou o pai dela para conseguir este acordo. Em outras palavras, o dinheiro era dela. Verdade que ele aumentou esse patrimônio, mas a herança era dela, ou seja de sua mãe e da mãe de Nina. Ela e sua tia Clara morreram do mesmo tipo de câncer. Mas sua mãe nunca apresentou propensão para a doença. O sonho de sua mãe quando menina, era ter uma escola de dança. Ela queria ensinar crianças a dançar. Martino nunca concordou, é claro. Queria casa-la com alguém rico. No prontuário do hospital, dizia que sua mãe tinha caído na escada, mas os ferimentos não correspondiam. Os médicos apontaram hematomas no rosto, no abdômen, nas costas, nas mãos, um braço quebrado e uma costela quebrada, e a perda do bebê. Para qualquer detetive raso, ficaria fácil entender que ela tentou proteger a barriga. Era um menino. Tinha quase 5 meses de gestação. Sua mãe o chamou de Rodolfo. Meu pai já sabia. Ele disse que Clara  lhe contou isso antes de morrer. Segundo Clara, sua mãe sentia muita saudade de seu grande amigo. E se culpava por te-lo feito sofrer. Ela disse para Clara procura-lo, quando fosse maior de idade, acreditava que neste tempo, a dor dele já teria passado, e ele protegeria Clara do pai delas.  Meu pai tinha contado para sua tia que viu uma menininha no carro. Ele disse que sua tia chorou, porque queria muito que você e Nina fossem tão amigas como ela e a irmã eram.-Lia chorou.

__Obrigado, amor.- Disse ela virando-se para abraça-lo.- Se não fosse você eu jamais saberia tudo isso. Ah Rick, fui tão injusta com você e eu te amo tanto. Fiquei todos esses dias tentando me convencer do contrário, tentando achar que posso ficar sem você, mas o tempo todo a falta desses olhos tão lindos me perseguia. Eu … sou tão boba…Por que agi assim?

__Ei! Pensei que já tínhamos feito as pazes.- Beijou seu rosto.- Amor, eu entendi. você ficou chocada com tudo. E eu fiquei desnorteado por te perder. Eu também poderia ter insistido mais, ter tentado explicar no dia seguinte. Mas eu me perdi. Isso não vai mais acontecer.  Agora já sabemos o que acontece quando nos separamos.

__Ficamos sem equilíbrio, sem rumo.- Ela disse acariciando o rosto dele.- Nunca mais vamos nos perder. Certo?

__Nunca mais. Não vou permitir. Não sobreviveria.__Rick sorriu.

__Nem eu. Vivi muito tempo sem ninguém, deveria ser fácil para mim me adaptar outra vez. Mas não posso mais ficar sem você, meu príncipe.- Ele beijou o ponta do nariz dela dizendo.

__Se é assim, precisa me dizer onde vou fazer faculdade, para que possa me inscrever a tempo. – Sorriu.- Também tem que me dizer onde vou morar depois da faculdade, e quais serão os nomes dos meus filhos. Ah! E se enjoa no avião. Eu viajo muito, por causa dos livros. E qual carro quer dirigir?

__Eu não dirijo?

__Mas vai aprender?- Olhou para ela.- Não quer aprender?- Ela balançou a cabeça negando com os olhos tristes.

__Eu era pequena, mas minha memória….

__Você se lembra?- Disse espantado. Ela olhou sem foco e disse;

__Não de tudo. Tenho uns fleches. O cheiro de café na cantina. Eles rindo. O carro balançando ao passar na lombada. O vento entrando pela janela do carro. Um choque muito forte. O teto do carro era bege e tinha uns furinhos no revestimento, estava encostado em mim. Um barulho muito alto. Um homem de capacete dourado gritando. Olhei o carro, estava todo amassado na frente, principalmente do lado do papai. Muita gente estranha gritando, eu fiquei com muito medo.- Olhou Rick, deu um meio sorriso.- Se importa se não quiser aprender a dirigir?- Ele tomou o rosto dela com as mãos.

__Só me importo que me queira. Você me quer?

__Sempre.

__Então dirijo para você, e se quiser contrato um motorista, ou andamos de ônibus, de bicicleta, a pé tanto faz. Desde  que andemos juntos. Sempre. Certo?- Lia olhou a tela do notebook, sua mãe ainda dançava lindamente. Sorriu.

__ Foi bom vê-la, mamãe. Estava com saudade. Não ficarei mais triste, agora entendo você. Também amo como você amou. Mas eu serei muito feliz, encontrei meu príncipe de verdade.- Tocou a tela.- Descanse em paz mamãe.- Fechou a tela.- Pode guardar para mim?  Quero mostrar para nossos filhos como a avó delas dançava bem. Quantos filhos você gostaria de ter?- Ele sorriu.

__ Todos os que Deus nos mandar. Com você, aceito qualquer coisa que a vida me der. Com…você, minha princesa.

 

 

 

 

FIM

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